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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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11.12.06

Entrevista: Pedro Sá (2)

Fotos: Divulgação


A segunda (e última) parte da entrevista com Pedro Sá também foi feita por e-mail. Nela, o foco está sobre o mais recente trabalho do músico, a produção do disco roxo do Caetano, "Cê". A relação afetiva e quase familiar com um dos maiores nomes da cultura pop do século XX - revelada na parte 1 - foi se estreitando até chegar ao estágio atual.

Um disco de indie-rock, disse David Byrne. "O melhor do ano". No ano em que o Arctic Monkeys quebrou recordes históricos da chart inglesa, trazendo o indie direto da internet para o re$$$to do mundo, Pedro revela ter concebido "Cê" desconsiderando todas as referências tecnológicas e de facilidade de comunicação que marcam essa geração do rock. Contradições que, de certa forma, não surpreendem. Afinal, o disco nem é tão rock assim.

Vamos lá então...

(por Bruno Maia)

sm: De que forma se desenvolveu a relação profissional entre você e o Caetano, até chegar no convite para produzir o disco? Você conseguiria elocubrar a razão de ele ter te escolhido ?

PS: Me escolheu por tudo isso que falamos. Sou um cara de bandas e ele queria fazer uma. Então me chamou e agora tenho mais uma. Tenho um diálogo criativo muito rico com o Caetano e ele é muito bom de criar junto, pois é muito generoso e criativo. Mas o fato de eu tocar com o Lenine nos projetos "Na Pressão" e "O Dia que Faremos Contato" foi fundamental para o Caetano me chamar para fazermos o “Noites do Norte”, que foi o começo da nossa parceria.

sm: A caminhada para a função de produtor é um trabalho que se deu especificamente pelo amadurecimento da sua relação profissional com o Caetano ou é mais um direcionamento de carreira seu, que independe do fato de ter sido com ele ou não? Você já tinha trabalhado com o Rubinho Jacobina e com o próprio Caetano antes, mas é nesse trabalho que se afirma essa particularidade do seu trabalho: o de produtor?

PS: Olha eu não defino muito as coisas assim tão estruturadas. Eu gosto de produzir, mas sou um pouco preguiçoso, tanto que, se você reparar bem, sempre divido a produção com alguém. O Kassin é um produtor nato, o Chico Neves é um grande mestre da produção musical. Eu adoro ter idéias e pensar o projeto com um todo, mas sou lento e preguiçoso.

sm: A montagem da banda com o Marcelo Callado e o Ricardo Dias Gomes foi orientada pelo que?

PS: Sempre vi esses garotos tocando com o meu irmão, o Jonas Sá. Conheço-os desde criança praticamente. Lembro do Marcelo, com 12 anos, indo assistir ao MQDS em Botafogo. É muito lindo isso, fazer uma ligação entre o Caetano e eles. Os leoninos se deram muito bem.

sm: Nesse álbum o Caetano volta a trabalhar com o conceito de álbum de banda. Como você mesmo falou, além de produtor, é músico da banda também. Como essas funções se diferenciam dentro de estúdio. Qual é o limite de uma e de outra?

PS: Eu catalisei e organizei as coisas e os papéis. É claro que o Caetano é mesmo o Caetano e já vem com muitas coisas definidas e trabalhadas. Mas eu chamei o Moreno para ajudar na produção, pois ele é gênio e seria impossível fazer um trabalho que exige tanto da minha performance de instrumentista, sem ter uma visão de fora da banda. Chamei também o Daniel Carvalho, que tem uma ligação linda com o Móca e é um técnico de som fabuloso. "Móca" é um apelido muito antigo do Moreno, da época da Escola Parque.

sm: Falou-se muito que "o Caetano lançou um disco de rock". Ouvindo “Cê”, percebe-se, sim, essa referência, mas ele não é, definitivamente, um álbum musicalmente calcado em puras referências do rock. Talvez as figuras do discurso e do texto do Caetano sejam mais próximas do que o rock "pregou" ao longo dos anos do que as soluções musicais. Você concorda com isso? De que forma vocês buscaram essas “soluções” sonoras e as referências para os arranjos das músicas?

PS: Cara, esse negócio de ser Rock ou não é muito louco. Não é um disco de Rock, mas tem o formato de banda de Rock e ao final é também Rock. O David Byrne disse que é "provavelmente o melhor disco de indie rock do ano". Engraçado, né? Fiquei feliz com esse comentário. Na verdade tudo o que é criativo e que tem força é inclassificável, inclusive o próprio rock é assim. De todo jeito, eu sou também um cara do rock, toco guitarra e tudo, mas isso tudo é muito relativo.

sm: Inevitavelmente, a "'época mais rock" do Caetano, a qual ele próprio se refere, é tão longínqua que nem você, nem nenhum dos músicos da banda, viveram. Sobretudo os anos 60 e 70 causam uma espécie de nostalgia em muitos artistas e até no público que defendem aqueles tempos como os melhores e blablabla... O Caetano é um artista que representa essa época, essa força, e ainda tem consigo todo o peso de uma carreira inconteste, de extrema relevância e, imagino eu, os músicos tinham essa consciência de que estavam participando do trabalho de um ícone da cultura do século XX. Você acha que isso, em algum momento, gerou uma certa parcimônia ou um excesso de reverência?

PS: Olha, como já disse, o Caetano é o Caetano. Mas ele mesmo define muito bem aonde acaba o dele e começa o nosso, de uma maneira muito simples e natural. E tudo rolou mesmo de modo simples e natural, como dois e dois...

sm: Em entrevistas, o Caetano citou bandas como Arctic Monkeys, Grandaddy, etc, e até falou de conversas que teve com você sobre elas. O que esse chamado "novo rock" tem de mais interessante pra você?

PS: Acho que a sonoridade é muito boa, principalmente o Arctic Monkeys, que achei parecido com o MQDS. Sinceramente achei Grandaddy meio farofa. O Strokes é muito bom também, o Devendra é fabuloso. Wilco é foda e os Los Hermanos arrebentam muito. O som é estético, não é só "bem gravado", mas faz sentido poético, musical, isso eu acho legal e com isso me identifico.

sm: Essas novas linguagens e ferramentas de comunicação que dinamizaram a música, como YouTubes, MySpaces, Orkuts, softwares de homestudios, ringtones, etc, se comunicam de alguma forma com o novo trabalho do Caetano? Me pergunto se é possível falar-se em um disco de indie-rock, em 2006, sem se considerar essas questões que acabam influenciando esteticamente toda a produção desta nova geração a que nos referimos.

PS: Sinceramente não pensei em nada disso quando fiz o disco.

sm: Vocês todos, da atual banda do Caetano, têm seus outros projetos, bandas, etc. Como é que é partir pra estrada, para um trabalho tão grandioso como esse, e ter que parar essas outras atividades?

PS: Não temos de parar nada. Como diria o Marovatto, tudo converge. Talvez tenhamos de deixar de fazer um show ou outro. Mas o Caetano não faz assim milhões de concertos num ano. Acho um trabalho bem humano e as coisas vão se ajeitando.


sm: Por fim, como é, afetivamente pra você, estar realizando esse trabalho tão grande com o cara que sempre foi uma referência estética e, ao mesmo tempo, pessoal pra você, aos 34 anos?

PS: Uma linda Honra.


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