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20.12.06

Show :: Caetano Veloso, "Cê"

fotos: Bruno Maia
Desconsiderando-se o show surpresa no Tim Festival, aconteceu ontem, no Circo Voador, a abertura da turnê de Caetano no Rio. A apresentação foi surpreendentemente excelente. O show deu liga ao conceito de “trabalho rock” a que ele se propôs num sentido mais amplo e subversivo para o termo. O rock é a metáfora que Caetano escolheu para dialogar, ou quiçá, para se reaproximar da (sensação de) juventude; da ilusão de que o tempo pela frente é longo demais para haver qualquer preocupação.

Caetano deitou e rolou em cima de uma platéia que já tinha arrumado a cama com lençóis de seda pra ele se jogar. Este foi o terceiro show de Caetano que pude assistir. Coincidentemente os três estão ligados às passagens recentes da carreira dele. O primeiro foi no dia 14 de julho de 2004, no Theatro Municipal do Rio, turnê do "A foreign sound". O segundo foi um pocket na pré-estréia do filme “Lisbela e o prisioneiro”, no Estação Ipanema e o terceiro foi esse de agora. Engraçado pensar no paradoxo que essas três apresentações podem representar. Ao mesmo tempo que apontam, indubitavelmente, para um artista que ainda tem disposição de se arriscar.

Caetano gosta de desagradar, como ele mesmo disse no show: “Recentemente disse para o blog do jornalista Jorge Bastos Moreno que votei no Alckmin no primeiro turno e que talvez votasse no Lula no segundo. Aí, blog tem aquele negócio que você clica duas vezes, ‘dê sua opinião’... O pessoal ficou bravo comigo. Eu consegui o que eu sempre fiz, desagradar o governo e desagradar a oposição” .

A apresentação usa o disco “Cê” como esqueleto. Começa com “Outro”, passando em seguida para “Minhas lágrimas”, com sua letra torta da desolação de los Angeles e o pacífico turvo. Depois vem “Chão da Praça”, de Moraes Moreira e, em seguida, “Nine out of tem” é a primeira das músicas escolhidas para percorrer a carreira dele. É nesse momento que o conceito em torno de “Cê” ganha corpo e ajuda a celebrar a vida do artista. Nos ‘grandes sucesssos’, o público chega ainda mais junto. Isso o renova, o motiva. A releitura de arranjos para “Sampa”, “London London” e “Fora da ordem” são surpreendentes. A entrega de um instrumento para o outro é sempre feita com sintonia fina. Marcelo Callado voa na bateria. Sobra. Carrega o show com o tamanho exato. O auge é na versão emocionante de “Desde que o samba é samba”, que começa só com a guitarra de Pedro Sá fazendo uma espécie de funk-samba com timbre japonês. Depois vem a voz de Caetano. Ali, mais a frente, entra a bateria safada, de sorriso cínico, de Callado. Ficam os três. Só depois da repetição do refrão entra o baixo solando a melodia da música, acompanhada em uníssono pelo público. Foi uma das maiores ovações da noite. E olha que palmas não faltaram ao longo das duas horas de show. Caetano adorava: “Isso é o Rio de Janeiro“, como se uma reação diferente fosse descaracterizar os cariocas... Ai, ai... a vaidade.

Mas voltando... “Desde que o samba é samba” coroa a parceria dele com a meninada. As cerimônias excessivas que existem no disco caem quando os músicos são chamados a recriar aquilo que já existia. A perversão acontece. E nesse sentido, o ‘espírito rock’n roll’ faz diferença e se justifica. Não há cenários de fundo. Apenas alguns tubos coloridos que cortam o céu do palco. A calça jeans estilosamente rasgada também é atemporal. Diretos.

Engraçado o Bernardo ter falado no novo disco do Dylan, no dia da “estréia” do Caetano. Eles são contemporâneos e dois dos símbolos mais expressivos da cultura pop mundial na segunda metade do século XX. O formato de canções nunca foi o forte do baiano, como é com Dylan, apesar de ele se valer muito delas. O disco novo de Dylan pode ser excelente, mas a atual turnê peca pela falta de tesão que ele demonstrou no palco do Roskilde, em julho. Dylan parece estar trazendo um ranço de Johnny Cash, querendo se despedir, se introverter ainda mais. Com o Caetano é tudo exatamente o contrário. O disco não é lá essas coisas, mas o show é excelente, ele está com um tesão fudido pelo palco e ao invés de olhar pra dentro, se atira pra fora.


A seqüência “Homem Velho”, do disco “Velô”, e “Homem”, de “Cê” é o lado reflexivo do show. Os versos “o homem velho deixa a vida e morte para trás/(...) o homem velho é o rei dos animais/ a solidão agora é sólida” , da primeira, poderiam ser tomados como uma auto-referência, ou uma auto-provacacão. Mas não. Caetano nega se reconhecer a velhice, pois o homem velho “já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n roll”. Hehe, ele não está (ou não quer parecer) saturado disso tudo. Bem como canta na música seguinte, ele “só tem inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos”, da possibilidade de se afastar da morte, dos limites, da linha de ação.

No fim, ele entoou “Rocks”, a música que mais chega perto de um rock’n roll no disco. Durante o solo de guitarra de Pedro Sá, o cantor avistou seu filho Zeca na platéia, sentado nos ombros de um amigo e se destacando na galera. Sob a trilha guitarrística de Pedro, um dos momentos mais bonitos acontecia. Caetano olhava para Zeca com uma alegria ímpar: a de poder estar compartilhando um momento daqueles com um filho. Era o homem e o espelho. Voltou, então ao microfone e dedicou para Zeca aquela música. O menino, orgulhoso, olhava a platéia ao redor e batia no peito como se dissesse “sou eu, Zeca sou eu”. E, em seguida, uma troca de olhares e de beijos espalmados pelas mãos expôs a cumplicidade de pai e filho aos olhos de quem quis ver. Aquele papo de que o filho eterniza o sujeito, ali explodia em sentidos, pois o show causara a mesma sensação em relação à vida artística de Caetano. As músicas, suas filhas em outro aspecto, renovadas e ainda se mostrando possivelmente interessantes e vivas, deram lhe a sensação da eternidade. O beijo cúmplice do filho, idem. A sensação de eternidade - que o avanço da idade abreviara - revigorava o artista e o homem. O rock cumpriu o papel que Caetano esperava dele naquele beijo do filho. E ele descobriu que era um anjo.

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Caetano Veloso - "Descobri que sou um anjo" (Jorge Ben)



E no fim, o show foi um simplesmente um grande show.

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ficha técnica
Caetano Veloso
turnê do disco "Cê"
Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 2006
Circo Voador

5 Opine:

At 10:59, Anonymous Anônimo said...

Fala sério! Foi um dos shows mais chatos!
Som péssimo, luz idem e essa banda da FUNABEM é a piada do século!

 
At 13:24, Anonymous Mariah said...

Uma pergunta: esse menino do meio da platéia que você diz ser o filho do Caetano, é um que estava bem no meio mesmo do povo, nos ombros de um outro amigo, cantando Rocks, de camisa listrada?
Porque se for esse, desculpa te dizer, mas não é o Zeca, é o Fernando, um grande fã do Caetano, mas sem nenhuma relação de parentesco.
O show foi realmente genial!

 
At 16:01, Blogger Bruno Maia said...

Nao, Mariah. Nao precisa se desculpar. O menino em questão nao era o Fernando nao. Era o Zeca.
abs!
BM

 
At 01:28, Blogger R.R. said...

Esse show modificou profundamente minha vida e me ligou mais ainda a história da música brasileira.

Foi a primeira vez que vi Caetano no palco.

Abração,
Rafael Rodriguez.

 
At 14:41, Anonymous Ângela Damazio said...

O Show Cê, foi o terceiro que assisti de Caetano, achei divino e maravilhoso.

 

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