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24.6.08

Filme: L.A.P.A, , de Emílio Domingos e Cavi Borges

Rap E Cidade


       Logo na primeira cena do filme, um rimador se identifica enquanto segura o microfone entre meninos parecidos com ele na idade e na indumentária, em frente aos arcos da Lapa, e dispara: “isso aqui é a rua, é a essência do rap”. Está dito, de cara, sobre do que trata L.A.P.A, o documentário de Emílio Domingos e Cavi Borges.
       Foram dois anos de gravações, oitenta horas de material, quatro meses de montagem e um custo de vinte mil reais. De uma idéia inicial sobre a atualização do panorama atual do rap carioca, um pouco mais de dez anos depois do surgimento da festa Zoeira, L.A.P.A acabou ganhando uma abordagem urbanística que descreve os ritmos e improvisos da vida de jovens a fim de rimar para viver.
       O que poderia ser o grande defeito do filme é também o que faz dele um acerto: a polifonia. O documentário poderia ter escolhido seguir o caminho de dois protagonistas ao longo do tempo, acompanhando duas trajetórias distintas a partir de um início comum acordado com o espectador, e ter se dado por satisfeito. Seria uma estratégia estabelecida, conhecida, e com respaldo histórico da escola do Cinema Direto dos anos 60 – escola que pretendia acompanhar um acontecimento definido no tempo com o mínimo de interferência do diretor, aproximando (idealmente) o documentário do fotojornalismo. Nesse caso, a estrutura narrativa estaria definida pela passagem do tempo.
       Mas L.A.P.A. tem o objetivo consciente de ser primeiro um panorama, portanto além de Chapadão e Funkero, os MCs que ainda estão na etapa do vestibular dos duelos de improvisação, ainda estão lá Aori e Iky (além de Babão, Marechal e César Schwenck), que não participam mais de batalhas e já estão em um estágio de trabalhar com música, de construir uma carreira em um circuito ainda alternativo, mas consistente e articulado além do Rio. E estão devidamente enquadrados e creditados os legitimadores do tema, as pessoas famosas que provam que juntar ritmo e poesia na Lapa pode levar além, caso de Marcelo D2, B Negão e Black Alien (não por acaso, os três ex-integrantes do fenômeno "mas sua filha gosta" Planet Hemp).
       A opção por ser tudo isso e dar certo é que a confusão é mais aparente do que é de fato. Ao assistir o documentário; e dar de cara com uma edição cheia de passagens de filas de carro, de vendedores ambulantes, de pontos de ônibus, de muita gente junto, de placas e mesmo de caminhadas pela calçada; a sensação se aproxima da de estar em um bairro igualmente confuso na superfície, mas essencialmente de agitação criativa e social, um bairro que funciona porque se organiza de alguma forma. Emílio e Cavi conseguem transportar em um flow carioca e nada caricato o olhar de quem vê o filme para as diversas pontes do rap que vão sempre cair na Lapa engarrafada. E essas pontes são todas baseadas em transporte público, em ruas asfaltadas ou de terra, em ladeiras e esquinas e buzinas.
       O cientista social, dj e diretor do filme, Emílio, vê L.A.P.A como um retrato do percurso de uma cena cultural que começou com uma festa fundamental para um bairro ainda não revitalizado, que convivia com o abandono e fechamento do Circo Voador, na década passada. “A gente viu que o filme tem uma coisa inicial que é meio cronológica, a gente fala da Zoeira, tem a Batalha do Real, e tem o presente desses personagens. Então todos eles têm pontos em comum. A Zoeira, eu acho que é a origem comum”.
       Não à toa, o primeiro curta do diretor, A Palavra Que Me Leva Além (99/00), que ele prefere chamar de “exercício”, é justamente sobre os quatro elementos do hip hop em um Rio de Janeiro que se encontrava na festa Zoeira. A propósito, um diálogo específico de L.A.P.A entre Marechal, Babão e os diretores lembra justamente esse momento de encontro em que a música passa de individual para uma obra mais coletiva. De qualquer forma, foi com o primeiro filme que Emílio conheceu Cavi e desenvolveu a relação que foi dar na retomada ao tema de agora.
       Ao eleger a cidade como condutora da narrativa, os ruídos entre os discursos e os universos de cada entrevistado ganham também significado, e se resolvem contextualizados na imagem em que Funkero toma uma cerveja de isopor com Marcelo D2, na rua. O que poderia ser uma vontade de valorizar o documentário com um depoimento de um rosto conhecido faz sentido em um bairro lotado de gente passando pra lá e pra cá. As celebridades não são (só) autoridades que explicam o que ou devia ter se contado de outra forma, ou pior, o que já está claro. Elas fazem parte da história que começou na Zoeira.
      L.A.P.A parece ser um filme de rap, mas é também um filme de geografia. Parece ser sobre um rapper leitor de Monteiro Lobato que partiu para rimar sobre vida bandida em bailes funk e está reformando a casa da mãe e um outro que enfrenta o conflito do jovem artista em uma família tradicional de classe média, mas extrapola as questões de Funkero e Chapadão. Ao pular para a geração de Aori e Iky e pular de novo para a de B Negão e D2, mostra uma angústia com a realização pessoal que é comum a todos, embora resolvida com posturas formas e êxitos diferentes.
       O filme já passou pela Mostra Internacional do Filme Etnográfico 2007, onde ganhou a Menção Honrosa do Museu do Folclore, pelo Festival Câmera-Mundo de Roterdã 2008, onde foi eleito pelo público o melhor longa, foi exibido ao ar livre no IguaCine deste ano, o que também rolou na Lapa, entrou na seleção do Festival de Cinema Brasileiro que roda cidades do mundo como Nova Iorque, Miami, Milão e Roma, passou no CCBB no festival CineSul, na Casa de Rui Barbosa, no Mate com Angu, no Tempo Glauber e na Batalha do Conhecimento. Vai ser exibido essa semana no auditório do Globo, e ainda pode entrar em cartaz no circuito comercial, se tudo der certo.

      Daqui a uns dias eu boto aqui a conversa que eu tive com o Emílio...

2 Opine:

At 08:09, Anonymous cavi said...

De todas as pessoas que comentaram o filme, esse foi o que mais se aproximou de nosso objetivo real de fazer essa obra. Comentarios como esse fazem valer a pena o trabalho de quase dois anos. Valeu.Cavi.

 
At 14:27, Anonymous Anônimo said...

vi o filme aqui em BH no sábado (29/11) e gostei muito, principalmente do aspecto urbanístico. turista desavisada que sou, conhecia a Lapa do samba, mas não a do rap (agora quero ir à Batalha do Real na próxima viagem). o chapadão fazend rap no trampo é cena antológica do documentário brasileiro. parabéns aos diretores e ao resenhista! débora

 

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