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25.7.06

Roskilde 2006:: Balanço Final

No meio do nada, como os organizadores de festival na Europa gostam, está Roskilde. Distante cerca de meia-hora de Copenhagem, a cidade – que é mais famosa pelo seu festival anual de rock do que por qualquer outra razão – tem do que se orgulhar. Uma aula de organização, limpeza, segurança, simpatia, estrutura, ideologia e boas idéias.

Roskilde é um festival independente, que há alguns anos tem todos os ingressos vendidos. Recebendo cerca de 75 mil pessoas por dia, dá conta do recado. Desde os campings, que estão aberto a todos, até os acessos e, mesmo, internamente. Há seis anos, a tragédia durante o show do Pearl Jam (quando nove pessoas morreram) parece ter sido definitiva no destino do evento. Ao contrário do que é comum se ver em casos como esses, a segurança não foi aumentada com inúmeros brutamontes desprovidos de neurônios. Não se vê um cara grandão sequer na segurança, e sim jovens normais, homens e mulheres, que têm como únicas armas a calma e a parcimônia. Vestido com os coletes laranjas, eles são apenas parte dos 20 mil voluntários que aceitam doar horas de seus dias pelo evento. Lógico que essa rapaziada tem como recompensa o fato de trabalhar 8 horas em um dos dias do festival e depois poder assistir tudo de graça. Mas pode acreditar, muita gente faz isso só para ajudar. Inúmeras são as senhoras de mais idades ajudando, seja controlando credenciais, seja arrumando espaço para mais uma barraca no camping. Elas não parecem estar tão preocupadas com o show do Franz Ferdinand que vai começar daqui a pouco. Essa moral toda, o festival não tem a toa.

Todo ano, 100% dos lucros do festival é doado para uma causa politicamente correta. Esse ano, a ajuda vai para o Camboja, especialmente para as mulheres de lá. Isso não significa que as bandas toquem de graça aqui, para aparecer bem na foto. Não. É todo mundo pago bonitinho com seu cachê normal. Não é a toa que muitas delas fazem o show integral dentro do festival, em vez daquela coisa diminuta e corrida que, por vezes, se vê. Roskilde conta com apenas um patrocinador, a marca de cerveja dinamarquesa Tuborg. E mesmo assim, a Tuborg só patrocina e não arbitra nada sobre escalações ou “coordenações artísticas”. O sucesso que faz todos os ingressos serem vendidos antecipadamente permite que a organização arrisque mais na escalação. Além de uma grande diversão, Roskilde é uma das principais feiras de música do mundo. Não tem banda ruim. Como disse Fabrício Nobre, -organizador dos festivais Bananada e Goiânia Noise, ambos em Goiânia - logo no segundo dia :“Pode até ter banda fazendo som que eu não gosto, mas banda ruim, não tem”. É (impressionantemente) verdade! Nos seis palcos, têm espaço desde a renovação local até o Bob Dylan. Desde o hype do Arctic Monkeys, até o jazz do Ed Motta. Desde o hiphop grammyado e cheio de cordões de ouro do Kanye West até os pés descalços do Ba Cissoko. Todo artista que sobe num palco não demora a justificar porque está ali. Não tem essa de que é amigo, de que é empresariada por fulano, de usar o festival de trampolim, nem de negociar casting com gravadora. É som bom e interessante a serviço da informação. A sensação é de que o Roskilde te explica o que há de bacana de música no planeta Terra e que você pode conhecer.

Se o Rio de Janeiro tem a Cidade do Rock, Roskilde tem o Estado. Além de uma área muito maior para os shows, se ainda somarmos os campings, os estacionamentos infindáveis, as lagoas para a galera mergulhar, as pistas de skates com telões pelos lados, blábláblá, dá umas 20 vezes o terreno onde acontece o Rock N Rio, quando ele é no Rio. Não bastasse só o tamanho, há o aproveitamento. Não há só shows rolando. Centenas de pessoas – eu disse isso mesmo, CENTENAS – têm a chance de montar suas barracas para vender todos os tipos de produto lá dentro. Desde comida turca até a Hemp House (calma, é de produtos de vestimentas), passando por inúmeras outras lojinhas de roupas, a maioria super cool e vintage. Além disso, diversas obras de arte plástica são colocadas para intervenção do público, como cubos vazados, onde as pessoas podem sentar, escrever, caixas coloridas, portas que ao serem abertas, jorram plantas e você pode se sentar dentro delas, enfim, doideira, porção de coisas bacanas. Tem também a galera que age em prol das boas causas, grupos de conscientização para situação da África, stands para combate a Aids, um palco para pessoas discutirem idéias e assuntos que surgirem na hora. Se preferirem, podem usar o espaço para cantar, recitar um poema, etc... E pode acreditar, o lugar fica cheio.

Para a galera por pra fora, muitos banheiros químicos, que, se não são cinco estrelas, são pelo menos utilizáveis. Para a galera que pode fazer em pé, diversos mictórios são espalhados por todas as partes. O Roskilde não dá mole, sabe que se não colocar nada nas paredes, a galera vai mijar ali mesmo, então, a maioria das paredes tem o seu mictório. Fácil, prático. O esquema só travou um pouco no último dia e a galera precisou sair urinando pelos cantos, mas era ultimo dia, o humor de todos tolerava aquilo.

O tratamento à imprensa também pode ensinar um pouco aos eventos brasileiros. Um enorme corredor é feito de um lado do terreno até o outro, passando por trás dos palcos, de tal forma que os jornalistas tenham facilidade para se locomover de um palco para o outro e cobrir tudo que for possível. Veículos de todas as partes do planeta – até onde pude apurar, o sobremusica era o único do Brasil – e de todos os tamanhos, disputam espaço nos vários computadores e dos roteadores da sala de informática montada para os jornalistas. O tratamento dado a um site independente brasileiro e a CNN é o mesmo, guardado as devidas proporções. Quando se precisa de algo, percebe-se que todos que trabalham estão ali para realmente te ajudar a resolver seu problema e não para desfrutar de autoridade e negar o que quer que seja. Se dá pra fazer, boa vontade não faltará.

As lições que o Roskilde deixa deveriam servir para os organizadores de eventos no Brasil. O público bem tratado é a grande arma que qualquer festival pode ter. Soluções inteligentes em prol da comunicação e da informação é uma via de mão dupla que satisfaz empresários e espectadores, sem falar na mídia. Quem sabe a gente um dia não chega lá. Chega?

2 Opine:

At 20:47, Anonymous lais said...

nossa, adorei o que vc escreveu, se o festival funcionou assim msm serve realmente de exemplo pra todos os setores que contituem um evento brasileiro.gostei tbm da cobertura do site. gostaria de ter ido no festival, deve ter sido mto bom.

 
At 15:49, Blogger jwagner said...

deve ser realmente um festivale tanto!
destaque no seu texto para "onde acontece o Rock N Rio, quando ele é no Rio."! adorei isso! hehehe

 

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