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12.11.07

Sound of Silver, LCD Soundsystem

Woody Allen Dance Punk


       Quando um produtor já considerado fodão aprende a cantar, não há muito onde errar. Toda a técnica de estúdio e de montagem de banda se soma ao repertório de sons que ele ouve, provavelmente neuroticamente, e a voz aparece para dar unidade ao álbum, para tornar aquilo uma experiência com algo de pessoal, um cara que te conta o que pensa da vida e você escuta. Sound of Silver é um discaço, inquieto, dançante, provocativo. E com a alma de algo maior, no caso, uma Nova Iorque que não existe mais. E por mais paradoxal que pareça, essa nostalgia idealizada é justamente o argumento maior para o subtema do disco, uma rixa inventada entre a cena americana (que ele acha que não existe) e a européia (que dá o tom para o mundo).
       O LCD Soundsystem fala de um underground idílico repetido em Time to Get Away e NY I Love You, e que volta insistentemente em referências principalmente de estilo a Velver Underground, Talking Heads, David Bowie (tá, ele só mora em NY) e um pouquinho da seriedade debochada de Joey Ramone. Aliás, a falência da Nova Iorque pós-CBGB como "cidade criativa", nas palavras de James Murphy, é até charmosa, e se junta a um ataque contra a correção política e higienizadora republicana da Tolerância Zero. A referência ao prefeito atual, aliás, é bem direta.
       Junto com o lento fim da efervescência boêmia da cidade americana "mais afastada do governo", Murphy abre espaço também para o próprio envelhecimento. All My Friends passa um pouco pelo New Order, ainda mais ao mostrar que pista e melancolia podem dançar juntos, com uma tensão que impede o ouvinte (dançante) de relaxar. É um mesmo acorde repetido sem fim, sem trégua. Quem estuda o be-a-bá de harmonia musical sabe que os acordes são divididos em três funções básicas: repouso, afastamento e tensão. Claro, uma função só se justifica em relação à outra. Ao repetir um acorde sem cessar, ele fica sem função, cria expectativa sem resolver, sem afastar, e sem tensionar propriamente. Junto com o uso praticamente ininterrupto da condução no contra-tempo semi-aberto, o efeito é o de uma esteira de corrida: há exercício, há energia, há cansaço... mas a natureza da parada é mesmo não ir a lugar nenhum. A jogada é que a base é repetitiva e propositalmente monótona, mas a melodia da voz põe em jogo uma mistura de melancolia e saudade da juventude que tocam fundo. Na música, candidata a das melhores do ano, Murphy conta o preço da passagem do tempo para um boêmio cada vez mais solitário. Sozinha já seria fantástica, ouvida no contexto do disco, perto de NY I Love You e North American Scum, por exemplo, fica ainda mais bonita.
      North American Scum, aliás, é um funk de branco, que marca posição pelos USA/Canadá contra as misturas de rock e electro da Europa. Tem um baixão, dedilhados pica-pau na guitarra, e uma lista de cobranças aos garotos americanos, que tão dando mole para os ingleses, espanhóis, alemães...
      Mas há de se dizer: se a disputa fosse só pelo uso dos sintetizadores, era uma questão de escolher quente ou frio. O som do LCD mostra o gosto pelo analógico, é muito mais orgânico e cheio de harmônicos em comparação com, vamos dizer, as distorções heavy metal do Justice, os robôs afinal humanos do Daft Punk e o autocentrismo do Digitalism. Além do mais, o LCD é uma banda - não uma dupla de djs. Sem que isso seja a regra que vai indicar o que é melhor ou pior, certamente isso é muita diferença. Bem, sobre a rixa: ainda rola outra música com o título Us vs Them, daí é só você ligar os pontos.
      Para contar brevemente a história, James Murphy é o líder do LCD Soundsystem e também um dos donos do selo Death From Above, que lançou uma série de singles - originais ou remixes - fundamentais para a construção de uma cena de disco-punk, new rave, blog house, chame do que quiser. O Cansei de Ser Sexy, por exemplo, botou o selo em um de seus refrães.
      Entre os nomes lançados pelo DFA, está o the Rapture (um show incrível em São Paulo, nesse fim-de-semana). Do rock da virada da década de 70 para a de 80, veio a referência para a sonoridade de House of Jealous Lovers, o primeiro single da banda, que pouco depois se tornou a primeira a ter um álbum completo lançado por James Murphy e cia.
      No geral, a voz de Murphy no disco do LCD tem muito dos gritihos e agudos que o Rapture também tem. E na última faixa do disco, ela ainda ganha um tom de Frank Sinatra doido de whisky (imagine um New York, New York em Las Vegas), guardadas as proporções que você achar que deve.

      Essa semana o cara vai estar por aí...

2 Opine:

At 20:13, Blogger lucas said...

na real, a música do cansei que vocês estão se referindo é "Let's Make Love and Listen Death from Above" e acho, não tenho certeza, que faz referência à BANDA Death from Above 1979, que originou o MSTRKRFT

 
At 20:50, Anonymous João Brasil said...

Parabéns pela matéria! Ficou muito boa! Na minha opinião é o melhor disco do ano. Aprendi tb o plural de refrão, refrães.

 

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