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19.8.06

Ella Fitzgerald :: Ella abraça Jobim

Continuando a falar sobre a trilha sonora da última sexta-feira à tarde, vamos ao segundo disco que tocou por aqui. Na sequência de Universo ao meu redor, veio Ella abraça Jobim.


A versão em CD do (fundamental) álbum Ella abraça Jobim (1981) também foi trilha sonora preponderante nos três meses de Alemanha e reapareceu na tal tarde de sexta-feira a que o último texto se referiu, cumprindo um papel de soundtrack para o flashback de melhores momentos que rolava na minha cabeça. Comprado em Hamburgo, na excelente rede de pequenas lojas Zweitausendeins (ou, Dois mil e um, se traduzirmos), que está espalhada por várias cidades alemãs, por 1,99 euros, o disquinho vale bem mais que isso.

Trata-se de um trabalho caprichado de Ella Fitzgerald, já bem madura. Quando gravou o disco em apenas seis dias, três em setembro de 1980 e mais três em março de 1981, ela já era Ella. O disco é mais um dos lançamentos do importante selo Pablo Records, que na década de 1970 resgatou a carreira de vários grandes nomes do jazz americano como a própria Ella Fitzgerald e Dizzy Gillespie, sob a batuta do famoso produtor e empresário deste ramo, Norman Granz. Inicialmente lançado como um álbum duplo em vinil, a versão em CD traz apenas uma bolacha com 17 faixas, uma menos que a versão original. No caso, Song of the Jet (Samba do Avião) foi quem sobrou. Segundo registros, há ainda uma outra versão do álbum em vinil que traz Don’t ever go away (Por causa de você).

Ella é acompanhada por uma banda americana, na mais correta acepção da palavra, desde a southamerica até os iu-éçêi: o baterista é peruano, Alex Acuna, o baixista, mexicano, Abraham Laboriel, o guitarrista, estadonidense, Paul Jackson e o percussionista é o brasileiro Paulinho da Costa, que devido a sua vital participação no disco, ganhou crédito de Associate producer e agradecimentos especiais de Norman Granz no texto que vem publicado no encarte. Outro brasileiro que participa com solos de violões é Oscar Castro-Neves.

O repertório se baseia em grandes standarts da música jobiniana. Dreamer (Vivo sonhando) é a faixa de abertura e traz um arranjo bem jazzístico, com direito a solo de guitarra de Joe Pass, mas sem prejudicar o espaço para a interpretação peculiar de Ella, que recria as divisões e subidas, deixando tudo com um charme realmente muito especial. O disco vai todo por belas versões, quase todas sobre um formato clássico de jazz, sem grandes invenções a não ser a permanente presença de teclados, em vez de pianos.

O fato de Ella resolver cantar algumas das faixas em português é a grande questão estética que o disco suscita. Tudo bem que a bossa-nova é em português e que um certo orgulho ufanista faz com que alguns se incomodem com o fato de os americanos traduzirem tudo para o inglês, enquanto aqui nós consumimos a música deles, na imensa maioria das vezes, em no idioma deles mesmo. Mas fato é que a preocupação de Ella em cantar algumas músicas em portuguê acaba atrapalhando a interpretação. Fica tudo esquisito demais, conseqüência da péssima (ainda que esforçadíssima) pronúncia dela. Algumas músicas incomodam, como Water to drink (Água de beber). Não sei precisar se Ella optou por isso para tentar se aproximar mais do formato original do trabalho de Jobim, ou se é uma tentativa de homenageá-lo, mostrando o seu esforço para cantar em português. Seja qual for a justificativa, por mais que possa parecer simpático, o resultado é ruim.

Outro ponto parecido é a opção de mudar, algumas vezes, o gênero do objeto das letras. O feminino sempre vira masculino. Ao invés de 'ela é cario2ca', he is carioca. Ao invés de "the girl from Ipanema", the boy from Ipanema. Mudanças que estruturalmente não comprometeriam nem a métrica, nem a melodia. Opto por encarar isso, especialmente nessas duas músicas, como uma homenagem a Tom, porque, na verdade, seja em português, seja em inglês ou japonês, mudar o gênero em função de uma possível má interpretação que se possa fazer sobre a sexualidade do intérprete – e essa é a única explicação plausível que eu consigo achar para justificar uma mudança dessa natureza - é uma grande bobagem.

Mas na verdade, todas essas queixas, são apenas detalhes quase risíveis. O disco é Ella Fitztgerald e Tom Jobim. Só isso já bastaria. E basta.

1 Opine:

At 16:55, Blogger Hudson Santos said...

Disco realmente sensacional

 

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