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2.3.06

Entrevista: Hurtmold

A entrevista abaixo foi feita pelo colega Mário Cascardo, autor do blog Micronicas, para o sobremusica. Já estávamos querendo abrir espaço para os amigos escreverem suas experiências musicais aqui no site há algum tempo. Timidez, falta de vergonha na cara (ou de tempo), de alguns foram adiando este momento. Até que, um dia, o Mário me manda um e-mail perguntando se o sobremusica tinha interesse numa entrevista que ele fez com o Hurtmold (!!!). Entrevistar o grupo paulistano era um desejo antigo do sobremusica!!! Não havia mais como adiar. Ainda bem!

Esta é a primeira, e com certeza não será a última, que contaremos com outros colaboradores neste site. A 'experiência musical' de Mário, que deu origem a este texto, foi vivida no dia 15 de janeiro, em Botafogo. Trata-se de uma conversa de calçada com uma das bandas mais respeitadas e admiradas do país. Vê aí.. Peço desculpas pelo atraso, mas os assuntos foram se atropelando uns nos outros...

...domingo, óculos, açougue, hurtmold...
(por Mário Cascardo)

fotos: divulgação/Google images“É que quando a gente toca sai esse som”.

É com humilde sinceridade que Guilherme Granado, poli-instrumentista do Hurtmold, define o som da banda, já aclamada como sendo “de vanguarda” no cenário rock nacional: “comum, sem segredos”. Na terceira vinda dos paulistanos da Zona Oeste ao Rio (a primeira ao extinto Casarão Amarelo, em Copacabana; a segunda ao Teatro Odisséia, na Lapa), o sexteto abriu o show dos Los Hermanos, no Canecão, no dia 14 de janeiro, para no dia seguinte fazer um pocket-show na AUDIO REBEL, misto de casa de shows, estúdio de ensaios e loja de cds alternativos em Botafogo.

Longe do barulho da casa cheia (90 pessoas), na calçada da Rua Visconde Silva, Guilherme Granado (vocais, teclados) e Marcos Gerez (baixo) deram esta entrevista, sobre passado (origens, influência), presente (shows, música) e futuro (gravações, música) da banda.

sm: Vocês tocam o quê? Quais instrumentos? Todos!
Granado: Eu toco vibrafone, teclado, bateria eletrônica...
Gerez: E eu toco baixo.
Granado:... e algumas coisas de percussão de mão.


sm: Algum de vocês é músico? Tem alguma formação musical mais “formal”?
Gerez: O Mauricio (Takara, baterista), só.
Granado: Também não muita. Na verdade todo mundo é punk... Os moleques gostavam de escutar música e resolveram tocar. E alguns fizeram aula depois pra acertar, pra ter algum complemento. Mas basicamente todo mundo é autodidata. Acho que o Fê(rnando Cappi), o guitarrista, e o Mauricio tem mais noção de teoria musical. Mas a nossa formação, a de todo mundo, é punk.


sm:Todos estão desde a primeira formação?
Granado: Sim, só o Roger (Rogério Martins) entrou depois. É o clarinete e percussão. Mas o resto da banda, desde o começo.
Gerez: É, desde sempre. Nunca saiu ninguém, nunca trocou ninguém, só acrescentou.

sm: O Mestro, último cd que vocês lançaram, tem algo especial? É um trabalho preferido?
Gerez: Sempre o último é o preferido. É mais a evolução mesmo da gente como pessoa, como músico, como tudo, sabe.
Granado: Eu acho que todos são diferentes entre si por causa disso, por causa do tempo. Conta muito o tempo que você tá vivendo. Só que ao mesmo tempo é a mesma banda, sempre. Então as pessoas traçam muita diferença entre o primeiro disco e o último. Na verdade a banda é a mesma, a gente só tá vivendo outra época e outras relações, entre a gente mesmo.


sm: A banda existe desde quando?
Granado e Gérez: Noventa e oito.
Gerez – Quase dez anos já, hein?
Granado – Não, calma. (risos)

sm: Vocês tinham quantos anos quando começaram?
Granado: Era moleque, tinha dezoito.
Gerez: Eu era menor de idade ainda.
Granado: Eu tinha dezoito pra dezenove anos.

sm: A banda já era instrumental? Vocês chegaram a tocar algum cover?
Granado: Não, tocar cover mesmo, não. Essa coisa de primeiro ensaio... Eu lembro que a gente combinou uma música pra tocar, só pra cada um tirar em casa e a gente começar tocando alguma coisa, e a gente já começou a compor logo de cara. E não tem muito essa de era instrumental ou é instrumental, pode ter voz qualquer hora, já teve, e depende do que a música pede mesmo.

sm: Há influências que gostem de citar? Alguma coisa que inspirava vocês a tocar?
Granado: Muita coisa e cada vez mais. Não só música. Música, comida, tevê, futebol...
Gerez: ...tudo...
Granado: ... amigo, pai mãe, sabe, é muita coisa. É difícil falar de nomes, assim. Uma, porque são muitas pessoas na banda, e outra, porque é muita gente que influencia, influenciou, e deixou de influenciar, e vai continuar influenciando. É muita gente pra citar o nome de um ou outro. Eu acho que é... talvez filosófico, sei lá. Talvez Coltrane e Fugazi. E o Chico Buarque, sei lá. Nem tanto musical, mas eu acho que... filosófico.

(chega Mário Cappi, guitarrista)
Granado: Esse é o Marinho, chega aqui, continua com a gente.

sm: Sou Mario também.
Mário Cappi: Oopa, chara! É nóis.

sm: Falando em nome, por quê esse nome (para a banda)?
Mário Cappi: Ah, cara, porque a gente fez uma lista ...
Granado: Você fez.
Mário Cappi: Eu fiz uma lista de muitos nomes, aí saíram duas palavras separadas, que a gente juntou e achou que era legal. Depois de uns anos gente achou que não era legal.. mas acabou continuando. Não tem um significado especial e nem significa nada pra gente. É só um nome, assim.
Granado: É mais isso: acaba sendo que nem o seu nome. Você não gosta tanto assim do seu nome, mas já é o seu nome, cê não se imagina com outro, né. É meio isso.
Mário Cappi: Hoje a banda podia se chamar óculos, sei lá, açougue, ou qualquer coisa..
Granado: É, o bom desse nome é que não quer dizer nada, então ele não traça uma referência direta a alguma coisa. Por esse lado eu acho bom. É ruim de pronunciar. Toda vez que alguém pergunta o nome da nossa banda, e a gente responde, fala Ãhn?!?, você tem que repetir, então...


sm: Não teve nenhuma pretensão de, de repente, fazer o nome em inglês pra lançar lá fora?
Granado – Não! Não, não.
Gerez: Não, nada disso.
Granado: Em português seria muito complicado fazer isso, você juntar duas palavras numa palavra só e não dizer nada.


sm: Vocês tocaram fora, tocaram na Europa... Como foi?
Granado: Muito bom.
Mário Cappi: Foi meio inacreditável.
Granado: O primeiro show que a gente fez era um festival bem tradicional na Espanha, que se chama Sónar, de música de vanguarda, música eletrônica e... Vanguarda é uma palavra meio estranha.
Gerez: É, mas era meio isso. Era tipo música moderna, de certa forma de vanguarda.
Granado: Não só alternativo, tocou também Chemical Brothers, sabe, De la Soul M.I.A. É um festival muito tradicional lá, muito legal. Sempre tem coisa boa, e foi o show que nos convidou para irmos lá. E aí, depois, a gente fez uns shows menores também, show de turnê, igual a esse show aqui assim, sabe... Show pequeno, você não sabe o que vai dar, ‘vamo tocar!”, quantas pessoas vai ter, não sabe se vai ganhar dinheiro...

sm: E abrir para o Los Hermanos ontem (14/jan/2006, no Canecão), como é que foi?
Granado: Muito bom, cara. Muito melhor do que a gente esperava, no sentido da reação assim do público. O tratamento que a gente ia ter da equipe deles, tudo, eu já esperava que seria super legal. Mas tipo, a recepção das pessoas foi impressionante. A gente já se conhecia. Tocamos com eles no Musikaos, e sempre que um ou outro deles está em São Paulo, principalmente o Rodrigo (Amarante), ele sempre vai em show nosso. Então a gente se conhece nesse tipo de contato. E o Rodrigo é muito amigo do Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que é amigão nosso também, então acaba tendo essa conexão. A gente se conhece desse jeito, a gente sabe que eles gostam muito, falam sempre bem da gente.

sm: O show de ontem foi curto também?
Gerez: Mas a gente geralmente não faz show grande, a gente fez um show de uma hora, que é um show extenso para a gente.
Mário Cappi: E a gente até teria tocado mais se não tivesse dado problema técnico e se o calor não estivesse tão forte ali dentro.
Granado: Mas o maior problema foi que a guitarra do Fernando tava dando choque nele. Então não tinha como ele tocar, assim. Aí foi foda, sabe. A gente ainda continuou a música que a gente terminou, mas não tinha mais como a gente tocar.

sm: Vocês já tinham tocado no Rio, né. Já tinham tocado no Odisséia...
Gerez: Tocamos no Odisséia, tocamos no Casarão Amarelo há um tempo atrás, em Copacabana.
Granado: Com o Noção de Nada e o Leela.



sm: Vocês são de onde lá em São Paulo?
Granado: Somos Zona Oeste, todo mundo. Lapa, Pinheiros, Pinheiros, Vila Madalena. A banda é de Pinheiros, né, porque a gente sempre se reuniu lá, ensaia lá.
Mário Cappi: Tem o Rogério que é da Zona Sul. Eu e meu irmão (Fernando Cappi, guitarra), a gente morava na Zona Leste, mas agora mudou na Zona Oeste.


sm: Mais clichê: como é levar uma banda alternativa no Brasil, onde é difícil você viver de música até quando é famoso e tal? Vocês sentem essa dificuldade, já sentiram vontade de mudar de “ramo”?
Gerez: Mudar de ramo não, mas...
Granado: É, isso aí a gente nem conseguiria, não. Sobreviver da banda, ninguém vive da banda, relacionadas à música ou não. Mas a gente já sabia que ia ser assim, claro que a gente quer que a coisa...
Gerez: Na verdade às vezes é até melhor. Talvez você precise de outros meios para se manter, e não tem que abrir mão de nada do trabalho que você faz. Você não precisa dar satisfação para nada.
Granado: Sempre existe essa coisa de “Ah, mas como é viver como uma banda independente?” Meu, a gente nunca pensou como seria de outro jeito. O fato de ser alternativo ou não ser alternativo. A gente quer fazer a música que a gente faz, do jeito que a gente trabalha e se é assim que é, assim que é. É um negócio que nunca foi pensado nem discutido entre a gente. “Puta! Vamos fazer esse som e vamos lutar com isso que a gente tem”. Não é uma bandeira nem nada. É que quando a gente toca junto sai esse som.

sm: Vocês compõem como? É na hora? Ou chega alguém com uma base? Varia muito?
Granado: De todas as maneiras possíveis. Alguém pode trazer uma idéia, uma base, alguém pode trazer uma linha de bateria, alguém pode trazer uma idéia verbal.
Gerez: Geralmente é tudo desenvolvido com as seis pessoas juntas.
Granado: A partir de qualquer idéia, de a gente tocando ou da idéia de alguém, todo mundo trabalha, todo mundo põe idéia em cima, e no fim a coisa vira tipo.... geralmente a primeira idéia já não ta nem reconhecível, mais.


Você acha que vocês vão ter mais reconhecimento depois desse show de ontem?
Granado: Não sei, não sei.
Gerez: Não dá pra saber.
Granado: A gente já fez outros shows grandes em São Paulo também, tocou com o Nação Zumbi lá, e tudo... Você não consegue enxergar se aumenta ou não logo de cara, assim. Tipo, não é imediato, e você não consegue ligar “Ah, foi por causa disso...”
Mário Cappi: A gente acabou de ter um exemplo disso agora. O cara falou que perdeu o show da gente de ontem, ia ver o Los Hermanos. Mas os pais dele recomendaram. Ele veio hoje.
Granado: Ah, isso é legal.
Cappi: É uma coisa que acaba tendo uma reação imediata e não grande, não é uma coisa que você perceba. A não ser que a pessoa venha te falar.
Granado: Ainda mais como banda de abertura. A pessoa quer ver a próxima banda, não vai prestar atenção. É legal porque você toca para um público diferente.
Mário Cappi: um pessoal que nunca teria acesso ao seu trabalho também.
Gerez: Só de saber que você atinge um pessoal que não vai ter acesso a uma coisa que é mais difícil, que não é tão fácil de encontrar, já é legal.
Granado: e se essas pessoas se divertirem, já tá legal.


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