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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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17.12.06

Amy Winehouse

A Última de 2006

       Ela é uma judia grande, com um cabelão que pode estar todo armado para cima. Morena, com uma pinta/ verruga acima do lábio, tatuagens de si mesma nua no braço, tem um olhar que te deixa na defensiva. Ela é quem sabe o que quer, no máximo vai dar para acompanhar. Isso tudo antes de Amy Winehouse abrir a boca. Depois que se ouve a voz dela, inglesa entre Sarah Vaughan, Macy Gray e Lauryn Hill, só se presta atenção naqueles lábios. É aquela boca que vai comandar o jogo, que vai atrair todas as atenções, que vai provocar insônia e que vai fazer você perceber quantas vogais existem para além daquelas conhecidas.
       Amy canta uma entrega que não se ouve todo dia. Há uma escola de jazz ali por trás, daí a liberdade da voz, a maturidade de uma história que começou a uns cem anos, e que na voz dela é um pouco da alma dilacerada de Billie Holiday, a impetuosidade de Lauryn Hill e o girl power que as Spice Girls todas brincaram de ter. Sim, ela é do Norte da Inglaterra. E feminismo é por aí, esquece as teorias com Quebra-Barraco.
       Um pouco como uma jamaicana ou como uma aluna do scat sem fazer uso explícito dele (scat são aqueles solos de cantores de jazz improvisando, pense em Ella Fitzgerald), Amy decompõe cada sílaba que canta em um mar de fonemas diferentes. Com eles, forma frases melódicas que juntas compõem acordes ora simples ora não. Esses dialogam com a base da música. Muito mais do que cantar as letras próprias que tratam cruamente dos anseios de uma mulher livre, ela usa a voz para solar harmonias à frente de uma banda de timbres contemporâneos e arranjos retrôs.
       Não é sem querer que ela escolheu uma dupla de produtores como Salaam Remi e Mark Ronson. O primeiro já tinha assinado o trabalho do primeiro disco de Amy, Frank. Foi produtor de artistas importantes no hip hop como Nas e Fugees (opa, eu já falei em Lauryn Hill?). O segundo é o filho do guitarrista Mick Ronson, de David Bowie, e produtor de uma nova geração do chamado r’n’b, extremamente pop, mas com sonoridades a serem mais atentamente investigadas, como Robbie Williams, Christina Aguilera e Lily Allen. Nem só de Timbaland e Dangermouse vive o mundo.
       Como vinha-se dizendo, há um ar décadas de 50 e 60 nas músicas de Amy. O naipe de metais pontua os acordes com fraseados soul de um universo que cercava a primeira fase da lendária gravadora Motown. Dá-lhe sax barítono fazendo o grave e um trompete errante tentando furar o peito de quem ouve. E sempre um trombone costurado por ali. A bateria quebradinha e repetitiva é cheia de caixa e sublinha o groove que no fundo vem do baixo econômico e pulsante. Amy ainda toca com conhecimento de causa uma guitarra que pode ir da sofisticação de apartamento à beira-mar da bossa nova a uma batida preguiçosa enevoada de uma linha Bob Marley. Ou seja, a sensualidade do terceiro mundo ali transborda.
       A fuga declarada do jazz é apenas uma forma de disciplinar um excesso de liberdade que é muito difícil de ser compreendido por muitos. Ao se aproximar de acordes mais simples e de uma postura rapper, Amy mantém o atrevimento do qual não consegue se desfazer (depois de boatos na imprensa de que enfrentava problemas com álcool, ela escreveu a música de trabalho e faixa de abertura do segundo disco, Rehab: “they’re trying to make me go to rehab, but I say no, no, no”). Nessa linha de pensamento, andou falando com o site music omh: “Eu sou uma cantora de jazz, mas o meu álbum é puro hip hop... Eu diria que as pessoas criativas do hip hop atual são o jazz de hoje".

       Se ela prefere ser comparada a Mos Def e a Jill Scott do que a Jamie Cullum e a Norah Jones, há de se consentir. Eu não vou nunca discordar daquela boca. O fato é que Amy é uma garota (são 23 anos) que quer falar com mais gente, mas sem deixar de falar o que vem à cabeça. No clipe de I’m No Good, sutilmente coloca o parceiro para cobrir-se debaixo da coberta à meia luz. Elegância jazz sobra. Em Rehab, fala de alcoolismo com uma segurança de quem nem ligou para o problema porque está mesmo é à procura do próximo amor que vai enterrar o último ainda não superado. Elegância e terapia lado a lado. Sedução.
       No primeiro disco, já tinha ganhado prêmios e uma vendagem significativa com um jazz com palavrões de rap. Cantado por uma judia tatuada. Bem cantado. Judia bem tatuada. Agora dá mais um passo para fazer os admiradores da atriz Gina Gershon acharem alguém à altura em estilo, só que mais ligada á música. E a boca...

5 Opine:

At 16:39, Anonymous Lucio K said...

Oi Bernardo, prazer em conhecer seu blogue, muito bom.
Pois é, essa tendência motown/anos 60 tá forte, hein? Vide Gnarls Barkley e agora a Amy Winehouse, que realmente promete.

abs

 
At 01:15, Blogger Bruno Maia said...

Mas esse refrao de rehab é grudento, hein.. heheh
maneira a mulher.. gostei

 
At 19:34, Anonymous Otávio Rilke said...

Cara sou apaixonado pela Amy desde 2004 quando lançou o Frank!
Legal seu texto!
Ainda existem muitas divergências quanto a vida pessoal dela!
E o fato de ela não se importar com o que a impresnsa fala acaba contribuindo com a mistificação!
abs

 
At 19:38, Anonymous Otávio Rilke said...

PS: Tenho uma comunidade sobre a Amy no Orkut, querendo dar uma passadinha lá, esteja a vontade!

 
At 12:21, Anonymous Anônimo said...

Wow! Acabei de conhecer a Amy. Eu tinha uma banda de soul. Me lembro que na época, a minha banda fazia de tudo pra retomar o som daquela época, usando os instrumentos certos, a timbragem. Era quase impossível. Essa mulher me deixou de cara, produção impecável, voz idem. E, o mais irônico disso tudo, é que ela é inglesa! Não nasceu em Detroit! Ha! Que o passado esteja contigo, Amy!

 

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