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Bruno Maia
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26.3.06

Graforréia Xilarmônica: um caso a ser estudado.

A necrofilia da arte é papo velho. O gostar de uma banda só porque ninguém a conhece e você pode tomá-la como sua também. Mas um grupo que junta essas duas características não deixa de ser interessante. Vamos lá, falar da Graforréia Xilarmônica.

fotos: Bruno Maia


Atualmente formado por Frank Jorge (baixo e voz), Carlo Pianta (guitarra e vocais) e Alexandre Birck (bateria), o trio gaúcho é um dos grupos mais cultuados do rock brasileiro sem que se saiba ao certo a razão disso. Não, eles nunca foram super-astros de vender milhões. Sim, eles já lançaram disco com apoio de grande gravadora, mas que ninguém comprou. Não, eles não fazem milhões de shows por ano, como um Carbona da vida. Sim, eles têm quase vinte anos de carreira. Definitivamente, é um fenômeno esquisito.

A única certeza sobre esses gáuchos é que a música deles é muito mais interessante do que a média do rock nacional. Ponto.

Antes da banda, os irmãos Alexandre e Marcelo Birck e Frank Jorge já eram vizinhos de casa. “O Marcelo e o Alexandre eram vizinhos de cama”, frisa Frank, aos risos. Refutando em parte a idéia de que o grupo se formou da divisão de várias outras bandas, Alexandre Birck explica que se tratava de “uma zoação de rua, que virou um time de futebol, que virou uma banda. Era tudo muito natural”. Essa intimidade pueril é a chave para se entender o humor que as letras do grupo trazem. A zoação interminável e a quantidade de piadas internas impedem qualquer malandro de acompanhar o raciocínio deles e não sentir que está sendo zoado sem saber. Enquanto um fala, os outros dois riem. Da formação atual, só Alexandre Birck é remanescente da formação original, que nem chegou a fazer um show. “Mas foi de vital importância, pois foi de lá que veio o nome decidido por uma votação, onde cada um escolhia uma palavra aleatória. Depois nós votavamos entre as que tinham sido propostas. Lembro que deu empate entre Graforréia e Xilarmônica. Eu não lembro em qual eu votei”, conta o baterista.

Você já deve ter ouvido a história de uma banda de amigos que começam a tocar, gravam uma fita, as pessoas começam a gostar, a quantidade de shows começa a aumentar.... Pára! Parou aqui. No caso deles, é QUASE isso. “A gente fazia um, dois shows por ano no início”, conta Pianta. “E depois que lançaram a fita-demo?”, pergunta o repórter já imaginando aquela resposta. “Depois? Depois continuou igual”, responde o guitarrista como uma sinceridade absurda. Depois da fita – tudo bem – as músicas se espalharam e as pessoas começaram a cantá-las nas apresentações. “Eu não sei por que cargas d’água, mas desde o primeiro, os nossos show estavam sempre cheios”, lembra Pianta. A química acontecia, mas os shows continuavam esporádicos. Com outras prioridades individuais, a banda alternava um certo culto underground com um quê de mambembe. Um integrante saía, outro entrava, a banda acabava, ficavam dois anos parados, depois os amigos se encontravam, bebiam e resolviam voltar a tocar e assim ia. Um, dois, no máximo três shows por ano e, de repente, um “querem gravar um disco pela Warner?” Hein? (Esse “hein” é só do repórter surpreso, ninguém da banda parece achar nada de anormal nisso.)

Na mais importante aventura do rock nacional nos anos 90, o selo Banguela, comandado pelo gaúcho Carlos Eduardo Miranda e abrigado pela Warner, foi a pedra fundamental para a renovação do cenário nacional tendo lançado bandas como Raimundos e mundo livre s/a, além de ter estimulado às outras gravadoras a investirem em novas bandas. Miranda então chamou a Graforréia para ser uma das bandas a serem lançadas pelo Banguela. Nesse momento, é de se imaginar que a rotina tivesse, enfim, mudado. Mas o guitarrista explica que não. “A banda sempre teve uma rotina própria de ensaiar e criar material. Rolou apenas uma injeção de energia, mas o ritmo continuou o mesmo. A seriedade sempre foi uma faceta que nos acompanhou”. O fim do Banguela na mesma época em que o álbum Coisa de louco II era lançado, colaborou para que o grupo não estourasse nas paradas de rádios nacionalmente. “Aconteceu com o nosso disco, a mesma coisa que acontecera com a demo: se espalhou sem tocar muito na rádio. Até tocava, mas não ao ponto de gerar uma demanda de shows. Nós tínhamos que garimpar essas poucas apresentações”, explica Pianta. Numa época em que os artistas independentes ouvem que o importante é cair na estrada, tocar, fazer muitos shows, a trajetória da Graforréia, ao mesmo tempo em que põe toda essa teoria por água abaixo, a reafirma por completo.

Uma das coisas que o disco trouxe de positivo foi que, pela primeira vez, surgiam shows no interior do Rio Grande do Sul, fora de Porto Alegre. Com essas apresentações, juntaram algum dinheiro e, de forma independente, lançaram um segundo disco em 1998, o Chapinhas de ouro. "Quando o primeiro disco saiu pelo Banguela e não deu certo, nunca pensamos em parar. As coisas tinham voltado ao que sempre foram. Pensamos qual era o próximo passo. O primeiro passo tinha sido gravar o primeiro disco. Gravamos. Qual seria o próximo? Gravar um segundo disco. E assim seguimos, normal", lembra Pianta. E a rotina continuou com seus esporádicos shows, até que, em 2000, a banda acabou oficialmente. “Não teve um porquê. A gente se olhou e estava todo mundo meio de saco cheio e ‘vamo parar?’, vamos. Não houve treta”, explica Alexandre Birck. A combinação de necrofilia da arte com o boom do MP3 fez com que, a partir de então, o culto à Graforréia crescesse exponencialmente. Pra piorar (ou melhorar), os dois, três shows por ano não aconteciam mais. Além disso, o Pato Fu gravou duas músicas de Frank Jorge, Nunca diga (no álbum Televisão de Cachorro, 1998) e Eu (em Ruído Rosa, 2001), sendo que a segunda - uma parceria com Alexandre, Marcelo e Carlo - fez com que os mineiros vencessem a categoria “melhor videoclipe pop” do VMB 2001. Tudo isso ajudou a aumentar “a aura”, a lenda, em torno do grupo gaúcho e de seu principal compositor. Os integrantes começaram a receber propostas de shows, a ver a demanda pela presença da Graforréia crescer, mas eles estavam parados. Entre 2001 e 2003, faziam uma apresentação, no fim de cada ano, esquema Robertão-Rede Globo, numa casa de shows de Porto Alegre. Até que em 2004, uma proposta de um escritório para produzi-los, os seduziu a voltar.

De lá pra cá, o numero de shows cresceu. Já chega a uns cinco ou seis por ano. Em julho de 2005, gravaram um disco ao vivo, que está em fase de finalização, sob a produção de Kassin. Conversar com a banda sobre a rotina dos shows chega a ser engraçado, pois eles vão se lembrando um a um.

- “Ano passado, antes da gravação, rolou um show na festa de uma rádio, que foi legal”, lembra Frank Jorge, sendo interrompido por Birck:
- "Teve aquele de Vacaria... Teve Caxias (do Sul)...”
- "Caxias! Carlos Barbosa... [silêncio para lembrar] Mais recentemente, já em janeiro de 2006, tocamos em Florianópolis. [silêncio para lembrar 2]... Tocamos também duas vezes em Porto Alegre em dezembro...”, completa Frank.

O próximo pequeno passo da história do grupo é lançar este terceiro disco. “Querer, a gente sempre quis ganhar dinheiro com o nosso material, víamos que tinha uma receptividade. Nós queríamos ganhar, tocando. Nunca aconteceu, pode ser que agora mude, mas ainda não mudou”, explica Pianta.

Pode ser, pode ser que agora mude. Mas aí não existirá mais a necrofilia, nem a sensação de que a Graforréia é só sua. E aí? O que você prefere?

*********************
Achei que fosse impressão minha, mas a decupagem das gravações me confirmaram algo que parece inimaginável: durante duas horas de gravação não há registro de nenhum "Bah" e nenhum "Tchê" na conversa com o trio gaúcho. Acredite, se quiser. Eu ainda não acreditei.

6 Opine:

At 12:51, Anonymous Leandro Indrusiak said...

acho q tem duas bandas de POA q tem potencial e qualidade artistica pra segurar uma carreira sem grande massificacao: a Graforreia e o Tom Bloch. sao bandas que nao se prestam ao sucesso massificado, mas sao extremamente criativos, competentes e artisticamente ricos naquilo que se propoem. bandas de nicho, so to say. falta achar um modelo onde essas bandas possam ganhar grana o suficiente pra se manter ativas. com CD nao funciona mto bem, pq venda direta e' dificil e distribuicao por grande gravadora nao acontece mais. e com show tbem e' dificil, pq o "nicho" q curte o som da banda ta distribuido pelo pais, e a logistica de fazer um monte de showzinho pais a fora inviabiliza economicamente a coisa.
me parecia ha uns anos atras que a trama tava criando um canal pra tentar resolver essa situacao, mas nao sei quao efetivo isso foi...

 
At 13:42, Blogger Bernardo Mortimer said...

Outra coisa muito interessante, e que talvez aproxime o Graforréia do Acabou la Tequila (não é à toa que o Kassin vai produzi-los), é como gente de banda gosta deles.
No show recente do Ruído, olhando em volta, sem se esforçar muito, tinham uns quinze integrantes de bandas com um currículo bacana cantando as letras todas. O Ramon, do the Feitos, disse que era o show da vida dele. A galera do Tom Bloch zoou o show inteiro, derramou água no pé do Frank... Nervoso e André (Sapatos Bicolores) assistiram tudo depois de se apresentarem. O Canastra tava lá.
Ou seja, na linha Ramones, se o grande público não conhece, numa boa, o azar é o do grande público.

 
At 18:00, Anonymous Fernando Caetano said...

Puxa, a graforréia é a minha banda preferida!!! muitissimo obrigado!!

abraços

 
At 17:57, Anonymous Felipe Gurgel said...

Bruno,

A matéria tá excelente. Pura nostalgia. Você me fez lembrar o tempo em que comecei a assistir MTV e votava no clipe de Israel´s Son do Silverchair, na parada do Disk. Hehehehehe... Nesse tempo passava um clipe do Graforréia que eu gostava muito, desse disco lançado pelo Banguela. Entrou bem cotado nessa votação do Disk, inclusive, hehe. Depois perdi contato com a banda. Me deu curiosidade pra ouvir de novo.

 
At 11:44, Blogger Bruno Maia said...

Felipe - Obrigado pelos elogios. Acho que vale, sim, voltar a ouvi-los...

Fernando Caetano - De nada. Não há o que agradecer. Volta aê quando puder e tá maneiro.

Bernardo - Me lembrei também da presença do Amarante, do próprio Kassin. E não acho que seja só azar do grande público, até porque me incluo nele. Discordo desse tipo de raciocínio com um pé no guetismo. Quanto menos se aproxima do 'grande público', menos chance de se mudar alguma coisa no cenário geral. E não há como negar que isso é parte fundamental da construção da cultura e da identidade do país. Quanto mais gente legal, com bons trabalhos estiver tocando para o 'grande público' melhor para todo mundo. Muito punkzinho-1980 pro meu gosto, você... Tu é bom, mas vacila... hehehe

Leandro - Bacana a discussão que você propôs. Também não sei qual é o caminho que viabilizaria este projeto. Me parece que a segmentação é o caminho mais natural de todas as mídias, de toda a comunicação e isso talvez gere um espaço mais claro e bem-resolvido para artistas como esses que você citou. Grande abraço,

É isso!

 
At 22:39, Anonymous João Paulo Gama said...

"Conversar com a banda sobre a rotina dos shows chega a ser engraçado, pois eles vão se lembrando um a um." Seria cômico se não fosse trágico. Ou será o contrário? Enfim, mais Graforréia Xilarmônica do que isso, impossível...
Ótima matéria, Bruno! Parabéns!

 

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