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22.4.06

Conversa: Patrick Laplan (parte 1)

Fotos: Divulgação
Patrick Laplan é um cara bastante simpáti- co. Acessível e papo fácil. Numa entrevista que já vinha sendo planejada há muito tempo, ele permitiu perguntas que talvez só um grau maior de intimidade permitissem. O detalhe é que nos conhecemos na hora da entrevista e a intimidade era zero. Disposto, sonhador e dedicado, ele chega ao primeiro produto de um trabalho que tem a sua cara: um EP, de quatro músicas, de sua banda Eskimo. E foi sobre isso a conversa que seguiu...


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: falando da história de lançar o EP. Você disse que já tem 16 músicas e que...
Patrick Laplan: São várias horas de riffs, canções, letras... São cinco anos de material, mas muita coisa é de dois anos para cá, que foi quando deslanchou. Como o tempo inteiro fui eu despedindo pessoas, chegou ao ponto que eu virei um déspota! Por isso eu falo que eu sou meio escroto, meio mandão com algumas coisas. Ainda rola uma mão de ferro e o conceito ainda é muito em cima do que eu quero. Espero, MUITO, poder dividir a pedra com o Henrique. Mas uma das coisas que eu fiz de conceito até agora é o seguinte: começamos com o EP, de brincadeira - isso é para dar para jornalista e alavancar o recurso para gravar um disco...

sm: fazer shows...?
PL: A idéia é lançar o disco antes de fazer show, mas acho que não vai rolar.
sm: Mas você pensa em lançar por gravadora?
PL: Penso, penso... Não sei se gravadora, porque hoje esse formato tá meio complicado. Mas alguma máquina por trás vai ter. É necessário. Nem que sejamos nós mesmos ou empresário botando dinheiro. Esse EP já tem versões diferentes das que vão rolar no disco, o que já faz dele uma coisa única. Todas as músicas dele vão estar no disco cheio. A idéia é: fazer um EP, fazer um disco, fazer um EP, fazer um disco... O Beastie Boys faz algumas coisas de EP’s... Alguém me falou que o Beck também faz, que há os discos oficiais e os EP’s estranhos. Mas esse nosso não é um EP estranho. Pelo contrário. É um EP mais acessível do que o disco vai ser. De repente, a gravadora, ou quem quer que seja, não se interesse por lançar os EPs experimentais-nada-a-ver-com-a-banda. Então a idéia é fazer os cd's normais com a idéia inicial da banda e os EPs 'nada-a-ver', 'loucura'...

sm: Qual o passo que existe entre fazer um EP-loucura-e-foda-se e um disco-não-loucura-e-não-foda-se? O que há nesse caminho que os torna diferentes?
PL: Não há nada limitando o Eskimo em conceito, mas a banda tem uma coisa de trilha-sonora... é provavelmente mais sério do que seriam os EPs. Eu não faria um disco inteiro de carreira tipo Kraftwerk, todo eletrônico, com um cara cantando igual a um robô.
sm: O que você faria no meio?
PL: Faria um disco maneiro, músicas lindas... Ou então um disco meio de jazz, ou então todo de dj, mas com coisas pra cantar, sabe?

sm: Você acredita num formato pop, não pop-banal, mas num som mais fácil para o Eskimo ter um alcance maior?
PL: Claro! Cara, isso é tão natural pra mim... Eu ouço tanto Meshuggar e Slayer, quanto eu ouço Sheryl Crow... “Canção para os amigos”, a quarta música do EP, é pop pra caralho. A galera diz que é a música da novela. É pop pra caralho e é isso mesmo! Eu acho linda, a letra é muito triste, e é um lado meu. Eu juro por Deus: o maior conceito que o Eskimo tem, é se expressar. Se eu tenho um lado merda-dream-theater, ou se eu gosto do Yngwie Malmsteen, eu vou colocar! Se eu tenho um lado pop e quero fazer um EP dance, sei lá, eu vou fazer. Se quiser fazer remixes de eletrônico, eu vou fazer...

sm: Você disse que esse projeto começou há cinco anos, que ele já não é mais o que era no início e que várias pessoas já passaram pelo caminho. O que era, o que passou e como você enxerga ele hoje? Ele é melhor do que era há cinco anos?
PL: É difícil explicar. Acho que é mais maduro, eu entendo mais o que eu estou fazendo. Acho também que eu melhorei como pessoa, não estava preparado para lançar naquela época e, graças a Deus, não o consegui...
sm: Você começou logo depois de sair do Los Hermanos? Ou quando você estava na banda já tinha...
PL: Não, já tinha musiquinha, mas não era “tenho uma banda”. Era, enfim... Uma coisa que sempre me irritou – eu não gosto de citar nome porque eu sou amigo de todo mundo de banda brasileira –, eu odeio 99,9% das bandas brasileiras. Sempre odiei, sempre achei uma bosta. Acho que está melhorando, mas ainda acho...
sm: Inclusive as que você tocou...
PL: Não. Eu sou suspeito, mas, por incrível que pareça, eu acho que todas as bandas em que eu toquei se salvam. Com certeza se salvam. O Los Hermanos eu acho maneiro, acho que é uma banda que está top. Não é exatamente o tipo de som que eu gosto, mas eu entendo que eles estão fazendo uma parada nova e pra mim já tá no 0,1%, porque o resto é muito lixo. Sempre me incomodou - e eu sempre quis na minha vida, acho que todo mundo quer - é fazer uma vez o disco que eu vou poder ouvir na minha casa e dizer: 'Do caralho: fiz exatamente o que eu queria. Foda-se se alguém gostou ou não, fiz exatamente o que eu queria. Se vai dar certo ou errado, se alguém mais vai gostar, ótimo'. Em relação ao início, acho que eu estou arranjando melhor as músicas, estou produzindo melhor, apesar de ainda ser um produtor-cru, o EP tem milhares de falhas...

sm: E o Henrique já estava contigo no início do projeto? Ele chegou como?
PL: Amigo da PUC, da época de Los Hermanos, chegou no meio do caminho. Ele já cantava numa banda chamada Infierno. Eu vi um show e fiquei muito admirado. Ele tem uma presença foda, uma luz. Bizarro. Eu tenho os meus músicos favoritos e, se eu fosse ter um projeto, ele estava na lista de quem eu achava que ia ser legal. No início, quando eu estava montando a coisa, eu cheguei a ensaiar com o Henrique uns 5 meses e dispensei ele, só pra você ter uma idéia de como mudou tudo. Eu achava que ele tinha uma voz muito limpa, aguda, que não era muito rasgado, eu queria um cara mais barulhento...
sm: Você pensou em cantar?
PL: Não, não. Eu tenho noção dos meus limites. Um backing vocal dá pra fazer. Se fosse um projeto muito esquisito, vá lá... Gosto muito de cantar, mas sei que sou desafinado.

sm: O tempo passa, você fica montando e remontando uma banda, e agora, 2006, você lança o EP e a sua ‘banda’, que na verdade é um duo. Isso foi uma urgência de que tinha que lançar agora, então vai só com os dois, como estava, ou chegou-se a isso como um conceito?
PL: As duas coisas juntas e uma justifica a outra. Eu cansei de experimentar pessoas. Fiquei quase até o final com um guitarrista fixo que, no final, eu decidi que eu não queria fazer show com ele, um dos meus melhores amigos, foda, que é super talentoso, mas eu ia brigar com o cara. Você começa a dividir as coisas e vê que vai dar merda. Ele vai gravar no meu disco, vai continuar trabalhando com a gente, mas enfim... E com a minha experiência de bandas, Biquíni, Rodox,..., eu aprendi que quanto menos cabeças pra pensar, são menos cabeças pra bater.
sm: E o show? O que você vai fazer?
PL: Vai ser uma galera amiga, contratada.
sm: Ad eternum? Você acha que o duo...
PL: Eu acho, hoje, que é eterno. Amanhã eu não sei. A idéia é que, tendo duas pessoas, eu posso tocar qualquer merda ou então nem tocar nada, posso fazer um disco só DJ, corda e voz... Se eu tiver um guitarrista na banda, eu não posso virar para ele e dizer: ‘cara, foi mal. Esse disco eu quero fazer sem guitarra...’. O cara da banda vai ficar sentido e com razão. Eu quero essa liberdade de fazer um disco sem guitarra, ou sem baixo, ou sem teclado...

sm: Entendi, mas aí eu me permito uma pergunta um pouco mais... talvez... atirada. Isso não vem de uma questão muito personalista do trabalho que é incompatível com o conceito de banda? Não é quase um trabalho solo com alguém te acompa- nhando?
PL: No começo sim. Todo mundo sabe disso e o Henrique sabe disso. As letras são quase todas minhas, as músicas são muito minhas, no disco vão ter uma ou duas letras que são metade-metade. Eu queria explicar o seguinte: no começo, sim, é quase um projeto solo. Só agora que ele entrou, eu juro por Deus, é um peso do inferno, que eu não gosto. É muito ruim carregar isso sozinho.
sm: Você diz artisticamente ou...
PL: Artisticamente. E é muito pesado, muita coisa pra fazer, você tem que produzir, tocar bateria, pensar no arranjo, ficar ouvindo o que ele tá cantando de errado, divulgar... É um inferno. Eu estou num pique louco. Eu gosto de pegar onda e não entro no mar há seis meses. Mas o que eu ia explicar pra você é o seguinte: com a minha experiência de Biquíni Cavadão, eu sei o quanto eu somo para eles, é quase igual a se eu fosse da banda, mas eles têm o limite total de vetar o que eu quero. Pra que ele vai me botar na banda se ele pode ter um cara ali que não vai ganhar tanto, que não precisa estar ali, ele tem um lado bom. E eu posso ter isso pra mim. Nesse disco, a música que o Márcio (Seguin) tocou guitarra, ele era da banda...


sm: Mas você não reconhece uma dificuldade sua em dividir não?
PL: Claro, com certeza. Mais ou menos... Pode se achar que é um trauma de experiências passadas
sm: (risos) Não tinha pensado por aí, não...
PL: Eu acho muito que não é. Assim que eu terminei, eu tentei agrupar o máximo de pessoas possível.
sm: O que me parece é que seja um traço da sua personalidade musical, nesse primeiro momento, te conhecendo agora.
PL: Pode ser. Modéstia a parte, eu acho que eu tive a idéia genial de conseguir poder montar a parada que eu vá poder mudar de banda todo show, todo dia, todo disco e que se a parada andar, eu vou ter dinheiro pra chamar os caras que eu sempre sonhei em tocar junto. Vou dar uma grana pro Zakk Wylde e ele vai gravar uma guitarra, vou pagar o baterista da Fiona Apple e ele vai gravar pra mim... Isso é fora de série, isso é absurdo! Logo que eu saí, eu tentei montar a banda com seis cabeças, todo mundo fazia música. E, só pra tentar reforçar minha tese, quando eu saí do Los Hermanos, eu não era compositor e eu não fazia letra e tentei montar banda logo nessa época. E ninguém fazia porra nenhuma. Posso ter dado azar de ter escolhido as pessoas erradas. A coisa não andava. “Não tá andando? Ninguém faz? Beleza, vou escrever a letra. Ninguém faz? Vou fazer a música...” Maluco não estava fazendo porra nenhuma e...
sm: Mas você gosta de concentrar a criação, de certa forma...
PL: Eu gosto do trabalho de produtor, de estar ali.. Isso é muito escroto, mas você ser o cara que afunila, que filtra é muito bom!

5 Opine:

At 20:55, Anonymous Augusto said...

Sensacional! Se é a parte I, significa obviamente que terá outra né? huauhahu Estarei aguardando... Legal que deu pra entender bem o conceito de tudo, o que está por trás da idéia e tal.

 
At 10:55, Blogger Bruno Maia said...

terá, terá sim, augusto!
Volta aê pra ver. Nos próximos dias, deve estar no ar...

abs

 
At 15:27, Anonymous carol braga said...

que legal! muito boa a entrevista!

 
At 19:36, Anonymous Mayara Veríssimo said...

sensacional!eh muito prazeroso ver a dedicação e vontade do Patrick!sem dúvidas vai dah td certo!

 
At 22:38, Anonymous JJ said...

Sim, o Patrick Laplan é fodão! E o pior de tudo é que, ele tem talento e cacife pra ser fodão!
Eskimo é realmente melhor do que qualquer coisa que toque no Ceará Music, No Atlântida Festival e por aí vai...

 

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