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15.1.06

Los Hermanos 4, o show

Enfim...

Bati a primeira dobra do mar e fui dar bandeira qualquer. Depois de me recusar a ir nos primeiros shows cariocas da turnê do quarto disco do Los Hermanos, fosse por achar que a onda hermética e egocêntrica da banda tinha ultrapassado o talento do grupo em seu último trabalho (no caso da apresentação do Claro Hall), fosse pelos preços abusivos (no Noites Cariocas), fosse pela distância (nos shows das Lonas Culturais), enfim, fui ao show.

A razão da ida foi a confluência de acontecimentos opostos a todos os que me impediram de ter ido até então:
1) Sim, continuo achando o disco egocêntrico e hermético, mas já vejo alguns momentos de grande talento. Além disso, depois de ouvir registros ao vivo desta turnê, tive a sensação de que o show era melhor do que o disco e que o disco ficava mais interessante no show.

2) O preço bem em conta: R$25,00, o par de convites. R$12,50, portanto. Como? Graças a uma amiga que ganhou uma promoção da Rádio Cidade e me passou seu prêmio em troca apenas do valor que ela já havia pago por seu ingresso, antes de saber que a sorte a escolheria.

3) A facilidade, proximidade e aconchego do Canecão.

Conclusão desnecessária: quando a música é oferecida de maneira acessível, ela se torna inevitável e desejada.

Dado isso, o que importa nesse texto é dizer que o carinho que a banda ainda recebe dos fãs é ímpar. Não se vê nada parecido em termos de cumplicidade e confiança no cenário pop brasileiro. Isso é resultado do trabalho construído ao longo de três discos e que ainda ressoa.

(Guarde a próxima frase até o fim deste texto. O show da turnê "4" Los Hermanos é bom.)

O cenário remete à pintura de Rodrigo Amarante que também está na capa do disco. Como já dissera em textos anteriores, Amarante supera Camelo nesse álbum, com músicas, em sua maioria, generosas com o resto da banda e com a coragem de trafegar entre experiências com diferente formas de linguagem nas suas letras. Desde o barroco aparentemente vazio, porém delicioso, em "Paquetá" (Ah, se eu mereço ouvir outro não,/ quem sabe um talvez/ ou um sim, eu mereça enfim (...) que desfeita intriga, o ó/ um capricho essa rixa;e mal/ do imgróglio/ que quiprocó/ e disso, bem/ fez-se esse nó/ e desse engodo eu vi luzir/ de longe o teu farol"), até os clichês pop's da também deliciosa "O vento" (Posso ouvir o vento passar/ assistir a onda bater/ (...) não te dizer o que eu penso/ já é pensar em dizer/ (...) o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer/ (...) se a gente já não sabe mais rir um do outro/ meu bem, então o que resta é chorar"). Essa superioridade de estúdio não se confirma no palco, onde a discrição e as poucas palavras de Camelo ainda soam como um dos grandes charmes da banda.

A idéia de que a banda está "mais fechada em si", que poderia ser a causa do tal hermetismo do disco, ressurge no palco. Camelo, Amarante, Barba e Bruno estam, fisicamente, mais pertos uns dos outros. Juntos, eles ocupam pouco espaço no grande palco, formando um pequeno quadrado (referência ao nome do disco?), como se quisessem simular um clima intimista. Unidade? Talvez. Mas certamente não seria esta forma de ocupação do palco que mostraria ser isso verdade. E não é só. Os quatro parecem realmente mais próximos quando estão em cena, do que no disco. O evasivo Camelo já ri mais dos excessos cometidos pelo expansivo Amarante. Os dois, definitivamente, se completam e precisam, muito, um do outro.

Camelo está cantando cada vez melhor, é verdade. Parece estar cada vez mais ciente da extensão de sua voz e da cara que quer dar a sua obra. A banda de apoio é a mesma de muito tempo e a sintonia que isso cria entre todos é, inevitavelmente, maior. Assim como Os Paralamas do Sucesso que optaram, desde muito, em evitar mudanças no elenco de músicos que os acompanham, o Los Hermanos parecem apostar na mesma tática e isso mostra que, no Brasil, dá certo.

O único e principal senão do show volta a ser o disco. Até antes da última sexta-feira, todas as mais de dez, quiçá, vinte, apresentações do Los Hermanos que eu tinha presenciado se diferenciavam de qualquer outra banda nacional pela intensidade da participação da platéia. Nesse, e apenas nesse, sentido parece que a coisa decaiu um pouco. A platéia parecia reagir muito mais pela cumplicidade e pelo apoio às experiências da banda do que propriamente por uma empolgação com o resultado apresentado. Os momentos de ápice do shows ainda vêm do repertório dos outros discos. Dirá um fã cego: 'mas eles acabaram de ganhar um disco de ouro, o que não acontecia desde o primeiro álbum!'. Sim, é verdade, direi eu. Mas isso também é conseqüência da cumplicidade, do voto de confiança resultante dos bons trabalhos prestados anteriormente. Fato é que o show da sexta-feira, 13 de janeiro de 2006, no Canecão, não foi tão diferente do show de qualquer outra banda mainstream (argh! esse termo...) do país. Fãs empolgados, cantando várias músicas - veja bem, eu disse várias, não disse todas -, mas com destaques para os 'grandes sucessos', ainda que estes não tenham tocado tanto no rádio. "A Flor", "Cara Estranho", "Além do que se vê", "Todo Carnaval tem seu fim", "Retrato pra Iaiá", "A outra" e "Conversas de botas batidas" são as que rapidamente me surgem na cabeça. Do disco novo? Bem... "O vento", "Dois barcos" e as outras bem menos.

De novo o fã cego há de me perguntar: Mas ter vários sucessos na boca da galera, mesmo sem ter tocado no rádio... isso não é muito? Sim, é MUITO. MUITO mesmo! Só que, talvez, seja menos do que o MUUUUUITO que o Los Hermanos podem conseguir e já conseguiram em outras oportunidades, quando o coro altíssimo ia da primeira à última música. Só isso.

Na turnê do disco anterior, "Ventura", a banda não se prendia tanto a obrigação de apresentar o material novo. Tanto que "O pouco que sobrou" raramente aparecia no repertório das apresentações por não ter um resultado tão satisfatório quanto no disco. Isso podia ter acontecido também dessa vez, especificamente com "Os Pássaros" e "Sapato novo", apesar da presença inusitada e bem vinda de um vibrafone nesta última, que, pra mim, é a melhor do disco, elas caem ao vivo. No site da banda, vejo que "É de lágrima" não estava aparecendo tanto na turnê. No Rio, se minha memória já não está me traindo, ela apareceu.

Outras se destacam mais no show do que no álbum. É o caso de "Dois barcos" . Para substituir as que não ficam tão bem, os quatro poderiam ter recorrido mais ao uso de músicas que não estavam mais na turnê de "Ventura". Digo esse 'mais', porque eles o fazem com o renascimento da (linda) "Casa Pré-Fabricada". Esta música, que está nas rádios na (ainda mais linda) versão de Roberta Sá, nunca devia ter deixado de estar no repertório. É uma daquelas que, com o tempo, vai receber mais valor do que na época em que foi lançada.

O trauma que ficou do primeiro disco parece não estar resolvido ainda. Dessa vez nenhuma música do álbum lançado em 1999 aparece no set-list. "Anna Júlia"? Parece que morreu de vez e não reencarnará jamais. "Pierrot" e "Quem sabe", que ainda, de vez em quando, apareciam, com toda a justiça, dessa vez foram relegadas. Será que um dia o Los Hermanos vai descobrir que o primeiro disco deles é feito de ótimas canções? Se um dia eu tirar o Marcelo Camelo num amigo oculto, eu juro que dou esse CD para ele.

Dito tudo isso, o show vale os R$12,50 que eu paguei e até um pouco mais! Volta, então, a frase que pedi que ficasse guardada até o fim deste texto: O show da turnê "4" Los Hermanos é bom.

******************
There isn't photos by now.

10 Opine:

At 15:34, Anonymous Anônimo said...

"Se um dia eu tirar o Marcelo Camelo num amigo oculto, eu juro que dou esse CD para ele."
hahaah, essa foi boa!! Descobri esse blog há pouco tempo, e gostei muito do que li aqui. Parabéns. Gosto do jeito que vc escreve.

Olha, eu fui no show que teve no claro hall. Eles tocaram "quem sabe" no bis, e o Bruno Medina nem no palco ficou...
Acho até natural que eles não tenham mais tesão pra cantar músicas que já estão feitas, e são tocadas, há quase 8 anos, por aí...
Tanto que quando escuto o jeito que eles tem tocado, nas ultimas vezes, as músicas do primeiro disco, até rezo pra que elas fiquem de fora do repertório mesmo! Não é a mesma coisa, entende?
No mais, ainda bem que tenho vídeos e mp3s de outras épocas hermânicas.

 
At 15:37, Anonymous Thiago Brandi said...

eu sou o anonimo

 
At 17:14, Blogger  said...

achei interessante sua crítica, concordo em boa parte dos itens. assisti ao último show no CIE Music Hall, eles tocam Quem Sabe, foi bem legal.
ao contrário do que vc falou, nesse show me pareceu que a maior parte das pessoas cantou todas as músicas, e rolou aquele climão dos shows das turnês anteriores.
o show do 4 é realmente bom...

 
At 17:52, Anonymous Mauricio said...

É, não fui no Canecão, mas no Morro da Urca a galera cantou todas as músicas com mto entusiasmo! Talvez por ter menos gente na platéia, não sei... E foi o melhor show deles q eu já vi, mesmo sem "Quem Sabe" (acho q foi só o q faltou mesmo).

"Casa Pré Fabricada" com a Roberta Sá tá melhor do q a original? Po, não posso discordar mais dessa afirmação. A versão da menina é arrastada, lentíssima, melosa... chata.

hehe, agora chega de pentelhar a paciência do autor-amigo, a crítica tá boa. E eu to com inveja de não ter ido aos shows do Canecão.

 
At 18:44, Blogger Bruno Maia said...

Thiago, obrigado pelos elogios!
Maurício, não entendi o "NÃO posso DISCORDAR mais dessa afirmação. A versão da menina é arrastada, lentíssima, melosa... chata."Não entendi...

De repente foi só um show mesmo abaixo dos outros, mas foi o show que eu vi.. Obrigado pelos comentários e por complementarem as informações. Espero que continuem nos ajudando a divulgar o site!

Grande abraço!
BM

 
At 01:39, Anonymous Mauricio de novo said...

Ué, só quis dizer q eu discordo muito do que vc disse. Não é possível discordar mais, entendeu?
E isso foi sobre vc elogiar a versão da Roberta Sá da música. Eu não gosto da versão.

 
At 01:51, Anonymous Mario Abreu said...

Eu gostei da Critica, porem em vários pontos você parece não querer se entregar ao grande show da turnê do "4"

ex: o show do los Hermanos vale os "12,50 e um pouco mais"

isso parece ser frase de alguém que quer fazer um elogio só que não quer parecer ser um fã, e então erra e apresenta-se duro de mais.

Real mente como um critico: o Show do los Hermanos "4" é "Muito Bom"

como Fã: não ha outro melhor no Brasil, excelente

Obrigado

 
At 11:42, Blogger Bruno Maia said...

Valeu, Mário.
Fiquei feliz com seu comentário pois tinha ficado em dúvida se as minhas impressões do show tinham ficado claras, mas pelo que você disse, acho que tive sucesso em minha intenção.

Sempre gostei muito do trabalho da banda, sim. Não quero aqui parecer nada. Sempre que fui aos shows da banda, eles, por si, faziam com que eu me 'entregasse' ao show, como você mesmo disse. Mas dessa vez, não. Acho que se entregar em um show não é a função de quem assiste. A função de quem FAZ o show é fazer com que o público, quando menos esperar, esteja rendido e entregue. Gostei do show, mas dessa vez, não me vi se arrebatado como em outras oportunidades e acho que isso se reflete nas minhas impressões gerais.


Grande abraço e obrigado, mais uma vez, por ter deixado sua opinião.
Volte sempre!

BM

 
At 13:56, Anonymous Thaísa said...

Boa crítica! Mas acho q o problema n eh exatamente com a turnê do "4", e sim esse show do canecão q foi diferente -fui no dia 15. O show das lonas foi perfeito! Eles tocaram todas as músicas do último álbum -cumprindo a obrigação da divulgação- e outras com o público cantando tudo do início ao fim do show, além de pular muito, claro!
Mas não teve nada do primeiro cd, infelizmente.

Um Abraço!

 
At 10:20, Blogger André Monnerat said...

Bom, eu não gostei do show.
Mas enfim...

 

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