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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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30.1.08

Entrevistas alheias

Vampirizando O Dos Outros

       Tem faltado entrevista por aqui, né? Eu tenho uma pronta em fita, falta só passar para o Word, e eu tenho enrolado. Mas a verdade é que assim que rolar um tempo, ela entra aqui para vocês.
       Enquanto a que eu fiz não vem, vamos de links. Uma é bonitinha, mas o Bruno vai torcer o nariz. Ele tem andado pouco romântico, sabe? A outra é engraçadinha, e dessa eu espero que ele ache graça. Boa leitura.

29.1.08

Show :: Humaitá Pra Peixe (25 e 26 de janeiro)

O último fim-de-semana do HPP começou com uma noite dedicada a artistas do selo Dubas. Não que isso tenha sido um critério, mas se não foi, era pelo menos uma indicação do que se propunha para aquele dia. A Dubas é uma gravadora carioca que flerta com aquilo que se convencionou rotular de MPB. Porém os dois artistas da noite chegavam com expectativas bem diferentes. Enquanto Oswaldo G. Pereira era um nome desconhecido para a maioria – me incluo nela -, o Fino Coletivo já trazia a banca de queridinho da cena local, depois de dois anos de muitos shows pela cidade e um acordo de distribuição do seu álbum de estréia pela Universal Music.

Fotos: Divulgação/Bernardo Mortimer

Pereira trouxe para o palco o repertório de dois discos, o segundo lançado com o patrocínio da Petrobras – empresa que, por sua vez, também patrocinava o evento. O rótulo MPB permite aos artistas que nele se encaixam um certo passeio por gêneros brasileiros. No som de Pereira, o samba de canção é a principal arma, apoiado por um violão de 7 cordas e um bom time de sopros. O repertório é irregular, assim como as próprias músicas em si. É possível ouvir passagens preciosas e risíveis numa mesma faixa. O show seguiu sem causar grande arrombo de deslumbre na platéia e o bis foi por contingência, mais do que por exigência.

O Fino Coletivo é a "bola da vez" no Rio. Misturando sambalanço, com funk e fórmulas pop, quem assiste ao show deles tem a sensação de que "essa banda vai!". Quase todas as músicas tem cara de hit sem serem bobas. Contudo, pra quem acompanhou a trajetória do Fino pelos pequenos palcos cariocas desde 2006, este não é o melhor momento da banda. Apesar de restarem três ótimos vocalistas, a ausência de Wado ainda é sentida. O registro mais alto do cantor faz falta nos coros e as músicas que eram cantadas por ele não têm o mesmo desempenho na voz de seus companheiros. Ao que parece, por toda a dimensão e expectativa que o trabalho tomou, eles parecem estar descobrindo agora qual vai ser do grupo, ao mesmo tempo que Momo e Alvinho Lancelotti já lançaram seus discos solos. A ausência do VJ Lucas Margutti no palco também foi outra perda. O Fino sempre incluiu o VJ como integrante da banda tal qual qualquer outro integrante e isso dava um charme particular aos shows. Dessa vez, ele ficou no distante aquário do segundo andar do teatro. As projeções estão mais bacanas, mais certeiras do que outrora e se destacaram em meio à mesmice que se viu no telão ao longo do festival. Além dos doze quase-hits que se ouvem no CD, algumas covers deram as caras como a boa versão de "Lycra Limão" de Lucas Santtana, já um clássico entre essa geração de músicos cariocas.

Fotos: Divulgação/Joca Vidal

No sábado, dois dos principais nomes do novo samba destruíram. Certamente Moyseis Marques e Diogo Nogueira são os mais carismáticos nomes desta turma. Moyseis samba cheio de malandragem, se arriscando num repertório próprio e com a confiança de quem sabe que se chegou até aqui roendo osso, na hora do filé mignon não tem segredo. Mesclando suas canções com as referências que a noite lhe deu, ele pôs o público no bolso, assinando a apresentação. Ainda desacostumados a apresentações como "artista", o cantor, viciado na rotina da noite, não pareceu se preocupar com o fato de todos os músicos entrarem de branco e ele de preto. Ou fez isso de propósito, entortando o que normalmente se vê. Nesse sentido, o resultado não foi bom visualmente. Mas isso é bem menor do que a failidade com que ele passeia , cheio de propriedade, por um repertório que vai de Jackson do Pandeiro, Gordurinha, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Chico Buarque, em diante. Sobretudo em Chico um destaque. Moyseis optou por "Subúrbio", uma canção do último trabalho do cantor, em vez de recorrer aos clássicos. A música, por sinal, dialoga diretamente com "Nomes de Favela", de Paulo César Pinheiro, que está no disco de Moyseis e também no seu Myspace.

Diogo Nogueira é o herdeiro que não precisou roer tanto osso assim pra já chegar no filézão. Ele subiu ao palco na seqüência entoando aquela que talvez seja a voz mais bonita dessa turma toda. Diogo não se esforça pra cantar. E, ao contrário de Moyséis que optou por um show com a sua marca, Diogo canta pra galera. É um hit atrás do outro, quase nada dele, muita coisa do pai João e de outros. O cantor não tem pudores nem vergonha de se associar ao nome do pai. Talvez não deva mesmo ter, mas poderia ter assinatura mais forte no show. Ele flerta com o popular com uma habilidade ímpar e fica fácil entender porque se tornou figurinha carimbada em tudo quanto é jornal e revista nesse verão carioca.

Musicalmente, a grande diferença entre os dois cantores da noite é a formação. Enquanto Moyseis traz a banda de músicos consagrados no chão da Lapa, com um requinte lírico mais afiado, Diogo vem das quadras, do samba de partido, de fundo de quintal, com uma percussão animal que transforma tudo em festa. São coisas complementares, que apontam para uma renovação madura do gênero. Ambos saíram de palcos ovacionados, com razão.

O último dia teve o encontro de Brasov e Canastra. Mas disso aí, falemos mais adiante.

24.1.08

Documentário sobre samba


Algumas pessoas foram surpreendidas ontem com a informação, publicada na coluna do Marceu Vieira, no site do Ancelmo Góis, de que estou fazendo um documentário sobre o "novo" samba e a revitalização da Lapa na última década. O projeto ainda não tem nome.


De fato, estou nessa pesquisa, da qual não falamos muito até aqui justamente por isso: ainda se trata de uma pesquisa. Era um assunto que queria me aprofundar, uma história que queria contar, mas não tinha certeza do quanto renderia ou não. Agora que a coisa avança e já mais embasada, não já fico menos desconfortável em admitir tal prélio. Vamos ver se vai rolar. Sabe como é esse lance de fazer doc no Brasil... Nos próximos meses, estarei nessa pressão com a ajuda de alguns bravos amigos como Mário Cascardo, Débora Gusmão, Eduardo Levy, Pedro Seiler, Thiago Camelo e o sempre bravo Bernardo Mortimer.

De vez em quando, falarei sobre isso aqui, mas até pra não misturar muito as coisas, criei um outro blog onde se poderá acompanhar o que está rolando durante a produção. Quem quiser comentar, sugerir, etc, lá é o caminho. É o SOBRESAMBA... Esse nome me lembra alguma coisa, mas não lembro o que.. :P

23.1.08

Show :: Paulinho da Viola

fotos: Bruno Maia
O tempo do samba nem sempre é hoje, especialmente o de Paulinho da Viola. Em turnê, lançando o CD "Acústico MTV", ele se apresentou neste fim-de-semana no Morro da Urca. Sabe-se que foi justamente, nesta década em que não lançou nenhum álbum - a não ser o duo ao vivo com Toquinho em 1999 a coletânea do filme que o homenageou em 2003 -, ele virou lenda. Se não foram inexistentes as apresentações neste período, também não foram muitas. Normalmente ele cantava em lugares pequenos, sem muita divulgação, meio que de surpresa. De repente, pulou de volta para o trem do mercado.

Tudo aquilo parece destoar da leveza que o rosto e a voz de Paulinho impõem a quem lhe vê e ouve. São tempos quase antagônicos, sobretudo porque a presença de Paulinho não sugere a existência limitada que o conceito de "tempo" traz. E se há de ter que se localizar Paulinho em algum lugar do 'tempo', definitivamente não é no hoje do Acústico MTV. E ele sabe disso, mas não reclama. Do jeito que dá, se arruma no relógio que impuseram à sua obra. "Normalmente, quando os artistas são convidados pra esse projeto da MTV, há esse pedido de se buscar 15 sucessos da carreira e mais 4 ou 5 canções novas ou pouco conhecidas... Acho que isso acontece com todos, né...", ele divaga. A inocência é a arma de quem se esconde fora do tempo. O repertório que o obriga a voltar aos tempos idos das canções também o carrega pela própria memória e se tem algo que vale a pena, de forma ímpar nessa turnê, é o encontro que lhe impuseram com o ontem. Paulinho lembra os amigos, lembra os parceiros, lembra as histórias. Passa por Capinam e Élton Medeiros, Eduardo Gudim e Arnaldo Antunes. Marisa Monte e até Jair Rodrigues - que brinca se chamando de 'parceiro' por ter criado o "lá iá, lá iá" no final de "Foi um rio que passou em minha vida". É um projeto que aponta pra trás.

Talvez a idéia de embarcar na máquina do tempo que é o "Acústico MTV" seja justamente trazer Paulinho de volta ao mercadão pra viabilizar um amanhã produtivo. Foram as primeiras apresentações dele depois da morte do pai, César Faria, mas essa perda curiosamente não afetou o show, nem o sorriso, nem a mansidão de Paulinho. No palco há um tempo próprio dele, daquela obra. Os sambas espalhados pelos discos de pupilas como Marisa Monte e Teresa Cristina são o caminho mais fácil pra ele, apesar dessas canções não terem espaço no formato desgastado da eme-te-vê.

Como show dele não consegue ser ruim, esse é bom. A banda é boa, o repertório é genial, mas é limitador. Envolveram Paulinho nesse relógio ao contrário e ele samba como pode. Tenta entender em que porto está, querendo pegar o barco e partir pra outro lugar. Mas hoje, não. O tempo é outro.

Humaitá Pra Peixe 2008 :: Show surpresa

Já está rolando o papo por aí... O tão aguardado show surpresa do HPP 2008 vai ser um encontro dos músicos do Canastra com o Brasov, grupos velhos conhecidos do festival. É domingo, dia 27.

Aliás, a última semana está convidativa.

Dia 25 - Oswaldo G. Pereira / Fino Coletivo
Dia 26 - Moyseis Marques / Diogo Nogueira

Perde não, hein!!

21.1.08

Festival de marchinhas 2008

Um certo orgulho de ser carioca

As marchinhas começaram na hora. 19h30. A Globo transmitiria a disputa ao vivo, não dava pra atrasar. A recuperação do carnaval de rua do Rio de Janeiro é um dos maiores bens culturais que a cidade recebeu nos últimos anos. Toda uma geração que passou os carnavais da adolescência pelo nordeste ou pelo sul do Brasil, hoje prefere ficar e curtir a própria cidade. Uma nova geração não sabe e nem quer saber de gastar dinheiro pra viajar no carnaval. Junto com a festa de momo, vieram o sorriso, a intimidade com as ruas, a economia e, sobretudo, a auto-estima. O festival de marchinhas da Fundição Progresso há três anos ganha força e traz consigo o sentido mais amplo de cultura: valorização da memória, renovação artística, entretenimento realmente democrático, empregos e alegria. E àquela hora, a Fundição era palco de um dos momentos mais emocionantes que presenciei nos últimos tempos.

Emocionante por tudo isso, pelo colorido, pelo compromisso, pelo respeito ao público, pelas crianças correndo soltas com confete e serpentina, pelos velhinhos sentados ao fundo cheios de sorriso, pelas letras distribuídas em folhas de papel coloridas, pelos bondes pacíficos, pelo sósia do Zacarias, pelas diabinhas, pela geração de novos sambistas que vem renovando todas as variáveis do gênero, pelo paganismo abençoado pela catedral ali do lado, por ser carioca e se sentir um pouco dono de uma história tão bonita que entornava pelas mãos e vozes dos músicos.

Já não há como negar a evidente recuperação de parte da auto-estima cultural da cidade nos últimos anos, principalmente nos fenômenos que têm a música como mola, seja nas novas dimensões que o funk tomou, seja com o samba. O rock, é verdade, perdeu esse bonde. A participação da Globo pelo segundo ano seguido ajudando a escolher a “marchinha do ano”, através de votação popular e nacional, pelo Fantástico, não tem necessariamente a ver com essa recuperação, mas ajuda a reforçá-la.

Nestes tempos em que a cultura nacional é regida pelas leis de incentivo e, mais ainda, pelos editais da Petrobras, é gratificante ver um projeto que cumpre o seu papel de propiciar retorno social. O entretenimento democrático, num microcosmos carnavalesco, é um bem cultural que foi sendo degradando com o passar dos anos. Inserido na Lapa, o bairro que foi revitalizado na última década, tendo o resgate e a redescoberta do samba como mola, o festival complementava essa história. Assim como ao longo do ano, os grupos novos movem a economia lembrando Noel, Wilson Batista, Pixinguinha, João da Baiana, Caymmi, misturando com o novo, o mesmo acontece com as marchinhas quando chega o carnaval. O concurso homenageia Lamartine Babo, que dá nome ao troféu conquistado por Mauro Diniz e Cláudio Jorge, com a música “Volante com cachaça não combina” e tem José Roberto Kelly – um dos maiores compositores de marchinha da história - como jurado. Foi essa mistura que apresentou os jovens a um repertório que eles tratam como tesouro; aos adultos-de-40/50 um circuito gastronômico e musical que os permitem curtir com certo conforto de quem está no auge da carreira e aos mais velhos uma recuperação da vida que as limitações físicas muitas vezes impõe, sem os forçar a gostar de algo que não é da sua geração e que eles não tem nenhuma obrigação em ver valor.

A senhora de seus 75, 80 anos, sentada na mesinha, com um sorriso no rosto, uma lente de aumento numa mão e a folha de papel com a letra de uma das novas marchas concorrentes na outra, se esforçava pra ler e cantar. Pela fragilidade do corpo, que contrastava com a vitalidade do espírito ali encarnado, ela só conseguia pronunciar a última frase do refrão. Ali, era ela a metáfora de algo muito maior, que certamente ela nem sabe. Ali, era ela a metáfora de que algo aconteceu no Rio, porque, sim, algo aconteceu. E eu acho que ando meio fraco, sensível talvez. Havia algo de história naquele olhar, naquela lupa e naquele sorriso. E, sei não, devo estar meio sensível, mas aquele sorriso fez lágrimas fugirem de mim. Sorrindo.

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Vêm chegando os pierrots!

16.1.08

Livro :: "Barão Vermelho - Por que que a gente é assim"

Numa época em que os livros com conteúdos musicais se proliferam, as melhores opções vêm sendo gringas. Até por isso é muito bom quando algo nacional sai fazendo bonito. É o caso de "Barão Vermelho – Por que que a gente é assim". Trata-se de uma leve viagem pela história de uma das bandas mais importantes do rock brasileiro. Assinada por Guto Goffi, Ezequiel Neves e Rodrigo Pinto, o livro transborda intimidade, mas sem amarelar, demonstrando que imparcialidade não tem a ver com qualidade, nem tampouco o contrário.

Até por ter dois barões entre os autores (Guto e Ezequiel), o acesso a fotos, vídeos, áudios e entrevistas é completo. A banda aproveita, enquanto está de férias, para abrir seu baú e revela a densidade da sua própria história. Rodrigo Pinto amarrou tudo isso muito bem e se utiliza de uma linguagem mais ousada na diagramação. A narrativa linear da história é frequentemente interrompida por histórias fragmentadas, que surgem independentemente da cronologia a seu redor. Fotos, recortes, fontes exageradas, tudo surge numa linguagem mais rock'n roll, dentro de todos os clichês que o termo envolve quando se pensa na linha genealógica stoneana. Parece realmente inspirado nas séries de scrapbooks que vêm sendo lançadas lá fora nos últimos anos, mas empacotado para o formato de prateleira tradicional.

Uma marca comum deste tipo de livro é que, quanto mais pro fim, a história perde um pouco da pressão. Talvez pelo cansaço natural dos autores. Aqui isto também acontece, mas não chega a incomodar. O livro também vem com um CD com os históricos e famosos registros que a banda fez na Som Livre e que foram parar na mão de Ezequiel Neves. Isso tudo foi recuperado para ser lançado nesse projeto, o que dá mais gás à coisa toda. Belo livro de rock.

14.1.08

Show :: Humaitá Pra Peixe (11, 12 e 13 de janeiro)

O primeiro dia do segundo fim-de-semana do HPP começou com o menor público do festival até aqui. Diante de uma platéia formada sobretudo por amigos, João Brasil e Silvia Machete fizeram uma noite descontraída. Por conta do trânsito desta cidade (e ainda estamos na primeira metade de janeiro!!!!), só consegui chegar no fim da apresentação circense e acrobática de Silvia Machete. O clima era de diversão e os comentários durante o intervalo foram mais positivos do que resmungões. Na seqüencia, João Brasil surpreendeu a todos.

fotos: Divulgação HPP/Joca Vidal
O grande risco que João corre é a piada se esgotar ou não conseguir transcender o ambiente dos amigos. Apesar da euforia que se viu nos primeiros shows que o rapaz fez em 2007, não há como negar que esta dúvida nunca foi por completo dizimada. Talvez não tenha sido ainda agora, mas sem dúvidas, ele fez sua melhor apresentação até aqui no palco do HPP. Empolgado por estar lançando o seu disco ali, mais consciente do 'timing' das coisas, mais cínico, sem o roupão que o associa com o figurino do programa de Marcos Mion, ele foi ganhando o auditório aos poucos. Sim, os amigos ajudaram muito para que ele se sentisse confiante e fosse crescendo durante a apresentação. Porém, independente disso, o show foi genuina e anarquicamente bom. Não fosse tudo isso, não teria sido o primeiro show a terminar com o público todo de pé. Vale registrar ainda as projeções classudas no telão que fizeram a diferença e fugiram das constrangedoras produções que se via até ali, em todos os shows em que os artistas não foram os próprios responsáveis pelas imagens.

No sábado, Manacá e Frank Jorge fizeram show diametralmente opostos. Enquanto a abertura ficou a cargo dos novatos cariocas, que tentam experimentar a linguagem do rock com as referências da música sertanista do nordeste, criando imagens e climas, o encerramento ficou com o rock cru, redondo, básico e docemente clichê do professor Frank Jorge. O Manacá vive entre o sonho de ter visto a própria história se transformar meteoricamente, afinal foram menos de dois anos entre criarem a banda e já terem contrato com a EMI, disco produzido por Mário Caldato Jr, e subirem palcos com a responsa de ter que provar o por quê de tanta badalação. Para quem ouviu a demo apresentada nos bastidores do HPP 2007, o show provou uma evolução absurda. A presença de um músico de apoio, que toca cello e rabeca, já é uma conquista que ajuda na performance. Letícia Persiles é realmente muito carismática. Os telões no fundo projetando a imagem da moça provavem que o grupo ainda conta com o fato da moça fotografar lindamente. A banda também é redonda, afiada, mas o som ainda soa estranho. Não que isso seja um demérito, mas uma constatação. O Manacá soa muito diferente do que estamos acostumados a ouvir recentemente. Isso traz uma série de prós e contras, que mais do que qualquer coisa, geram uma extrema curiosidade sobre o que será do futuro da banda. Ao mesmo tempo que Letícia tem todos os atributos para levar o grupo para o maistream, é também de onde saem as melodias mais tortas, lembrando cantigas nordestinas, como na faixa "Galo". A banda é a base da sonoridade pop, mas sem o apelo de mise-en-scene da vocalista. Isso é uma contradição ou uma soma positiva de fatores? O tempo vai dizer.

Em seguida, foi a vez de Frank Jorge, um dos maiores mitos do rock nacional. O hoje professor da Unisinos, no curso de Formação de produtores e músicos de rock, deu uma aula básica pra turma, mas sem muito gás. A criatividade que na Graforréia Xilarmônica (banda em que se tornou mito) se tornou marca, não transborda da mesma forma sem seus parceiros Pianto e irmãos Birck. Sobretudo o guitarrista Carlo Pianto faz muita falta... Sem ele, fica faltando o humor instrumental às gracinhas líricas de Frank. Pra quem já conhecia os trabalhos anteriores de Frank, a mistura de non-sense, com jovem guarda, beatlemania e gauchismos só diverte como celebração de memória coletiva. Os terninhos mods, que são a fantasia oficial do rock gaúcho desta década, já soam anacrônicos, se não for pra ser piada. Talvez seja até pela citação à "Não agüento mais essa obsessão pelos anos sessenta", que ele cantou no fim. Mas só. Pra quem já conhece, um show legalzin, sem novidades. Pra quem nunca viu, descobrir Frank Jorge ainda pode ser divertido.

No domingo, Strike e Darvin fizeram o dia da "molecada 2º grau". A data já está virando um "clássico" do HPP...

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Essa semana começa muito bem no HPP. De cara, o talk show com o trio +2. Depois do que disseram que aconteceu na Cinemathèque na semana passada, esses talk shows prometem ser o grande charme desta edição. Em compensação, o papo de bar tem que melhorar muito a estrutura no Mofo pra poder ser levado em consideração. Semana passada foi mico. Pouco se ouviu, quase nada se viu, e as conversas mais legais acabaram ficando na calçada entre aqueles que desistiram. Mas a produção promete que essa semana será bem melhor. Vale acreditar.

14/01 - Talk show: + 2
15/01 - Mesa de bar: Festivais e Festivais
16/01 - Workshop: Fernando Magalhães
17/01 - Shows de lançamento: Columbia
18/01 - Shows na Baden: Superguidis + Érika Martins e os Telecats
19/01 - Shows na Baden: Songoro Cosongo + Z'África Brasil
20/01 - Shows na Baden: Macaco Bong + Jay Vaquer

O resto da programação está no site do festival.

11.1.08

Show: Spok Frevo Orquestra

Emoção Ladeira Acima





       E pensar que o frevo chegou ao Canecão... Para qualquer carioca, a velha casa de shows é parte da história da música popular brasileira, sim, mas também um lugar com brigas longínquas com a UFRJ, proprietária do terreno, e acima de tudo um palco que está sempre ali, competindo na programação de eventos da cidade com casas de outras companhias telefônicas ou de instituições financeiras. Mas quando vem alguém de fora do Rio, toda a história e o charme da casa tomam uma nova dimensão, e fica bem bonito.
       A Spok Orquestra Frevo surgiu há uns sete anos, no carnaval de Recife e Olinda, com a intenção de levar aos palcos o frevo de rua, seja ele coqueiro (puxado pelas notas agudas, acima da pauta, dos trompetes), ventania (pelos saxofones e as nuances do sopro em palheta de madeira) ou abafa (quando a afinação fica de lado e o que vale é fazer sumir o que toca a orquestra do clube rival, ali subindo a rua na direção oposta).
       Mas antes de o público carioca aprender tudo isso, o brilho de uma big band que abusa das frases suingadas em uníssono já tinha enchido de cor os ouvidos de um Canecão bem cheio, mas não lotado. E mais, Spok, maestro e saxofonista ao mesmo tempo, já tinha aproveitado o intervalo entre a primeira e segunda música para dengosamente cativar a todos com um início de lágrimas.
      Ele, que usa a expressão corporal para reger os quase vinte músicos, fora frases que sopra baixinho em contra-canto para a sessão de saxes que fica à frente do palco, pegou o microfone cheio de sotaque e se lembrou da história comum de todos os instrumentistas ali. Músicos acostumados ao suor e ao talco de foliões no calor das pedras pernambucanas, eles depois de tantos arrastões carnavalescos (claro que a platéia estranhou e riu do sentido festivo que a palavra tem na cidade de lá) chegavam à famosa casa para levar justamente o aprendido e desenvolvido na tal escola do frevo.

       E carioca em pleno verão não tem jeito, é ver um cabra com sotaque encantado om a cidade maravilhosa e pronto, tá ganho o jogo. Rolou paixão de carnaval. Tome sorrisos. Na medida em que o show ia correndo, sempre com uma explicação para contar a história dessa ou daquela música, íamos sendo apresentados a composições de mestres que - com uma ou outra exceção - simplesmente não passam por aqui, palcos de Canecões e ouvidos cosmopolitas. Entre os poucos com carreira além-Recide, os mais aplaudidos foram Severino Araújo (da Orquestra Tabajara carioca) e Sivuca (morto recentemente).
       No naipe de saxofones, o destaque era a dupla de sax altos, que quando solava em duelo arrepiava. Na guitarra, Renatinho teve vários momentos só seus, e pôde ouvir logo logo o nome gritado (se a claque era infiltrada, a gente nunca vai saber). E no trombone, o barão do frevo Marcílio esbanjou carisma com as histórias sobre o abafa, a tal estratégia de confronto entre agremiações rivais. Marcílio está à frente de “precisamente quarenta e oito” orquestras de rua no carnaval pernambucano, e portanto só pode ter chegado a esse número depois de consagrado em zoadas estoura-tímpano pelas ruas antigas da capital. É de se impressionar mesmo.
       Curioso é reparar a ausência da tuba, instrumento muito comuns em formações similares seja no leste europeu, em bandas marciais ou nos Estados Unidos. O baixo da banda é feito por um instrumento elétrico, igualmente muito bem executado.
       Não dá para falar do show de ontem sem mencionar Flaia, a dançarina de frevo que parecia um solo de trompete dançando, pulando lá em cima e caindo lá embaixo com as pernas abertas, cheia de agilidade e leveza na ponta dos pés. Ela e os outros meninos da Escola de Frevo do Recife encheram ainda mais o palco de festa.
       E ainda houve espaço para os cantores pernambucanos Almir e Kelly, ela mais carismática que ele, Lenine e o saxofonista Léo Gandelman. No fim, Beth Carvalho ainda subiu ao palco para dividir o microfone e fortalecer o clima de festa entre samba e frevo, que acabou tomando a rua, na entrada do Canecão, com todo mundo se apertando em volta do cordão de caixa, surdo e metais. Emocionante.

7.1.08

Show :: Humaitá Pra Peixe (04,05 e 06 de janeiro)


Além da dificuldade natural de se fazer um festival independente que se consolide como referência, a produção do Humaitá Pra Peixe tem um outro grande desafio anual: construir a grade de atrações. Mais do que um clichê que questione a dificuldade de só escolher 20 e poucas atrações no meio de tanta coisa que surge toda hora, principalmente com a internet, a questão aqui é exatamente o contrário. Como conseguir achar 20 artistas que justifiquem estar nos palcos do HPP.

Isso porque Bruno Levinson mantém uma linha de curadoria mais sofisticada que a da maioria dos festivais pelo país afora. Na maioria das vezes, os artistas escolhidos já flertam de alguma forma com o grande público, ao mesmo tempo que já superam aquele mundinho underground. Ou não. Outras tantas vezes, grupos com menos de dez shows no currículo sobem ao palco do HPP – Do amor (2008), Cabeza de Panda (2008), Ordinário Groove Combo (2007), Jonas Sá (2006) –, mas a presença se justifica pelo currículo anterior dos integrantes. Mostrar a cena carioca é outra função que o festival sempre procurou ter. Em edições anteriores o hip-hop e o samba ganharam força graças ao crescimento de suas respectivas cenas na cidade. Outro ponto que dificulta o processo de escolha é o fato de pouco se repetir nomes. Levinson trabalha com o conceito de ser um misto de trampolim e vitrine. "São artistas que vêm dando o passo a passo para conquistar público e consolidar sua carreira. Artistas que eu acredito possam desenvolver carreiras a médio e longo prazo. Tento fazer no HPP uma vitrine do que rolou durante o ano."

Somado a isso tudo vêm o fato de vivermos uma entressafra de artistas que mostrem algum sabor novo em seus trabalhos, a pretensão (louvável) de se fazer um festival que ocupe a cidade durante um mês e a dificuldade financeira de bancar a vinda de um número maior de artistas de fora do Rio. Tudo isso torna ainda mais heróico o ato de se conseguir fazer o evento com uma escalação de respeito. E, mais uma vez, eles conseguiram. Dentro de todas essas questões que tornam a curadoria sofisticada, Levinson conseguiu montar uma grade honesta, de qualidade e, sobretudo, que gera expectativa. "Particularmente estou bem satisfeito com a programação deste ano que considero a melhor que o HPP já teve". Talvez seja mesmo. Não é pra acertar sempre, afinal o risco faz parte do investimento em nomes não consolidados e da graça de ir assistir um festival como este. Haverá sempre shows memoráveis e outros que servem de pretexto pra ir tomar uma cerveja e conversar com os amigos – já que o HPP também dá o prazer de juntar grande parte das pessoas que trabalham com música no Rio, em um ambiente informal e amistoso.

O primeiro fim-de-semana evidenciou esses limites tênues que permitem shows incríveis e outros descartáveis. A abertura ficou com o compositor Rafael Gemal, com uma apresentação que passou longe de qualquer empolgação. A noite era mesmo de Roberta Sá, possivelmente a maior atração desta edição 2008.
Roberta parece ter vivido um certo dilema de transitar exatamente no limite que a separa do mainstream e dos palcos onde busca-se afirmação. Como Levinson disse na apresentação do show, talvez esta fosse a última oportunidade do HPP comportá-la em sua escalação devido ao crescimento que a carreira da moça vem tendo. A banda composta por Rodrigo Campelo, Antonia Adnet, Jovi Joviniano e Élcio Cáfaro dá a cama redondinha pra meiguice dela solar. Mais contida do que em apresentações anteriores, Roberta busca uma singeleza que lhe cabe bem. Talvez com um pouquinho mais de movimentação e de ocupação de palco achasse o tom. A apresentação acabou sendo mais morna do que poderia.

Na platéia, muitos senhores de cabeças brancas enriqueciam o ambiente do festival, normalmente transbordante de hormônios. A Sala Baden-Powell ocupa um papel importante na selva que é Copacabana e abriga diversão e entretenimento para grande parte da população de terceira idade que mora no bairro. Acostumados à programação da casa, eles apareceram meio sem saber o que iam ver. No segundo dia, alguns ainda sobreviveram, no terceiro já eram menos.

fotos: Bernardo Mortimer
Do Amor e Vanguart fizeram os shows de sábado. O Do Amor é um dos casos de bandas com poucos shows no currículo, mas que garante presença no festival pelo currículo dos integrantes. Metade da banda é a banda do Caetano. Fora Los Hermanos, Carne de Segunda, Lucas Santtana, Canastra, etc... A estética da farra transborda. Os integrantes se conhecem e tocam juntos há muitos anos, o que dá uma leveza a tantas brincadeiras e exercícios de linguagem. Há um descompromisso, um clima de zoação com piadas bem elaboradas e um alto grau de sofisticação de arranjos, porém a falta de um vocalista que se salve incomoda. Não é esperar que haja sempre uma figura central, sob a qual os holofotes transbordem - o que destoaria da proposta estética do grupo -, mas sim querer não se sentir incomodado toda vez que alguém canta em grau discrepante de qualidade se comparado ao som que está se ouvindo. Aliás, o som é muito divertido e beeeem melhor que aquele que se ouviu no SMD lançado em 2006.

O Vanguart chegou com algum status de estrela do cenário indie nacional e apresentou um belo show, sobretudo pela figura performática e competente do vocalista Helio Flanders. A banda está redonda, graças ao grande número de shows que vem fazendo. O repertório já encontra eco e coro nas vozes daqueles que conversam pelos dedos. Muito se ouviu sobre a necessidade deles largarem mão de cantar em espanhol e inglês já que o repertório em português é superior. Talvez eles pudessem crescer mercadologicamente se apostassem nisso, mas sobretudo o inglês funciona no formato folk do grupo e na voz de Flanders. A apresentação terminou com "Medo da chuva" de Raul Seixas. O vocalista soube reagir com humor às clássicas piadas do "Toca Raul" e mandou o cover que eles fizeram no Som Brasil em homenagem ao cantor.

No domingo, foi a vez de Cabeza de Panda e Maquinado, dois grupos sem currículo nenhum e ao mesmo tempo com currículo enorme. E aqui, mais do que nunca, os riscos deste formato mostraram as suas duas faces. Cabeza de Panda é um grupo formado por três excelentes músicos, acostumados a grandes turnês e que atualmente tocam juntos, na banda de apoio de Marcelo D2. Só tinham feito um show até ali, em São Paulo. O currículo não justificou a presença do grupo no festival. Há uma grande distância entre ter grandes músicos e ter uma boa banda. O som de boas melodias, é verdade, mas arrastado, sem muita graça e que, nas conversas de corredor no intervalo, não parecia ter agradado à maioria. Mas se o currículo e o som da banda não justificaram a presença ali, a contagiante presença de Thalma de Freitas na última música, uma versão de "Toxic", da Britney, fez tudo valer a pena. Graças a isso, o grupo saiu do palco deixando a rapaziada com a cabeça cheia...

O trabalho solo de Lucio Maia vem com parte da cozinha da Nação Zumbi à tira-colo. Dengue no baixo, Toca Ogam na percussão. DJ PG completa o time, nos scratches. O grupo fez pouquíssimos shows até aqui e o lançamento de "Fome de tudo", da Nação Zumbi, quase ao mesmo tempo, parece ter atravancado o andamento da turnê da banda. Até por isso, foram poucas músicas do excelente disco "Homem-binário", porém isso não enfraqueceu em nada o nível da apresentação. Disparado o melhor show do fim-de-semana e com um grau de excelência que dificilmente vai ser superado ao longo de janeiro. Entre os homenageados que receberam versões envenenadas e desconcertantes estavam Jorge Ben ("Zumbi"), Serge Gainsbourg ("Je t'aime moi non plus"), Kraftwerk ("Computer Love"), Nélson Cavaquinho ("Juízo final)" e a própria Nação Zumbi ("Samidarish"). Lucio é um dos músicos mais competentes do país atualmente e, fora as horas em que resolvia fazer discursos, botava a banca a que faz jus. A participação do Mamelo SoundSystem é que passou longe de se justificar. Rodrigo Brandão não convence no papel de MC. Duro, sem o tal do "flow" que os MCs tanto prezam, ele parece vir sempre com tudo muito decoradinho, o enredo já pré-setado. Ainda teve que agüentar o vácuo da galera quando gritou: "E aê, cariocas, vocês tão tirando um barato aê, mano?!". Poucas respostas. Ele então se corrigiu, citou a festa Phunk e mandou um "Vamos fazer barulho". Clichê, mas mais a ver, né... Sua companheira de banda, Lurdez Daluz se saiu melhor.

Ao fim da apresentação, Lucio disse que considerava aquele como sendo o show de lançamento de "Homem-Binário". É torcer para o show ganhar estrada e voltar ao Rio com mais músicas do repertório do disco. Será outro show, é verdade, mas está na cara que será fodão também.

Hoje o festival continua, com talk-shows. Amanhã debate. Depois workshops... A programação é longa e vale a pena visitar o site do festival para acompanhar tudo.

4.1.08

Disco: Alive 2007, Daft Punk

A Mémória É Várias Ilhas de Edição
       A idéia de que a memória coletiva ganhou um aliado perfeito e não menos orientado pelo afeto com os google, youtube e flickr é o toque que faz brilhar o Alive 2007 do Daft Punk. A obra é aberta ao extremo: ouvir o disco é um pouco como levar o chaveirinho vendido na banca como recordação. Só que um disco pode ter deixado de ser um monte de coisa, hoje, mas não virou ainda um chaveirinho. Se quem viu a turnê da pirâmide, contemplada aqui, saiu entusiasmado com a experiência vivida ao longo de pouco mais de uma hora, ouvir o disco é parte sensível da retomada daquela emoção. Ou melhor, da memória daquela emoção.
       Pois, junto com as imagens que a memória reedita ao som das seqüências e mixagens, e um não vem sem o outro, a coisa toda é realimentada pelos searchs por arquivos na Internet. E o disco se vale disso. Vai contar quanto se reproduziu de informação feita não tradicionalmente sobre essa turnê, só nos sites lá da primeira frase, e me diz quanto tempo não demora. Daí a opção declarada em não lançar dvd: o efeito seria anacrônico. Mas e um disco, não?
       O Daft Punk acertou em vários sentidos, e em um tempo em que o álbum começa a deixar de ser o protagonista da música pop, fez de um disco ao vivo a provocação da memória coletiva de quem participou do show da pirâmide – uma das experiências que vão definir a primeira década do século quando der para olhar em perspectiva.
Em uma conversa entre eu, a Andréa, o Bruno e o Matias, em São Paulo, há uns meses, o homem do trabalho sujo bateu a mão na mesa e estabeleceu: “o Daft Punk é o artista do começo do século. Ele e a Britney”. Fez-se um silêncio e ele começou a explicar idéias soltas na cabeça: a criação da eletrônica como um gênero só, que a propósito engoliria o rock e o rap.
       O Daft emendou uma seqüência de títulos de disco que contam um pouco pra onde a música tá chegando em palcos/pistas do mundo: Homework, Discovery e Human After All. De um disco feito em casa por dois moleques, foram inventando e descobrindo que o limite entre rock e eletrônica (não electro, ou house ou o que você quiser ler na filipeta) tinha acabado. Aliás, vários limites, como também o de sintetizadores e guitarras, rave e show, videoclipe e cinema, artista e robô. Tudo já visto anteriormente, mas com muita cara de novo (um remix, que se consagra sobre os originais). Até que, corrigindo o rumo, reconhecem a humanidade, afinal de contas, mesmo que ainda sem mostrar as caras. E o que mudou com a constatação? No som, pouco. Ainda era funk, rock, kraftwerk, mas passou a ser um tanto quanto um momento para parar e refletir sobre a distância entre criadores com um dom e o Criador. Sem querer fazer trocadilho, o álbum entitulado com a concessão humilde escondia que a dupla francesa estava mascarada. Marra demais entre fotos cínicas dos dois lado a lado com uma guitarra, um amp e uma bateria (te lembra alguma outra banda?). Cinismo demais, afinal de contas.
       Mas veio a turnê da colméia, da pirâmide, das luzes azuis e das cabecinhas de metal atrás do maquinário disposto na mesa. De cara, pulavam referências geométricas, egípcias, floydianas, kraftianas, de ficção científica, etc. E o que o show apresentava era uma estrutura gigantesca que punha em perspectiva o tamanho do fator humano ali: até pequeno e engolido por uma roupa metálica, mas no centro das decisões, sim. O show misturava pedaços de três fases distintas e aplicava a lógica do mash up para mostrar que é tudo uma coisa só. Um bloco comprido de som, batidas, texturas e frases que evocam a memória coletiva – ou partes importantes da história da música sob uma só assinatura. Acertos meia-bomba de pouco mais de três anos foram redimidos pela porrada do hit das pistas de cinco anos antes, o funk de um videoclipe depois esquentava a robótica dali e maximalizava tudo. A distorção e o baixo entronados sobre a auto-biópsia feita na hora (autópsia tem a ver com morte, e não é o caso).

       Se a época é de retrospectivas, eu diria que esse Alive 2007 é, ao lado do In Rainbows do Radiohead, o disco mais representativo do que foi o ano que acabou na semana passada. Não o melhor, eu prefiro o Sound of Silver do LCD e o Teletransporte do Autoramas, só para citar dois. E quem não viu o show da pirâmide não vai poder se satisfazer agora, nem o faria com um dvd. Mas quando os historiadores e biógrafos começarem a corrigir os jornalistas e declararem que 2007 foi mesmo muita coisa, não vai ter como deixar de falar desse disco ao vivo pelo que ele manifesta, sem uma inédita, e sem uma ponta de comodismo para se reinventar sem mudar. A trilha que evoca a memória coletiva de um tempo: o registro do zeitgeist do início do século.



Nada a ver

      O Humaitá Pra Peixe começa hoje. Já passou ?

1.1.08

Guitar heroes...

2008 começa com o aparente fim da guitarra ou, sendo menos radical, com o surgimento da segunda era do instrumento mais tradicional do rock. E quem indica isso é a Gibson, tida por muitos como a mais popular e mais cobiçada marca de guitarras do planeta. A fabricante anunciou, no fim de 2007, o seu novo modelo, o HD.6X-Pro, sob o design da clássica Les Paul. Com o novo modelo, a forma de se tocar guitarra muda tão radicalmente que chega a ser dificil considerar que se trata de uma... "guitarra".

As novidades começam pelas possibilidades cinematográficas que permitem a afinação automática do instrumento (sim, ele se afina sozinho!) e de se trocar o tipo de afinação com apenas alguns toques nos botões, que passam a ter funções de touchscreen. Mas sobre esses pontos, mais do que a explicação em palavras vale (e muito!) ver os vídeos.

"Tradicionalmente" a guitarra é um instrumento com uma saída de áudio, sob a qual os guitarristas inserem seus efeitos, texturas, distorções, etc. A grosso modo, no novo equipamento, cada corda passa a ter sua saída própria e este sinal pode ser trabalhado independentemente dos das outras cordas. Cada uma tem um captador próprio. Para isso tudo funcionar, o pulo do gato está no que eles chamam de Breakout Box (BoB), uma espécie de placa de som que já transmite os sinais separados para algum outro periférico onde se vá trabalhar.

A BoB é externa à guitarra, mas fica acoplada via cabo ethernet e transmite com qualidade digital, com redução de ruídos e mantendo o nível do sinal por maiores distâncias. Além disso tudo, há a possibilidade de exportar separado os sinais das três cordas mais graves em um canal e o das três agudas em outro, sem falar nos formatos tradicionais em mono, estéreo e analógico. Na prática isso significa que a possibilidade de explorar a guitarra se multiplica de uma forma absurda. Pode-se, por exemplo, colocar em cada corda um efeito, um timbre e uma tensão, diferente das outras, e gerar um hibrído que não conseguimos nem imaginar o que seja ou que possa vir a ser. Por isso, a afirmação de que surge um novo instrumento. Essa ampliação de limites aproxima um pouco os guitarristas dos DJs, por exemplo. Quem carregar uma guitarra, além de tocá-la, vai ter que manusear uma espécie de mixagem em tempo real. Serão novos instrumentistas, com um conhecimento e prática muito diferente das que ouvimos até hoje. Será impossivel, por exemplo, comparar Hendrix com um novo virtuose que surja neste novo instrumento, justamente por isso: ser um novo instrumento.

Essa coisa linda aí está a venda em poucas lojas desde dezembro. Feliz ano novo.


Enfim, a casa própria
Perda :: Dorival Caymmi
Dorival Caymmi :: Compilação de vídeos
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