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26.9.07

Entrevista: Felipe Schuery, Lasciva Lula

Primavera do Descarrego Indie



           Recebi esse e-mail aí debaixo, que achei maneiríssimo. Nunca soube me posicionar muito bem quanto ao Lasciva Lula, gostava de detalhes como as pronúncias articuladas demais, mas sempre achava que faltava ouvir mais para ter uma opinião de verdade. Fui a alguns shows, e ora gostava mais da simplicidade no palco, ora não entendia bem o que não estava dando certo (pra mim, o público estava sempre bem empolgado, até). A minha última impressão, boa, tá valendo até agora, com o peso das quatro mp3 do myspace.
           Mas enfim, chegou o e-mail do Felipe Schuery (vocalista), bateu, e veio uma conversa que tá ali embaixo, na versão do diretor, sem cortes, só primeiras tomadas, como veio ao mundo. Pura espontaneidade.


           ”É tempo de declarações, flores, espinhos, gente sem camisa e peito de fora nas noites alternativas. Os indies, que na década passada dançavam solitários de cabeça baixa em frente às caixas de som, hoje lotam casas de show para cantar e dançar juntos. Música da Pelvs está no comercial do Banco do Brasil; Moptop toca na festa Haggen Dazs; o "Makelele" lá do Bloc Party sai do armário; Vanguart e Móveis Coloniais de Acaju namoram a Som Livre e tocam Raul num programa da Globo; o CSS e o Bonde do Rolê dominam o mundo junto com o Arctic Monkeys, que vem ao Brasil no Tim Festival para coroar a Primavera do Descarrego Indie: todo mundo cantando junto! O Lasciva Lula estreará, nesta quinta-feira, a música "Vontade de beijar Caetano", figurino (nus?) e cenário novos. É a festa Rock Baile, comandada pelo DJ Edinho, no Teatro Odisséia. Além disso, ainda na Primavera de Descarrego, será lançada a promoção "Enforque o cantor":
           Uma crítica sempre perseguiu o Lasciva Lula: 'o vocal é berrado demais', 'o Felipe grita muito no palco', 'eu gosto das músicas, mas o vocal não dá!'. Pois bem, está lançada a promoção ENFORQUE O CANTOR!: grave um videozinho escrotizando o vocal original e mande para nós (coloque no Youtube e mande o link). A própria banda escolherá o melhor (pior?) vídeo. O vencedor ganhará um kit com camisa e dois CDs (um 'Sublime mundo crânio' e uma coletânea de raridades), além ser convidado a participar de um show para duelar com o Felipe ao microfone! Para facilitar seu desempenho, disponibilizaremos no www.lascivalula.com.br versões karaokê de algumas músicas. Afine o gogó, prepare o grito e ENFORQUE O CANTOR!

27/09 – Quinta-feira
Rock Baile com Dj Edinho
Show: LASCIVA LULA
Ingressos: R$ 20 (inteira), R$ 16 (filipeta) e R$ 10 (estudantes ou
até meia noite)”

Re:
           E aí, Mão?
           Tudo certo? Se eu mandar umas quatro ou cinco perguntinhas tu responde? Tá meio em cima, mas a idéia era tentar botar isso a tempo de subir ainda para o show de quinta. Vê aí como vc tá de tempo, e de saco pra jornalista chato (rerre)...
           Abraço,


Re:Re:
           manda sim, respondo até amanhã (pode ser?)
           abraço,Felipe

Re:Re:Re:
           Bom,
           Vamos lá, fica à vontade, escreve quanto e o que quiser, etc:


sm: O show de quinta vai ter duas atrações especiais: a nova música Vontade de Beijar Caetano e a promoção Enforque O Cantor. O que uma coisa tem a ver com a outra?
FS: Lançamos em janeiro deste ano nosso primeiro CD, "Sublime mundo crânio", após 3 EPs. Foi uma gestação de 2 anos e uma expectativa muito grande dentro da banda. O CD foi muito bem recebido pela crítica especializada, o clipe de "Pra matar a fome" está bem rodado na internet, no Multishow, rolou na MTV, tocamos em lugares como Circo Voador e Canecão, e chegamos a conversar com selos e gravadoras para ver se rolava algo. Esse cenário se fez com a banda 100% independente. Nos organizamos para controlar grana, produção, assessoria de imprensa... tudo. Rolou uma pressão interna cada vez maior para ampliarmos o alcance do disco. Isso gerou um desgaste grande dentro da banda, pois, além de tudo, todos nós temos empregos paralelos, nosso verdadeiro ganha pão. Decidimos parar para pensar o que queríamos exatamente e qual seria a solução para manter o que temos em comum (o prazer de tocar na banda, independentemente de qualquer fator externo). Chegamos à conclusão que bastava tocar e fazer o que desse na telha, sem nos levar a sério demais, sem esperar um mecenas, sem a pressão de conseguir shows com freqüência, fazer TV, rádio etc. O resultado dessa nova postura é o que chamo de "Primavera do Descarrego", tempo de botar os demônios pra fora sem compromisso com nada que não seja o prazer de lidar com música: uma promoção feita pra rirmos de nós mesmos (em cima de uma crítica que sempre perseguiu o Lasciva Lula: o vocal berrado) e uma música que é um rockão catártico, de exposição total. A promoção, na verdade, começa em outubro, pelo www.lascivalula.com.br

sm: O Lasciva já foi muito chamado de Pixies com Mutantes. Você gosta da definição? O que mais vocês têm ouvido nesses não-sei-quantos anos de banda?
FS: Gosto muito das duas bandas. Com certeza influenciaram o Lasciva Lula desde a formação. A definição não me incomoda, embora eu ache reducionista. Mas... melhor assim. Nêgo ouve de tudo na banda: agora, por exemplo, estou ouvindo Fleetwood Mac pela primeira vez. O Marcello é fã de Sondre Lerche e Fiona Apple, o Guga só ouve velharia anos 60 e 70, o Jamil insiste em me mostrar, toda a vez que vou na casa dele, um disco do Zombies. Outro dia ganhei o Saltimbancos Trapalhões. No último ensaio fizemos uma versão de Sweet Child O´Mine. Ficou uma merda.

sm: Como tá funcionando a história de botar o disco Sublime Mundo Crânio inteiro para baixar no Trama Virtual, que remunera os downloads via patrocínio? Já dá pra comparar com resultado de venda do disco físico nos shows/site?
FS: É cedo para comparar, mas a idéia é boa. Muita gente já baixou o disco, gente que talvez não atingiríamos se não soltássemos o disco por aí. A remuneração... ainda não temos noção se as bandas emos vão deixar algum trocado pra gente.

sm: Um dos últimos shows de vocês no Rio foi a fatídica Noite da Independência (com Autoramas, Nervoso e Arnaldo), quando o que tinha cara de tudo pra dar certo não deu. O sobremusica tentou discutir essa falta de público carioca em uma noite de rock independente em véspera de feriado. O que você acha?
FS: Um show independente é a última opção de neguinho em véspera de feriado e fim de semana (noites de muita oferta). E acho que o público carioca é fã de "eventos", isto é, de ocasiões para, sim, curtir um show de uma banda nova, mas principalmente para ver e ser visto. Por que o público lota lançamento de disco e clipe e some em shows esporádicos? Por que o Humaitá pra Peixe tem um público legal e os shows que a mesma equipe produz, no decorrer do ano, em lugares ótimos, com preços bons, com excelentes bandas, ficam vazios? Enfim, eu acredito que tem que associar o show a algo. Tem que criar uma aura. A cena independente, por si só, pela sua música, tem público de integrantes de bandas, blogueiros, agitadores culturais e pouquíssimos freqüentadores. E, note bem, o tom aqui não é de reclamação, é de constatação. Os shows alternativos, com tudo isso, são divertidíssimos.

sm: Agora o mesmo tema em outra pergunta: só hoje (ontem) eu vi dois textos diferentes falando do momento indie brasileiro e mundial. Um foi o teu email de divulgação do show, o outro foi um post do trabalho sujo sobre CSS e Bonde do Rolê. Fala um pouco desse momento, da internet criando novos canais, da aproximação com mercado publicitário (tem Pelvs no Banco do Brasil, mas tem Bonde do Rolê só não tocando na Nokia brasileira porque parece funk carioca!!).
FS: A tecnologia digital assassinou a indústria fonográfica como conhecíamos e proporcionou um boom de novas bandas que se aproveitaram da viabilização de novos canais de troca de cultura. Daí, o que antes eram "centenas de emissores (bandas) em busca de um mecenas (gravadora)" virou "milhões de emissores em busca do seu nicho específico na rede e atrás de qualquer mecenas (gravadora, empresa de publicidade, de telefonia etc"). Os fenômenos são mais numerosos e duram pouco, os artistas são mais variados e alcançam os mais diversos meios. A internet deu visibilidade aos que antes eram esquisitos. E, então, os esquisitos descobriram que sempre estiveram em maior número.

sm: Você continua gostando de dicionários?
FS: Sim. Fui na Bienal e queria comprar o Dicionário de Regência Verbal, do Celso Luft, mas era R$104. Não dá... o destino das obras de referência é o digital. Ainda assim, um tijolão como o Houaiss ou o Aurélio não é um livro, é uma obra de arte.

sm: Um abração,
FS: Veja se presta. Abraço!

2 Opine:

At 10:44, Blogger Bruno Maia said...

Excelente papo! Acho que o Felipe foi super preciso nas análises. Algumas delas estavam passando pela minha cabeça há umas duas semanas, desde um popo com o antológico Pedro Seiler, mas ainda não tinham frutificado um texto claro e articulado.

Agora já tá feito. Parabéns aos dois...

 
At 13:58, Blogger bibliografia said...

como eu disse ao monnerat, muito lúcido lúcido o raciocínio do felipe.

mais um grande serviço do sobremusica.

um abraço.

 

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