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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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24.7.05

Um Século Ao Encontro Do Punk

O disco começa com uma convocação, em ritmo marcial. A guerra está declarada, chega de beatlemania estéril, o tempo é hoje, Londres afunda e quem vive à margem está ameaçado. Há especulações de que a introdução tenha sido copiada do the Who, em ‘Odorono’, mas se o que importa é a História como ela é conhecida, e 26 anos já se foram desde dezembro de 79, o que importa é que a abertura do terceiro álbum da banda mais esquerdista e menos anárquica e mais sofisticada e menos tosca do punk inglês é a melhor primeira faixa de um disco. Outra tão boa não vem à mente.
Ali o Clash direciona o recado a quem lhe interessa: todos aqueles que vivem no submundo ou na periferia de uma Londres – que pode ser qualquer cidade mais distante com qualquer Margareth Thatcher neoliberal, não importa. A partir daqueles quase três minutos e meio, se inicia a cerimônia em que os pajés Strummer e Jones, com Simonon de luxuoso ponto de equilíbrio (talvez só comparável a George Harrison no rock’n’roll), vão se dirigir aos punks e rastas e mods e two-toners curumins para panfletar e manifestar o que foi o século e o que será o fim daqueles cem anos. O selo na capa do disco, na época do lançamento na Inglaterra, dizia pouco: “18 novas canções da única banda que importa”. Primeiro, não eram 18, mas 19. ‘Train in Vain (Stand by Me)’, o encontro do soul com o ska de guitarras punk, não vinha creditada. Mas além das 19 músicas, o que estava à venda naquele álbum duplo vendido a preço de único era a revolução do rock, a conclusão política e estética de que a união dos guetos dos terceiros mundos (mesmo que em países de primeiro) devia ser mais do que a maior tática de resistência possível, mas a melhor e mais interessante guerrilha de sobrevivência em um esquema estabelecido que seria muito bem definido em ‘Lost in the Supermarket’ e ‘Koka-Kola’: consumista, individualista e sem sentido.
Enriquecidos os três acordes, reorganizado o barulho, sofisticado o discurso, questionado o no-future, e repensado o do-it-yourself, com o produtor meio glitter Guy Fletcher, o Clash enriqueceu o punk e o tornou, mais do que postura e atitude já meio repetitiva (porque fechada), uma forma de compreender o mundo. Para a banda, o punk devia ser mais do que um grito contra uma rainha que não já queria dizer mais muita coisa.
Depois de alistar os espíritos insatisfeitos do mundo em ‘London Calling’, a primeira lição é um cover de Vince Taylor, o rockabilly da década de 50 ‘Brand New Cadillac’. A aula em torno da fogueira para os curumins, ingleses ou não, é a do início do rock: energia, velocidade e groove não são negros ou brancos, e o mocinho de carrão e topete é surpreendido porque a garota nunca mais volta. Não é um disco de heróis, nem de galãs.
‘Jimmy Jazz’ começa mais devagar, com um assobio ao fundo - é um jazz sujo de boteco de beira de Mississipi, com um crooner meio bêbado contando na tradição folk americana a história de um fugitivo da lei charmoso. Década de 40, o bebop ainda não tinha tornado o jazz um som para se estudar, e a boemia ainda era os livros de seus instrumentistas.
Entre anti-heróis e desafios à ordem, o punk é repensado e surge ‘Hateful’ para falar de drogas e traficantes, com uma sonoridade que lembra Bo Diddley, de quem tinham servido de banda de abertura em turnê pelo disco anterior, Give´Em Enough Rope. A levada é pra frente, com uma guitarra atacando junto com as baquetas uma batida meio quebrada e a outra guitarra em acordes soltos, que tabelam com o backig vocal de notas longas. ‘Rudie Can’t Fail’ é um ensaio bacana do que viria a ser dali a dois álbuns ‘I Fought the Law’. Ao invés das guitarras de punk ska da música do quinto disco Combat Rock, ‘Rudie’ tem os metais meio caribenhos e uivos de torcida de toaster em baile de sound system. Ou seja, a América Central, quintal americano de Reagan, entra na dança de London Calling. Nas duas músicas, o personagem é um cara fora-da-ordem, desencaixado e desprecocupado.
Os pajés já se revezaram na narrativa da história, já cruzaram um oceano negro e mestiço, e é hora de falar de bombas franquistas em ‘Spanish Bombs’, antes de se embebedar em álcool de algum cassino de maus-jogadores, para desdenhar de um decadente e famoso Mongomery Cliff acidentado, espatifado e abandonado. Os metais e o tecladinho são esparramados, marcam o ritmo da direita para esquerda e no caminho inverso. Até o solo de sax é desleixado e, como a letra, às vezes tem notas mal pronunciadas. A essa hora da noite a culpa só é da bebida. A denúncia é contra a fama e a solidão, em ‘The Right Profile’.
Quem não se lembrar de ‘Allison’, do Pixies, ao ouvir ‘Spanish Bombs’ deve começar a procurar um remédio para memória. A guitarra é meio cigana, as duas vozes se respondem, a bateria é simples, e a mensagem política é latina, sofrida, com o coração em primeiro lugar (a breguice é minha, não da música, e por isso peço perdão).
Tempo para fugir do roteiro e elocubrar: o supermercado é o ponto de excesso de referências sem sentido, necessidades falsas, direções confusas, e apatia entediante. Não há revolta contra o sistema, só estupefação e um enorme ponto de interrogação quase dócil diante de uma certa impotência. “I’m all lost in the supermarket/ (...) I came in here for that special offer/ Guaranteed Personality”.
Mas vem ‘Clampdown’, firme, incisiva - operários e trabalhadores, é chegada a hora, “anger is power”, a convocação de ‘London Calling’ é refeita e enfatizada com distorções e vocais em alto volume. O ritmo é marcial, de novo, e a rotina de roupas e pontos é a crítica e o ponto de dissuasão.

É então que vem ‘Guns of Brixton’, o reggae/dub de Simonon, o pajé que estava quase calado o tempo todo. Os curumins entendem melhor: sobrevivência, perdão, opressão, humilhação, achincalhe policial, citações a “the harder they come” (acho que é Balada Sangrenta, em português), o filme de Jimmy Cliff que explicou ao mundo um pouco do que os rude boys faziam na Jamaica. Grande momento do disco e da época, comparável a ‘Fuck the Police’, para o hip hop de Nova Iorque. O baixo está em primeiro plano, o que faz a música soar grave e sombria, e o vocal de uma nota só, quase, só reforça a escuridão do gueto de Brixton. É a aliança do noivado que rolava no disco entre punk e reggae, entre os brancos desempregados e os negros imigrantes subempregados. As ruas emergem. O chamado é atingido.

Disso para algo completamente diferente: ‘Wrong ‘Em Boyo’ é um acerto de contas entre dois mal-sucedidos, um deles roubou do outro em um jogo de apostas qualquer. As ruas ainda são o cenário, mas o acerto de contas é entre iguais, e essa é a questão apresentada para a reflexão dos curumins. A música começa como uma baladinha rock nostálgica, pára, atende a sugestão de recomeçar e vira um ska de coro soul/gospel, uma pedra fundamental para o punk/ska, californiano ou não. A historinha da canção é uma parábola quase religiosa, não fossem os termos e tudo o mais, com uma moral ao fim para meio entendedor, a quem a boa música basta.
‘Death os Glory’ é o resumo cínico, e portanto sincero, não se engane, do que é e representa e significa o rock’n’roll e a eterna batalha contra o tempo e a indústria. A mitologia de uma juventude de guitarras em punho passa pelas porradas de guitarra e bateria: “just another story”. ‘Koka kola’ é a mesma história, quase, mas em Wall Street ou nos andares mais altos de prédios de gravadoras ou da Casa Branca (“– I know”), com a cocaína ao lado do dinheiro. Mais uma vez, a fama é coberta de lama em uma lembrança de que o Clash é sim uma banda punk, contra o poder seja ele uma onda de pó ou não.
De repente um piano quase de igreja, parecendo com rocks de arena de um Queen, e temos o épico do punk, as dúvidas existenciais de um soldado ou de um jogador (não faz um certo sentido?), em uma balada daquelas que te dá tempo para pensar depois de cada frase. Mais uma volta aos anos 50. ‘Lovers Rock’, mais bonita e latina, é uma canção de amor politizando o romance, tratando de igualdade e respeito no relacionamento a dois, dos direitos da mulher, “You must know a place you can kiss/ To make... lover’s rock”. Bonito.
A banda se apresenta nas duas músicas seguintes: quatro caubóis com origens diferentes, que apanharam e foram humilhados, mas não estão derrotados e estão aí. Boas linhas de baixo, variações, mudanças de andamento, rock’n’roll bacana.
‘Revolution Rock’ é um reggae a la Bob Marley, com sopros meio r&b e guitarrinha com uáua e delays, tecladinho cheio de pedal e mixagem recheada de efeitos e brincadeiras.Mais um cover do disco, de J Edwards e D Ray, a música tem percussão bem caribenha, e poderia se chamar punk-regae party tal é o clima de festa e celebração entre duas culturas que liderariam a tribo que se fundava ali. Festa e convocação marcial, com garotas, álcool e política: rock’n’roll é por aí.

O disco acabaria assim, mas baixinho soa uma bateria, uma guitarra e o resto. Há boatos de que a música não teria ficado ao gosto dos exigentes Clashes, mas acabou entrando no álbum pela insistência do produtor, sem ser creditada. No entanto, ‘Train in Vain (Stand by Me)’ é uma das melhores faixas do disco, e uma das melhores da banda. É uma história de amor com uma gaitinha ao fundo, com um coração partido pedindo para não ser abandonado, depois de tudo que foi construído junto até ali. Mais uma vez, um manifesto de respeito e companheirismo na relação a dois. É o encerramento do disco, não da lição de três pajés e um baterista.


The Clash começou lado a lado com Sex Pistols, com Bernard Rhodes de empresário, amigo de Malcolm McLaren. Eram duas bandas punks, o Clash mais sério, competente e politizado, o Pistols mais picareta, marketeiro e tosco. A primeira a aparecer foi a banda de Johnny Rotten e Syd Vicious, de quem o Clash acabou abrindo shows. Mas o primeiro disco, chamado Clash, já saiu pela major CBS.
London Calling é o terceiro e mais importante disco do The Clash. Mick Jones, Joe Srummer, Paul Simonon (o da capa, você sabe) e Topper Headon, além de Micky Gallagher e Irish Horns, se reuniram dispostos a gravar um New Testament, mas mudaram de idéia e batizaram o disco com o nome da primeira faixa, a da convocação de Londres.
Como toda banda com dois pajés – três, é verdade – as brigas foram um dos motivos para o fim da banda, mas também para a ascensão da banda. Eram idealistas, de diferentes ideais, metidos, necessariamente pretensiosos, rebeldes, cultos em diferentes lados, e distraídos. Ou seja, você escolhe se quer contar a história do copo cheio ou do copo vazio.
Dentro do copo, não esqueça de dar os goles em punk, rock steady, rockabilly, ska, r&b, soul, regge, dub, calipso, pop rock, hard rock e algo mais que eu não tenha percebido.

Depois disso, vieram Manu Negra e Mano Chao, Rancid, Paralamas do Sucesso, REM, Beastie Boys, Ira!, Libertines, mundo livre s/a, Pixies, toda a new wave, fora mudanças na carreira de Bob Marley e Lee Perry.

Nada a ver (1)

Enquanto revisava o texto, via o MTV Apresenta do Otto. Tem um bandão tocando com ele, com Ganjaman, Rian, Pupilo, não entendi se o guitarrista era o Fernando Catatau. Lá pelo fim do programa, o Otto diz que todos reclamam da dificuldade das letras dele, e tal, e da tentativa em ir facilitando em Condom Black e depois em Sem Gravidade.
Se eu puder mandar um recado ao Otto, humildemente, não facilite. As letras de Samba Pra Burro são muito boas, muito melhores que as de Sem Gravidade.E parabéns pelo MTV Apresenta.

Nada a ver (2)

Muito legal o editorial da contracampo73, este mês. Sobre Clean, eu escrevi isso aqui.

3 Opine:

At 02:06, Blogger Bruno Maia said...

Admito que não consegui ler tudo. Também, já são 2 e tanta da matina. Amanha, tentarei de novo.

Agora, deixe o Otto fazer o que ele quiser, rapá. Desde quando clareza é sinônimo de menos qualidade?

Seu reacionário! hahahah!

 
At 02:06, Blogger Bruno Maia said...

Admito que não consegui ler tudo. Também, já são 2 e tanta da matina. Amanha, tentarei de novo.

Agora, deixe o Otto fazer o que ele quiser, rapá. Desde quando clareza é sinônimo de menos qualidade?

Seu reacionário! hahahah!

 
At 00:25, Anonymous Bruno Maia said...

London Calling está sendo vendido nas Lojas Americanas por R$12,99.

Vale.

 

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