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26.11.06

Show :: Bibi Ferreira & Amália Rodrigues

O cavalo da voz

Fotos: Bruno Maia

Em uma luxuosa sessão espírita, Amália Rodrigues nos visitou pelo corpo de Bibi Ferreira. O espetáculo “Bibi vive Amália” é um desbunde de atuação, uma apoteose artística. A força de um artista pode estar escondida atrás da fúria ou do rebuscamento, da criatividade conceitual ou da espontaneidade da criação. O que Bibi permite é uma contemplação através da maturidade. Trata-se de uma interpretação cheia, efusiva, repleta. Não quero descartar a força e o vigor da juventude, nem tampouco menosprezar a vanguarda e as experimentações que permitem renovar a arte. Contudo, o tipo de espetáculo proporcionado por Bibi Ferreira só é possível a artistas que já passaram por todos os tipos de situações artísticas. Apoteose é o termo que melhor define o que vi. Ela sabe que realizar uma apresentação daquelas exige uma saúde que o tempo não lhe proporcionará muito mais. Por isso, aproveita e deságua tudo numa aula. Como num final apoteótico (olha esse termo aí de novo!), ela parece querer sintetizar a arte e soar definitiva no ofício de “ser artista”.

O Teatro Rival estava cheio. Seja na entrada, na saída ou nas pausas de Bibi, o que se ouvia era ovação. Com uma voz impressionantemente limpa para quem já passou dos 80, ela não fraquejava. O sotaque português, as roupas, as feições, a forma de se dirigir ao público causavam uma estranheza grande. Tudo bem, a gente sabia que ela estava interpretando Amália, mas parecia muito que era apropria Amália quem estava ali. As mãos tremiam delicadamente junto à cintura. Eu não sei dizer se aquilo era uma debilidade que a atriz está de fato passando ou se era mais um item da interpretação completa. Em um silêncio entre duas músicas, o grito de uma senhora rasgou o breu do teatro: “A benção, Bibi!!!!!! Deus lhe abençoe!!! Maravilhosa!!!!”. Novo silêncio. No palco, Bibi (ou Amália?!) fechou os olhos, respirou. E como se estivesse voltado por alguns segundos a aquele palco, sussurrou ao microfone: “A Bibi tá lá dentro. Essa é a Amália. Mas a Bibi agradece”. Ovação. Rapidamente, Bibi se foi e Amália voltou. A quem aquele corpo pertenceu durante os 90 minutos de show, eu não sei dizer.

A vida de Amália foi visitada e contada desde o início. Da carreira, que começou quase por acaso, até a doença que lhe tirou dos palcos já na alta idade. A relação de dependência que a fadista tinha com o carinho e a receptividade do público era impressionante. A platéia preenchia um vazio que havia na alma de Amália. Ter que se retirar do palco foi um mergulho doloroso neste vazio, que acabou por precipitar sua morte.

Apesar de portuguesa e fadista, Amália é representada mais como uma apaixonada pela língua portuguesa e pela gente que criava essa cultura lusitana pelo mundo afora, do que propriamente por um orgulho ufanista. Para quem não é aprofundado no universo de Amália, vê-la cantando “Coqueiro de Itapoã”, de Caymmi, é o ponto alto do show. Para quem conhece um pouco mais, tal crédito vai para “Coimbra”, “Vou dar de beber a dor”, e para as clássicas “Nem às paredes confesso” e “Uma casa portuguesa”.

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Bibi Ferreira - "Coimbra"
vídeo: Bruno Maia


Ao fim, Amália se foi. Devido às palmas, Bibi voltou. Agradeceu e disse do quanto aqueles espetáculos tinham sido importantes para sua carreira. Ao contrário daqueles grupos cretinos que inventam nos EUA para vender discos por todo mundo, Bibi, sim, mereceria o prenome de Diva. Na Inglaterra não tem a alcunha de "Sir" ? Podia ser criada a de "Diva" e ela assinaria Diva Bibi Ferreira.

Sobre a temporada “2 em 1” – considerando as apresentações que faria com a obra de Piaf – disse que seu empresário já pensava em fazer uma “3 em 1”, incluindo o (também elogiadíssimo) show “Bibi in Concert”. A platéia vibrou. A maioria parecia já ter comprado o ingresso para ver Bibi cantar Piaf e, com certeza, também comprariam para um eventual “Bibi in Concert”. Ninguém é besta.


Segundo a própria Bibi já contou em outras ocasiões, Amália, certa vez, após vê-la interpretar a obra de Piaf, teria pedido: "Você faz uma dessas pra mim depois que eu morrer?". Se era sério ou não, não dá pra saber. De certo, só que ela gostou tanto que resolveu descer e participar do show junto. Amália e Bibi num corpo só. A tal da Arte.

*********************
ficha técnica:
"Bibi vive Amália"
Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2006
Teatro Rival

3 Opine:

At 14:06, Anonymous O Anão Corcunda said...

Boa! Bom texto!

 
At 11:10, Anonymous De Palmeira said...

Fala Bruno!

“Bibi vive Amália” foi pra mim uma das maiores surpresas desse ano.

Confesso que nunca a tinha visto ao vivo, fui ao Rival na sexta-feira atendendo ao convite de Regina Casé que daria uma "canja" e no final do espetáculo estava completamente chapado!
Não tive tempo de vê-la cantando "Piaf" mas vou ficar de olho.

 
At 15:59, Blogger Paulo Sempre said...

Amália, sempre!!!

 

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