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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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11.8.05

A música sertaneja dos anos 90

Este é um tema mais complicado. Mas antes de começar a discorrer, é preciso frizar algo fundamental. A história de vida incrível da família e da dupla não legitima a qualidade ou não do trabalho musical deles. O fato de alguém ter passado dificuldade e sofrido na vida não é e não pode ser argumento para uma compaixão musical. O fato das pessoas passarem a respetiar a trajetória dos caras (como eu posso até fazer), não muda o fato de que a música era ruim e pobre. Ponto final.

Eu não tenho nada contra música sertaneja. O "movimento" no qual estão inseridos Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, João Paulo & Daniel, etc, etc, não é o mesmo de Tonico & Tinoco. Nos anos 90, a música sertaneja teve um boom que está diretamente ligado ao esvaziamento cultural do período Collor. O discurso do caçador de marajá trazia uma forte carga bandeirante, de interiorização do país, de valorização da cultura do campo em combate às capitais, onde o presidente não tinha tanto apoio. Regiões como o centro-oeste, o interior-oeste de São Paulo e do Paraná, foram decisivas nas eleições de 89. Lá estava grande parte do cacife eleitoral de Fernando Collor. Não se pode esquecer disso.

A música sertaneja em si nada teria a ver com esse esvaziamento cultural. Não. O problema foi a distorção que ela sofreu. Pegou-se uma fatia da música caipira, com letras melosas de amor, arranjos conservadores, primeiras-vozes carregadas no vibrato, mullets e jaquetas com bolsos dos dois lados e calça-jeans para representar algo que era muito maior. A música sertaneja dos anos 90 nunca teve uma viola de cocho, por exemplo. Este típico instrumento sul-matogrossense que faz a trilha sonora de muitos caboclos da região nunca apareceu. O que ficou foi uma pasteurização, uma clonagem de um protótipo criado.

Essa reprodução intensiva de um mesmo formatinho e o sugamento que fez até o bagaço dessa laranja, ajudaram em muito para que a indústria fonográfica, naquele momento de crise, pensasse por exemplo em voltar os olhos para a renovação. Só se contratava aquilo. O que não era sertanejo, era música internacional. Nada mais foi produzido no país. Os Paralamas, por exemplo, chegaram a cogitar a mudança para a Argentina. Não havia nda no país acontecendo que não fosse "sertanejo".

A culpa disso, é óbvio, não é dos seus representantes. Claro que não. Agora não se pode esquecer também, que mais do que o boom de um movimento cultural, aquilo foi um boom de uma pasteurização, de uma fórmula. Zezé di Camargo & Luciano também o foram. O mérito do sucesso deles está diretamente ligado a essa conjuntura. Se não tivesse sido criado esse contexte estéril, de nada teria adiantado os mil esforços da dupla. Eles seriam só mais dois de milhões e milhões. Eles mereceram o sucesso profissional pois se esforçaram? Sim, mereceram. Mas muitos outros também mereceram e não conseguiram pois o mercado não deixava.

Na saída do cinema, ouvi pessoas cantando "É o amor" como se aquilo pudesse caminhar para um novo resgate burro e estéril como o promovido pela Festa Ploc com o lixo dos anos 80. O Caetano legitimando aquilo também é babaca. A história de vida é uma coisa, a qualidade musical é outra. Aquilo é, em grande parte, muito ruim. É lógico que muitas coisas que essa geração romântico-sertaneja" fez têm qualidades que ficaram minimizadas pelo lixo que era a imensa maioria. Como já falei, eu mesmo, ouvindo "É o amor" no cinema, com Maria Bethânia cantando acapella achei a música muito mais bonita do que antes, quando o único registro que eu tinha era dos vibratos de Zezé com aquele teclado de churrascaria ao fundo.

Outra coisa que me incomodou foi ver o Gabriel O Pensador no palco junto com Zezé, Meio sem graça, ele parecia pensar "Pô, o que vão pensar de mim se eu cantar 'É o amor' com o cara... Deixa eu fingir que não sei a letra" (como se fosse possível alguém com mais de 18 anos não saber a letra dessa música, ainda mais depois de ter acabado de assistir ao filme!)... Para diminuir o contragimento, ele répiou a letra; "É o amor/ Que mexe/ com a minha/ cabeça/ e me deixa/ assim"... Esquisito e constragedor. Gabriel foi um dos grandes responsáveis pelo início da quebra do monopólio sertanejo na década passada, quando "Tô feliz, matei o presidente" entrou da fita-demo direto Rádio RPC e tomou de assalto às paradas nacionais, ajudando até na movimentação dos caras-pintadas em setembro de 1992. Em seguida, o cara veio com Lôraburra e foi contratado pela SonyMusic. Depois do sucesso de Gabriel, a Sony resolveu contratar Skank e Chico Science, por exemplo. Chico, por sinal, se rasgou em elogios para a direção da Sony quando ouviu ainda em pré-produção o trabalho de Gabriel.

Acho que isso é suficiente para essa trilogia se fechar. A música sertaneja dos anos 90 não pode ser legitimada ou adorada a partir do filme, simplesmente porque a vida do cara foi difícil. A opinião de cada um sobre a música dos caras não deveria ser afetada simplesmente pela história do filme. Mas também cada um com seu cada um, deixa o cada um dos outros...

2 Opine:

At 23:24, Anonymous brnd said...

Encerrar este texto com uma frase de pagode pré-paulistização do samba no início do Plano Real? Vem aí mais uma pauta?
Salve Zeca Pagodinho?
A barata da vizinha tá na minha cama?
Quem samba com molejo samba diferente, vixe?

Vixe?

 
At 23:37, Anonymous Bruno Maia said...

Não entendi. Você gostou ou não?
Esse é um dos grandes sambas de Mr. Zeca Pagodinho. Na verdade, a música se chama "Cada um com seu cada um" e é da dupla Prateado e Carica...

Mas e aí? Gostou ou não?

 

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