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20.2.08

Entrevista :: Nélson Motta (Rolling Stone - Dez/2007)

Esta entrevista com Nélson Motta foi feita em novembro, por e-mail, para a Rolling Stone de dezembro. O assunto é o ótimo livro sobre Tim Maia. Na edição que foi para as bancas, o editor da revista preferiu publicá-la em forma de "rapidinhas com Nélson Motta". Com a revista já fora de circulação, segue aqui a íntegra da entrevista, antes das edições (minha e do editor), a abertura e a cotação que dei em meu texto.


"VALE TUDO- O som e a fúria de Tim Maia"/ Nélson Motta / Ed. Objetiva (4 estrelas)

O “Rei dos Doidões”
A literatura brasileira merece um personagem como Tim Maia.

Tim Maia sempre atraiu a simpatia popular, mesmo sendo “preto, gordo e cafajeste”, como se auto-definia. Além disso, era politicamente incorreto, voraz consumidor de entorpecentes e faltava com freqüência aos seus compromissos profissionais. As razões que explicam esta simpatia passam longe da obviedade, ainda mais em uma sociedade tão careta e preconceituosa quanto a brasileira. O livro de Nélson Motta joga luzes sobre um dos personagens mais interessantes e ricos da cultura popular brasileira, fazendo jus à sua obra e inteligência. Por e-mail, o autor falou sobre este trabalho.

BRUNO MAIA: Quando lançou "Noites Tropicais" (2000), você disse que a intenção inicial era ter escrito uma biografia de Tim Maia já naquela época. Por que demorou tanto a sair e qual sua análise final depois de concluído um projeto tão antigo?

NÉLSON MOTTA: Problemas judiciais e conflito entre herdeiros que disputavam o espólio do Tim Maia. Primeiro era preciso que a Justiça definisse quem era herdeiro. Quando decidiu que era o Carmelo Maia foi rápido, uma simples negociação comercial de direitos, com royalties e um adiantamento. Mas sem interferência no texto. No fim, foi ótimo todo esse "atraso", porque nesses 7 anos escrevi 5 livros, sendo 3 de ficção, e ganhei musculatura e fôlego para escrever essa biografia. Com certeza, está melhor do que poderia estar se escrita em 1999 ...

BM: A guinada que você deu há alguns anos, em direção à carreira de escritor, acabou te afastando da produção musical. Essa é uma escolha consciente ou, se fossem atividades conciliáveis, você seguiria exercendo as duas?

NM: É uma escolha natural para essa etapa de minha vida, principalmente pelas condições de trabalho: sozinho em casa, de short e chinelo, sem depender de nada nem de ninguem. Ou então viajando por praias maravilhosas com meu laptop. Ou para cidades incríveis. Escrever livros se pode fazer em qualquer lugar. Com internet e Google então... Não sei onde começa o trabalho ou o lazer. Produção musical envolve estúdios (que detesto), músicos (às vezes muitos), cantores, técnicos, muita gente envolvida, muitas vontades e desejos para harmonizar. Como produtor musical me coloco a serviço do artista como um samurai, abro mão até de meu gosto pessoal em favor do que for melhor para o artista. No livro, não penso em ninguém, nem em mim mesmo... hahahaha

BM: Há uma pesquisa profunda em que se baseia o livro, mas há poucos depoimentos abertos, poucas aspas. Em não se tratando de uma memória pessoal, e sim de uma biografia, você acha que isso aproxima a narrativa daquela de uma obra ficcional?

NM: Não queria fazer uma biografia "acadêmica", passaria facilmente de 1000 páginas e seria totalmente oposta ao estilo anárquico de Tim. O personagem é o sonho de qualquer ficcionista. Quem imaginaria um personagem como Tim Maia ? E quem acreditaria ? E no entanto, todo mundo no Brasil sabe que tudo é verdade quando se trata do auto-intitulado "rei dos doidões". Gostaria que o livro fosse lido com o prazer que se lê um romance estrelado por um personagem fabuloso e hilariante.

BM: Uma biografia escrita por um amigo corre o risco de ser parcial e não dar conta da complexidade do biografado. De que forma você administrou essa questão?

NM: Além de amigo, sempre fui fã do Tim, como artista e como personagem. Claro que o livro é parcial, usei só o "filé mignon" de suas histórias, o seu melhor e o seu pior. A grande caracteristica do Tim era o excesso, de talento, de volume, de peso, de grossura, de generosidade... Tudo era com ele era muito, muito tudo! Então, quando ele era mau... era péssimo. Isto tudo está lá, não escondi nada, mas não tive a pretensão de fazer um levantamento completo de sua vida. Mas em relação à sua obra, mergulhei fundo: a discografia é analisada em profundidade, o seu processo de criação e produção, a importância de sua obra e seu estilo.

BM: O livro cita, mas não aprofunda, algumas das questões mais polêmicas em que Tim se envolveu, nem tampouco os momentos de maior depressão. A intenção era preservar a memória festiva e divertida?

NM: Acho que tem muitos momentos de tristeza, raiva e depressão, constantes na vida do Tim. Não o poupei, ele odiaria. Ele se orgulhava de ser como era, escancarava tudo em entrevistas, levava sua vida privada a público. Mas é claro que a sua memória festiva é a grande marca de sua vida pública, que o fez querido do povo e da elite, no Brasil inteiro. Como ele dizia, para explicar o segredo de seu sucesso: metade de minhas músicas é esquenta suvaco e metade mela-cueca. O livro segue a receita. Todos os pontos altos - e os mais baixos - da carreira e da vida do Tim estão em "Vale tudo". O que eu não quis foi entrar em detalhes e me aprofundar no capítulo final, desde que ele passou mal no show de Niterói, passou a semana no CTI e morreu. Só contei o básico, indispensável para o registro histórico. Mesmo assim sofri bastante, levei um mês para escrever uma página resumindo tudo, sem deixar nada de fundamental de fora.

BM: Seria possível se fazer um estudo mais formal, nos moldes acadêmicos, sobre um personagem como Tim Maia?

NM: O cara precisaria ser mais louco que o Tim Maia pra fazer uma tese acadêmica sobre ele, né ? Mas seria divertidíssimo ver uma tese de um semiótico da USP, naquela linguagem deles, sobre o Tim Maia... hahahaha... O Tim Maia não cabe em cânones ou categorias... Tim Maia, como personagem real ou de ficção, tem poucos paralelos na literatura brasileira. Macunaíma, por exemplo, não tem bala pra ser motorista do Tim Maia...hahahaha

BM: Bordões, neologismos, filosofias de botequim... O frasista Tim Maia aparece o tempo todo no livro. Qual era a principal característica do raciocínio dele?

NM: A rapidez, a inteligência, o humor e o timing: a frase certa no momento exato, virtude dos grande comediantes. E não respeitava hierarquias ou instituições, era politicamente incorretíssimo, totalmente anárquico.

BM: Tim Maia não pegou o auge da mídia de celebridades, nem do intenso revival que atravessa a música brasileira hoje. Como você acha que ele veria este atual momento e o que ele teria condições de fazer hoje que era impossível naquele tempo?

NM: É impossivel imaginar o Tim hoje. Se ele estivesse como nos seus últimos meses, seria uma tristeza, acho que não melhoraria em nada a situação dele, que era o final de um processo pessoal. Agora, se o Tim Maia, com 40 anos, estourando de vigor e criatividade, vivesse com esses confortos tecnológicos, a conversa seria outra. O Tim foi um dos primeirissimos artistas brasileiros a ter uma faixa interativa nos seus discos, ainda em 1996.

*************************
Vale visitar o bom site do livro, com o áudio em streaming de todas as músicas citadas no livro.

2 Opine:

At 08:57, OpenID edsonmarquezani said...

Mil vezes melhor do que na revista!!! Esses editores... =)

 
At 11:14, Blogger Nathalia Leme said...

Perfeita a entrevista!
O cara é mto bom, né?
Por falar em Nelson Motta, Tim Maia.. na mtv vai rolar um especial, dá uma olhada nessa notinha:

http://mtv.uol.com.br/blogosfera/mtv_mais/2008/03/11/chamamos-o-sindico

 

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