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4.12.07

CD :: Os Paralamas do Sucesso ao vivo no Rock in Rio

Showzaço! Discaço! Toda a lenda que envolve o histórico show dos Paralamas na primeira edição do Rock’n Rio corria o risco de ser abalada com a notícia de que o registro da apresentação chegaria às lojas, mas definitivamente não é isso que acontece.

Foram duas apresentações dos Paralamas naquele festival e a segunda delas deu origem a este álbum. Ouvido sob a perspectiva que 22 anos impõe, a história do rock brasileiro reaparece como em um trabalho de arqueologia. Camadas se descascam e chega-se no essencial, na raiz de muitas histórias. Os Paralamas já eram extremamente talentosos, mas visivelmente aprendiam a ser uma banda. Algumas músicas, cujo arranjo definitivo já está em nossos ouvidos, reaparecem em suas versões originais e tornam possível perceber a evolução delas e, por conseqüência, da própria banda. Pra quem começou a ir a shows dOs Paralamas já na década de 90 é uma chance ímpar de entender ainda melhor uma história que já se achava saber de cor.

Quem já tocou em banda sabe - e quem não tocou pode imaginar - o quão difícil é se fazer um rock com pressão e dançante sendo um trio. O casamento da bateria com o baixo tem que ser muito sólido porque senão surge um vazio ao longo dos solos, que por sua vez também devem estar entregues a um grande guitarrista, sob o risco da mediocridade ficar evidenciada na ausência de outros sons. No alto da testosterona de seus 24 anos, os três se desdobram. Acompanhados apenas de uma palmeira como cenário, eles sobem diante de 200 mil pessoas, que tinham ido lá pra ver os grandes nomes internacionais, e não aqueles magrelinhos que tocavam toda a semana pelos palcos da cidade. Ainda assim, Herbert paga o esporro pela falta de educação de parte do público, exige respeito, marca território, conquista liderança, esbanja simpatia e – pior de tudo! – ainda põe todo mundo pra dançar e cantar. Uma pá de hits em sucessão e mais uma pá de outros que virariam sucessos ainda maiores depois dali. Vale lembrar que o show foi só dois meses após o lançamento do segundo disco, o clássico “O Passo do Lui”. Apenas “Óculos” estava nas rádios. “Meu erro”, “Mensagem de amor”, “Ska”, “Fui eu”, “Assaltaram a gramática” ainda eram conhecidas por poucos, mas já suficientemente fortes pra levantar a platéia.

Outra que ninguém conhecia era “Inútil”, do Ultraje a Rigor. Tancredo Neves havia sido eleito presidente naqueles dias. A comoção pela escolha de um presidente civil pelo Congresso Nacional ainda se misturava à raiva de não tê-lo elegido nas urnas. Ao microfone, o jovem vocalista de óculos vermelhos manda: “já que a gente não sabemos escolher presidente, já que escolheram pela gente, a gente vai tocar uma música de um grupo genial de São Paulo...”. E pelos poucas manifestações da platéia percebe-se que poucos sabiam o que viria pela frente. Depois dessa introdução, fica fácil sentir a força que a letra da música tinha naquele momento. O choque que causara em quem não a conhecia era óbvio. O show toma sentido histórico para além da questão do mercado de entretenimento no Brasil. A partir dali, o Ultraje apareceu para o país. A partir dali, “Inútil” viraria o hino do novo momento político e ajudaria no processo que nos conduziu à convocação da Constituinte meses depois.

Voltando ao aspecto musical, a influência do reggae comandada pelas mãos de Bi Ribeiro dá a noção exata da importância desse sujeito para o gênero no país. É só lembrar quais eram os discos que estavam sendo lançados por essa geração naquele momento e a diferença musical dos Paralamas grita. A quantidade de informações era inversamente proporcional à quantidade de cabeças no palco. No “Passo do Lui” já dava pra perceber a questão do reggae, mas não tão evidentemente até pela própria mixagem do disco. As pessoas que gravavam os novos grupos não tinham os ouvidos sintonizados nas mesmas estações que esses músicos. Eram os mesmos técnicos que vinham gravando toda a MPB dos anos 70 e não ouviam The Cure, The Police, The Clash, Bob Marley... Nada disso. Com o registro ao vivo, a pressão do baixo e o swing crescem muito mais. Já João Barone dita a cadência e os andamentos com a segurança de um baterista experiente. A influência de Copeland ainda está acentuada, mas o que mais chama a atenção é o papel de maestro que ele cumpre, acelerando e segurando, como se a platéia fosse um brinquedo simples de conduzir. Conhecendo-se as gravações originais é ainda mais fácil perceber essas mudanças no andamento de acordo com o momento do jogo.

O CD tem onze faixas, mas três (“Ska”, “Vital” e “Química”) tiveram dificuldades na recuperação do áudio, então vieram encartadas em mono. Mais do que prejudicar, elas acabam ajudando a dar liga à sonoridade da época, mesmo sendo lançado em 2007. É muito bom ouvir uma banda que erra, uma mixagem que põe a guitarra no talo durante os solos – a ponto de quase distorcê-la –, é bom sentir o rock como algo ao alcance de qualquer um que queira pegar uma guitarra e divertir os amigos. Sem choro, sem maquiagem, sem dores de cotovelo exageradas pelo modismo. Às vésperas do show no Maracanã, no qual os Paralamas vão abrir para o Police, é uma boa oportunidade de refletir sobre a banda mais rica da história do rock brasileiro. Em um país sem memória, o que não é indie e hype acaba sendo diminuído. Mais do que lamentar a não vinda de Beck para abrir os shows no Brasil, há que se comemorar o fato de termos uma banda com essa história para nos brindar. Certamente, muitos argentinos prefeririam ter os Paralamas do que o Beck na abertura do show de lá. Santo de casa não faz milagre a olhos de paisagem. Atualmente, os Paralamas continuam sendo uma grande banda, mas que, por todas as questões que o cercam, perderam público. Os shows têm estado mais vazios - afinal eles não estão na moda - mas os três ainda arrebentam. Com certeza, diante de um público tão grande como o que terão no sábado, eles vão botar tudo abaixo. Hits atrás de hits, carisma sob carisma. Não duvidem que o índice de diversão no show deles pode ser bem maior do que no do Police.

E tudo começou ali, no Rock in Rio de 1985. Foi esse show dos Paralamas que mudou a história do rock e do mercado de entretenimento no Brasil. Dali em diante nada mais foi igual e foi bem melhor assim.


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Bônus tracks

"Você também tava dançando, né?!"


Entrevista para Ilze Scamparine e, já nos créditos, a promessa da entrevista que nunca aconteceu.


"Na nova República, ninguém é inútil!"


"Vital e sua moto"

4 Opine:

At 19:50, Anonymous Anônimo said...

demais foi a gloria maria: "rede globo, 20 anos, a alegria de ser jovem com você". sensa... abs, diogo

 
At 13:04, Blogger Bruno Maia said...

Corrigindo: "Inútil" já era relativamente conhecida, sim, pois foi muito utilizada durante a campanha das "Diretas Já", em 1984. Só que a música era mais conhecida do que a banda. O impulso na carreira do Ultraje veio, em muito, por essa execução da música no Rock in Rio.

 
At 12:20, Anonymous João Gilberto said...

Paralamas, mas uma bandinha que pensa que faz música...

 
At 12:34, Anonymous Renato said...

Jõao Gilberto, MAIS um cara que pensa que é inteligente...

 

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