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Bernardo Mortimer
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11.3.08

Trilha Sonora: Sangue Negro

O Sangue e O Som


       Petróleo, período pré-crise do capitalismo, violência e fanatismo religioso nos Estados Unidos: Sangue Negro é daqueles filmes que olham a história para falar do hoje (e há quem diga que, mesmo sem perceber, todos os filmes são assim, até os ruins). Necessariamente nessa ordem, é um filme de Daniel Day-Lewis, de Paul Thomas Anderson, e de Jonny Greenwood. Sem entrar no assunto da atuação e da direção, a música do filme é um dos pontos centrais da narrativa, mesmo que sem chamar tanta atenção.
       Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead e compositor de música de câmara contemporânea, conseguiu uma integração dos sons com o universo obstinado da trama, que dá a impressão de que os temas são o inconsciente alucinado de Daniel Plainview – o protagonista, personagem de Daniel Day-Lewis. A trilha é muitas vezes claustrofóbica quando trata do duelo ganancioso homem x natureza, é acelerada quando quer mostrar o sucesso e o progresso (nisso ajuda a figura da locomotiva), mais rápida perto de vitórias pessoais, mais densa em momentos de busca solitária e até esperançosa quando o sentimento cabe. Dialoga com os cenários naturais áridos e opressivos, criando uma terceira ponta no triângulo violência (sangue) – petróleo (sangue da terra) – ambição doentia (o subconsciente musicado).
       As cordas dos arranjos de Greenwood dão outra dimensão às dissonâncias e distorções que são características da guitarra dele no Radiohead. Em tempos de arranjos de cordas para Acústicos MTV que mudam o lugar da melodia para torná-la grandiloqüente, ele vira as costas para o padrão e busca ambientar sons ‘errados’ (a palavra é dele) para criar os ruídos que vão conversar com a fotografia escura, com os olhares e feições de um fanatismo por óleo ou Deus. Fanatismo esse que se manifesta por dois personagens antagonistas que, ao fim das contas, vão se descobrir de uma só natureza (ou sonho de mobilidade), a da formação de determinado país de ética protestante e valorização do trabalho, da livre e intensa competição, e do mérito individual a todo custo. Tensão e triunfo, portanto, são objetivos principais da trilha, pontuadas com algo de delírio, de solidão do poder (da grana).
       Para explicar melhor, a música mistura partes dedilhadas ao(s) violino(s) com sons pesados e percussivos, que remetem às máquinas. É o sonho e a esperança de um homem sem história contra a força de uma natureza hostil ou de uma tecnologia pesada ainda não domada. É um pouco como o trabalho do Radiohead de OK Computer em diante, que questiona a humanidade dos tempos digitais. Melancolia e espaço sideral introspectivos na banda de Thom Yorke, sonho americano e deserto sem lei expansivos no filme de PT Anderson. No fundo, uma mesma estrada percorrida com música em sentidos opostos e não-contemporâneos, mas uma mesma estrada percorrida com música.
       A “anatomia” da trilha de Sangue Negro tem um tanto de OK Computer até pela influência do compositor polonês Krzysztof Penderecki, uma espécie de ídolo de Greenwood não só pelo lado do trabalho solo como pelo roqueiro. Daí o nome do polonês estar por trás do arranjo de "Climbing Up The Walls" no disco do Radiohead, por exemplo.
       Outra parte da “autópsia” da trilha é – claro – do diretor do filme. Seguidor atento de Robert Altman, Anderson já mostrou a especial atenção que dá à música para contar uma história. Magnólia, afinal, foi todo inspirado em um disco de Aimee Mann. Mais especificamente na música Deathly, dos versos “Now that I’ve met you/ Would you object to/ Never seeing/ Each other again?”. Em Embriagados de Amor, boa parte da desenturmada solidão e da louca angústia do casal protagonista vem dos agudos de He Needs Me, uma música pescada da versão para os cinemas de Popeye, de Altman (filme que, reza a lenda, foi todo filmado sob o efeito de ácido – a música, no caso, é a preocupação cantada de Olívia Palito enquanto o marujo do espinafre não está em casa). Em Sangue Negro, Greenwood aceitou o convite para a trilha e foi se dedicar a glissandos e staccatos por um longo período (o que teria ajudado a empurrar Yorke para o trabalho-solo e o In Rainbows para o fim de 2007) até que, junto com o diretor, somou o melhor que tinha de inédito com músicas já lançadas no álbum Popcorn Superhet Receiver para definir o repertório. Que está todo no youtube.
      Mas tenta ver no cinema, tenta. Ainda dá



       Confesso que estou para fazer esse texto desde o dia seguinte à noite do Oscar, que foi quando eu vi o filme e fiquei chapado. Nesse meio-tempo, saíram textos que tratam da trilha aqui e ali, se interessar vale a leitura dos dois. E desculpa a demora.



Nada a ver

      A MTV vetou mesmo a veiculação de Run, do Gnarls Barkley, com medo de ataques epiléticos.


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