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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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30.6.08

Entrevista: Emílio Domingos, diretor de L.A.P.A.

É Que Nem Pastor Evangélico, Cara...

      Conforme prometido há uma semana, aqui vai a primeira parte da conversa que eu tive com o cientista social, documentarista e dj Emílio Domingos sobre o filme L.A.P.A. A gente falou sobre rap carioca, e tentou entender junto um pouco de como se dá a organização de um ambiente de encontros e movimentações criativas, o que acabou sendo o ponto de partida para o documentário. O papo também foi adiante e caiu na grande questão: as pessoas podem causar impacto na cidade através da cultura? Claro que o Emílio estava muito mais dentro do assunto do que eu, até porque ele acompanha o hip hop da Lapa há ancestralidades. Portanto, fala tu, Emílio.

Sobremusica: A primeira pergunta é classicona. Qual é a história desse filme teu e do Cavi [Borges]? Quanto tempo levou?
ED: Ancestralidade, né? Bom, você conhece um pouco a história desse filme, né Bernardo? Você tá perguntando... Eu conheci os caras do hip hop aqui no Rio em 94, na época que tinha uma associação chamada AtCon, Atitude Consciente. Eu cheguei a freqüentar umas três reuniões, cheguei na associação através da Edviges, ou Edwiller da Damas do Rap, se preferir. E ela era amiga de um amigo meu de faculdade, eu fui assistir e ficava louco pra filmar. Só que em 94 eu não tinha câmera, nem acesso a equipamento. E era só um estudante de graduação de Ciências Sociais. Em 99, lá no Ateliê de Cinema e Antropologia que a gente fez junto [na verdade, nós fizemos juntos o mesmo ateliê de dois anos depois, com Emílio já na condição de assistente do Ateliê], eu tive que fazer um filme... A história é longa, né? Tive que fazer um filme no final do curso, e eu acabei optando pelo tema de hip hop. Aí filmei os quatro elementos [do hip hop: grafite, break, dj e mc] através daquele filme lá, A Palavra Que Leva Além, que eu fiz com a Bianca Brandão e a Luiza Pitanga. Mas aquele filme é um exercício, não é um filme. E através desse novo contato que eu tive em 99...

sm: A Palavra Que Me Leva Além ganhou...
ED: Ganhou o [festival de cinema universitário] Vide Vídeo e ganhou uma menção honrosa do Prêmio Pierre Verger, da Associação Brasileira de Antropologia. Engraçado que eu ganhei o Vide Vídeo agora, de novo, cinqüenta anos depois, porque o Cavi é universitário. A gente ganhou ficção com o Pretinho Babilon, você já viu? [sm: Não] Pô, tenho que te mostrar então. Viu o clipe do Digital Dubs? Curimba Riddim... [sm: Também não.] Cacete, então depois a gente fala disso. Ééé... daí no período que eu fui filmando o Palavra Que Me Leva Além, eu percebi que os MCs eram extremamente verborrágicos, né? Não dava pra contar o que eles tinham pra dizer em sete minutos e meio de um filme de trinta minutos. Era um absurdo, uma crueldade. E através disso, também, eu fui percebendo que os bastidores da produção musical, da produção de rap, que isso daria um filme assim. Além de muitos personagens e muitos dramas, essa história tava em processo aqui no Rio de Janeiro, particularmente. Essa coisa de conseguir produzir as próprias bases. Quando eu os conheci em 94, os caras não conseguiam produzir as próprias bases. Eles rimavam em cima de base americana, que eles compravam em São Paulo, em vinil. E quando eu os reencontrei em 99, eles já tavam fazendo a própria música de maneira ainda iniciante, assim. E agora, todo mundo já faz a própria música, todo mundo tem um software pirata em casa e faz o próprio som. Resumindo é isso.

sm: Mas então porque fazer esse novo filme, e porque com o Cavi? Quais foram essas conversas de vocês dois?
ED: Eu fiquei amigo do Cavi quando ele foi ver A Palavra Que Me Leva Além no Vide Vídeo de 99 ou 2000, ele passou (o filme) no Espírito das Artes, na Cobal [portanto, do lado da locadora do Cavi, a Cavídeo], e ele ficou mega interessado: meu Deus, não-sei-que, balanlan..., aquele jeito dele de ser, e a gente começou a se falar a partir daquilo ali, e viramos amigos. E assim que eu resolvi fazer esse filme, eu fui falar com o Cavi, e ele falou: caramba, deixa eu te ajudar. Eu produzo, pampampam. Mas ele começou a se envolver tanto no projeto que acabou dirigindo comigo. Eu falei, cara, dirige aí. Só falta assinar, pelo amor de Deus. E ele naquela pilha de participar dele... E foi assim que se deu, a gente foi pesquisando alguns personagens, vários das filmagens que a gente fez nesse período de pesquisa não entraram. Na verdade, quase todas. Foi uma experiência mesmo de sondar personagem, de ver como as pessoas fluíam diante do vídeo e que história elas tinham pra contar. Pessoas até que eu não conhecia pessoalmente, só conhecia de ver nas batalhas, de ouvir falar, de ouvir a música. E boa parte dos personagens do filme eu já conhecia, mas alguns a gente acabou definindo nessa pesquisa que foi em 2005.

sm: Mas o que era o filme no começo?
ED: Que que era o filme: vamos retratar o que é a cena de rap estava fazendo agora no Rio de Janeiro, a cena de MCs. Eu já sabia quais eram os temas que eu tinha que abordar, por causa de experiências anteriores, eu freqüentava a [festa] Zoeira, em 99, 2000, 2001. O meu primeiro filme passou na Zoeira, cara. Eles pararam a pista de dança, e colocaram o filme de trinta minutos. Eu quase chorei, porque era sagrada a pista, né? A [produtora da festa] Elza Cohen cometeu isso e eu quase tive um infarto. O dj parou pra botarem o filme, e os caras se vendo na tela, foi uma noite meio Cinema Paradiso. É... E porque eu falei isso? Falar ao vivo tem essas coisas, é...

sm: Você tava falando no que era a idéia original do filme e que diante do teu envolvimento com rap, você queria retratar aquele momento ali...
ED: É, porque de 2000 pra cá a coisa mudou bastante. O período de 2000, especificamente, eu acho que é um período quase que utópico assim. Porque depois do estouro dos Racionais MCs, todo mundo achou que podia estourar, sabe? Surgiu uma esperança muito grande dentro das pessoas que fazem o rap. Os Racionais viraram uma referência tremenda pra eles, mas após o Sobrevivendo no Inferno, a energia que fluía ali era muito forte. Todo mundo acreditando que o trabalho ia conseguir atingir mais gente. Que eles iam conseguir uma certa popularidade. E de lá pra cá, muitos não continuam, e muitos continuam ao mesmo tempo. Uma nova cena surgiu por causa das Batalhas do Real e Batalha do Conhecimento, agora. Uma renovação tremenda da cena...

sm: Uns anos depois tem o sucesso do D2, já aqui no Rio, né?
ED: Lógico, o D2 tava no primeiro disco [solo] na época que eu o entrevistei pro primeiro filme. Tava lá no Eu Tiro É Onda, e de lá pra cá ele virou um popstar, consegue fazer propaganda da Brahma com Zeca Pagodinho, tá na propaganda dos pais da Vivo, acho que isso tem que checar, né? Acho que só precisa dizer que é um mega pop star, já é suficiente. É... E aí eu acho que a cena rap se solidificou. Porque a questão do estilo musical, de lá pra cá... eles conseguem produzir as próprias bases, tem uma musicalidade própria no Rio de Janeiro, apesar de existir uma diversidade tremenda. Você escuta um rap que é do Rio e você sabe que é do Rio. Não tem dúvida. Sei lá, pega Marechal, [o extinto] Quinto Andar, De Leve, Inumados, Iky’s tapes, você vai ouvir e dizer: isso é carioca. E isso, eu acho, no Brasil inteiro. O pessoal que curte rap no Brasil inteiro consegue identificar. Então, nesses últimos anos aí, nesses últimos sete anos, oito anos, a musicalidade se firmou aqui no Rio. O rap carioca. E... onde é que eu tava?

sm: E você resolveu fazer esse filme com o Cavi. O que era o filme, e o que ele virou? Tem essa transformação assim?
ED: Claro. Claro, claro. O que era o filme? A gente não sabia, quando foi filmar, a gente não sabia que o nosso corte ia ser o da Lapa. A Lapa surgiu pro filme a partir dos personagens, sabe? A importância... que a gente já sabia da importância, mas tentar organizar o filme espacialmente através da Lapa como cenário era algo que a gente não pensava antes. A gente queria retratar o que a gente julgava interessante tanto do ponto de vista artístico quanto da trajetória. Algumas questões que nos interessavam, por exemplo, a gravação do primeiro disco, os problemas pra você ser MC, sua relação fora do palco, né, relação com família, relação com trabalho. A relação de como você faz pra se tornar um profissional do rap, pra você viver de hip hop. Como é que o rap, como é que algumas pessoas absorvem outros elementos... Aqui no Rio de Janeiro é muito comum você absorver outros elementos musicais pra sua música, o rap já é uma música que pelo uso de sampler e colagem já é uma coisa antropofágica, e aqui no Rio, por ter essa liberdade, eles não tem muito uma regra pré-estabelecida do que eles têm que samplear. As pessoas / toca o celular/interrompe

ED: Os MCs aqui do Rio que eu conheci tem uma formação musical muito ampla./ toca o celular/ interrompe

ED: Bom, os MCs que eu conheci têm uma formação musical muito ampla, bastante ampla, que foge do que a gente poderia chamar de convencional do hip hop, né? Então eu acho que isso acaba se refletindo na música, no uso do sampler. E é isso.

sm: Então vamos entrar no filme mesmo, primeira cena já começa com uma batalha na rua e tem o Airá, O Crespo falando: isso aqui é a rua, é a essência do rap. No meio da rima dele, ele fala isso. Imagino que não seja por acaso e queria que você explicasse porque começar falando que a rua é a essência do rap.
ED: É um bom começo, né? Se você for pensar que começou no Bronx, também, com as festas no meio da rua, não deixa de ser uma referência à origem do hip hop que surgiu nessa cultura de rua mesmo. Quando essas batalhas tavam sendo feitas no meio da rua, elas tavam, de certa maneira, retomando essa origem do hip hop de tentar chegar na população que tá passando, de os caras improvisarem com quem tá no meio da rua. Eu acho que quando o rap surgiu era assim, e essa rima do Airá é perfeita pra introduzir o filme também. Automaticamente eu... O que você pensa quando faz uma pergunta dessas? Você pensa no Bronx e nas festas do Kool Herc e do Grand Master Flash. Eu acho que tem muita coisa pra ser feita no rap do Rio de Janeiro, acho que a história mal começou. E essa cena me remete um pouco a isso. A gente tá aqui no meio da rua, começando... Eles já têm dez anos, o hip hop do Rio de Janeiro tem muito mais de dez anos porque começou nos anos 80, mas essa geração da Zoeira, que é no final dos anos 90, tem dez anos. E eu sinto que eles ainda tão um pouco no início. A energia do pessoal é uma coisa muito assim...
sm: Não lapidada? Bruta nesse sentido de ser trabalhada...
ED: É, é, é... Na verdade tem gente que é muito lapidada, já é um artista, tá a mais de dez anos... Eu digo mais assim em relação a atingir público, sabe? O campo ainda é muito vasto, e em termos de criação o campo é muito vasto também. Acho que eles tão no início ainda. É a pré-história ainda, apesar de ter dez anos, o potencial dessa galera é muito maior do que eles já atingiram até hoje.

sm: Aprofundando um pouco essa pergunta. O Aori vem logo depois no filme e a primeira fala do Aori... Tô falando de montagem, assim... Tem uma recorrência de imagem de ônibus, de câmera acompanhando caminhada de personagem
ED: O cara decupou o filme...
sm: rerrê, o filme reforça essa idéia da Lapa como [ED: Transitoriedade] um espaço de transitoriedade, um espaço de circulação. Aí a pergunta é a seguinte. Em que momento vocês falaram: isso aqui é importante, vamos investir nisso como linguagem, como condução da narrativa?
ED: Cara... A, você já foi na Lapa, e sabe do que o filme tá falando exatamente. E o engraçado é que muitas das conversas que a gente teve foram na Lapa, naquele ambiente, e as imagens que vêm à nossa cabeça quando a gente tá falando com as pessoas ali, o cenário perfeito que ilustra as falas tem essa dinâmica. Muito barulho, ônibus passando, gente falando alto, carros pra todos os lados, muita gente e a gente achou que fosse um recurso bom pra conduzir o filme. To repetindo exatamente o que você falou, porque você fez uma pergunta que você já sabe o que eu tava querendo fazer.

sm: Mas vai além da Lapa. Tem o Iky andando na Glória, tem o Jardim Catarina...
ED: Tem, tem. Todo artista que quer fazer rap tem que ter uma mobilidade, porque o circuito ainda é uma coisa bastante periférica, e as pessoas têm que se locomover onde a cultura tá. E aí, pra gente tentar viabilizar essa idéia de, tanto de produzir como é o caso do Iky, eles têm que buscar o vinil no meio da rua, onde tem vinil. É.../bate a fita/

ED: A preocupação deles... É que nem pastor evangélico, cara. Eles querem levar a palavra deles até o povo. Os caras fazem qualquer coisa pra isso. Essa coisa de cantar no meio da rua, que nem o Airá tava fazendo no meio do filme, eu acho que qualquer um toparia brincando. Não pensaria duas vezes. Tipo, a... lança teu disco no meio da rua. Qualquer um toparia. Então esse recurso de usar eles em constante movimento é também pra induzir a idéia de que as pessoas tão se movimentando, tão correndo atrás dos sonhos de gravar e de levar o trabalho para um público maior.

sm: Mas da primeira idéia que era um panorama da situação do rap dez anos depois da Zoeira, sei lá, você falou que era esse o impulso pra voltar a filmar e foi aí que o Cavi se interessou pelo projeto. Aí, de repente, vira um filme que fala de cidade, sobre o Rio de Janeiro, sobre a Lapa. É... vocês perceberam essa mudança de rumo da gravação? Ou foi uma coisa de montagem, de dentro da ilha de edição?
ED: Cara, a gente percebeu ao longo da filmagem. Quando a gente foi pro Jardim Catarina, foi pro Irajá... Bom, eu já sabia que o rap existe no Rio de Janeiro inteiro e a Lapa serve um pouco como pólo aglutinador para as pessoas que fazem rap no Rio. Mas tem rap na Cidade de Deus, na Baixada toda, rap tem em todos os lugares. Então, quando a gente foi atrás de pessoas no Irajá, de São Gonçalo, de certa maneira isso é um recorte, né? Não é pra contar a história do rap carioca, não tem essa pretensão, mas é um pequeno olhar a partir do que a gente foi se defrontando. A cena do hip hop é muita mais ampla do que a gente mostrou. Por isso quando a gente foi pra outros lugares, não foi uma surpresa pra gente. Pro Irajá... A Lapa serviu apenas pra gente situar o espectador e deixar ele confortável pra construção do filme. Serviu como eixo de narrativa.

sm: E, viajando aqui, teve referência de outros filmes pra pensar a montagem desse?
ED: Foda, cara. Eu vejo muito documentário. Se teve algum, pesquisado, não. Mas se tem algum, eu já não me recordo. Eu vejo documentário pra caramba. Intencionalmente a gente não viu um e aaa..., vamos usar a estrutura de tal filme pra montar, pra usar o espaço em vez de usar o personagem. Isso era uma questão. A gente usou espaço, e tem dois personagens de condutores. No filme, o Funkero e o Chapadão são personagens que conduzem um pouquinho. A gente vai e volta e dá outros aspectos da vida deles fora o artístico, né?


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