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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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28.5.06

Aniversário!!! *** 1 ano de sobremusica

Só pra registrar, o sobremu sica completa, hoje, um ano de vida. A data de aniversário do site é um pouco controversa, mas, de fato, hoje faz 1 ano que eu escrevi o primeiro texto pensando neste site e que eu o criei na página do blospot. Logo, ele existe, pra valer, há um ano e, por isso, hoje comemoramos o primeiro aniversário desse belo menino.

Nesses últimos 365 dias, foram 193 publicações (194, com essa). (Se não lembra da primeira, é só clicar aqui).

Aconteceu muita coisa bacana nesse tempo. Foram mais de 10 mil visitas , coisa que, em 28 de maio do ano passado eu não poderia esperar. Mais de 13 mil page views. E mais importante - eu tenho que ser clichê, perdoem-me - foram as inúmeras oportunidades de conversar sobre música que surgiram graças ao pretexto de escrever neste site. Seja com novos conhecidos, velhos amigos, novos amigos e/ou velhos conhecidos.

E, pra ser ainda mais clichê, espero anunciar, em alguns dias, o pacote de surpresas do mês de aniversário do sobremusica.
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No aniversário do sobremusica,/ quem ganha o presente/ é você!

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Desculpas, não aguentei deixar passar essa frase... hahahah!!

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Valeu Bernardo! Muito chão!

25.5.06

As Luzes dos Postes nos Olhos

Rios e Pontes no Coração


      Nação Zumbi, mombojó e os seguinte convidados: Otto, Céu, Ciba e Paralamas do Sucesso. Algumas vezes, eu acho que Coachella e Reading são coisa de gringo mesmo. Um país que reúne, só para citar três, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, tem de vez em quando fins-de-semana que podiam aparecer em qualquer semanário do mundo (cada palavra que se inventa para chamar revista...) sem fazer feio.
       É dia 2, sexta que vem, no Circo Voador. Aquele mesmo do Franz Ferdinand e do Easy Star, aquele mesmo dos esquemas escancarados de privilégio a cambistas na furação de fila.

       Vocês vão perder?

A fumaça de Hamburgo

Mais ou menos 50 metros quadrados, 5 x10. Era esse o tamanho do muquifo, pardieiro, ou qualquer outro adjetivo que denote lugar pequeno e tosco. Um clube de reggae que fervia - literalmente - na fria Hamburgo, na noite de ontem. Pra sair da geladeira da rua e entrar na filial do inferno, custa dois euros. Ao entrar, sente-se claramente a queda do nível de oxigênio no ar, devido ao excesso de demanda - afinal eram umas 150 pessoas pra respirar ali. Aquela neblina famosa torna tudo ainda mais quente e o ar, além de raro, é mais seco. Numa umidade que devia beirar os 20%, ficava difícil respirar, ainda mais tendo vindo da rua, onde o vento úmido elevava essa taxa para, com certeza, mais de 85%.

A decoração era simples: duas estantes para garrafas de bebidas, duas geladeras-armários para guardar o que precisa de geladeira e um balcão pra servir. Um estrobo tosco no teto, uma - eu disse UMA - luz vermelha e as paredes brancas e velhas, com cara de que já viram muita 'coisa-errada'. Um muquifo pior que o Garage em seus piores dias. Ah!! Já sei.. Se você é do Rio, pode tentar imaginar o ambiente se lembrando do Casarão Amarelo em Copacabana. Lembra?, então... Aqui era pior. Na cabeça, minha vinham as discussões que rolavam no Rio antes de eu sair sobre a qualidade dos serviços noturnos. A julgar pela noite de ontem, não devemos nada aos alemães.

Isso tudo pra descrever o que eu não pude registrar em fotos. Lá dentro, pura babel. Rostos dos mais diversos. Tinha o skatista, cara de fã-de-Charlie-Brown-Jr, tinha o emo, com cara de fã-de-good-charlotte, tinha os negões-modernos, cara-de-integrante-do-black-eyed-peas, aqueles mais cara-de-fã-da-fase-exodus-do-bob-marley com boinas coloridas e estilosas na cabeça, mauricinhos, vagabundos, e toda a corja de gente. Até rostos de alemães você podia ver.

Foram 30 minutos lá dentro. 30 minutos sob um set fortíssimo,- dos melhores que eu já ouvi -, elaborados por um DJ cujo nome não consegui descobrir. Um mix de dancehall, ragga e outros estilos de reggae que não sei o nome, mas que primam pela velocidade da batida e da fala. Isso nem parece mais reggae. O couro come. Ninguém fica parado. A relação com o set é impressionante e cada vez que uma música agrada, uma horda de assovios toma conta. Parece até o Posto Nove em dia de apitaço, só que num espaço mínimo que amplifica tudo.

Ao que pude apurar, o raggamuffin ainda é um estilo vigoroso e forte por aqui. As pessoas curtem bastante. Nesse clube (se é que posso chamar assim), as pessoas dançavam muito e intensamente. Algo que não se vê no Rio há muito tempo... O último registro carioca que eu tenho de algo tão intenso foi no início da moda do forró universitário, excluindo os playboys que se aproximavam do genêro só pra fazer guerra... Se lembra daqueles aficcionados por forró, que se revelaram do dia pra noite assim como torcida do Botafogo quando chega em final? Todos fãs desde criancinha e ávidos para dançar aquele som? Pois é, foi a última coisa assim que eu vi por aí, se levarmos em conta o critério "gente-dançando-no-salão", mas digo "dançando" mesmo, quase beirando o ritual. Muita gente se espremendo e querendo curtir o som. Brindando com a luz da palha que não cessa. Tensão.

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Só pra constar
Não sei se deu pra perceber isso no texto, acho até que não, mas eu me gostei (muito) do lugar.

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Só pra constar (2)
Cheguei ontem à noite nesta cidade e ainda deu pra rolar nada que lembre Beatles. Mas vai rolar, TEM QUE ROLAR.

20.5.06

Conversa: Patrick Laplan (Parte 2)

Para ler a parte 1, clique aqui.
Esse post foi reatualizado dia 21/05/2006, porque um pedaço da conversa, por razões que só o blogspot conhece,
não tinha entrado no ar.

sobremusica: Normalmente, os olhares do público são mais são voltados para os compositores e vocalistas. Dizem que a voz é o mais importante, que se o vocalista for ruim não adianta o resto, etc... Mas quando eu soube que ia sair o trabalho do Eskimo, eu quis saber como é que ia ser o trabalho do baixista, daquele cara instrumentista virtuoso e tal... Com um trabalho seu, essa 'regra' pop se inverte um pouco. Isso pra você é um peso, um afago... como você lida com isso?
Patrick Laplan: Te confesso que, desde pequeno, quando eu comecei a estudar bateria, fiquei no meu quarto trancado, estudando que nem um desgraçado. Não sou um mega virtuoso, mas ... Acontece muito nos shows em São Paulo de irem uns moleques pra frente do palco pra ficar te analisando, te estudando, “deixa eu ver se esse cara toca mesmo...” Eu nunca fiquei intimidado, eu gostava. ‘Ah é? Ta me olhando? Então aqui’ e fazia uma porrada de coisa. Hoje eu consigo filtrar isso melhor. Mas acaba que no Eskimo tem uma expectativa mesmo quanto à parte instrumental. Todo mundo que me viu em show, sabe que eu gosto de botar muita nota, minhas influências de baixo são Living Colour – que a galera improvisa o tempo todo... – e ...
sm: A sensação que me dá é que você é um headliner às avessas, entende?
PL: Entendo. Bom, psicologicamente acontece, porque o Henrique não era de uma banda grande. Em segundo lugar, você deve ter lido no release, música instrumental está dentro do conceito. Eu escuto Hermeto (Pascoal), escuto Arrigo Barnabé, escuto chorinho...
sm: Ouve pra caralho?
PL: Não ouço pra caralho não, mas escuto. Escuto música clássica. Então eu dou muita importância à parte instrumental. Tanto quanto à trilha sonora. No disco, eu te adianto isso, vai ter música instrumental. Não sei se uma ou duas, nem se grande ou pequena. Mas vai ter.
sm: O Henrique participa nelas? Ele toca algum instrumento?
PL: O Henrique toca uma guitarra esperta, segura legal...
sm: Porque no EP, ele não gravou nenhum instrumento, certo?
PL: Não gravou e nem vai gravar... Eu quero deixar o cara solto e...
sm: Você quer... (risos)
PL: Não, não... Eu conheço ele ao vivo e, exemplo: Biquíni Cavadão. Uma época o Bruno entrou numa de tocar guitarra. Ele é um performer que ninguém pode negar. Ele chega no palco e engole. David Lee Roth, mesmo esquema, bizarro! O cara botou ma guitarra e ficou preso na porra do pedestal Eu sei o que o Henrique rende e não quero botar uma guitarra presa no pescoço dele.
sm: E o que ele acha disso?
PL: É impressionante, ele aposta muito no conceito da parada... Ele comprou a briga e é meu amigo de muito tempo, se ele falasse que queria isso ou aquilo, ele tem liberdade pra falar e ia me mandar tomar no cu rapidinho...

E outra certeza que ele tem - e que não teve em outras bandas: eu procuro, sempre – ainda não sei, como produtor, chegar a isso – botar ele cantando pra caralho! O produtor que eu sou... eu não trabalho pra gravadora. Eu não tenho limite de voz, ela vai estar junto com a banda. É pra imaginar o vocalista no mesmo quarto da galera. Não é uma banda acompanhando o crooner. Não é isso. Eu quero, claro, que se entenda o que ele ta dizendo, não sei se eu consigo isso no EP...
sm: Eu acho que nem sempre...
PL: Pois é, mas a gente teve um problema na gravação, porque quem ia cantar era outra pessoa, então as melodias ficaram baixas pra o Henrique. Ainda é super desconfortável pra ele cantar essas músicas... São músicas meio ‘chatas’, não é completamente empenado...
sm: Tons menores...
PL: Nem sei se é tom menor. Eu sento no piano e saio tocando....
sm: Você compõe no piano?
PL: Muito no baixo e no violão. Melodia eu faço no piano e no violão. Mas eu sei que não é a coisa mais fácil no mundo pra ele cantar.


sm: Você cita várias referencias no release que não necessariamente se ligam...
PL: Até antagônicas, às vezes....
sm: Até que ponto essas diferenças se encontram na música e se somam em vez de criar uma grande bagunça? Porque vou te dizer que eu vejo muito você no EP, uma assinatura clara de...
PL: Isso é o maior elogio que você pode me fazer e muita gente tem feito. Não é bom ou ruim, mas é a minha cara. Isso é a melhor coisa que eu posso ouvir, pois eu estou tentando me expressar.
sm: É, mas a sensação que me dá é que eu reconheço a maioria das influências que você cita quando eu ouço, mas pra mim, a relação entre elas não se faz de forma clara. Elas estão ali, mas não estão criando uma coisa juntas. Faz sentido? Isso é um incômodo pra você ou não?....
PL: Faz sentido, mas pra mim não é um incômodo porque eu escuto Fantômas, sabe? De cinco em cinco minutos é uma coisa diferente...
sm: Pô, cara, você curte Fantômas? Foi no show?
PL: Fui. Achei lindo! Todo mundo odiou, eu achei maravilhoso.
sm: Eu achei uma merda (risos)
PL: Achei lindo... mas então, eu tenho uma tolerância maior à mudanças de clima bruscas, ou a uma faixa não ter nada a ver com a outra... Mas eu entendo que as pessoas estranhem. Todo mundo, TODO MUNDO, que gravou no EP, antes do Henrique botar a voz, estava reclamando muito: “Caralho, uma música não tem nada a ver com a outra, parece que são quatro bandas diferentes...” Eles estavam desesperados. Quando entrou a voz, criou-se alguma unidade. Você entende que é a mesma banda, mas que poderiam ser músicas de discos diferentes...
sm: A sensação que me dá é que é quase colagem.
PL: Mas é a referência de trilha sonora, de desenho animado, de Fantômas, é colagem mesmo. A gente tenta corrigir isso um pouco com a melodia, mas as partes são colagens! Colagem mesmo!
sm: E isso é o que você busca?
PL: O meu lado na parada é o lado do mal, é o Fantômas, é o Tim Burton... Vai ter as estranhezas ali. E eu tento botar uma melodia bonita por cima, pra pessoa não ter tanto choque, sabe assim... passou.... “que barulho foi esse?”, passou... Não é pra qualquer um. Eu reconheço: Eskimo não é pra qualquer um. Mas não acho que seja tão anti-pop, acho que pode tocar no rádio.

sm: Então esse tipo de mudança de ritmo brusca, de clima, te agrada...
PL: Eu lembro perfeitamente a primeira vez que eu ouvi Mr. Bungle, cara. É sério, eu abri um sorriso de orelha a orelha. Eu já gostava de muita coisa, mas ali a música fez sentido pra mim. Eu ouvi o primeiro disco e mudava toda hora e entrava uma guitarra-james-bond e parecia trilha sonora, mas tinha uma música que você podia cantar ao mesmo tempo...
sm: O Los Hermanos tinha um pouco disso no primeiro disco, que você participou.
PL: Tinha. Música a ser citada: Outro Alguém. Começa com uma bateria seca, um baixo com slap, e um ska frenético... Mudança de tempo toda hora... Nessa música eu enfiei a mão pra caralho.
sm: E outra coisa que me lembrou Los Hermanos nesse seu EP é a guitarra de “Grande Crime”, que me lembrou muito as guitarras do último disco (“4”) dos caras... Uma coisa meio Fernando Catatau, que tá gravando com eles....
PL: Nem sei quem é Fernando Catatau.
sm: do Cidadão Instigado...
PL: Também não.
sm: Tudo bem, mas me lembra em alguns momentos... um solinho meio estaladinho...
PL: O que eu tinha medo de falarem é que a guitarra estava meio Santana e Black and White, do Michael Jackson...
sm: É, me lembra nesse momento, um solo meio mal tocado, meio picadinho...
PL: É, isso mesmo. É meio tosquinho mesmo. Essa música me lembra Beck, mas a melodia não tem nada a ver com Beck. Cara, isso eu posso te falar: eu não ouvi o “Ventura”, não ouvi o “4”.
sm: Mágoa?
PL: Não, não... Talvez seja trauma, mas talvez seja uma maneira de eu estar me defendendo de comparação. Eu não posso ter copiado a guitarra do “4”, porque eu não ouvi a guitarra do “4”.
sm: Mas lembra... (risos)
PL: Pode lembrar, eu acredito e acontece às vezes de ser igual. Mas eu não ouvi. Não sou muito fã não. Ouvi o “Bloco do Eu Sozinho” porque eu tinha acabado de sair, queria ouvir...
sm: E do Rodox, eu sinto...
PL: Do Rodox eu não trouxe nada...
sm: O que eu ia dizer é que no Rodox eu sentia mais você influenciando no som do que o que você conseguiu no Los Hermanos, dá pra sentir no som pesado e tal...
PL: Eu não acho. O tipo de metal que eu escuto, não era o tipo de metal do Rodox. Eu escuto Iron Maiden, Megadeth, Slayer.... Lá é Biohazard, Madball, Korn... eles gostavam dessas porras e eu detestava... esse dedo lá não é meu. As minhas coisas lá eram as minhas músicas, mais puxadas pro alternativo, mais 311... Mas como músico, eu fui limado. No segundo CD, nêgo pegou meus baixos e enterrou e sumiu. Não fiz muita coisa. Mas a grande importância do Rodox é que foi o primeiro cara que acreditou que eu podia fazer letra e música legais: o Rodolfo. Ele falava: isso é bom, aquilo é legal... Essas paradas que você falou são mais do batera, do outro guitarrista.... eu me preocupava com as paradas de melodia e tal. Provavelmente as minhas músicas as que são só do Rodolfo são mais a minha onda. Tinha um quêzinho de Weezer, por incrível que pareça...

sm: Pra terminar, esse nome Eskimo e essa capa do EP têm alguma razão? O Eskimo é uma das figuras mais distantes possíveis da cultura brasileira e ainda é escrito com “K”. E essa capa te diz alguma coisa, como é?
PL: Eu tenho uma coisa muito náutica na minha família. Sempre velejei, meu avô sempre teve barco, é cheio de campeões de vela na minha família. A capa é linda, uma técnica de ilustração que não se usa mais. É de um alemão super-antigo que eu tirei de um livro da minha mãe, que é desenhista também. Eu acho bonito pra caralho. E o nome Eskimo é só porque é bonitinho.
sm: Você já leu “O velho e o mar”, do Hemingway? Essa capa me lembra um pouco, só com a diferença é que lá é uma pessoa só no barco...
PL: É, dá pra pensar várias coisas... Me disseram que o Kassin também tem uma música chamada “Homem ao mar”... sei lá... não conhecia. Acho que essa capa tem a ver com lance da trilha sonora. Vão ter músicas no disco que vão ter muito a ver com isso aqui, uma coisa meio dramática, meio Muse, Deftones com Muse...
sm: Pra terminar, eu queria saber os próximos passos do Eskimo...
PL: Pois é, o lance do nome também tem a ver com... bem, a gente queria um nome que soasse universal, porque a idéia é também gravar o disco em inglês.
sm: Ah, é?
PL: É, isso é importante de frisar. Vão ser dois discos iguais, só que um com letras em português e outro com elas em inglês. E não necessariamente versões, porque pode ficar uma bosta. A idéia é essa, não sei se eu vou conseguir.
sm: E você que lançar lá fora, porque? De coração, se você pudesse você estaria lá?
PL: Se eu pudesse, eu não estaria aqui. É horrível falar isso... Hoje em dia eu aprendi a gostar de mais coisas daqui, aprendi a gostar de Hermeto, de Arrigo, de Pato Fu, que eu não gostava, mas eu sempre ouvi banda gringa. Eu quero “brigar”com banda gringa, não quero “brigar”com banda da... brigar não é o termo, mas disputar espaço com nêgo que eu acho tosco. Quero disputar com quem eu admiro, quero tocar com gente que eu admiro e me incomoda muito um moleque virar pra mim e falar: “cara, você é foda... Você e o...” - vou atirar, hein – “você e o F%$F*# são foda. Eu falo: 'pô, que... valeu, maneiro'. Isso acontece e eu não quero. Lá fora também pode acontecer, vai ter um moleque “caralho, você e o Hoobastank...” o Yellowcard...
sm: A comparação é tão tosca quanto...
PL: Mas já é melhor... Aqui eu vou ter 0,1% pra brigar, lá eu já vou ter 50%.
sm: Então pra que fazer em português? Por que se tornaria mais viável comercialmente ou é uma opção estética?
PL: Porque eu moro aqui. É uma opção estética também. Eu ainda não tenho a manha de escrever em inglês, aprendi a escrever em português, acho que você escreve de uma maneira muito diferente em português. Tem que ter muita moral pra falar “eu te amo” numa música e não soar um idiota, sabe? Eu acho muito difícil,mas eu gosto, acho bonito e eu gosto do que eu escrevo...
sm: Você tá mirando nas duas, mas não sabe muito bem onde quer acertar, é isso?
PL: Não, não... Eu quero acertar nas duas. Mas, tudo bem, SE DER CERTO EM INGLÊS, num futuro bem longe vai rolar uma preguiça de escrever em português... A idéia 1 é ir pra lá e ficar tocando... voltar pro Brasil pra ficar uns cinco meses a cada dois anos. Mas lá fora, a competição é monstro. Eu não vou querer comparar meus clipes com os do F%$F*#, que, na verdade, eu nem conheço. Eu vou comparar com o Portishead, do Radiohead... O próprio Los Hermanos, eu não gosto dos clipes não
sm: Porra, os clipes são uma merda...
PL: É, a Anna Júlia fez o de “Vencedor”, não é um na Fundição Progresso que parece o Maracanãzinho na década de 70...
sm: Ah é? Esse é um dos únicos que eu gosto...
PL: O Pato Fu tem uns clipes legais, o do Autoramas...
sm: E você não acha que tentar lá fora e aqui, pode gerar uma perdad erumo e você ficar sem nada?
PL: Não, cara. Independente de estar lá ou aqui, eu vou ser eu e eu sou isso... Esse EP sou eu. Falar o quê? Se alguém quiser ouvir, seja bem-vindo...
sm: Beleza, então....

16.5.06

Shows: Otto e Easy Star All Star

Quando o Momento Chega, Entra Sem Bater, Faz o Chão Tremer, Com Som de Trovão

      Sobre o palco, Kassin, Domênico, Garnizé e Davi Moraes dividiam as atenções com o dono do show, Otto. E, pairando invisível por ali, Martinho da Vila – mais especificamente Martinho da Vila de 1974, de “Canta, Canta Minha Gente”. Ao invés de ir com a banda de sempre – que inclui os fantásticos Fernando Catatau e Rian Batista, por exemplo, o pernambucano fez uma seleção de amigos e criou um clima de batuque de candomblé que nem no show de “Condomblack” rolava tão forte. Às vezes, as dificuldades criam peças lindas, e que não se repetem.
      'Festa de Umbanda' era a homenagem mais justa e sincera que o galego podia ter feito, para além do baixo econômico e perfeito de Kassin, e dos tambores da dupla percussiva (tinha ainda o Domênino). O pouco de ensaio foi compensado pelo muito de improviso. Otto ainda passou por ‘Mateus Enter’, ‘Calango Vascaíno’ (ou foi ‘Malandrinha’?) e músicas dos três discos, com várias do “Samba Pra Burro”. Sempre como um mc à frente do baile de pontos de terreiro. Religião e sacanagem rapidinha.

      Foi histórico para o dub carioca, uma movimentação das mais organizadas no cenário carioca dos últimos tempos, de Calbuque a Urcasônica, contando com Lucas Santana, Chico Dub e Meirelles digitaldubizado. A partir de agora, o dub vai ficar pop, e a responsabilidade é de que isso seja bom para o dub.
      O Easy Star All Star coroou o trabalho de uma série de equipes de som trabalhando na formação de uma cena de troca de idéias e informações jamaicanas. Tudo devagar e forte como a fumaça subindo. Não há erro, o fogo é uma certeza. O set dos nova-iorquinos (e se você andou lendo isso aqui já sabe que eu to falando de irlandeses, centro-americanos, toasters e etc.) teve quarenta minutos de músicas próprias, entrou por quarenta e cinco minutos de reinvenção de Pink Floyd (batendo forte na mente, com vozeirão de negona, baixo magnético, sax com a pressão de naipe, e vozes que alteravam o clima original com todo o respeito que os clássicos merecem, e sem o medo que os atrapalham), e um bis de mais de meia hora de mais produção própria. Dessa vez, com um brinde: ‘Climbing Up the Walls’, do que está para ser lançado “Radiodread”.



Nada a ver

O texto já era para estar aqui há mais tempo, mas fiquei sem internet em casa. Perdões. E sugiro um pulo no urbe.

9.5.06

Mombojó :: Homem-Espuma (1)

Enquanto ouço pela primeira vez o tão espe- rado - pelo menos por mim - segundo disco do hepteto pernambucano, Homem-Espuma, chego a uma velha conclusão óbvia: Definitivamente, Mombojó faz muito bem aos ouvidos. Cuide dos seus.
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E que capa bonita, hein!?!

7.5.06

Ouvindo o Mundo

Chayyia Chayyia



      Spike Lee é desses grandes diretores de cinema, que a gente costuma chamar de autor. As minorias étnicas são sua preocupação artística maior, mas estão longe de serem a nota só de uma samba por ele assinado ao longo de uma carreira que passa por ‘Faça a Coisa Certa’, ‘Malcolm X’, o clipe de ‘They Don’t Really Care About Us’, ‘O Verão de Sam’ ou – meu preferido – ‘A Hora do Show’.
       O humor é forte e ácido, de desmanchar máscaras e sorrisos amarelos. E a música é sempre excelente, o que pode querer dizer uma incursão de Bruce Springsteen em ‘A Última Noite’, o clássico de Marley ‘Redemption Song’ na voz de Stevie Wonder em ‘Todos a Bordo’, ou a sensacional constelação de Young Lions interpretando a si mesmos nas noites jazzísticas de ‘Mais e Melhores Blues’. No entanto, quem está quase sempre lá, pelo menos de um tempo pra cá, é o trompetista e arranjador Terence Blanchard, também um young lion da galera de Wynton Marsalis. Blanchard assina mais de uma dúzia de trilhas para Spike Lee, o que inevitavelmente torna-se uma atração a mais para escolher uma boa sala de cinema na hora de ir assistir a qualquer coisa do mais ilustre torcedor do New York Knicks.
       Em ‘O Plano Perfeito’ está tudo lá. Planos que desconstroem imagens batidas e edição que reafirma a complexidade étnica de uma cidade grande, no caso, sobrevivente de um trauma sério. E flashbacks narrativos, e falas lidas para a câmara, e música de Blanchard. Mas Nova Iorque não é mais uma cidade de italianos, judeus, negros e hispânicos, só. E nunca foi de americanos. O que há de incrível lá, e portanto no mundo globalizado, e portanto no filme, é que os elementos novos se agregam com aparente facilidade, só mudando temperos. Claro, quem acredita nisso nunca vai saber responder ao que acontece na vida real. Problemas, conflitos, contradições e terremotos (a realidade nunca consegue se acomodar sobre uma placa tectônica).

       E é com uma câmera de cima, seguindo uma van de uma equipe de pintores pela cidade de Lee, que o filme começa. Ou melhor, é com ‘Chaiyya Chaiyya’ que o filme começa.
       Uma voz feminina canta duas ou três frases em tom de oração a um deus oriental, com um fundo de cítaras em acordes de tensão e um reverb, hmmm, espiritual, vai (dá uma força aí). Uma batidinha eletrônica prepara para a entrada da voz masculina, que vai repetir em uma língua que pode parecer ser qualquer coisa: árabe, norte-africana, albanesa ou indiana. Chayyia chayya, chayyiá chayyiá. Chayyia chayya chayyia, chayyiá chayyiá.
       Mais cítaras, algo parecido com uma queixada, assobios, percussões de Bombaim, a voz da mulher entoa o mantra divino com o homem e todos os sons orgânicos e umas batidas meio grime que misturam tudo. Sagrado e profano, ocidente e oriente, doce e salgado, castas e direitos civis, kama sutra e xxx, mtv e bollywood. É indiano, dá pra concluir. Em mais de cinco minutos, de ao que me lembro um plano-seqüência, está dada com um gancho altamente dance e contemporâneo uma visão completa do mundo. De Nova Iorque. Do que é Spike Lee. Do que será o filme. A música não sairá da cabeça por toda a projeção, até que ela volte nos créditos finais, desta vez turbinada com os versos rapeados de MC Punjabi. Como se precisasse.
       ‘Chayyia Chayyia’ é cantada por uma dupla de ídolos dos musicais cinematográficos indianos, a tal Bollywood. Sukhwinder Singh é de uma linhagem tradicional de galãs, sobrenome-grife que inspirou até o autor Salman Rushdie, em ‘O Chão que Ela Pisa’ (um livro que precisa ser lido). Canta, atua, autografa pôsteres e administra o sucesso. Independe do Ocidente, a não ser como referência via satélite e, ultimamente, banda larga. O mesmo com Sapna Awasthi, que como a foto prova, deve ser deusa da fertilidade por lá. E o compositor é o Andrew Loyd Webber com pinta vermelha na testa. A. R. Rahman (que, é bem verdade, já tinha dado uma música para o filme americano ‘Senhor da Guerra’, com Nicolas Cage).











      A ponte para um filme no país da Coca-Cola, CNN e Beyoncé veio, segundo entrevista de Spike Lee para a Empire, em uma aula do diretor no curso de Cinema da NY University. O tema era musicais, e uma aluna insistia em Bollywood. Lee nunca tinha visto um filme da Índia e pediu à estudante uma sugestão. No dia seguinte, ganhou emprestado o dvd de ‘Dil Se’ , 1998, que assistiu. Prometeu a si mesmo que usaria aquela tal de ‘Changa Changa’ um dia, e acabou sugerindo a música a Terence Blanchard. Aprovada a idéia, eles só incluíram o rap de MC Punjabi, no que acabou sendo a versão Bollywood Joint da música – a dos créditos finais.
      Para ouvir a versão sem o rap: baixe aqui.
       Outro caminho possível, e menos interessante de ser contado em uma entrevista de divulgação de um filme, é que a música também fez parte do fracasso Bombay Dreams, na Broadway. Um musical de... A.R. Rahman.
       Ao lado da atuação de Clive Owen, e da acusação de que os arranha-céus de NY são construídos sobre crimes de guerra como o holocausto (e falar disso na ressaca do 11 de setembro pode ser sintomático), está sem dúvida a batida grudenta das periferias do mundo unidas. E aí, já viu o filme?

5.5.06

The Biggest Festivals in the World :: Roskilde

Depois do Coachella, no la- do esquerdo dos States, é hora do rock caminhar para a Europa, mais ao centro. Diversos festivais prometem. Entre eles, talvez o mais tradicional seja o Roskilde, na Dinamarca, que esse ano apresenta Bob Dylan, Arctic Monkeys, Roger Waters plays The Dark Side of the Moon, The Racounters e mucho más. Do Brasil, Marcelo D2, Ed Motta e Cabruêra serão os representantes. A mis- turada é o forte do festival, que acontece numa pequena cidade dinamar- quesa. Além dos já citados, Clap your hands say yeah, Diplo, Editors, Happy Mondays, Sigur Rós, Seeed, dEUS e Strokes... Ou seja: uma miscelânea de coisas guiadas por new-rock. Let's try it.

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Ah!!! E vai ter de novo Rock'n Rio, em Lisboa... Tamo beeeem.


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Se pra toda acusação contra políticos que fica sem explicação fosse feita uma greve de fome, o Severino não precisaria ter recebido cheque de dono de restaurante para ganhar licitação na Câmara dos Deputados... Tomara que essa vá até o fim.

2.5.06

Show: Cansei de Ser Sexy, em São Paulo

Não Tem ‘Se’ Para Que Ela Dance e Eu Dance

       Não dá para ver o Cansei de Ser Sexy de longe. Respeite a regra. Não dá para ficar especulando se aquilo é emo (não é), se parece a Xuxa (nhé, bem pouco, dá pra ser mais criativo) ou se é mais punk do que o punk. Não é por aí.
      Estabelecidas as condições para o início do texto, ao próprio.

       Lovefoxx, 21 anos, segunda a comunidade dela no orkut e a jornalista Érika Palomino, é uma garota super poderosa. Sábado à noite foi assim. Transpirando alcohol e satisfação em estar no palco (“bó-binho, bó-binho, bó-binho”), a japonesa enlouqueceu a Outs no que ela, sincera e tropegamente, não parava de chamar de o melhor show do Cansei da vida. “De público que eu tô falando, não de banda”.
       Para quem acompanhava a ascensão da banda só, e exclusivamente, pelas páginas da Folha de São Paulo, o que mais motivava uma ida até lá era a desconfiança. Ainda batia na memória a péssima apresentação no Tim Festival de 2003, quando convidaram Supla para cantar e vieram com uma série de piadas internas que não tinham como fazer sentido num palco maior do que eles (, então). Depois, pela Internet, deu pra descobrir que a banda também achava ruim o episódio Tim. Houve problemas com a passagem de som, etc.
       A Outs, na boêmia Rua Augusta, estava lotada, com um público em grande parte gay. Para além disso, surpreendeu a predominância masculina no ambiente. O som dos djs era rock’n’roll, de Clash a muito Strokes e de volta a Libertines. Também rolou Placebo, o que causou um pouco mais de comoção. Nada de música eletrônica.
       E, no meio da introdução de uma música dos djs Valentim e Tati, quase de surpresa, entra a bateria marcada do Cansei, Adriano Cintra na guitarra e Lovefoxx sorrindo e balançando os cabelos. Começa um leve empurra-empurra, excitação em alta, sem histeria. O início clássico de um bom show de rock.
       Lovefoxx é linda, pequena e sexy. Veste-se com sobreposição de roupas, o que poderia apontar para o grunge – mas não. Os tons são todos cítricos, exatamente como na new wave ou no heavy metal farofa em que Seattle pisava em cima e jogava pra trás na história. Tênis de cano alto, calça amarela fosforescente colada, e debaixo de um macacão preto e de uma camisolão também amarelo, uma camiseta com o rosto de Bob Esponja desenhado. Bob reapareceria algumas vezes ao longo da noite, com os olhos espertamente rabiscados nos peitos da musa indie japonesa. “Bó-binho, bó-binho, bó-binho”.
       Enquanto Adriano Cintra, aquele do finado thee Butchers Orchestra, se reveza com Luiza Sá, Ira e Ana Rezende na bateria, guitarra e baixo, Lovefoxx magnetiza a platéia. Diversão, diversão urgente. Riso de bêbado nem aí para caras feias, sejam elas as tuas, as de quem sabe o que é o verdadeiro rock, ou as de quem acha que aquilo não pode ser bom. O fotolog sobe no palco, a falta de vergonha de quem tem na vida um profile de orkut aberto (deixe seu scrap, se for o caso). Ah, o teclado é tosco, mais do que as guitarras. As letras são em inglês de paulista ligado, e envolvem David Bowie, Paris Hilton, J Lo, Kelly Key (no show, nem tanto) e algo de postura Iggy Pop. Fora o Bob Esponja.
       Apesar dos gritos de “rock paulista” do herói indie Cintra, o pop que o CSS abusa e usa é o da Internet, sempre em construção, sempre incompleto, sempre auto-referente e até quando é sem saco, divertido e rico. Há de tudo lá, você deve saber. De ‘Art Bitch’, ‘Let’s Make Love And Listen Death From Above’ e ‘I Wanna Be Your J Lo’ até as mais pedidas -que fecharam o show - ‘Alcohol’, ‘Superafim’ e ‘Music Is My Hot Hot Sex’,
       Histórico. Se você não acompanha, precisa de uma conexão mais rápida.



Adendo

      O moço Adriano Cintra, via orkut, pede que seja feita a correção. Thee Butchers Orchestra continua vivo. É isso.


Enfim, a casa própria
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