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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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12.12.06

Morte Anunciada ii

Quem pensar um pouco mais, pode sair lá na frente.

      Já que as pretensões ensaísticas brotaram por aqui, a brincadeira está aberta a quem quiser chegar. O assunto é videoclipe e o futuro, né? Vamos a eles.
      A frase de alguns posts atrás dizia tudo. Zico Góes, atual diretor da MTV, afirmou em tons bombásticos que “apostar em clipe na tv é um atraso”. Seria o fim da tv dos videoclipes, e de tudo que isso significou. Essa segunda parte talvez não. Pois bem, uma pessoa que diz isso certamente sabe o que não é atraso, ou pelo menos sabe por onde tentar achar um rumo pra se adiantar.
      Pelo que tudo indica, e pelo que a história recente do canal indica, o rumo é acreditar que uma opção pelos shows de auditório e de calouros – em detrimento aos programas de videoclipe – é uma atitude de vanguarda. Algo tão fora de propósito quanto, sei lá, achar que o funk carioca agora vai porque o Roberto Carlos gravou Ela Dança Eu Danço com o MC Leozinho no Especial de fim de ano da tv. Primeiro o funk não depende de “agora vai”, segundo não é um Rei que vai trazer a real para os bondes. (É Pedro Alexandre?)
      Ora, francamente. Para usar uma língua hegemônica, e entrar na moda dos ensaios, “don’t believe the hype!”. A opção pelo fácil e imediato não é golpe genial, e não há de surpreender ninguém. E pior, é capaz de não se sustentar. Rápido, diga em voz alta o nome de três vjs da MTV que estejam no ar. Conseguiu? Pensou um pouco antes de falar? Então, vamos adiante: o que conta mais, o carisma deles ou o envolvimento que eles têm com o assunto do canal onde trabalham? Pensa e depois me conta se é por aí que se mede o futuro da televisão. E se você tá achando difícil saber o que conta mais diante de nada e nada, não perde tempo. Vem comigo.

      Os tempos modernos, eles são uma mudança. Quem sempre disse isso foi o Bob Dylan, e nele dá pra acreditar. Então sigamos. As gravadoras não vão deixar de existir. Elas vão deixar de ser como são, só isso. Também, pudera. São novos consumidores, novas músicas, novos suportes, novo rock, niu rave, nova reciclagem, e até novo dinheiro.
      Os mais espertos vêm com aquela saída interessante: música vai passar a ser serviço. A angústia é: mas música já não é, de certa forma, serviço? Porque as gravadoras que ainda dominam o mercado, hoje, têm quase todas uma característica em comum. Foi o que defendeu o Dr Eduardo Senna, no Urbe.
      As chamadas majors são empresas que, pelo menos no início, eram fábricas de eletrodomésticos. Sony, Polygram (era a Phillips), BMG (que foi RCA, da AT&T e da GE), a Victor (que já não existe, mas era a produtora das vitrolas) e a EMI (Electric and Music Industries) são todas frutos de uma estratégia de venda de serviços para abastecer rádios e toca-discos. Música era o serviço água baratinha que elas distribuíam para vender torneiras, canos e etc.
      Pois bem, o mundo girou e a água começou a ser um bem precioso, os discos começaram a ficar mais caros, o cd apareceu e as gravadoras perceberam que podiam vender de novo a mesma coisa para a mesma pessoa, o cross-marketing e a cultura de celebridade fez todo cantor ser um ator em potencial, e um milhão de outras histórias fizeram a indústria fonográfica andar bem e sozinha.
      Inclusive algumas histórias deram bem errado, como a aposta da Sony no mini-disc. Outras deram tão certo que ajudaram no problema: a criação do cd que mais vendeu nos últimos anos, o virgem, por exemplo.
      A questão é essa, com esse novo mundo em que a música não funciona mais em eletrodomésticos, quem pode entrar no lugar são os tocadores de mp3 e os celulares. Aliás, os celulares daqui a pouco serão tocadores de mp3. A não ser que o Ipod e o Zune virem telefones, o que é provável, eles também vão para o mesmo museu da MTV.
      Ou seja, as novas gravadoras terão alguma relação com as empresas de celular, e isso já começou com as casas de show do Rio de Janeiro e de São Paulo, com a estratégia de divulgação da Nokia, com os festivais de rock pelo mundo, com os ringtones e com a Pitty sendo sugada na propaganda da tv. Quer dizer, toma cuidado para não se arrastar no chão, mas eu aposto que você já pagou um ingresso para a mesma empresa que te deixa falar na rua com qualquer pessoa, enquanto você espera o ônibus ou até enquanto dirige (cuidado éim!). Os carros que davam status, liberdade, mobilidade e o bilhete de entrada no mundo adulto dos jovens do séc. XX é o celular do século XXI. E você já percebeu que os jovens são adultos cada vez mais cedo. Mas a gente fala disso daqui a pouco.
      Já que é um ensaio, eu vou pedir pra voltar de um ponto ali que eu acho que ficou bom. Dá uma ouvida e me diz se a gente incorpora isso no arranjo. A Pitty sendo sugada pelo celular, lembra? “Música ser jingle” é uma pergunta diferente de “jingle ser música”. O fato de o Seu Jorge cantar Sagatiba e isso tocar no rádio é só uma provocação boba, ou simplesmente uma picaretagem que deu certo, mais nada. E ainda por cima a música não é boa. Não há nenhum sinal dos tempos aí, só um cara querendo se dar bem com uma cachacinha que entrou na disputa com a Magnífica por meios de divulgação birutas. O Jorge Benjor fez uma WBrasil que era bem melhor, um retrato non-sense dos anos Collor. E divulgava o amigo Olivetto. E teve gente que detestou. As pessoas pensam, os consumidores reagem, o espírito não morre. Música, de certa forma, vai ser sempre serviço, entre outros para o espírito. Não jingle.
      Música vai sempre ser um lugar para o relacionamento, e você pode chamar isso de contemplação, de sexo, de dança, de fim de tarde ensolarado, de reflexão, de venda de roupa, de almanaque do bem viver... Ou até chamar cada hora de uma coisa. Usar combinado com fumaça ou com pílula, sei lá. O fato é que até as novidades não afetam o centro da coisa.
      Se o Tom Zé fala em Era do Plagicombinador e o Beck em cd videogame, isso é muito legal. Só que os álbuns são bons não pelo que os artistas falam para jornalistas ou para leitores de encarte, no fim das contas.
      The Information é um bom disco porque o Beck voltou a ser o bardo folk branquelo sendo loser em terra de negão. Assunto para um próximo texto, prometo. O fato de o disco poder ser reprocessado é um detalhe que pode incentivar djs, dar argumentos para o povo do creative commons, e só. Ou quase só, vá lá. Um disco que oferece uma possibilidade a mais pode ser algo mais interessante (os dualdiscs não são, por exemplo). Mas os djs conseguiriam remixar e fazer mash ups com ou sem essa forcinha. E por mais que a cultura do seja você mesmo o protagonista da sua diversão esteja aí, a maioria das pessoas não vai querer pilotar um disco. Da mesma maneira que um monte de gente ainda prefere não pilotar um filme. Agora, a indústria do videogame só cresce, e isso tem que querer dizer alguma coisa. E tira esse sorriso do canto da boca.

      Essa volta toda faz o texto chegar de volta onde começou. A MTV. O Dossiê Universo Jovem, da MTV, elaborado há pouco mais de um ano.
      O estudo traçou um perfil do que é o jovem consumidor brasileiro, e vem sendo usado como referência no mercado publicitário e nas tomadas de decisões em mesas de reunião. Nele, o retrato da geração de brasileiros que começa a entrar no mundo adulto é a de pessoas individualistas (os computadores são essencialmente pessoais...), sem maiores envolvimentos políticos, receosas em relação à maturidade já que observam de perto a crise dos pais estressados com o trabalho e com a necessidade de, eles também, parecerem jovens para se manterem assim competitivos no trabalho e nos meios sociais.
      A impaciência e a pressa são, portanto, características principais dessa nova galera, acima de tudo bem informada.
      E isso pode ser interpretado de duas formas por um canal de tv que nasceu com Música de nome e missão. Uma, é a de Zico Góes: a ansiedade atrapalha o momento de assistir clipes a ponto de não trocar o canal na hora da propaganda. Se os reality shows e os auditórios salvam, só perguntando para ele. A segunda maneira é apostar em um novo formato de programa de videoclipes, não um que o voto decide a programação, onde o resultado suspeitamente não corresponde à realidade do orkut e do MSN que está ali na tela concorrente, no quarto do mesmo moleque. Tem gente tentando esse segundo caminho.

      Pois é, olha que incrível. A conclusão desse texto, depois de tudo isso, é a seguinte: MTV, na boa, quem é você para anunciar qualquer morte que não seja uma que já tinha rolado?

1 Opine:

At 01:58, Blogger O Anão Corcunda said...

Valeu, o texto tá muito bem construído.

Concordo quase que totalmente quando você diz que os álbuns são bons não por causa do que os artistas falam para os jornalistas ou no encarte. Quase que totalmente. É que o encarte do disco do Tom Zé, por exemplo, o Estudando o Pagode (e o Jogos de Armar também) falam muito sobre a música, ou melhor, até mesmo fazem parte dela. Como você mesmo muito bem falou, música é um lugar de relacionamento, e o encarte, assim como as entrevistas para os jornais, podem fazer importantes mediações nesse relacionamento. Não dá pra desconsiderá-los. Seus efeitos podem mudar a escuta da música radicalmente.

(Além do que, as entrevistas do Tom Zé geralmente são geniais)

Ah, uma coisa é um DJ remixar, é a "profissão" dele - a plagiocombinação que sempre existiu e existirá. Outra coisa é o artista (Tom Zé, no caso), escancarar essa possibilidade para quem nunca pensou em fazê-lo, abrindo mão da "autoria" da "obra".

No mais, acho que esse negócio de "computador pessoal" não existe. Mas isso aí é outro assunto :)

Abraço

 

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