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Bernardo Mortimer
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30.3.07

Sobre música?

imagem: TonalVision
Que a música vive um momento de intensa transformação é redundante dizer. Em meio ao ciclo de palestras Música Chappa Quente, muitas das questões em torno dessas discussões aparecem nas mesas de debates, mas não só lá. Algumas centelhas se acendem ouvindo as mesas e vão ganhar corpo além das três horas dedicadas à cada assunto. Uma delas foi levantada pelo Fábio Andrade na volta do último encontro, na ESPM. Há muita música, muita gente fazendo música, muitas pessoas escrevendo sobre música, muitas mudanças comportamentais conduzidas pela tecnologia que serve à música, mas e a música mesmo? Quem quer saber dela? Quem está falando dela?

O Fábio levantou a bola de que sente cada vez mais falta de pessoas que se debrucem em cima das canções, dos álbuns, dos conceitos e de tudo que a música, enquanto forma de arte, pode se tornar objeto de análise. Vem aquele tralálá de que antigamente se faziam grandes álbuns, obras com uma consistência “artística” maior... Papo estranho. O que se percebe é que em meio a tantos blogs, fotologs, sites, os assuntos que permeiam os textos sobre música passam cada vez mais ao largo do trabalho artesanal de dissecar as obras produzidas nesses tempos. Os sons, os textos, os timbres, as evoluções e retrocessos, as estruturas de composição, as referências estéticas, os diálogos com o passado, a negação, a reafirmação... O que a música está contando agora?

Ao pegar tal crítica e jogar sobre mim, percebo que, de certa forma, é verdade. Não são muitos os textos em que me proponho a mergulhar apenas sobre as obras que ouço. Até faço, mas pouco. Recentemente as tais questões tecnológicas e comportamentais em torno deste universo têm me empolgado mais. Os personagens que compõem o meu horizonte também me são estimulantes. Ao mesmo tempo, volto a duas conversas diferentes que tive esses dias, com “pessoas da área”, nas quais mencionava o fato de achar a nova produção musical brasileira muito mediana e acreditar que vivemos, de fato, uma entressafra. Um deles parece concordar comigo, o outro não. Isso pode ser uma tentativa de desculpa para justificar algo que, pensando bem, eu também sinto falta de ler na internet. O espaço proporcionado por essa "nova mídia" poderia ser mais bem explorado para o aprofundamento das questões “estéticas-musicais”, sem ficar preso às resenhas a atacado dos “grandes veículos”.

Na conversa com o Fábio, também é apaixonado e formado em Cinema, a comparação chegou ao audiovisual, onde, ao meu ver, acontece o contrário. Já não leio a Cinética e a Contracampo, só pra pegar dois fortes exemplos, com o mesmo afinco que já fiz em outros tempos, mas, de uma forma geral, trata-se de uma linha crítica que se apega mais ao conteúdo do que as revoluções tecnológicas que também a abraçam. Do jeitinho que o Fábio sente falta na música. O olhar para o cinema está projetado fortemente sobre a telona e não tanto para as questões que envolvem o YouTube, os celulares, as novas tecnologias, possibilidades fragmentadas, etc. A tal “cara de YouTube” a que já me referi por aqui é um formato cada vez mais solidificado. A estética da webcam tornou o novo ator em um quase DJ. Ele independe dos outros para filmar, tal qual um DJ independe de uma banda. O clipe do OKGo, recém premiado como o mais criativo (???!?) do YouTube é isso. Ao DJ basta uma infinidade de discos, ao novo ator basta a infinidade de "criativadade" - a tal que o OKGo mostrou -, para explorar um espaço reduzido.

Ano passado, num longo vôo para Paris, tive uma boa conversa com Eduardo Valente sobre as novas perspectivas estéticas apresentadas pelo boom do YouTube, os enquadramentos, a redivisão espacial... Sei que ele, por exemplo, tem um olhar interessado sobre esses novos aspectos audiovisuais, como mostra no recente ótimo texto (assino embaixo!) “Por que eu assisto ao Big Brother Brasil?” ou na colagem “YouTube e o estatuto das imagens da web” . Porém ainda me parece menos do que, ao meu ver, poderia se gerar de discussão. Só um Eduardo não faz verão. Não quero me meter na “área dos outros”, muito pelo contrário. O que me parece é que não há como se desconsiderar a radicalidade como a tecnologia digital já chegou à música. O fascínio de quem escreve por esta mudança é também um sinal dos tempos, de como as inovações técnicas parecem, momentaneamente, ser mais sedutoras do que a obra por si só. A embalagem é mais bonita que o conteúdo. Recentemente disse ao Alexandre Matias que prefiro ter nascido na época do Shawn Fanning, do que na do The Dark Side of the moon. É verdade. Isso é um quase parnasianismo, sim.

Com um olho aberto, o Pitchfork aproveita para se tornar rei nessa "terra de cegos". O site norte-americano se tornou a principal publicação mundial de música indo justamente por esse caminho que o Fábio aponta. Mesmo depois da “explosão-hype” do Pitchfork, não se percebeu ainda uma mudança no perfil de quem escreve artigos sobre música. Mais do que entender isso como uma grande preguiça coletiva, prefiro - de novo! - apostar numa característica contemporânea. E se ela estiver perto da saturação – o descontentamento do Fábio pode ser um sinal – serve de oportunidade para quem perceber isso antes. Ele mesmo, de certa forma, já percebeu isso e usa o Fabito’s Way para exercitar.

No fim, apesar da certeza de que não há como se condenar essa tendência cultural – o melhor seria observá-la como produto do tempo em que ela está inserida – fica um gostinho inexplicável de culpa no canto da boca. Talvez eu vá fazer algo diferente daqui pra frente.

Ou, caetaneando, talvez não. Só uma conversa.


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O Música Chappa Quente está sendo a centelha de muitas idéias bacanas. A maioria delas está por aí e eu nem sei bem. No primeiro dia do MCQ, houve uma mesa sobre o novo jornalismo cultural feito por blogs e sites colaborativos. Essa questão, por exemplo, não apareceu por lá. O barato de um ciclo de debates é o fato de que, com uma galera bacana, parece um poço de idéias bacanas que ganham vida ali e vão parar em lugares inimagináveis. Algumas delas até voltam pra você.

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Nada a ver, mas tudo a ver com o que esse post. Alguém viu tocar um pedação da maravilhosa Rough Gem, do Islands (!!!!), no Big Brother (!!!!!!!!) de ontem?? Dá-lhe BBB!

2 Opine:

At 20:39, Blogger Fábio Andrade said...

Brunão,

Legal que daquela conversa esteja nascendo uma boa discussão. Publiquei minha resposta/pergunta lá no meu blog -> www.fabitosway.blogspot.com

 
At 13:00, Blogger Rodrigo said...

Achei totalmente infudada a crítica ao jornalismo musical atual de que se está discutindo mais a tecnologia do que "cada vez mais falta de pessoas que se debrucem em cima das canções, dos álbuns, dos conceitos e de tudo que a música, enquanto forma de arte, pode se tornar objeto de análise".
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Acho que isso é querer olhar pra um lado da discussão tentando achar o outro.
Todo site/revista de música tem uma seção bem clara de resenhas e colunas que são feitas especificamente para tratar a música como obeto de arte, que independe se veio da internet ou da grande gravadora (se são boas resenhas ou colunas, é outro assunto).
Outra coisa é o "Sobremúsica", que (pelo que eu entendi) não tem a intenção de falar sobre a arte, mas sim sobre os meios.
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Ambos os assuntos são importantes, por motivos diferentes (embora seja o "mesmo" objeto), pareceu pra mim que é como dizer o seguinte sobre a análise de um Ipod "é verdade que a qualidade de som é maravilhosa, mas o sujeito esqueceu de dizer que a banda que toca no Ipod dele é uma droga".

 

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