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27.2.08

Entrevista: Bacalhau do Autoramas (1)

Ir Mexendo, Ir Fazendo

foto: Filipe Santos Barrocas


      Antes de finalmente encontrar o Bacalhau para fazer essa entrevista, e eu nem vou aqui abrir o jogo de quanto tempo durou até eu decupar a fita e meia que durou o papo, eu e ele nos cruzamos algumas vezes na rua. A cada oportunidade, o baterista do Autoramas vinha com uma história nova que tinha para contar. E sempre emendava com um "mas sem pressa, brou, faz no teu tempo que eu também to enrolado com as minhas paradas aí...". Ele tinha prometido falar da época de colégio, quando participou dos primeiros ensaios do Acabou la Tequila, de histórias do lendário Garage na zona norte do Rio, de amigos, de histórias passadas, de ter feito parte do elenco de uma grande gravadora na década de 90, de agora ser parte de uma referência na linha de frente do independente brasileiro, e tudo o mais.
      Na minha cabeça, a entrevista seria praticamente ligar o rec e pronto. E foi mais ou menos assim, e até por isso eu optei por reduzir ao máximo as minhas intervenções nessa primeira parte da edição final do que foi a conversa com o Wagner. Ou melhor, Bacalhau.

s: Então, a primeira pergunta é essa. Fala do teu colégio, você estudou no CEL [Centro Educacional da Lagoa], que foi também de onde saiu uma galera aí...
Bc: Pois é, é um colégio na zona sul, mas não necessariamente com alunos da zona sul. E o [Acabou la] Tequila foi formado porque o colégio ia ter um sarau. Foi o start para se formar um montão de banda. Obviamente, o Tequila não saiu dessa história, mas foi aí que nasceu uma movimentação que foi dar em alguma coisa.
A gente um dia pensou, pô, vamos botar uma pilha no coordenador de fazer um sarau? O [colégio] Andrews tem, não sei quem tem, todo mundo tem, e porque a gente não? Vamos fazer, vamos fazer. Aí rolou a pilha, e tinha lá umas dez bandas – não adiantava também ter o sarau sem banda... E aí, não rolou o tal sarau. Mas, por causa do sarau [que nunca rolou], a gente teve que ensaiar. E aí, rolou o papo do que ensaiar, do que tocar, e tal. E a galera era quem, eu, o Renatinho [Martins], o Paulinho, o Perna, o Kassin, o Donida e... é, basicamente isso. O Paulinho é um amigo nosso que toca guitarra até hoje, mas não seguiu a carreira. E o Perna hoje é advogado, trabalha no BNDES, se não me engano. O Perna foi uma cara que me aplicou muitos discos, me iniciou. Me apresentou Cream, sabe? Que mudou o meu espectro de batera, e outras coisas mais. Essa galera, que tocava Roberto, só Roberto, foi que deu origem à banda Martina Viu o Sapo, ainda antes do Tequila. E o Tequila surgiu daí, até porque o Martina não foi muito pra frente.
      O Tequila era eu, Renatinho, o Perna, o Donida e o João Callado, que hoje toca cavaquinho com a Teresa Cristina. A gente começou ensaiando até ali no estúdio Groove, que deu origem a muitas bandas carioca nos anos 90, fica ali no Rio Comprido [na zona norte]. Era do Ronaldo Pereira, que depois foi até meu empresário no Planet.
      O Tequila foi formado em 91, a gente tava se formando ainda no segundo grau. Todo mundo tinha 19, 20 anos. Aí, continuamos com a banda, acabou cada um fazendo sua universidade, e o Ronaldo foi o fomentador de uma coletânea que eu tenho até que achar pra digitalizar, com bandas que fizeram versões de músicas que só tem ali. As duas primeiras músicas do Tequila foram feitas pra essa coletânea. Uma se chamava O Menino Sai da Estrada, e a outra A Mosca, A Moita e A Morta, uma música do Joãozinho. Ele já tinha um jeito de compor com coisas meio híbridas, meio samba. E começou desse jeito, com o Ronaldo botando pilha, a banda de vocês é legal, toca aí. Mas era super sério, e naquela época dava pra vislumbrar um futuro na música, tinha esse sonho comum, de ter o contrato com a gravadora. O Tequila é contemporâneo do Planet Hemp, que é contemporâneo do Beach Lizards, que é contemporâneo do Second Come, da Pelvs... Do Dash, do Gangrena Gasosa, a gente fazia muito show junto, essas bandas todas, isso já em 93.

s: Mas descreve aí o que era essa galera do CEL...
Bc: No colégio, a gente era a galera do fundão, do rock, mas a gente era meio cdf, não digo nerd, entendeu? A gente não era bobo. E o Acabou la Tequila resumiu essa parada de a gente gostar de rock, mas também de música latina em geral, misturar o que ninguém tá fazendo. E com o apoio do Ronaldo, isso continuou.
      E nesse meio tempo, eu já tocava há uns três ou quatro anos, e surgiu de eu ir tocar com o Planet. E fazer toda a minha carreira com o Planet. Naquela época tinha uma escassez de bateristas, aí eu tocava no Tequila, no Planet, e até em mais. Mas o Planet conseguia muito mais show que o Tequila, aí rolou o contrato e eu saí. Nem digo muito [que saí] a contragosto, mas não tinha como. Até pelo contrato. Aí eu tive que procurar alguém que tivesse a mesma vibe, a mesma onda... que tivesse a ver, e achei o Nervoso, que era baterista do Beach Lizards, era amigo meu, já tinha tocado muito junto. Pô, vou ter que ir só pro Planet, não tá a fim de tocar com os caras? Claro. Tanto é que o Nervoso entrou super bem. E no primeiro disco eu ainda gravo uma música. Se chama Teto Preto.
      E é engraçado que eu botei o Nervoso pra tocar no meu lugar no Tequila, e anos depois ele me botou pra tocar no lugar dele no Autoramas. E o Gabriel [Thomaz], quando acabou o Little Quail, também foi tocar no Tequila. É maneira pra caramba essa história. E Matanza, Canastra, Nervoso e aí Autoramas são bandas que tão aí ainda. O Renato compõe pro Gabriel, que compõe pro Nervoso, o Kassin e o Berna acabam produzindo nossos discos, o Berna produziu o Tequila, foi tocar no Tequila... A gente é muito próximo, ficou fácil fazer as coisas...

s: Tem alguma coisa no CEL que você consegue detectar pra dizer porque saiu de lá uma geração de músicos que seguem juntos... Como o Titãs, que tem uma relação forte lá com o colégio Equipe, em São Paulo...
Bc: Cara, tem a ver até certo ponto. Naquela época, rolou um apoio à atividade artística até certo ponto, depois nego saiu fora. E a gente não tava pedindo nada demais [para fazer um sarau], era um lugar e um som. A quantidade de aluno que tem no colégio pagava aquilo facilmente. Mas isso não impediu que a gente tocasse mesmo assim: não vamos parar de tocar, vamos manter. A gente levava uma biritinha, montava tudo, e ficava tocando três, quatro horas.
      As músicas [do Roberto Carlos] Não Vou Ficar e Você Não Serve Pra Mim faziam parte diretamente do set do Tequila. Por sinal, Não Vou Ficar é do Tim Maia, mas tem a do Roberto, as duas em versões maravilhosas, meio soul, da mesma época. Ciúme de Você, acho que a gente tocava também, quer dizer, tava incorporado.
      Então, assim, o CEL foi tudo. Sem o colégio, eu não conheceria o Renato, não conheceria o Donida, o Kassin... O João é que eu conheci um pouco antes, mas sabe? Acabamos estudando todos no mesmo colégio... Foi muito bom, estudei com os caras que são meus amigos até hoje, e todo mundo produzindo muito até hoje.

s: Mas nessa época de colégio, era CEL-estúdio-Garage a vida de vocês?
Bc: O Garage e o Circo Voador funcionavam muito de um jeito: a gente ia no Circo e não tava legal, ia pro Garage. Da Lapa pra Praça da Bandeira é muito fácil. E eu vi muito show assim. Me lembro muito bem de um show de 5 anos do Garage, lotado, uma porrada de banda, quinhentas pessoas, e tudo uma loucura. Todo mundo tocou lá, a maioria é banda que nem existe mais.
      Mas o Planet tinha a pilha de tocar lá pelo menos uma vez por mês porque o Marcelo [D2] era muito amigo do Fábio, dono de lá. O Tequila também tocou muito, principalmente com o Beach Lizards, com o Dash, mas acho que ficou um fenômeno muito carioca. E talvez no Sul... Mas eu não sei porque, eu acho que a música que eles lançaram, Biscoito, é hit. 'Eu não faço mais nada por você, não compro mais seu biscoito preferido' é hit, é lindo. 'Não passo, não cozinho, não assumo os nossos filhos'. É assunto corriqueiro, tá na tv. O Renato compunha demais, tinha mais é que tentar recuperar isso. Aliás, a 300 km/h [do último disco do Autoramas] é dele e do Gabriel.
      O Garage foi um alicerce, todo mundo teve que passar pelo palco... E eu acho que o Fábio... não sei, tinha que voltar. É difícil, público de rock é difícil, tem preconceito mesmo, não gosta de pagar, não quer pagar cinco reais pra nada... Nada mais justo, às vezes eram cinco bandas, um real pra cada banda. È que nem cd, quatorze músicas por quinze reais, é justo. O real que sobra é de imposto. É o que eu falo, se você gosta muito da banda, dá o apoio. Vai no show, vê se compra a camisa. Se não, as bandas boas acabam.
      O Garage era um lugar que tinha metal, rock, hard core, punk... Eram todas as subdivisões, e um público que é difícil, que não se mistura, que não quer que as bandas sejam diferentes. Cansou de acontecer um show vazio, e de repente brotavam sessenta neguinhos no show seguinte. Tavam bebendo no bar. É gente pra cacete...
      Teve show que foi um cara me chamar lá fora, foi até num desses aniversários da casa, porque eu tinha levado o cachimbo da bateria e sumido com ele. Fui xingado por todos os nomes no microfone do Garage... rarrarrá. Eu cheguei a tocar com o Planet e o Tequila na mesma noite, toquei até com o Dash, o Cadu não pôde e eu toquei. Tinha muito essa coisa de um saber música do outro.
      Imagina, tinha sexta ou sábado que todo mundo ensaiava. Era Second, Tequila, Dash, e você chegava meio-dia no estúdio e já emendava de meio-dia de sábado até meio-dia de domingo na rua. Eu, pelo menos, fazia isso. Saía cedo pro ensaio e ia pra naite. Aprendi muita coisa no Groove, a gravar, a mexer em mesa, a tirar som. Aprendi a ser técnico ali. E tinha uma coisa doida, o Tequila tinha que ensaiar antes do colégio, às vezes. Então, antes do colégio era nove da manhã, bicho. E estúdio é aquilo, às vezes vai até quatro da manhã, vai dormir tarde. Imagina acordar às nove... Daí a gente chegava, o Ronaldo jogava a chave, e eu abria o estúdio. Eu abria o estúdio. E ligava tudo. Quando o cara acordava meio-dia, chegava e perguntava e aí? Tudo tranqüilo... E nisso a gente matava o primeiro tempo de aula, duas horas de ensaio era pouco. E rachava um táxi pro colégio.
      E se for ver, isso de ir parar em estúdio rolava muito na época, tanto que o Rafa do Planet hoje tem estúdio, o Flavinho Caneti do Funk Fuckers também. Tinha isso do dono do estúdio chegar e: to vendo que você que tem vontade, chega aí. E daí tem que dar a cara a pau, também, né, Bernardo? Ir mexendo, fazendo.



Continua...

3 Opine:

At 00:13, Blogger Raul Mourão said...

Bacalhau is in the house!

Bom começo Baernardo.
Manda logo o rsto.
abs
Raul

 
At 12:29, Blogger marcelo said...

é pô ! bota logo o resto ae.... baca sempre conta as paradas de forma interessante. abrah perrone

 
At 21:01, Blogger Muru said...

Esperamos a 2º parte dessa entrevista, o Bacalhau tem muito pra dizer,ok? Valeu "Bacalha"!Muru.

 

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