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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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10.5.08

MySpace: Orquestra Contemporânea de Olinda

De Banda Com o Brega



      O artista brasileiro gosta de brega. Não faltam exemplos de quem tenha abraçado o gênero, do Rei até um replicante gaúcho, um catatau psicodélico, maluquinhos tropicalistas, djs pernambucanos e etc. Isso, claro, sem contar os próprios artistas exagerados, cornos à flor da pele, emergentes assumidos, e aí vão de um Reginaldo e um Odair até os Aviões do Forró e o Calypso. O público brasileiro também costuma gostar, e isso nem precisa de ilustração.
      No entanto, não há fora do Nordeste qualquer demonstração, que não solitária, de aproximação do brega a estilos musicais outros. É difícil não posar de excêntrico ou irônico ao tentar entender e acompanhar, fora do NE, o que é que o brega tem, afinal. De onde vem a falta de vergonha dele, que a uns e outros tanto... envergonha.
      Pois, desde o nascimento de certos caranguejos, lá se vão uns quinze anos, Recife e Olinda viraram o centro simbólico e diplomático de um brega menos corno e mais safado. De Recife para o mundo, ou pelo menos pro Sudeste, isso veio em ondas de maior ou menor repercussão. Teve a cultuada trilha de Céu de Suely, os discos do DJ Dolores, a cover de Loirinha Americana (do paraense Mestre Laurentino) pelo mundo livre s/a, só pra citar as que me vêm à cabeça assim.
      E agora chega a Orquestra Contemporânea de Olinda. Mais do que uns paralelos como a Academia da Berlinda ou a Tanga de Sereia, a big band tem o brega como um dos caldos do repertório de influências, lado a lado sem hierarquia ou piada com os tão na moda dub ou samba antigo de gafieira. Fora, claro, o mangue bit. Tente ouvir Brigitti, o impulso é o de se entregar à farra serena, de timbres agudos da ponte aérea Belém-Caribe. Boa parte é culpa de Isaar de França, voz convidada que agora tenta vôo solo, mas que tem no currículo Orquestra Santa Massa e Comadre Fulozinha.
      Os arranjos de metal da Orquestra chamam atenção pelo pouco uso de tons médios, leia-se saxofones. Não que eles não existam, são dois saxofonistas, mas eles não desempenham a tradicional função de preencher os espaços entre os extremos de qualquer naipe de metais. A tuba, instrumento tão incomum aqui no Brasil, ao invés de só acompanhar a bateria na cozinha rítmica, lidera os vários graves que são responsáveis pelo balanço, pelo incentivo ao baile. Junto com a tuba há dois trombones, e o sax barítono reforçando o efeito sub woofer. E, distante e quase dissonante, o sax alto na região mais aguda com o trompete meio displicente, meio cool jazz. Peraí, cool jazz em uma banda tropical? É sim, embora o som não seja chegado a humores baratos, quem abraça o brega não se furta a um quê de deboche.
      Outro ponto que não passa despercebido é Maciel Salu, o filho do homem do baque, Mestre Salustiano. Outro que participou da Orquestra Santa Massa, Salu canta em boa parte das músicas e toca rabeca em algumas delas, o que não tem como evitar a incorporação de elementos de cocos e maracatus rurais na contemporainedade da Orquestra. Em geral, a tradição popular pernambucana vem junto a naipes funkeados, o que já tinha sido ouvido nos discos Afrociberdelia e CSNZ, do Nação Zumbi com e sem Chico, respectivamente.
      Mas não são só os metais que vêm de uma escola de James Brown, há a guitarra que se sobressai vez-ou-outra como em Não Interessa Não. Tenho sérias dúvidas se dá pra dizer que uma guitarra dessas ainda é um sinal de influências estrangeiras, tal entranhado que está o groove de orgulho black na memória coletiva de qualquer rua, ainda mais de periferia.
      O que é certo é que elegante e sem safadeza, a Orquestra Contemporânea de Olinda defende com propriedade o bloco de quem dança a céu aberto no meio do povo, sem vergonha de cara feia. Afinal, cara feia é coisa que se assusta fácil, fácil, com uma algazarra ou uma zoada. E, isso, tá logo ali. Ninguém precisa contar pra eles.

      Pra ouvir, ou espera o disco que tá saindo pela SomLivre Apresenta, ou vai diretó pro myspace onde tá tudo lá.



Nada a ver

      Se liga nas opções de sábado. Se fosse um desses em cada dia, seria uma semana ótima. Todos no mesmo dia, dá um monte de coisa pra gente pensar...






Nada a ver

      E o Kassin na Pitchfork, se ligou? O mais engraçado é a conclusão do texto: "what accounts for the appeal of the music is that no matter how far afield Kassin and crew go, it's Brazil and in particular the rhythms of Rio that remain foremost in their hearts. Moving away from those roots may potentially mean even greater fame, but what might get lost are the ineffable charms that draw listeners to gems like Futurismo in the first place". Não vejo o problema no Futurismo, mas é um toque interessante.
      Folheando a Rolling Stone desse mês, finalmente uma das melhores edições recentes, fica a impressão de que as novas bandas/projetos paralelos só querem saber de nomes e remixes em inglês. Será que é a boa?

3 Opine:

At 16:28, Blogger André Monnerat said...

Ouvi no MySpace... Bem maneiro, hein? Pena que não dá pra baixar.

 
At 20:25, Anonymous Anônimo said...

Particularmente, acho todas as resenhas desse Pitchfork um grande festival de cagação de goma de onde não se salva uma linha.

Não adiciona nada a discussão, mas só queria levantar o ponto.

Abs!

Bruno.

 
At 12:38, Blogger Bernardo Mortimer said...

MauVal pede pra avisar:

'roNca roNca informa: a O.C.O tem sido tocada semanalmente no programa e estará LIVE na festa, dia 7 de junho, lançando o disco de estréia!
beleza?
cheers
m.v '

Parece que vai rolar, no Rio, também no Democráticos.

Sobre o Pitchfork, eu confesso que gosto mais das entrevistas do que das resenhas, mas acho sempre que toda e qualquer crítica deve ser lida, sim, mas com pés atrás, desconfiado. A do Kassin, particularmente, eu acho fraca.
Só quis levantar a bola pro lance de ter gringo achando que as bandas brasileiras estão deixando de ser 'brasileiras'. Fiquei impressionado com o número de projetos da última Rolling Stone que não são em português. Nada contra, mas não me lembro de tantos assim a não ser, talvez, quando o Sepultura apareceu pro mundo há uns quinze anos. E achei que levantar o assunto no tópico da Orquestra era uma boa.

 

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