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2.5.07

Jornalistas e Artistas

Do You Believe the Hype?



      A confusão é sempre boa, então vamos a ela. Na semana passada, o editor do caderno de cultura Ilustrada, da Folha de São Paulo, Sérgio Ricardo, decretou: “Céu chegou lá”. Em cima da entrada dela na lista de novatos da Billboard, logo depois de ter o disco lançado pelo selo de world music da loja de café Starbucks, o jornalista chamou a atenção para o que chamou de nova princesa da MPB, a quem incumbiu a função de renovar a figura de mulher moderna brasileira, e fazer frente à festa de Ivete Sangalo lá fora. O raciocínio desenhava uma linha evolutiva de Gal Costa a Maria Bethânia a Marina Lima a Marisa Monte ao século XXI.
       Sem querer entrar no mérito do valor de Céu, de quem eu gosto e ainda acho uma das sobremusas aqui da gente, o que me interessa é esse papel do jornalista na hora de determinar de quem chegou a hora. A Folha exagerou? No mês passado, em uma das mesas do Música Chappa Quente, eu vi o Gabriel Thomaz do Autoramas provocar que não tinha nada contra jornalismo musical, a não ser quando vira análise de mercado: esse aqui tem tudo para estourar, aquele precisa soar menos difícil, e abstrações do tipo. Não pude evitar de concordar na hora, mas acho que o assunto merece ir além.
       A Folha de São Paulo é um jornal com pelo menos mais duas histórias recentes de jornalistas que bancaram uma banda e foram parte importante da consolidação daqueles nomes no mercado de shows pelo Brasil, e até fora. Na década de noventa, a cobertura do mangue bit, Chico Science e Nação Zumbi e mundo livre s/a, puxada por Xico Sá era algo que a tal perspectiva histórica só faz chamar ainda mais a atenção. Até em matéria prosaica sobre sushi, a dupla Fred e Chico apareceu depois da mudança para São Paulo, sob um título que brincava com o peixe cru e o caranguejo. E ignorava o fato de que Recife, ora essa, também tem restaurante japonês. Bem, o mangue bit está acima de qualquer suspeita, portanto foi sim um fato jornalístico. Sim, mas o quanto disso partiu de um jornalista torcedor? Difícil dizer. O quanto disso afasta Xico Sá, no caso, da missão dele de informar o público do que é interesse geral? Qual era o peso justo da notícia mangue bit? Eu desconfio da resposta, mas ainda quero fazer outras perguntas.
       Pouco mais de dez anos depois, o Cansei de Ser Sexy surge entre eventos menores de públicos gls, indie, da avant-moda. A afetação é parte da linguagem, do deboche, e o nome da banda só deixa isso mais escancarado. A piada inclui referências pop, uso intenso da Internet, um veterano da noite alternativa paulista, conexões com o mundo fashion. E os públicos da banda vão crescendo e se diversificando, se entrecruzando, se confundindo. Em pouco tempo, Lúcio Ribeiro, então colunista do jornal paulista, adota o pré-fenômeno. Tinha algo novo ali, que incomodava e divertia em doses iguais e excludentes. Pode chamar de música pop, mas na cabeça de um jornalista o nome mais apropriado é assunto. O Cansei de Ser Sexy não demorou para dar capa, e para ser escalado para um palco importante do Tim Festival ainda antes de estar pronto para tanto. A dupla Lúcio-Canseide seguiu firme, e não sei dizer com quanto de espontaneidade. Hoje, o CSS tem nome para gringo pronunciar e está escalado nos grandes festivais da Europa e Estados Unidos. E foi Lúcio quem bancou primeiro. Não dá mais pra dizer que errou ou que pesou a mão.
       Para mostrar que o caso não é exclusivamente da Folha, voltei a década de 80. Quando li Noites Tropicais, a biografia saber-viver do Nelson Motta, guardei na cabeça a capa que o Alfredo Ribeiro (Tutty Vasques, editor do nominimo) deu para Marisa Monte no Caderno B do Jornal do Brasil, na época ainda relevante. Nasce uma Estrela. Marisa tinha lá seus vinte anos, e era apresentada aos cariocas no pequeno palco da extinta Jazzmania. Sem dúvida, mais do que a legitimidade que uma artista precisava de um grande veículo (e acho que ainda precise, embora menos), era a porta de entrada para novas matérias com o primeiro veículo a lhe dar espaço, e mais um monte de coisas.
       As três experiências contadas aqui em cima têm todas particularidades, como a pernambucanice de Xico e Chico, o gosto por discussões acaloradas entre leitores de Lúcio ou a preocupação do Caderno B em manter, na época ainda tinha isso, a cara de vanguarda na cultura do Rio. Casos diferentes de épocas diferentes, mas que indicam uma discussão entre torcida e notícia. A história se tratou de demonstrar que os três repórteres foram certo em experiências que vingaram, mas só é difícil pensar exemplos que foram parar na capa de um suplemento desses e desapareceram porque eles realmente acabaram tendo muito pouco importância. E pode ter sido por falta de consistência artística, de competência na administração da carreira, ou de sorte, pura e simplesmente. Mas tenha certeza que eles existem, jornalista é um povo que erra.
       Quando um leitor que gosta muito de música desconfia do jornalista, ele está mais do que certo. Senso crítico é parte essencial no hábito de consumir reportagens, que dirá ensaios. Mas o jornalista não está errado ao abrir mão de uma frieza do distanciamento da imparcialidade para investir em uma história sobre aquele artista novo tão interessante, e diferente. É o caso de Céu hoje, na opinião de Sérgio Ricardo. E era o da recém-chegada estudante de canto lírico da Itália, Marisa Monte, dos caranguejos da década de 90, e das meninas do Cansei de Ser Sexy.
       O jornal, com os conhecidos filtros de espaço e de editores-chefe desconfiados, é parte do processo dos hábitos de consumo de música. Portanto, nada mais natural do que fazer parte do desenvolvimento de um artista ou banda, ainda mais se rende pauta. Eu, como leitor inclusive, estou curioso pelo percurso de alguém do público de poucos amigos para poucos “especialistas”, para poucos amigos de “especialistas”, até o momento em que de repente toca para uma casa legal cheia, um programa de tv, uma lista de dez mais. E acho que o público em geral também gosta de torcer junto, de achar estranho junto, enfim, de participar.
       Com a Internet e os blogs e sites independentes – outra discussão, eu sei – isso só tende a ficar mais fácil, mais sem controle, mas ainda assim tão importante para a formação de novidades. E o que não dá é para confundir um serviço de jornalismo sério, mesmo que com algum grau de simpatia pessoal ou amizade, com conflitos de interesse – só para citar um caso assim, o da MTV na construção da carreira do Hateen. Banda com um empresário em cargo de decisão, na emissora.
       Mas então a conclusão é a de que o hype pode ser verdadeiro? Pode parecer resposta de tempos 2.0, mas acho que já era assim e você sabe disso. Por mais que um jornalista queira e goste, ele não tem o poder de um jabá em rádio. O artista que ele escolhe para dizer que vai acontecer, baseado no faro de repórter para o que é (será) relevante, só vai dar certo se você for ouvir, e concordar que vale a pena. Sucesso de crítica sempre vai ser uma coisa alheia a sucesso de público, e é impossível dizer qual o melhor. Dizem que os bons mesmo conseguem conciliar os dois. Boa sorte a Céu, pois então.



Correção

      Foi o Bruno que veio em meu favor: "cara, no cpm 22 nao tinha nenhum empresario na mtv.. o que tinha era o fabricio, que era diretor de pgms e era guitarrista do hateen. o japinha do cpm era baterista tb do hateen. depois que o cpm bombou, veio o hateen... mas, ACHO EU, nao tinha empresario nao.." Errei, peço desculpas ao CPM e a você, leitor. Já tá corrigido.



Nada a ver

      Muito legal a cobertura do Coachella feito pelo Urbe. O g1 até começou bem, mas como tem sido, infelizmente, foi perdendo o fôlego na tentativa de fazer blog em portalzão jornalístico. E o citado Lúcio foi melhor do que no ano passado, eu achei.

2 Opine:

At 17:13, Blogger O Anão Corcunda said...

Acho que não há problema algum no jornalista "torcer" para a banda.

Nos exemplos que você citou, fica muito claro que as matérias de jornal só saíram porque já havia prévia aceitação do público em relação aos tais artistas.

Isso dá o valor jornalístico à matéria: reportar que esses artistas já repercutem - e talvez prever que esse mercado cresça...

O que não quer dizer que não seja meio "jabá". E se for? Dane-se, né...

As análises de mercado podem fazer parte de qualquer atividade no mundo capitalista. E podem fazer parte, por isso, de qualquer cobertura jornalística.

(aqui quero fazer um adendo que não acho que jornalismo seja a mais divina das profissões)

O "jornalismo musical", ou qualquer "jornalismo de arte", tem seus problemas, mas será que são problemas assim tão diferentes dos que enfrenta um jornalista qualquer?

O problema, mesmo, ao meu ver, é a hora de entrar a crítica de arte, se isso for de desejo de quem escreve. Acho que é uma tarefa muitíssimo mais complicada, e que exige outros conhecimentos e análises. É quando, por exemplo, a análise de mercado já praticamente não importa...

 
At 15:31, Blogger André Monnerat said...

Acho que foi dos melhores textos que eu li por aqui.

 

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