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8.2.08

Trilha Sonora: Juno

Hit Me With Music (ou Tchubaruba)



      Juno é o filme fofo da temporada, e ainda um pouco mais. É daqueles acertos que contam muito sobre determinado aspecto de uma época. Um pedaço de zeitgeist, para usar a expressão alemã que não se traduz. No caso, mais precisamente um olhar disfarçado sobre as lições que as meninas e suas trilhas sonoras desses tempos de myspace têm a nos dar, garotos.
      O diretor do filme, Jason Reitman, tem por mérito ser apenas um observador, esforçado em apenas deixar que elas se mostrem. É o mesmo que fazem dois dos três personagens masculinos do filme, o pai de Juno e o melhor amigo dela. E as mulheres são três, Juno (Ellen Page), a roteirista (a blogueira Diablo Cody) e Kimya Dawson – cantora e ex-integrante do The Moldy Peaches e do Antsy Pants, responsável pelas mais importantes músicas de um filme em que o imaginário todo da crise de descoberta do amor se passa justamente na trilha sonora.
      Como na vida de tantas meninas por aqui.
      Dawson é a compositora e, quando não a de Juno, a voz do olhar da personagem principal do filme, uma adolescente esperta e espontânea que tenta lidar com a falta de maturidade do menino que ama ao mesmo tempo em que briga com a própria juventude para admitir esse amor. E com um bebê na barriga, que será o umbigo dos acontecimentos da história.
      O universo de Juno, da menina “talvez” apaixonada, é o deste novo alt folk indie feminino onde cabe uma Cat Power, um Broken Social Scene (e por conseqüência a Feist), um Belle and Sebastian e até uma Fernanda Takai brasileira. Portanto, o folk é aqui a palavra menos rígida do rótulo, claro. Neste dado contexto, está ainda um laço com o punk, e Patti Smith é o nó que amarra as pontas.
      Assim como Juno se disfarça de filme de adolescente, ainda mais na animação que introduz a vizinhança e o conflito central da trama depois da frase “tudo começou com uma cadeira”, as mulheres dessa trilha sonora se disfarçam de menininhas para lidarem muito melhor do que nós, garotos, com as inseguranças e dificuldades e dores do crescimento que a vida insiste em impor para quem tem dezesseis, vinte-e-um, vinte-e-seis ou trinta e um.
      Representado por Dawson, a música de Juno e dessas meninas da nossa geração é brega e cool ao mesmo tempo. Tem um humor esperto, que vai de pureza e espontaneidade, de palavrão e fragilidade para se vestir de menininha. Tem palavras demais, bem além da métrica, mas curiosamente encontra espaço para o silêncio. Disfarça um amadurecimento com o reconhecimento sofrido ou debochado – nunca os dois junto - das fraquezas e dos sentimentos de quem entra no jogo para jogar, justamente.
      Juno não é filme para tratar de gravidez na adolescência, de aborto, de família, de sexo sem prevenção. Juno é filme que revela o quanto as relações entre pessoas está frágil nestes anos, e daí o doce indie que atenua o cinza da cidade pelo marrom de outro lugar, talvez meio idealizado, onde tudo devia ser mais simples nos sonhos à beira da janela (do MSN ou não).
      Um grupo de atletas corredores passa em silêncio, em vários momentos, para mostrar que o mundo segue correndo em voltas sem se desviar do rumo estabelecido. Mas para um roteiro de blogueira feminista e para uma protagonista que fuxica a Internet a ponto de apontar com certeza ansiosa que 77 sim é que foi o melhor ano do rock, e não um 93 igualmente distante das possibilidades de quem tem só dezesseis, e fala em um telefone de hambúrguer que saiu de moda ainda na década de 80, o mundo é um umbigo. Mas o mundo não é maior do que a rede de contatos do site preferido. O horizonte é visível, e isso dimensiona as ambições. A barriga pesa, mas se carrega.
      A curta distância entre a referência clicada a uma lista de ícones pop é só uma forma de identificação: uma bússola para não se perder entre tantas corridas em círculo. Como o então vocalista do Lasciva Lula, Felipe, me contou há uns meses, “A internet deu visibilidade aos que antes eram esquisitos. E, então, os esquisitos descobriram que sempre estiveram em maior número”.
      Estar em maior número não aproxima ninguém, e aí está o paradoxo. Juno não é solitária, não é triste, mas tem dificuldades em estabelecer relações. Por vezes, acredita na armadilha da falsa aparência. Ela é uma heroína, vai vencer no fim, mas não será sem passar por dinâmicas de altos e baixos, de doces e melancólicas linhas melódicas, em uma levada não necessariamente difícil, mas doída além da conta. É assim que se chega à beleza, à vitória da alegria corriqueira.

      E nesse universo, com toda a cara de arapuca viral, mas e se não for?, e se for e daí?, surge aqui Mallu Magalhães. Ontem foi o primeiro show dela sozinha, em São Paulo. É a folk de Internet que vai botar feminilidade nos campos que o Vanguart abriu. Boa sorte, então.

      A trilha sonora de Juno ainda tem David Bowie, Sonic Youth e the Kinks, caso queira saber:

01 Barry Louis Polisar: "All I Want Is You"
02 Kimya Dawson: "Rollercoaster (Juno Film Version)"
03 The Kinks: "A Well Respected Man"
04 Buddy Holly: "Dearest"
05 Mateo Messina: "Up the Spout"
06 Kimya Dawson: "Tire Swing"
07 Belle & Sebastian: "Piazza, New York Catcher"
08 Kimya Dawson: "Loose Lips"
09 Sonic Youth: "Superstar"
10 Kimya Dawson: "Sleep (Instrumental)"
11 Belle & Sebastian: "Expectations"
12 Mott the Hoople: "All the Young Dudes"
13 Kimya Dawson: "So Nice So Smart"
14 Cat Power: "Sea of Love"
15 Kimya Dawson and Antsy Pants: "Tree Hugger"
16 Velvet Underground: "I'm Sticking With You"
17 The Moldy Peaches: "Anyone Else But You"
18 Antsy Pants: "Vampire"
19 Ellen Page and Michael Cera: "Anyone Else but You"



Nada a ver

      You Feel No Pain: Bob Marley faria ontem 66 anos. Fora o reggae em si, com ele o terceiro mundo se apresentou de ilegal ao pop global. É isso aí.



      Aqui, uma versão do Sublime, outro que partiu cedo.


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