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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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12.11.06

Conversa com Nélson Meirelles (4)


Na quarta (e última parte) dessa conversa com Nélson Meirelles, ele mostra porque pode ser chamado de Mr. Reggae. O cara dá aula. Literalmente. Origens do reggae, como chegou ao Brasil, o processo histórico, os nomes e lendas, os desdobramentos modernos disso tudo aqui no Brasil e no mundo, etc, etc, etc, etc... Finalmente falamos mais de DigitalDubs e localizamos (quer dizer, ele localizou) o grupo dentro desse contexto, desse momento histórico. Crise da indústria, geração homestudio, reggae iô-iô, dub cascudo e até uma inédita revelação sobre a vida de Robert Nesta Marley. Ou você pensou que já sabia tudo sobre ele? Sabia que o rapaz também participou do Woodstock? Não? Pois é.

Se joga!

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fotos: Bruno Maia
NM: O que eu fiz assim que eu saí dO Rappa foi ir para Portugal para produzir o primeiro disco de reggae de lá, com uma banda de angolanos (Kussondulola) que tinha lá. Foi quando eu conheci o Gussie P., que é um produtor do caralho – eu tô até pra ligar pra ele essa semana –, um inglês-jamaicano que tem várias músicas... É uma fera do dub.

sm: Chegando então ao Digital Dubs. Como surgiu a idéia inicial? Teve alguma coisa a ver com o que você vinha fazendo interminavelmente com o Rás Bernardo?

NM: Não. O Rás foi uma coisa que ficou cozinhando por um tempo. Era a minha lembrança e tênue ligação com o mundo artístico, entendeu? Aquilo foi ficando cada vez mais distante de chegar a algum lugar. Até que um dia, estava eu muito bem em casa, quando abro o Rio Fanzine, naquela última página de promoções (ne: do caderno Rio Show, publicado toda sexta-feira, no jornal O Globo), aparece um desenho: Festa de Dub na Cidade. Era no sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Esse sebo era de um amigo meu, o Marcelo. Final de 2001. Festa de reggae? Dub? Que porra é essa? Liguei pro Marcelinho e perguntei o que era. ‘Não, isso é uma parada do amigo do Maurício (sócio da loja), um tal de Marcos Paulo que tá fazendo essa parada de Digital Dubs. Daí eu falei: ôu, ôu, quero saber que parada é essa aí.

sm: E nessa época você só atacava de fiscal do município, né?

NM: É, tinha essa produção lenta e gradual do Rás Bernardo, que já era quase um hobby. Daí eu tirei um xerox desse anúncio, passei por fax pro Otávio (Rodrigues) em São Paulo e falei: ‘Ô, Otávio, tá rolando essa parada aqui. Vou lá ver qual é’. Cheguei lá e perguntei pro Maurício que parada era aquela. Fiquei curioso. Ele disse que o Marcos Paulo era um amigo dele, que era ligado nesses lances de reggae e dub e que seria bacana que eu o conhecesse. Eu estava começando com o meu estúdio. Ah é... Nesse meio tempo, eu comecei isso. Eu já tinha a vontade de abrir o meu estúdio algum dia, um home studio. Eu tinha escolhido um apartamento, estava montando bem devagar, mas me considerava totalmente fora do mercado.

sm: Mas você estava ligado no que vinha acontecendo musicalmente?

NM: Muito pouco. Ouvia algumas coisas lá de fora, ia nuns shows aqui... Em 1997, eu fui ao carnaval de Notting Hill. Foi uma experiência do caralho e eu fiquei com uma puta vontade de voltar lá. Comprei uns discos... Em 1998 e 1999, eu fui a Nova York, também comprei uma porrada de disco, muita música eletrônica... Acompanhava a festa do Calbuque, a Febre, antes de ir para a Casa do Matriz, achava aquilo do caralho...

sm: Então você não estava totalmente por fora... você tinha uma idéia.

NM: É, mas não me encaixava, não tinha um grupo, um crew, uma galera em que eu me encaixasse. Ficava sabendo das coisas, mas muito em casa. Aí eu conheci o Marcos Paulo e ofereci umas caixinhas de som que eu tinha largadas lá no estúdio para ele reforçar o som da festa. Ele falou: ‘Pô, legal! Você quer tocar também? Traz uns cd’s aí pra tocar”. Eu falei: 'beleza, vou trazer'. Era um lance bem descompromissado. Eu cheguei, pus uns discos, fiz um setlist...

Sm: Mas aí era só de ‘dar play’...

NM: É, eu nunca tinha sido DJ na minha vida. Era eu aqui e o DJ lá. Nas festas que eu fiz na época do Batmacumba, eu nunca pus som. Isso ficava sempre com os meus parceiros. Eu só ficava dançando, sugerindo uns discos... Eu nunca botei a mão numa picape. Pra mim DJ era outra coisa... Eu era músico. Eu não tinha a menor ligação com esse universo. Já o Marcos Paulo era um cara que vinha desse universo, de fazer festinhas em playgrounds... Eu sempre passei ao largo disso. Aí ele achou maneiro, eu curti o que eles colocaram...

sm: Se lembra de alguma coisa que rolou nesse dia?

NM: Ah... Lee Perry, dubs em geral, eu toquei as minhas coisas....

sm: uns Mad Professor...

NM: É, Mad Professor, Black Uhuru, dub, coisa assim. Isso foi em 2001. Em janeiro de 2002, ele programou a festa... Porque o Digital Dubs é basicamente o Marcos Paulo. Ele é o nosso grande líder, o homem que faz aquilo ali andar. Eu estou aqui conversando e ele tá lá ralando no estúdio. Eu respeito pra caralho ele. Acho um puta talento. É mais uma pessoa que eu tenho a sorte de conviver, como foi o Yuka, como foi o Sérgio Mekler. Ele é um achado.

sm: Só uma intervenção: você ainda não disse qual é o seu disco dessa década. Já teve um?

NM: Eu estava falando isso com a minha amiga e fui até a década de 90. Essa década do zero... não sei. Não teve ainda... Ainda estamos no seis, né... deixa chegar mais perto que eu posso te dizer olhando em perspectiva.

sm: Mas não teve nenhum punch ainda?

NM: Hmmm... cara... não sei...

sm: É, se tivesse você já teria se tocado...

NM: É... Ainda não formatei...

sm: Pros outros você não teve que pensar muito pra dizer...

NM: Mas eu também cheguei a essa conclusão há pouco tempo. Eu lembrei da minha infância, Pink Floyd, os anos 80, com Police e Bob Marley e depois o Red Hot...

sm: Saquei, mas e aí...

NM: Aí o Marcos Paulo programou uma festa durante todo o mês de janeiro de 2002, ali na Gávea, no Le Bistrô. Aí ele me chamou. Tem a primeira filipeta onde se lê “Digital Dubs convida Nélson Meirelles”. Ele tinha um parceiro que fez lá no sebo, que fez essa temporada na Gávea, mas no final o cara só queria drum’n bass, não estava interagindo. No início, o Digital tinha uma coisa que era meio chill out, meio eletrônico, um pouco de drum'n bass, mas sempre com o pé no dub. Era uma coisa aí no meio. Hoje em dia, eu posso dizer que a gente abandonou um pouco essa casca inicial até pelo que está acontecendo, pela resposta de público...

sm: Pelo processo autoral também, né...

NM: É, tem isso. Então nós fomos abandonando. Chegamos até a fazer algumas coisas no estúdio, o Muzambinho, meio db. O estúdio só começou a rolar de fato por causa do Digital. Daí, depois dessa temporada de janeiro de 2002, o Marcos Paulo virou pra mim e falou que ele estava marcando umas datas no L.A.P.A, no centro da cidade, e me chamou: “Pô, vamos fazer juntos? O cara que estava comigo está meio em outra onda... Vamos fazer... Você põe os seus discos, eu ponho os meus...” E eu topei e comecei a virar DJ pela primeira vez, cara. Não tinha nenhum cacoete.

sm: E o que que te encantava naquela brincadeira? Era só o hobby da coisa?

NM: Eu tenho uma visão da música, cara, que é meio doentia. Eu converso isso com a minha analista. Enquanto está na brincadeira, na argamassa, cara, eu acho um tesão do caralho! Ir contra todas as lógicas, ir buscando, fazendo diferente... Eu já vivi isso várias vezes... várias. Aí, chega uma hora, pelo menos nas outras experiências, que me dá um bode. Ou fica chato, ou fica burocrático, ou me enrolo pessoalmente, ou minha vida vira para um outro caminho... Mas eu estou achando que com o Digital é diferente, cara. Até porque a gente tem uma relação meio aberta. O Digital é meio articulado. É muito menos opressivo em termos de “tem que fazer isso, isso e isso!” . Tem hora que é festa, tem hora que é estúdio, tem hora que é show, tem hora que é contratar e trazer um cara de fora, sabe? Isso tudo...


sm: Mas é mais tranquilo até porque o formato do Digital também não permite que ele seja uma coisa gigantesca, não é? Ou permitiria?

NM: Acho que sim, cara. Você nunca sabe o dia de amanhã...

sm: Eu digo pela forma que você mesmo está descrevendo, em que ele está estruturado. É quase um enterprise, uma empresa...

NM: Eu já falei pro Marcos Paulo que eu não vou fazer todas as festas. Tem noite que eu não vou por um motivo ou por outro. Ele diz: “Não, tá tranqüilo”. E a coisa já cresceu e não tem muita diferença.

sm: Então, é isso que eu digo. Nesse formato, não é porque a coisa cresceu que você vai estar obrigado a milhares de compromissos...

NM: É... Embora eu ache que isso pode até acontecer. Por exemplo, em setembro nós fizemos dois shows simultâneos em dois estados diferentes da federação! (risos). Um aqui, na Fundição Progresso, que eu fiz com o Kuque, e o outro que era o Rás Bernardo, o BNegão e o DigitalDubs lá em Minas, que foram o Marcos Paulo e o Cristiano. Isso é incrível! Você pegar o jornal de duas cidades e vê anunciado ao mesmo tempo!! Vai pensar que é mentira, mas não é.

sm: Cuidado, porque o último que eu vi assim foi o Olodum, que fazia show em tudo quanto é canto, hein... (risos)

NM: (risos) Que nem o Stomp, né? Cirque du Soleil... Meio filial, né...

sm: Mas aí esse processo do Digital até chegar a gravar se deu em função de quê?

NM: Em função do estúdio. Depois que nós marcamos essas festas todas, no L.A.P.A e mais uma ou outra coisa, pintou a chance de fazer um programa de rádio na internet no VivaFavela, que depois virou VivaRio. Então nós passamos o ano de 2002 fazendo isso. Nesse ínterim, nós fazíamos algumas festas e entraram o Cristiano e o Haroldo Mourão, que escreve no Casseta & Planeta. Mas ele acabou saindo fora. Então ao longo desse ano, nós fazíamos o programa uma vez por semana – me lembrou muito o Batmacumba, na Fluminense –, nos reuníamos e fazíamos um lance que era meio pra ninguém, porque era rádio na internet e isso não estava tão bombado como está hoje. Só que nós passamos um ano convivendo, trocando informação, mostrando discos. O Victor Rice, produtor que hoje trabalha em São Paulo, nós conhecemos nessa época. Ele foi nosso entrevistado. Outras pessoas também. Chegou o final daquele ano, nós chegamos a conclusão de... pô, tinha o estúdio...

sm: Mas no programa de rádio era só tocar música, né? Não tinha ainda nada de compor...

NM: É, nada. A gente só se encontrava uma vez por semana, ali, e fazia as festas de vez em quando. Mas aí nós chegamos a conclusão de que seria mais produtivo irmos lá para o estúdio. O Marcos Paulo já tinha umas composições. A primeira coisa que nós fizemos foi dar uma editada num dub que ele tinha e que virou “Dub n°1”. Depois fizemos outras coisas ao longo de 2003.

sm: Foi aí que você começou a mexer com as coisas de programações em computador...

NM: Eu já tinha isso por conta do disco do Rás Bernardo....

sm: Usava os Reason da vida...

NM: Reason até que não. Usava o Sonar, que era o que eu usava no disco do Rás Bernardo. Eu vinha fazendo aquilo, desfazia, refazia...

sm: E o Rás não te cobrava isso não?

NM: Não, cara... Ele ficou muito à deriva na carreira e na vida dele. Ele ficava muito na expectativa de que ia acontecer alguma coisa, mas ele mesmo não se organizava. Nada saía muito dali. Daí quando chegou 2003, nós passamos a freqüentar mais o estúdio, depois o Marcos Paulo arrumou uma cópia da chave do estúdio e passou a ir lá quando eu não estava... No início, ele só ia quando eu ia. Como nem sempre eu podia estar lá todos os dias... Eu vejo assim, cara. Uma boa qualidade na vida é você ser humilde e sacar. Quando eu vi o Bino tocando baixo, eu falei “Caralho!! Bicho, toca aí!” e dei o meu baixo. Eu vendo o Marcos Paulo, eu quase disse: “Bicho, fica aí com o estúdio”. O estúdio é meu, porque fui eu quem construiu e montou. Mas de lá pra cá, tá muito muito mais na mão dele do que na minha. Eu fico feliz de falar, porque eu acho isso um privilégio de o cara estar lá fazendo o que ele está fazendo. Ele tá brilhando. E é um diferencial no Cidade.. ô...

sm: Cidade Dubs... (risos)

NM: Ato falho... (risos) Marcos Paulo é o cão de guarda estilístico. Não tem uma gota fora do penico.

sm: Uma pergunta que o Bernardo (Mortimer), que não pode estar aqui comigo agora, certamente faria... Bernardo é um árduo defensor da modernização do reggae e de um quase combate a esse reggae de...

NM: Reggae Iô-Iô...

sm: ... de raiz... de cachoeira, né... Digital Dubs também...

NM: Total. Isso é uma bandeira nossa! O Marcos Paulo nem conhece os discos do Bob Marley...

sm: Prefere nem ouvir, né... (risos)

NM: É tipo você, que ouviu Skank antes de ouvir Marley... Ele já nem ouviu Marley! Ele é radical. Você ainda tem a alma de jornalista, de pesquisador, ele... Tem vezes em que eu falo com ele; ‘Pô, como é mesmo aquela música que abre o Exodus, do Marley”, que é o “Natural Mystic”, que eu estava tentando lembrar... Ele vira e: “Eu sei lá qual é a música que abre". Essa coisa que eu ainda trago do vinil, de “qual é a última do lado A”... Eu lembro que a primeira do Kaya, a ...

sm: É, aí eu já não sei. Eu já tive mais contato com outros formatos...

NM: Pois é... A primeira do lado B é o “Misty Morning”. Essas coisas todas ficam na sua... E eu ainda peguei isso com o Cidade Negra, de ter que definir qual a música que vinha primeiro. “Essa abre o lado A... E qual fecha o lado A? Hmmm.. Pode ser essa aqui. E qual abre o lado B, que é o segundo início do disco?!” Cara, tudo isso eram questões que hoje em dia são risíveis. Eu trago isso e sei o valor que isso teve numa época. Até hoje, existe uma seqüência, mas não se tem mais a quebra de página que se tinha antigamente.

sm: Eu não lembro onde foi que eu li que a grande revolução da música recente não foi o Napster e sim quando criaram o botão “Skip”, pra se pular a faixa. Porque aí se quebrou o conceito do álbum, né...

NM: É a mesma coisa com o controle remoto, né... Durante anos se disse que o Roberto Marinho era contra o controle remoto por conta da facilidade que o cara teria de ir pra outro canal... Eu acho que é lenda urbana... Essa coisa do reggae iô-iô, eu já tive a minha fase. Eu já tive 18 anos em 1981, ouvindo reggae iô-iô, que na época não era reggae iô-iô. Bob Marley ainda estava ali, vivo. Aquilo fazia um sentido ali, naquela época. Não se pode querer transportar aquilo. É que nem hoje se querer falar em Police. É até engraçado alguém falar da força que o Police teve...

sm: De Do Do Do, De Da Da Da....

NM: É!!! Mas, bicho, pra quem ouvia Led Zeppelin, ouvir The Police era outro mundo. ‘Como é que é?! Isso aqui...’.

sm: O próprio último disco do Clash, o Sandinista...

NM: É, teve até o Radio Clash que era meio eletrônico. Então, tudo bem. Eu reconheço. Eu entrei no reggae por Bob Marley. Falo isso sempre. Agora não escuto mais. Vem o Ziggy Marley hoje, eu... pô... preferia ver o Damian. Ziggy Marley pra mim é reggae iô-iô de alta grife, falando da paz, do amor... caô do caralho. Marrento...

sm: Só a estirpe, né... o pedigree...

NM: É, um milionário, né... Mas enfim... Então não dá mais pra ficar naquela coisa...

sm: Você acha que passa um pouco pelo processo de...

NM: Desinformação. Primeira coisa. Desinformação que existe no Brasil em todos os setores. Em rock, outras coisas... no hip hop talvez nêgo esteja mais ligado. Mas hip hop não conta, porque já virou mainstream, já virou uma baba do caralho. Mas se você olhar o que era o Public Enemy e o que deu hoje em dia, Putaquepariu! Coitado dos caras...

sm: E tem um lance de tratar o reggae como música urbana, diria o Bernardo... Porque o reggae nasceu nas favelas, de um contexto claramente urbano. Não é uma música de floresta. Pelo contrário, ele é uma música urbana, moderna e ligado à vida de cidade...

NM: É...(reticente) Na Jamaica, é uma música de periferia que, até na Jamaica, ele era considerado periférico. Uma música levada mais a sério.

sm: É, mas não era música de cachoeira. Não era música Raiz do Sana...

NM: Olha só, tinha a vertente do reggae rural, dos caras que vinham do interior, que eram os nêgos matutos.

Sm: Nessa época, lá atrás?

NM: Sim, sim. Tinha. Tinha os caras do Culture, que nunca foram as minhas preferências no reggae. Tinha o The Clarendonian, os trios vocais principalmente... Clarendon é uma região. Ethiopian, essa galera toda do Culture... Se você for ler, se reconhece isso quase como um reggae quase que rural. Como tem o blues eletrificado...

Sm: Eles são contemporâneos do início do reggae mesmo?

NM: Eles são... São daquela fase meio rocksteady pro reggae, virada dos anos 60 para os 70...

Sm: E você acha que essa galera desse reggae no Brasil tem essa informação?

NM: Não!!! É desvirtuação. Essa galera acha que Bob Marley é a fase (do selo) Island, do Chris Blackwell, e o que veio depois, um pouquinho em volta: Culture e, no máximo, vão em Burning Spears. Agora, o reggae tinha uma coisa, não de ficar falando de cachoeira, mas são caras que... Quando eu conheci o Mutabaruka, ele só andava descalço. Ele fala contigo andando descalço, sem camisa. A parada é roots nesse sentido. Espiritual. Não é macaquice. O que eu posso te dizer é que esse lado, na própria Jamaica, já deu uma dançada, de 1985 em diante, um pouco antes de 1990, que teve aquela onda do dancehall frenética, cocaína entrando... isso deu uma mudada. Anos depois, os próprios caras, o Bujo Banton e tal, deram um retorno à onda do roots and culture, e veio o (Rás) Lee & Roots, não sei o quê. Você tem o Luciano, como grande expoente, o Bujo Banton... São os caras meio religiosos, mas já... Pra eles, pros jamaicanos, gravar com computador, tanto faz. O que importa é a mensagem que está sendo passada ali. Agora, o jamaicano é meio rural. A Jamaica é meio rural. Então, o reggae de cachoeira daqui desvirtuou nessa coisa aqui chamada de reggae-iô-iô-cachoeira. Mas o jamaicano tem dentro dele uma certa espiritualidade.

sm: É um iô-iô-cachoeira sério. Não por macaquice. É isso?

NM: Exatamente. Aqui é desinformação. Você vai ver, o que é reggae roots? O que o pessoal considera reggae roots na Jamaica é outra coisa. Roots são os caras que fundamentais, que chegaram lá, vindo do rocksteady... Mais roots que Studio One não existe, entendeu? Essas concepções foram repaginadas e revistas ao longo do tempo e estão aí até hoje. Então, reggae roots, de repente nêgo não considera as paradas do Studio One, do Coxsone Dodd, como roots, entendeu? Tem que ser Bob Marley...

sm: Só Bob Marley, né...

NM: É, o Culture também eles consideram. Mas é desinformado. Sempre tem que ter aquele naipe, aqueles backing vocals que não-sei-o-quê... Eu até confesso que contribui um pouco pra isso, porque o Cidade Negra tinha isso no início, tinha aquele solinho de guitarra, que o Ricardo Barreto fez conosco várias vezes... Esse formatinho assim meio Junior Marvin, no The Wailers...

sm: E qual é o papel do dub e do DigitalDubs nessa discussão estética?

NM: Cara, é focar no que realmente é o centro da questão. O dub pra gente é Lee Perry e King Tubby. Depois é o Prince Jammy, o que esses caras, King Jammy, fizeram e representaram de invenção de linguagem. O Lee Perry é um inventor, cara! É um Da Vinci do reggae. O cara criou coisas. O King Tubby é outro. Se você for analisar, por que disso? E você começa a entender que o jamaicano tem uma ligação muito forte com a tecnologia. Não é só a música, a composição. O brasileiro, por exemplo, pega um violão e, por exemplo, Cartola. Ele vai chegar, vai compor, ‘olha que harmonia linda tal’... nêgo chega e grava em qualquer lugar. Gravou. ‘Tá bonito o violão? Tá bonito. Tá bonito o pandeiro? Tá. Tá lindo...’. Já foi. Pro Jamaicano não. Não é só a música. Tem vezes que a música é um detalhe. Às vezes é o som que aquilo tem. É o baixo que aquilo traz. ‘Caralho, nunca ouvi um baixo tão forte que nem esse’. 'Nunca ouvi uma bateria...

sm: É o grave estourando, né... a coisa bem dos soundsystems...

NM: É, eu acho que já entra a coisa do transcendental africano, o tambor que existe dentro do negão.

sm: Mas até que ponto defender esse ponto de vista jamaicano legitima ou não o que se produz no reggae?

NM: Cara, você vai ver o seguinte. O negão nos Estados Unidos tem a mesma coisa com o funk e com os baixos batendo... É um impacto. A radicalidade do hip hop no início... Scratch é uma puta invenção. E não por acaso foi um jamaicano que foi lá, o DJ Kool Herc que foi lá e começou a botar as bases pros caras cantarem em cima. Depois foi o GrandMaster Flash e a galera e começaram a fazer os scratchs... É uma invenção. Eu não sei explicar de onde isso vem, cara.

sm: Mas a minha pergunta agora é mais provocativa, no sentido de questionar os argumentos que você estava usando de fazer referência a um tipo de som ligado à formação jamaicana do reggae...

NM: É porque se você vai na Jamaica...

sm: E por que você tem que ir na Jamaica?

NM: Porque lá você vê a mesma coisa que eu vi quando fui na Bahia e vi o cara tocando as músicas do Gil, dos Novos Baianos... Aquilo fez as fichas começarem a cair.

sm: Pra você entender a estrada do reggae, tem que se ir à boca do vulcão...

NM: Você tem que... Eu fico falando isso pro Marcos Paulo e para o Cristiano. ‘No dia que vocês forem à Jamaica, vocês vão pirar!’ Porque tem um outro lado que você não aprende lendo, nem ouvindo disco. Você pode sentir isso um pouco na Inglaterra... Saindo no meio dos jamaicanos, você vê... Eles têm um approach com a música que é extra-músical, extra-melódico, extra-letra. Eles têm um lance de tecnologia, de som, de impacto, de massa. Que é o que a galera do baile funk aqui tem. Não basta ser uma musiquinha com um refrão. Se não tiver aquele cavalo quén-quon-quén-quon, nêgo não vai gostar. Vai achar que aquilo é fraco. Vai gostar mais da Furacão ou da Soul GrandPrix em função de quem tem mais potência. Se você entra numa van aqui, talvez você vá ver uma ou outra que tem um som mais incrementado, mais cascudo. Lá na Jamaica você vai ouvir ááállltos sons!!! O cara vai começar a tocar uma seleção de reggae que você não vai querer sair da van! Só o que ele gastou de dinheiro ali pra botar aquele som, com aqueles subwoofers, aquele power! É uma loucura, cara! Você vai na casa dele e, da mesma maneira que eu falei que o cara em Olinda tem os quadros do artista local, você vai ver que lá tem essa coisa do grave... Não é só a música e sim, também, como a música é apresentada. Não é só mandar Lá-Ré, Lá-Ré.

sm: Mas você acha que essa forma como você faz referência – e quase reverência – ao modo como o jamaicano faz, se justifica pelo fato de que eles, de fato, fazem melhor ou pelo lance de ser o berço da coisa toda e, naturalmente, há que se olhar a forma como eles estão fazendo? Ou as duas coisas?

NM: Bicho, quem inventou o futebol?

sm: Os ingleses...

NM: E quem joga o melhor futebol?

sm: A gente. Mas aí é que tá...

NM: Cara, eu li um livro gigante sobre o reggae e tudo que tem ali... Eu vi que tudo que aconteceu na Jamaica, se repetiu em São Luís, no Maranhão. O timing, os ciclos que se sucederam... Como foi na Jamaica? Os caras, os negões, gostavam de R’nB. Jamaica é uma ilha, muito porto, muito navio e os caras que trabalhavam lá, também viajavam muito pra os Estados Unidos a trabalho. Falavam inglês, ficavam lá três, seis meses, um ano e voltavam. Plantação de laranja, tomate e, mais tarde, em fábricas. Bob Marley mesmo trabalhou em fábrica. Bob Marley foi bilheteiro do Woodstock.


sm: Ann?!?! Bob Marley? Bilheteiro do Woodstock?!?! Não sabia disso não...

NM: Ninguém sabe isso! Quem me falou foi o maior expert de Bob Marley que existe no mundo, um norte-americano, o Roger Steffens. Eu fui na casa dele na Califórnia e daí ele falou: “Você sabia que Bob Marley foi bilheteiro, vendeu ingresso, para o Woodstock?”

sm: Isso não está escrito em lugar nenhum? Vou dar essa exclusividade no sobremusica, hahaha!! Bob Marley, bilheteiro no Woodstock...

NM: Ele trabalhava no terceiro turno, na madrugada, da General Motors. Daí, o Woodstock era ali perto... daí... Enfim... Aí os jamaicanos começaram a trazer uns discos. ‘Ah, vamos fazer um sound system’. Então, nada é mais roots que um sound system. Primeira coisa. Quem é aqui que vai ligar um sound system ao roots? Roots é raiz, não é? Origem... Então, origem do reggae é o sound system. Por quê? Porque nêgo fazia o sound system na frente do boteco, armava o bar e ganhava dinheiro. Como? Vendendo bebida.

sm: Como nas escolas de samba....

NM: Exatamente. E a música era o chamariz pra galera. Então eles começaram a fazer isso com o R’n B da galera. Só que aquele R’n B americano começou a bombar e foi indo meio em direção ao rock’n roll, depois ao gospel... Foi virando outra coisa. Mais até em direção a soul, funk e rock. E os caras começaram a se ligar que não havia mais aqueles discos que eles gostavam. Os caras iam-voltavam, iam-voltavam e nada. Estava difícil de achar... A mesma coisa acontecia em São Luís. Os caras iam à Jamaica, traziam os discos... Mas chegou uma hora em que aquilo acabou. Pilha de coisas novas. Quê que neguinho fez ? ‘Eu vou tentar pegar uns caras aí, pra municiar o meu sound system’. Gente de lá, armou um microfone, uma fitinha de rolo, pra ver qual era. Isso é antes do ska, é o proto-reggae da pedra lascada. Aí, na época que a Jamaica bombou, a independência foi em 1962, houve o show da Feira Internacional, aquela feira que às vezes tem, já teve em Sevilha, já deu a Torre Eiffel pra Paris, deu os prédios da Avenida Pasteur no Rio, etc... Esse show foi tipo o show do Carnegie Hall pra Bossa Nova. Essa feira foi em Nova York, a Jamaica tinha acabado de fazer a independência e estava na onda do ska. Fizeram um comitê, representando a delegação da Jamaica, que era só a galera que cantava lá na época. Jimmy Cliff e tal... Em meia-dois. E isso deu no ska.. Eu vi, há pouco tempo, uma entrevista com o Coxsone Dodd em que ele fala: ‘Eu nunca imaginei que eu podia fazer um disco e vender’. Porque ele fazia a música pra tocar no sound system. Fez sucesso? Ótimo. Não fez, outra... E aí começou outro soundsystem, que fez o seu estúdio. Primeiro veio o sound sytem, depois vieram os estúdios. Daí, surgia um concorrente que fazia o mesmo. É como se a Furacão fizesse o seu estúdio e a Soul Grand Prix fizesse outro. Em cada estúdio, um naipe de músicos... Só que lá nunca teve uma major. Aqui no Brasil, sempre ficou em função da CBS, e tal... Até teve a Rosembrinck no nordeste, mas... Lá, como a coisa era menor, guetão, a tosqueira deu a independência. Que é uma coisa também que... É uma filosofia a ser pensada. É mais ou menos como eu venho fazendo. Começo uma coisa, paro.

sm: Aí você chega num outro ponto que eu queria tocar. Você falou da tosqueira que gera independência. Nos últimos anos, se observou bastante o surgimento de uma chamada “geração homestudio”, mais nova que você, que cresceu produzindo nesse formato, e que, pra sorte dela – ou por conseqüência – teve toda a revolução digital da música que retro-alimentou isso.

NM: É, e que está derrubando as gravadoras... Na Inglaterra, eles chamam de “Bedroom studios”. A Jamaica já ensinou isso pra nós desde os anos 50! Os primeiros sound systems são da década de 40! Quando fortaleceu, cristalizou... Em 1945, já tinha gente tocando e fazendo coisas. Nos anos 50, formatou-se e de 1960 em diante, eles vêm ensinando essa independência. O ‘do it yourself’, dos punks, neguinho lá já tinha feito. Isso é incrível. Não é por uma consciência, é só pela tosqueira de ‘óh, bicho, não tem. Então, como é que faz?!’. Eles faziam uma guitarra com arame, lata de sardinha e linha de pescar! Olha só, cara!

sm: E como é isso pra você? Um cara que não é jamaicano, que cresceu em um outro formato de indústria, foi empresário de banda, trabalhou nesse mercado, e hoje está num projeto que fundamentalmente depende e gosta de depender, eu acho, dessa nova mídia, desse contexto. Qual é a sua relação com isso, primeiro, desde que você voltou a mexer com música em 2001 e, segundo, qual a sua relação estética com essa geração, com essas novas ferramentas e com esse novo cenário?


NM: A gente está totalmente inserido, né... Eu me sinto completamente identificado. Eu estava conversando outro dia, num aeroporto, com o Lucas Santanna e nós chegamos a mesma conclusão: cara, essas gravadoras têm que falir todas! Acabar esse desperdício de emprego, entendeu?! Inadmissível um diretor de gravadora ganhar tanto quanto ganhava... Se bem que hoje em dia eu já nem sei se ganha... Elas estão se fundindo pra se manter mais um pouquinho. É tipo gelo derretendo. Estão minguando, perderam o bonde, não têm noção. Hoje em dia, a distribuição digital é que vai bombar. Daqui a pouco não vai se comprar nem cd, você só vai fazer download direto pro celular! Eu sou um cara que não tem nem celular, abdiquei disso, mas eu adoro essa idéia. Acho totalmente...

sm: Mas isso não é contraditório? É uma atitude meio provocativa?

NM: Não... é.... Na verdade tem um lance meio provocativo...

sm: Um ato de rebeldia... (risos)

NM: É, exatamente! (risos). Que nem até hoje eu faço cheques com o símbolo anarquista antes do número... Eu faço o símbolo do anarquismo no início e no fim, sempre... (risos). Existem coisas que eu resisto. Cara, eu paro pra pensar e fico contente comigo de ter feito esse caminho todo. Eu penso que se eu tivesse no Rappa hoje em dia... Pô... eu ia estar em outra situação... essa coisa de banda, de grande gravadora... tem uma hora que fica chatérrimo. Acho essa aventura do DigitalDubs muito mais interessante, em contato com o que está acontecendo na rua, a maneira como é feito...

sm: E você ousa imaginar o que é um 2007 para o DigitalDubs, por exemplo? Nesse contexto de velocidade, dinamismo, de se ter toda a cadeia à sua disposição e ao mesmo tempo ser nada nessa cadeia, porque está todo mundo lá e...

NM: A gente consegue pagar as nossas contas, cara. Eu gostaria que a gente chegasse a um padrão de trabalho mais intenso, com mais gigs...

sm: Mas sair em gig juntos ou nesse formato de um estar aqui e o outro em BH? Ou tanto faz?

NM: Cara, a gente está querendo formar uma banda pra trazer alguns cantores e...

sm: É, essa é uma das grandes questões do DigitalDubs: ser uma banda ou não ser...

NM: É, a gente mesmo não sabe... As pessoas perguntam de que maneira nós vamos nos apresentar, dessa ou da outra?, tem gente que gosta só de um formato, não gosta do outro...

sm: Vocês gostam de todos os formatos ou têm preferência por algum?

NM: Olha, eu como músico, originalmente músico, adoro o formato banda. Não precisa ser 20, pode ser meia dúzia de caras. Eu ainda gosto muito de tocar baixo, ainda me sinto um baixista... Mas também gosto de estúdio pra caralho. É um puta prazer pra mim. Pô, agora a gente acabou de fazer um riddim novo que eu estou adorando ouvir... Cada vez que eu ouço... Aprendi a gostar de ser DJ, um lance que eu nunca imaginei. É uma ferramenta nova que eu tenho, que eu não tinha e à qual eu era avesso. Da mesma forma que o Marcos Paulo sempre desdenhou dos discos do Bob Marley, eu sempre desdenhei dos DJs...

sm: E qual é a função de se lançar alguns riddims em cd? Porque, de fato, vocês não saíram em turnê. Aquilo rola ali nas festas, tem alguma coisa na internet... Por que então lançar um cd se essa não é a mídia de vocês?

NM: O vinil ou o cd?

sm: Alguma das duas é?

NM: Lógico, a gente está, semana sim, semana não, tocando o vinil. Então, o compacto de 7” é mídia nossa e nós a usamos direto. Cd a gente não usa muito na discotecagem, a não ser se nós formos tocar o nosso lance autoral... ou o nosso disco ou coisas que nós acabamos de fazer no estúdio e que ainda não tá prensado. A gente gostaria que, um dia, tá aí, uma boa coisa para 2007, que o mercado de vinil se reaquecesse no Brasil.

sm: Mas já está melhorando um pouquinho, não tá?

NM: Acho que sim... Acho que o Digital tá ajudando a dar uma visibilidade ao vinil, independente de ser reggae...

sm: Mas desculpa te interromper... Quando eu falo desse formato de mídia, eu quero dizer que o DigitalDubs não trabalha nesse formato de ter que precisar de um cd para estar no Rio Grande do Sul, por exemplo...

NM: Mas nós temos várias coisas na internet. Estamos assinando até coisas fora do Brasil pra download...

sm: Exatamente! É isso que eu quero saber. Por que que, num contexto como esse, ainda é interessante para um grupo como o DigitalDubs, que aposta nesses caminhos da internet e de alta dinâmica de comunicação, ter um trabalho lançado em Cd? Um formato que tem uma grande dificuldade de distribuição, que acaba tendo uma tiragem limitada...

NM: Porque o Cd ainda faz sentido.

sm: Para um grupo como vocês, também faz?

NM: Claro, faz no dia-a-dia. Como não faz? Nós fizemos 1000 cds que nós vendemos em lojas, vendemos nas festas... Através disso, as pessoas conhecem o nosso trabalho. Através disso, elas vão gostar de cantar as músicas, de ir nos nossos shows. Então é uma mídia que ainda faz sentido. Nós estamos trabalhando com as armas que tem aqui: “oh., tem tacape, tem borduna, tem 9mm e tem metralhadora!” Nós vamos usando as armas que estão aí. Se daqui a pouco acabar tacape, ‘ninguém mais usa isso’. Beleza, nós paramos de usar. É assim, cara. O que está por trás de tudo é você passar o seu trabalho adiante. Como é que se faz isso? “Ah, agora é por telefone”. Beleza. É nós! Só telefone, só ringtone?! Ôpa. Outro dia eu vi o João Marcelo Boscoli dizendo: ‘o nosso business é música. Música está sendo vendida como? CD. Então eu faço Cd’... Se amanhã for spray, eu faço spray. O DigitalDubs tem uma ligação romântica e até intensa com o vinil. Por que disso? A gente está muito linkado ao mundo do reggae atual, ao mundo do reggae não só no Brasil, até porque o mundo do reggae no Brasil não existe. Sabemos que estamos entre as pessoas que estão nele tentando fazer coisas novas. Mas nós estamos sintonizados com o mundo. Como é na Alemanha? Lá o cara vai tocar com um vinil 7”. Então, o que a gente fez? Fomos na Jamaica e mandamos prensar um 7” nosso, que é vendido nos EUA e no Japão. E nós mandamos para os soundsystems na Alemanha, na Inglaterra e pode ser que, um dia, o cara toque. Nossa idéia é fazer mais discos desses, com versões em vinil, pra que a gente chegue aonde? Qual é o roots do reggae? É o soundsystem. A gente quer chegar e ocupar os soundsystem que é onde, entrou década, saiu década, o reggae continuou se apurando.

sm: E montar essa estrutura no Brasil também...

NM: Um dia nós vamos ter as nossas caixas de som e seremos a Furacão 2000 do reggae.

Sm: É essa a idéia...

NM: É uma das idéias. Assim como ter uma banda, Muzamba Digital All Stars, pra receber os caras que vem de fora e querem fazer show com uma banda. Porque tem cantor que prefere tocar com um grupo do que com um soundsystem. Tem gente que prefere o soundsystem, o mic e o DJ, outros preferem a banda. Beleza, nós fazemos os dois. Qual é a idéia por trás disso? É passar a cultura do reggae adiante. É borduna, tacape, metralhadora e 9mm. Se amanhã acabar a 9mm, não tiver nem mais bala pra vender, a gente vai de soco, de pedrada... É isso.

sm: Cara, acho que é isso. Quase 4 horas de conversa. Só me resta agradecer tanta generosidade... (risos)

NM: Mais completo que isso, impossível... (risos)


Bruno Maia: Pois é... Oi, moço... Você pode trazer a nossa conta?

*******************
Ufa! Tá aí. Um registro de uma das principais histórias do reggae e da música pop brasileira. Tomara que venham outros. Obrigado a todos que acompanharam essa "minissérie" de 4 capítulos. Obrigado ao Nélson, pela generosidade de me conceder uma entrevista como essa.

5 Opine:

At 18:13, Anonymous Anônimo said...

muito muito muito muito muito obrigado!!!!

 
At 19:59, Anonymous Anônimo said...

Enfim o fim.
A tão eperada ultima parte da entrevista.
Aliás, isso não é entrevista, não é perfil, não é mini-série.
É a biografia completa do meu velho sócio.
Parabens Bruno! Sobremusica tá cada vez melhor.
Nelson, sou cada vez mais seu fã.
(e não esqueci o Pé de canalha, não.)
abs
raul

 
At 15:31, Blogger Bruno Maia said...

Essa sociedade só faz crescer Raul!!
Obrigado pelos elogios. Fernando, idem. E o salves continuam indo para Nélson, a lenda!

 
At 17:05, Blogger marco homobono said...

ih, olha! até o meu "primo" raul mourão na área. que beleza!!!
mantenho as palavras de outrora.
tenho sido um propagador do sobremusica. as minhas "vítimas" gostaram da recomendação. essa saga do nelson meireles só vem engrossar o arsenal de atrativos.
parabéns, macacada.
um grande abraço.

 
At 20:14, Anonymous Anônimo said...

affff... quando procurei algum artigo sobre o Nelson, não esperava uma entrevista dessas...
Parabéns!!!!!! e obrigada....

 

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