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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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27.4.07

Notícias do Cenário Independente

Os Nuggets do Fim do Século


      Sabe o que é um nugget? É, isso mesmo. Em 1972, a Rhino Records lançou nos EUA uma compilação em dois discos com o que dois indivíduos achavam ser o essencial da psicodelia americana entre os anos de 65 e 68. Caso interesse, a dupla era o guitarrista da Patti Smith, Lenny Kaye, e o dono da Elektra Records, Jac Holzman. Isso, a coletânea do essencial de um momento específico do rock, ficou sendo o primeiro nuggets da história.
      Não dá pra saber ao certo como foi surgir esse nome, mas o meu palpite era que por se tratar de uma coletânea psicodélica, eles quisessem um nome que desse uma idéia de pedaços gostosos de alguma coisa maior. O gosto pelo nonsense deve ter ajudado na aprovação da sugestão.
      De um jeito ou de outro, a idéia deu certo. Críticos gostaram, gente normal comprou, e até em uma lista de 200 melhores álbuns da história da Rolling Stone, o 'Nuggets: Original Artyfacts From the First Psychedelic Era' entrou. Mas demorou até o ano 2000 para que o lp duplo fosse digitalizado em cd pela mesma Rhino Records. E feito isso, outros nuggets vieram. O segundo era uma coletânea do mesmo período, mas só com músicas psicodélicas de fora dos EUA, Mutantes entre os contemplados.
      A idéia de nuggets ainda foi usada pelo menos três outras vezes pela gravadora.

      Essa volta toda, eu dei para chegar aqui no Brasil. A idéia foi de Gabriel Thomaz, do Autoramas. Organizar o melhor da coleção dele de quinhentas demos e lançar. A proposta foi prontamente aceita pelo dono do selo midsummer madness, Rodrigo Lariú. Vai sair na internet, e em fita. É, em fita. Afinal, magnetismo tem a ver com tudo isso. O nuggets brasileiro vai se chamar Fim de Século (soa Ramones?) e não deve terminar nessa primeira edição - aliás, com lançamento marcado para o dia primeiro de maio. Preparare-se para Raimundos com bateria eletrônica, Acabou la Tequila e Pato Fu pré-históricos, Oz, Cabeça, Graforréia Xilarmônica, Eddie. De repente, mais pra frente, rola um Djangos, um Los Hermanos (o momento é bom para homenagens), Gangrena Gasosa...



Nada a ver

      Por falar em Gabriel Thomaz, o Autoramas tá na Europa. De sexta passada até o meio do mês que vem, rola Bélgica, Holanda, Espanha, e muito Portugal. Porque às vezes a gente fica falando de myspace e Cansei de Ser Sexy, e na verdade rolam outros exemplos de uso da internet para fazer uma banda legal sair do país e fazer girar a roda do som brasileiro. E eu tô falando de cultura, economia, negócios, trocas. E, no caso, rrrrock.



Nada a ver

      E a letra de Fred 04 para a nova música do mundo livre s/a, que vai dar para baixar no site da Monstro, logo mais, à noite. Muito legal ver uma banda com mais de dez anos de estrada repetindo experiências de uso inteligente da internet. Nova música é isso, mesmo que o artista seja um velho conhecido.

CHO SEUNG SONG (Requiem para virtuais vítimas e atiradores)

O sol nunca se põe nos infinitos domínios da microsoft
todos sabemos que é só uma inocente e singela corrida
Tudo é seguro nos liberais domínios da tecnolife
mas por uma razão qualquer eu só consigo ver macrosangue
(escorrendo dos dedos tétricos que preparam nossos castos bigmacs)

Então eu estou voltando pra China, nunca é tarde
mas antes queria levar um lote de vocês pra um longo passeio
quem tem que viver encurralado, bye bye peixinhos dourados, bye bye

Consciência ambiental com as menores taxas do pregão
mas algo me incomoda, não sei, deve ser o cheiro de ódio
(que exala de suas turbinadas sementes)
Dolar em baixa comprime os preços nos mercados emergentes
mas quem não conhece o fim dessa piada
maldita maratona sem linha de chegada
Satélites rastreiam nossos passos
portanto eu realmente não sei
quanto tempo ainda temos pra limpar as mãos antes que o anjo/rede/NBC
nos liberte desse tenebroso anonimato

Então eu estou voltando pra China, nunca é tarde...(refrão)

O sol nunca se põe...
todos sabemos que é só uma corrida de vantagens




Nada a ver

      E por falar em Monstro, olha a escalação do Bananada, lá no site deles. Um monte de banda do Centro-Oeste como Mechanics (GO) e Violins (GO), o rock bêbado e mal-encarado do Super Hi-Fi (RJ), a desconstrução debochada da Graforréia Xilarmônica (RS), o punk raivoso do Devotos (PE), o dub afro-caribenho do Coletivo Rádio Cipó (PA), os olhos vidrados do Rockz (RJ), a segunda onda mineira metal Udora, atrações estrangeiras, gente que eu ainda não ouvi como Pública (RS) e Stereoscope (PA), além dos donos da casa do MQN (GO). Fabrício Nobre em ação, véio.

Maratona com o Moptop (parte 2)

(para ler a parte 1, clique aqui.)

Chegando ao Citibank Hall cada um carrega seu instrumento. Os roadies ajudam. A passagem de som do Keane acabou de acabar e por isso a equipe já pode começar a posicionar os equipamentos.

Pra qualquer um que tenha crescido curtindo música, na década de 90, no Rio de Janeiro, aquele palco é um tanto desconcertante. Grandes shows passaram por ali, altas histórias se sucederam ali embaixo e, de certa forma, tudo isso passa na mente. A estrutura do lugar é tremenda. Esta é a segunda vez que o Moptop passa por lá. A primeira foi em 2005, quando abriram para o Placebo na eliminatória do Claro que é Rock – note que na época a casa se chamava Claro Hall. Não tarda às lembranças virem também aos músicos. “O som é foda. Na primeira vez, eu estava passando o som e tinha um amigo nosso vendo. Daí ele disse que achou o som estava sem pressão, eu aumentei tudo. Daqui a pouco vem o técnico de som e diz: ‘Bem, agora eu vou ligar o PA’”., se recorda Curi aos risos. “O nosso camarim também foi lá em cima. É muito grande. Hoje vai ser o mesmo”, diz Mário.

fotos: Bruno Maia


Enquanto os roadies preparam o palco, o grupo espera no espaçoso camarim. Em um encontro rápido com o técnico de som do Keane, Gabriel troca uma idéia, já com certa intimidade, afinal essa é o terceiro show que as bandas faziam juntas em quatro dias. A relação é cordial. Os músicos ingleses passam rapidamente vezes pelos solitários corredores do backstage. Mesmo por lá, o trio está sempre acompanhado por seguranças. Ao contrário do que se ouve dizer sobre a intolerância das bandas gringas, a equipe do Keane não atrapalha em nada. Impõe alguns limites, mas nada que não seja justificado. A passagem de som é relativamente tranqüila.



De volta ao camarim, o Moptop recebe alguns membros da Universal enquanto se prepara para subir no palco. Gabriel volta de um conversa com o pessoal do Keane. Convidou os ingleses para irem ao show do Jota Quest que eles abririam na seqüência. “Só um quase se animou, mas não vai não. Perguntaram onde ia ser, eu disse: “Downtown”. O cara mandou Centro? Tou fora!”, conta o vocalista. “Esse aí está bem informando”, emenda Mário aos risos.

A calma e o silêncio no ambiente contrariam totalmente às expectativas que se pode ter do que seja uma jovem banda de rock, minutos antes de um grande show. Inevitavelmente, a câmera ligada é um fator de alteração na espontaneidade deles. Já faz pouco mais de uma hora que estão com a lente apontada pras suas fuças. Os “desliga isso um pouco” começam a surgir. Naquela monotonia, a presença da câmera pesa ainda mais.



Na única hora em que algo de quente acontece, a câmera estava desligada. Faltando dez minutos pro show começar, o iluminador que faria a luz do Moptop chega avisando que "o pessoal da casa está criando dificuldades" e que não vai conseguir luz pro grupo. Nem fumaça de palco. “A gente gosta do palco com muita fumaça”, admitira Curi ao orientar o rapaz antes da passagem de som. Todos se mobilizam em torno do iluminador, que, por sua vez, explica as nuances da situação. O problema era incontornável. O ânimo dá uma baixada, mas ficar sem um grande jogo de iluminação definitivamente não é algo a que eles não estejam acostumados. Chega a hora.

Aquele papo de “ficar na pilha” antes do show começar não é muito o que se vê. Os quatro seguem calmos. Descem a escada, esperam o ok do lado do palco e entram. Sem mais alardes, sem concentrações coletivas, sem gritos de guerra. Entrada simples, sem clichês. Já no primeiro acorde se percebe o que uma banda como eles é capaz de fazer com um PA de qualidade. Desde a época em que tocavam só em muquifos, o Moptop sempre chamou a atenção pela qualidade do som que conseguia tirar. No Citibank Hall, eles deitaram e rolaram. O público presente ainda era pequeno, cerca de 300 pessoas.. Como tinham apenas 30 minutos pra se apresentar, o repertório foi enxuto. A platéia não era deles, mas foi receptiva. Em “O Rock acabou” fica mais claro o poder que as rádios ainda têm.



São apenas quatro spots de luz disponíveis para o quarteto carioca. A única arma do iluminador é piscá-los alternadamente pra “dar um clima”. Não tem fumaça. Só os quatro. É estranha a semelhança que aquele momento, no maior palco da cidade, traz com os primeiros shows do grupo, quando ainda se chamava Delux. Também são impressionantes as diferenças. Gabriel já domina as artimanhas do palco com personalidade. Dirige-se à platéia com segurança, desfia discursos simpáticos aos ingleses do Keane, fala da suposta alegria de estar tocando ali... Enfim, cumpre todo o ritual com categoria.. O Moptop sai de cena incólume, aplaudido e com pressa.

foto: RenanYudi.com


Apesar de ainda ser necessário recruzar a cidade, Isabel, a empresária, pergunta se eles não querem jantar. Só Curi e Mário aceitam. Eles têm a companhia de Roberto Verta, da Universal. Poucas mordidas depois e já é hora de partir pra van. Assim como na chegada, todo mundo carrega um pouco do equipamento de volta. Gabriel se despede da produção do Keane, agradece a oportunidade, conta dos problemas com a luz. “Eles quiseram saber se era culpa deles, eu disse que não”.

Já de volta ao carro, Anderson, o motorista, está a postos. Dessa vez, Mário vai atrás, ao lado de Rodrigo Curi. O jornalista-câmera assume o posto de carona. O itinerário da volta não é escolhido por Rafael (técnico de som), como fora o da ida – já que todo mundo se mostrou insatisfeito com as opções propostas pelo rapaz. O motorista se manda por uma Linha Amarela descongestionada. Fora um rápido problema no pedágio, a viagem é tranqüila e em apenas meia-hora, os moptops estão na Lapa.



Se na ida o segredo eram as piadas, pra volta Mário opta pelas paródias. Cânticos cheios de putaria, menções ao mestre Mr. Catra e afins. É nessa hora que o hino “Chora bananeira, bananeira chora” reaparece. Cada um complementa uma vez o tradicional refrão das pueris viagens de colégio. A van já está atravessando a multidão embaixo dos Arcos. Atrás do Circo Voador. Na porta da Fundição. Hora de saltar.


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Quem quiser ver mais fotos do Renan Yudi, que colaborou com uma das fotos da matéria, pode ir não só ao site dele, mas também ao fotolog.

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Repetindo a dose já bebida em outros sambas, o mundo livre s/a solta mais uma música contemporânea, no sentido mais estrito da palavra. É amanhã, no site da Monstro Discos, o lançamento de "Cho Seung-hui Song!". Sobre o sul-coreano que matou mais de 30 universitários na Virgínia Tech. Exorciza, 04!

25.4.07

Maratona com o Moptop (parte 1)

Rotina de shows é algo com que todas as bandas sonham, mas que quando se realiza também serve para estafar os músicos e começar os discursos de insatisfação [esse texto foi escrito antes do anúncio do 'recesso' do Los Hermanos]. Na carreira do Moptop, os shows foram sempre uma arma feroz, da qual eles nunca se esquivaram. Ainda que o mercado independente não permita a ninguém viver exclusivamente de um grupo de rock com os amigos – por melhor que este seja –, os cariocas chegaram a fazer mais de 60 apresentações em 2005, antes de assinar contrato com uma gravadora.

Vá lá que, hoje em dia, muitas vezes ter uma Universal dando suporte financeiro para a realização e divulgação de um disco não altera tão radicalmente o número de show de uma banda. No máximo, faz com que as condições das apresentações melhorem e que os palcos cresçam. Na última sexta-feira, o Moptop fez dois shows grandes num mesmo dia. A tarefa era abrir para os ingleses do Keane, no Citibank Hall (ex-Claro Hall, ATL Hall e Metropolitan) e depois para o Jota Quest, na Fundição Progresso.

fotos: Bruno Maia


Pra quem não conhece, a primeira casa fica na extrema-ponta da Barra, ali onde quase já é Jacarepaguá. A segunda fica no coração do centro do Rio. No chute, uns 40km devem separá-las. Literalmente a distância de uma maratona. Ou de duas, se considerarmos ida-e-volta. As duas têm capacidade parecida, cerca de 6 mil pessoas. O Citibank Hall é mais modernoso, chique, espaçoso. A Fundição seria – como foi dito no backstage – uma espécie de La Bombonera, com seu formato de arena.

A maratona começou com os telefonemas pela manhã para tentar se viabilizar a realização da matéria. Como nos dias anteriores o grupo estava em São Paulo, a produção foi em cima da hora. A idéia era filmar a epopéia e pra isso seria necessário além da presença do jornalista-câmera, a ajuda de um iluminador. Confirma daqui, autoriza dali, checa se tem lugar na van acolá, o relógio anda, já está na hora de passar o som na Fundição, agora não dá pra resolver, espera um pouquinho, ok mas só dá pra vir um, mas só um não dá pra fazer a luz, promessa do roadie ajudar com a luz, ok então dá, me espera na Fundição que eu preciso ir dentro da van para o Metropolitan, então vem correndo, sai rápido de casa, aluga a luz no Jardim Botânico, corta pelo Rio Comprido, mente dizendo que já está no centro, mente mais um pouco dizendo que já está em frente ao Democráticos, dá a sorte impossível de ter uma vaga perfeita para estacionar na porta da Fundição por R$2,00, sai correndo de qualquer jeito ainda sem conseguir ligar a câmera, vê o Gabriel batendo no punho como se indicasse a hora que já é atrasada, sem tempo para os cumprimentos protocolares, entra de qualquer jeito e senta.


Sim, alguém confirma que a passagem de som na Fundição foi bacana. No relógio já são 17hs. A idéia é cruzar a cidade para passar o som no Citibank Hall e depois ficar por lá direto até a hora do primeiro show. O trânsito de fim de tarde numa sexta é aquele negócio em qualquer grande metrópole. Atravessar uma cidade assim também... Enfim, o jeito é ter assunto. Como a rotina já os obriga a passar muito tempo juntos, temas para conversas não são muito originais. Coisas como quem já deixou ingresso pra qual amigo na casa de quem, qual o melhor itinerário, um recente episódio de South Park e não tem muito mais. Daniel (baixista) vai sentado no último banco, Gabriel (vocalista) no meio e Curi (guitarra) na primeira fileira. Mário curte ir à frente, na posição do carona. O repórter se ajeita onde dá.

Após a primeira brincadeira de Mário para a câmera, simulando estar apresentando um “boletim ao vivo do trânsito”, o motorista ri. É a deixa para Rafael, o técnico de som, zoar. “É o primeiro motorista que ri das merdas que o Mário fala. (risos). Aproveita aí e conta as suas piadas, Mário”. Senha dada e o processo é iniciado. Emendando uma na outra, o baterista vai contando seus gracejos sem parar. No repertório há as clássicas de português, de Joãozinho, de puta, de argentino, de sem-noção, de criança-chata,... Curi ajuda a lembrar outras, faz pedidos do repertório “Marioano” e, a cada intervalo, estimula o baterista a seguir non-stop. Pergunto se é sempre assim e se as piadas são sempre as mesmas. O guitarrista confirma com um gesto de cabeça e um riso no canto da boca. Ainda assim, eles curtem e estimulam. Rafael, que zoara o motorista, é o que mais ri. Qualquer coisa, por pior que seja, dispara uma gargalhada incompreensível nele, que ainda admite. “Quando eu chego na minha vila, tento lembrar das piadas do Mário pra contar como se fossem minhas, mas não consigo”.

Gabriel é o único que não põe pilha, mas tampouco corta um barato que também é dele. Braços cruzados, ele fica olhando pela janela com um certo ar de quem já viu aquilo tudo trocentas vezes. Mas ainda que pareça demonstrar não estar empolgado com todo o ritual, ele também não consegue se livrar do sorriso e da sentença de rir ao fim de cada piada. Seja pelo humor, seja pela cretinice de se contar algo tão infame. Daniel está debruçado sobre a cadeira da frente, olhando para Mário e rindo. Está curtindo a pantomima. O baterista, por sua vez, segue num ritual que atravessa a Radial Oeste, a 28 de setembro, sobe-e-desce a Grajaú-Jacarepaguá e chega na Barra. Isso tudo com um headphone preso à orelha. Diz ele que está ouvindo Misfits. Mário é dono de um humor cínico, daqueles que sempre pedem pro câmera apagar aquilo que está sendo filmado, antes de emendar em nova piada. Teatral e divertido, ele consegue fazer a hora-e-quinze de viagem parecer mais curta. A primeira etapa da maratona é vencida e ninguém está mal-humorado. Quando todos têm presença de espírito, as piadas cretinas, mais do que irritar, ajudam a tornar a rotina menos cansativa.

Anderson, o motorista, é dono de uma simpatia particular. Tímido e calado, ele ri de todas as bobagens que são contadas a seu lado. E isso ainda será muito importante ao longo da noite.

24.4.07

Los Hermanos:: Adeus você


Desde ontem vem bombando pelo Orkut o aviso que o grupo Los Hermanos colocou em seu site. Segundo a página oficial da banda, eles estão entrando em "recesso por tempo indeterminado", mas os fãs terão dois shows em junho.

Despedida?

Pelo caminho que os últimos trabalhos vinham trilhando não seria grande surpresa.

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"Recesso por tempo indeterminado" é o jeito mais sutil de dizer que acabou, sem fazer grandes alardes, pânicos e sem causar crises emocionais nos fãs. Tal qual eles nunca assumiram que deixaram "Anna Júlia" de lado porque isso os impediria de eventualmente tocá-la e os obrigaria a dar explicações quando o fizessem. É o mesmo filme.

23.4.07

Entrevista: Pedrão Selector (1)

A Percepção Do Que É O Direito Deles

foto: Joca Vidal


      As discussões da música digital passam sempre por uma série de questões sobre a viabilidade do modelo que abandona a venda de disco, de singles. Ninguém tem a resposta para o sustento do compositor, os palpites para o que vai ser da gravadora sem a garantia fácil dos hits, do artista sem os fáceis mimos, ou dos futurólogos sem bola de cristal. Nesse clima, Pedrão Selector foi um cara que eu achei que podia ter uma visão interessante. Não é compositor (ainda), não é o artista. É músico novo, mas participa dos processos de decisão do Seletores de Frequência, o grupo que acompanha o B Negão por festivais do Brasil e da Europa.
      Tudo começou com a experiência pouco lucrativa de lançar um disco autobancado para ser vendido em banca de jornal. (Já tinha começado antes, mas vamos facilitar as coisas para o meu lado.) Daí foi adotar a liberdade radical da internet como plataforma oficial de divulgação, antes de parar para ler o que é o tal do Creative Commmons, e assumir a liderança da defesa do modelo que não comporta a venda de música gravada como parte relevante da conta do sustento. Pedrão não só é trompetista (um instrumento que entra na fila de dispensa antes da guitarra, do baixo, e da bateira) do Seletores, como faz live pa em festas e investe em projetos próprios, disponíveis nas duas páginas do myspace que alimenta. Ou seja, se vira para viver com música.
      Papo que começou na praia, no ano passado, foi para ligações por telefone, combinações nos intervalos da festa Phunk, onde é titular, emails enquanto passou um tempo em Barcelona... até que passamos tudo a limpo em uma mesa de bar em Botafogo, zona sul do Rio, no fim do ano passado. Já com o Bruno de coleguinha ali do lado. Não foi só uma garrafa, que o sobremusica não é disso, então a historinha chega dividida em dois. Aqui, o início...


sobremusica: Fala um pouco dessa história de você ter entrado na faculdade de jornalismo e ter saído de lá músico trompetista.
Pedrão Selector: Cara, na verdade eu já tocava antes de entrar na faculdade. Entrar na Eco [Escola de Comunicação da UFRJ, entre 95 e 01] foi conseqüência, foi aquela coisa de você ter que fazer uma faculdade, não saber o que vai fazer, e tal. E acabei indo lá pro jornalismo, mas sempre mantive esse negócio de tocar.

sm: Mas tocava como? Banda?
PS: Eu entrei na faculdade muito moleque, mas tinha tido banda de escola, aquela coisa. Tinha que desenvolver. E tocava rock, basicamente.

sm: Trompete?
PS: Não, guitarra. Fui começar a tocar trompete com vinte anos. E sempre toquei guitarra desde os treze, quatorze anos. Bom, fiz faculdade com aquela malucada de Comunicação. Você acaba conhecendo vários malucos, que tocam, e se juntam para fazer uma banda. Uma parada mais séria, digamos assim. E conheci uma galera, fizemos uma bandinha da universidade, e foi se aprofundando. Conheci mais gente de música, e tal, e isso virou meu foco principal. A faculdade virou uma coisa mais por... por fazer. De buscar a profissão, a formação.

sm: Mas foi na faculdade que você fez parte do início da Pelvs?
PS: Isso, na faculdade eu tinha uma banda chamada Os Elétricos, que era com o [Genu] baixista da Pelvs. E foi nessa época que eu comecei a estudar trompete, comecei a ouvir muito jazz e tal. Comecei a querer um instrumento de sopro, e foi o trompete, no caso.

sm: Pode falar um pouco mais dessa relação de começar a ouvir jazz e começar a tocar trompete? Falar mais no teu envolvimento pessoal com o trompete, pelo menos nesse início.
PS: Foi uma coisa assim: comecei a ouvir mais jazz, sendo que eu era roqueiro de carteirinha, clássico, de ouvir os discos clássicos de rock. Daí, comecei a ouvir jazz e vi que instrumento de sopro sempre foi uma parada que me interessou. Quando eu era moleque eu gostava de flauta, de flauta transversa, e tal. E eu decidi que ia tocar. Daí, tinha sax, trompete, não sei o que. Mas dentro do jazz, quem mais me inspirou foi Miles Davis, mesmo: Bitches Brew, Nefertiti... E eu falei: é essa parada que eu quero aprender. Ainda mais porque os saxofonistas, hoje em dia, não são mais uma referência. Um camarada meu é que fala que o saxofone é uma arma branca, tinha que ter uma licença para usar aquela porra. Você pode fazer uma coisa horrorosa com aquela merda. E o trompete é uma coisa elegante, e tal. Isso foi em 96. Aí, quando eu comprei o trompete para estudar, eu já tinha essa bandinha da faculdade. E esse outro pessoal tinha gravado o disco da Pelvs com arranjo de metal, mas com tudo tocado em teclado, né? E nêgo foi e me chamou: a gente vai fazer o show de lançamento do disco, tira os arranjos de metal você. São umas frases simples... Então, com seis meses de trompete, eu já tava tocando com a Pelvs. Rarrarrá. Mal sabia soprar direito a parada, mas já tava tocando com os caras.

sm: Mas já era a tua praia isso de ser surf music, com indie...?
PS: Não muito. Eu não era muito indie, não. Daquela galera, eu era o menos indie. Eu era mais rock’n’roll anos 70, 80. Coisas mais básicas. E eu gostava de reggae, mas aquela coisa assim. Entre os indies, eu destoava muito. Inclusive as bandas que nêgo tinha como referência, eu nunca tinha ouvido. Foi um lance de que eu queria ter uma banda para tocar, e bem ou mal, eles, eu conhecia. E viraram meus amigos depois. E eu passei a conhecer mais bandas, dessas aí. E comecei a gostar depois.

sm: E esse período de Pelvs durou quanto até o Manifesto 021?
PS: Pelvs e Manifesto, isso acabou acontecendo simultaneamente. Na Pelvs eu comecei em 97, quando rolou o [disco] Members to Sunna, e fiquei até 2000, 2001. Foi o ano em que eu me formei, porque na verdade eu demorei muito para sair da faculdade. Fiquei dois anos para entregar a monografia, aquela coisa básica. E teve uma época que eu toquei em algumas bandas, foi aí a Manifesto [banda que chegou a acompanhar Gérson King Combo]. E só depois, quando surgiu o lance do Seletores, foi que eu decidi ficar mais focado em uma coisa só. Mas eu já toquei em umas coisas bem absurdas. Rarrarrá.

sm: Mas o que eu acho legal, e queria que você comentasse, é essa passagem do Manifesto - que junto com o MCs HCs faziam os shows de funk que rolavam no Rio - para o Seletores, que foi o que ficou, passada essa fase.
PS: É, pois é. Na verdade eu comecei a tocar com o B Negão na época do Funk Fuckers, acho que era 99. Finzinho da banda. A Funk Até o Caroço era uma música do Funk Fuckers, depois virou do Seletores. Teve um show que foi Manifesto e Funk Fuckers, num lugarzinho pequeno ali em Botafogo que eu nem me lembro o nome. Aí o B Negão falou: pô, tu não toca trompete no Manifesto? Tem uma música nossa que é em ré, chega lá e faz uma jam com a gente, é um funk. E eu comecei a tocar com eles, mas era uma participação no show. Fazia umas três, quatro músicas. Até que a banda acabou. Nisso, o Bernardo [B Negão] foi fazer o projeto solo dele, e me chamou até formar o Seletores. Levamos dois, três anos nisso.

sm: Mas tu começou na FF com Funk Até o Caroço e ficava meio solto, jam, como era isso?
PS: É, a gente definia. Tinha umas músicas antigas em que cabia trompete, a gente fazia os arranjos. Mas eu comecei como participação, não fazia o show todo. Eu não era efetivo da banda. E ela acabou não indo pra frente por lances de gravadora, não conseguiram liberação para se lançar, e acabou que morreu. Daí, o B Negão tava com essa outra história, me chamou. No começo era eu, ele e dj [Rodriguez], depois foi juntando [o guitarrista Gabriel] Muzak, [o baterista] Pedrinho [Garcia], nananan, até virar a banda que gravou o disco.

sm: Mas, vamos voltar um pouquinho. Você falou que era roqueiro, passou a ouvir jazz, ouvir indie. E o funk, começou quando?
PS: O funk a sério começou com a galera do Manifesto. Eu já era fã de Funkadelic e Parliament, fui no show do George Clinton aqui no MAM, em 95 eu acho [96, na verdade].Então nessa época eu tava na Pelvs, Os Elétricos ainda tocava uma vez ou outra, e o Manifesto... Eu conhecia a produtora, acho que ela estudava na faculdade, e eles tavam procurando um trompetista. “Chega lá, pra conhecer a galera”. Eu fui, achei legal a onda de misturar hip hop com funk, era novidade pra mim... Vamos nessa. E fiquei lá uns dois ou três anos, até a banda acabar. Rarrarrá.

sm: Engraçado, você falou que o jazz te levou para o trompete, e na verdade depois que você assumiu o instrumento você passou por um monte de coisa... mas não pelo jazz em si. É isso mesmo?
PS: Na verdade, eu sempre me interessei por vários tipos de música, sabe? Eu toco música do jeito que eu consigo entender, assimilar, e jogar pra fora. E o lance jazzístico foi surgir [como instrumentista] mais no Seletores, mesmo. Na Pelvs era tudo muito certinho, no Manifesto até tinha improviso, mas era preso no funk, e aí no Seletores é que o jazz ajudou mesmo por causa disso tudo.
Mas a própria coisa do dub, eu fui começar a escutar... [sm: outro dia....] Não outro dia, mas foi com o Bernardo, que foi me mostrando: escuta isso aqui que é bom... Lee Perry, não sei que. Eu nunca tinha ouvido falar. U-Roy, essas coisas. Ele foi me dando as dicas, eu comecei a pesquisar também, né? E ainda bem que hoje em dia, com isso de Internet, pode baixar até coisa da Tchecoslováquia que tá maneiro... Rarrá.

sm: Ainda no jazz, você chegou a estudar formalmente, ou é uma coisa de ouvir?
PS: Não, eu estudei. Estudei na [Escola de Música] Villa-Lobos dois anos e meio, nessa época, 96, mas o negócio do academicismo me deixou assim... e teve uma hora que eu enchi o saco e fui seguir a minha onda mesmo. Estudar do meu jeito.

sm: Mas então eu queria voltar para o teu caminho pelas bandas aí. O Seletores até levou um tempo do formato contigo e dj até virar banda. Mas uma vez banda, a gravação do disco não demorou, né? Conta aí esse percurso.
PS: É, foi uma coisa bem natural, porque todo mundo já se conhecia, já tocava. O Pedrinho tocava no Cabeça, que tocava com o [baixista] Kalunga, que o Bernardo também chamou pra tocar. Quer dizer, foi rápido. Quando a gente viu a banda já tava ali, sacou? Mas tirando as músicas que já existiam, que eram anteriores, todo mundo participa muito do processo de composição. Ele tem um direcionamento porque está à frente da parada, mas é um trabalho de grupo e sempre foi. O lance de dj era provisório, mesmo, e nem rola mais. Só em situação especial [referência à participação de B Negão na festa Phunk de aniversário, onde a entrevista foi acertada].

sm: E passado já um tempo do lançamento do disco, como você avalia ele ter sido gravado aos poucos, em mais de um estúdio?
PS: Cara, foi bom porque teve um tempo de maturação da parada bem maneiro. A gente já vinha tocando aquelas músicas há mais de um ano. Então foi proveitoso, em vez de resolver em um mês, ir pouco a pouco galgando a parada.

sm: Quanto ao lançamento do disco. Saiu primeiro pela revista Outracoisa, né, ficou um tempo sendo divulgado, e depois o B Negão botou o disco lá no CMI [site do Centro de Mídia Independente] para ser baixado de graça. Como foram esses papos entre a banda para se chegar a essa decisão?PS: A história lá da Outracoisa não foi muito boa, assim. No fim das contas, foi muito acordo verbal, não sei o que, e assim: a gente não ganhou dinheiro com aquele disco. Sabe qual é? A verdade é essa. Financeiramente foi um péssimo negócio. Pra gente.

sm: Porque o cd já tava pronto quando foi lançado, né?
PS: Já tava pronto. A gente entregou o disco pronto para a Outracoisa.

sm: E essa idéia de botar para ser baixado tem a ver com não ter ganhado grana?
PS: Não, não, não. A gente sempre teve essa política de que a música tem que ser acessível para todo mundo, sabe qual é? O que importa é que nêgo esteja escutando a nossa música, entendeu? Botar pra download vai formar um público maior para a gente. Vai ter gente que vai querer comprar o cd, ter o disquinho, e tal, mas essa questão de que tem que vender, vender, vender... Isso já tá esgotado. Pensa bem, olha a quantidade de pessoas que só puderam conhecer a nossa música baixando, ou porque na cidade onde eles moram não tem cd pra comprar, ou porque estão em outro país, enfim... Bem ou mal, vai se atingir um público ali. E quando a gente for fazer show, o cara vai lá, entendeu? E se a gente estiver vendendo, o cara pode querer comprar o cd. Eu acho que isso facilita tanto a vendagem quanto a divulgação da própria música.

sm: Tá, mas o B Negão foi um dos primeiros a assumir a decisão de botar o disco pra baixar. Não é que tenha vazado. E até hoje, quando se fala em uma outra coisa que é o Creative Commons, o exemplo brasileiro é o do B Negão. Que já viajou com o show para Europa, Roskilde, Barcelona...
PS: É, para Barcelona, na verdade, eu fui sozinho [em 2006, no ano anterior eles foram sim para a cidade espanhola]. O B Negão com o Seletores foi para Berlim. É um festival grande, me esqueci o nome... Voltado para a indústria mesmo... [sm: Popkomm?] Isso. Mas na verdade eu acho que nêgo sempre teve um receio muito grande de mostrar a cara e assumir: quer baixar, pode baixar. E o Bernardo foi uma pessoa que sempre esteve ali: meu irmão, vai na Internet que tem. Porque até antes de entrar em Creative Commons, e antes do CMI, ele já falava: procura no Emule que tem, pode baixar que tem. A gente não tá interessado em ganhar trocado com essa parada.

sm: E tentando seguir nessa linha de pensamento. Você que é músico, instrumentista, pode falar não só por experiência pessoal como por troca de impressões no meio: uma coisa é ser o artista que assina o trabalho, e liberar aquilo de olho nos frutos de aumento de público, e tal. Mas e para a banda de apoio, para quem é contratado do artista? Qual é a diferença, o que mudou nesse novo mundo?
PS: É, na verdade, no Seletores não tem essa questão de contratado. A gente divide por igual. [sm: mas a pergunta nem é tanto Seletores, é mais para você músico nos teus vários trabalhos, a história dos direitos conexos...] É, cara, mas se você for pensar que a arrecadação de direito autoral no Brasil é essa merda que é. De três em três meses, pinga uma merrequinha, é muito pouco. Eu, músico, eu ganho é fazendo show. Ou gravando, mas menos. Quem tá contra o acesso livre é galera amarrada às gravadoras, que estão no início da decadência e... Num futuro próximo, não vai mais existir gravadora. No sentido que existe hoje, eu digo, como uma instituição que tem seus artistas. Cada um vai editar e lançar da própria maneira, e vai ter um pool de artistas reunidos que vão botar isso disponível da melhor maneira possível. Agora é que os músicos estão tendo mais percepção do que é o direito deles, na verdade. A minha música é minha, se eu quiser dar, eu dou. Se eu quiser vender, se eu quiser trocar. Antes, a música era da gravadora, o disco era da gravadora. [A Internet] É uma ferramenta a mais de divulgação que você tem, e não impede você ganhar grana de execução no rádio, de regravação... Das formas antigas. Acho até que a Internet é pra impulsionar as outras mídias.

sm: O que eu continuo insistindo, é se o problema pra você está no fato de que tanto faz abrir mão ou não, ou se é porque sendo mal pago, o benefício compensa o pouco que se ganharia. Quer dizer, é ideológico o uso da Internet?
PS: É ideológico.

sm: E nessa coisa de viajar, fazer show lá fora. O Creative Commons é um assunto que surge em entrevista, em papos com outras bandas?
PS: Cara, eu posso te jurar que eu não vejo isso lá fora. Essa bola levantada dessa forma.

sm: Mas não vê levantada com vocês, ou no geral?
PS: No geral. Não me lembro de ter visto.

sm: O B Negão fala que as viagens de vocês pra Europa...
PS: [interrompendo] Não é que levou a gente. Mas o fato de que a gente disponibilizou as músicas... [pensa] A primeira vez que a gente tocou em Barcelona [2005], foi porque um dos produtores lá tinha baixado da Internet e gravado um cdzinho, e o cara que fazia o [palco] de música brasileira, produtor também, ouviu, achou maneiro e chamou a gente. Então é meio que por tabela, sabe qual é?



Nada a ver

Nos EUA, o bicho pega para o lado das rádios online, Pandora incluído. Resumindo, a Comissão de Dirteito Autoral do Congresso aprovou um projeto de lei que triplica a taxa de veiculação de música na internet, e isso inviabiliza tudo. Tá rolando um abaixo-assinado para vetar antes que vire lei.



Nada a ver

Pedrão está até em show de sapateado:



Nada a ver

Bruno Maia pede para avisar que vem aí a primeira parte da matéria com o Moptop. Na quarta-feira.

19.4.07

Roskilde '07:: Néon verde-amarelo


Umas três vezes por semana, quicam as mailings do Roskilde Festival por aqui. A última traz o balanço final da primeira rodada de "contratações" deste ano. Além da programação, vendida merecidamente como "A Musical Buffet" - e ofensiva ao coração de qualquer sujeito minimamente chegado em música que tem que se contentar com os eventos meia-bomba que rolam por aqui - o que chama a atenção é o fato do Brasil ter recebido um destaque especial da organização. O país sempre é contemplado com algumas vagas, principalmente no palco de world music (ano passado foram o D2, o Ed Motta e o Cabruêra), mas esse ano a tendência é "termos" lugar também em espaços mais disputados.

O "destaque" aos artistas brasileiros começou a me chamar atenção há algumas semanas quando recebi a seguinte mensagem na minha caixa de e-mails: BAILE FUNK AT ROSKILDE'07 . Quase pulei da cadeira, mas só consegui pular de janela. Alt+Tab pro Gmail pra ler aquela transformação que só poderia ser fruto do aquecimento global.

Por instantes ousei imaginar o Catra comandaria uma noite no calor dinamarquês.

Não era. Era só um aviso de que o Bonde do Rolê estava escalado para edição deste ano. Tão óbvio que me senti um bocó de não ter percebido de cara. Esses curitibanos são malandros. Vendem essa história de baile funk como verdade lá fora e os gringos, que não sabem muito bem se tão comprando a sensualidade brasileira vestida de mulata ou de rock-indie-ruim, embarcam do mesmo jeito.

Caricaturas e incongruências do olhar europeu sobre a nossa música à parte, é mais ou menos assim que eles estão nos vendo para 2007.

"Brazil

The football-loving Brazilians are echoing their national team – they have started to define the pace on the musical turf as well. On the new rave scene, CSS (BRA) are one of the hottest names, and from the Brazilian ghetto comes baile funk with the ardent live unit BONDE DO ROLE (BRA). SONIC JUNIOR (BRA) is a talented loner who creates the musical counterpart of a walk through São Paolo with some electro beats, a dash of samba and funk rhythms. "

Não que isso seja bom, nem ruim. It's just a neon, but I don't like it. No, I don't. Neon, bloody, neon!!

É que eu sou carioca.

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Vai, tá bom. Vou começar a fingir que eu engulo o CSS. Agora, esse "baile funk" do Bonde do Rolê ainda é demais pra minha cabeça complexada.

Maldade...

O Brasil está mudando.

Depois do triângulo amoroso do BBB, onde os três lados se sentiam confortáveis com a situação e o país não só aceitou, como apoiou (acho que foi o Ricardo Calil quem cantou essa bola, mas admito que não lembro exatamente), agora é a vez da separação de dois queridinhos do país ser boa pra todo mundo. Com o fim da dupla, ganho eu, ganha você, ganha o Júnior, ganha a Sandy, ganha a Universal, ganha o Faustão, ganham as rádios e ganha o público.

Agora, olha a maldade do sujeito-cerumano. (via trabalhosujo)

Baixeza, isso...

16.4.07

Show:: Lee Perry

HalleluJah

A noite começou a se explicar quando Cristiano DubMaster, do Digital Dubs anunciou: “o que vai acontecer aqui é uma noite de glorificação”. Ok, o misticismo estava posto, as gudi vaibes tomavam conta do ambiente e a fumaça ainda era pouca. Assim como eram poucas as pessoas que se dispuseram a assistir o show de abertura.

fotos: Bernardo Mortimer


A banda que acompanharia Lee Perry subiu primeiro ao palco e não pareceu ser a suíça White Belly Rats, tão falada antes do show. De White e de suíço os caras não tinham nada. Uma busca por imagens no Google confirmam essa suspeita. Admito a falha de não ter descoberto o nome da banda que era pura explosão jamaicana. Nada de white, tudo de black, nada de scratch, tudo de roots, nos melhores sentidos que esses termos possam tomar quando o assunto é reggae-não-iô-iô. Nada de programação. Reggaezão de banda, cascudo, tenso, conduzido por um baixo impressionante. O que dava um quê de dub eram mesmo os efeitos lisérgicos da guitarra e um ou outro disparo da mesa de som na saída do mic de Perry. De resto, o som da banda se aproximava mais das bases dos anos 80, com o teclado à frente – mas que não chegava a ser um dancehall –, do que propriamente do dub.

A voz de Lee Perry beirava o esquizofrênico. Não tinha importância nenhuma a rouquidão a que os quase 71 anos lhe condenam. Ele trabalhou como um verdadeiro mestre de cerimônias, saudando, benzendo, falando sandices e desfilando história. O que Dubmaster havia previsto aconteceu. Glorificação. Glorificação de Lee Perry, glorificação do reggae, glorificação do Brasil, glorificação da macumba, glorificação de tudo.


O show durou pouco mais de uma hora. O MC Perry entrou com uma bolsa a tira-colo que deixou todos curiosos sobre o que sairia dali. Não saiu nada. No seu microfone à la terno do Falcão, cheio de penduricalhos, um espelho que por vezes refletia os holofotes direto no olho do vovô doidão. Noutros momentos, Perry resolvia saltar sobre uma perna só. O que ele queria mostrar? Que podia desafiar a artrose? O coração da platéia acelerava. Lá pelas tantas, Lee Scratch resolveu abrir os braços na frente do pedestal do microfone, que estava em sua mão direita. E desandou a falar com o pedestal. Foram umas duas frases até que ele percebesse que não estava saindo som, já que o microfone estava em sua mão estendida e não no pedestal. Lee Perry pegou uma rosa branca da platéia. Se emocionou e não largou mas as pétalas. O caule ficou em algum lugar do palco. Ele expulsou os demônios das pessoas, exorcizou a violência do Brasil e foi embora. Fez uma pajelança quando cantou pra chover. “I wish it would rain”, de Marvin Gaye. E se saísse dali com aqueles trajes pra dormir na calçada, ninguém daria muita atenção.

Lee Perry é uma espécie de Nélson Sargento mundial. Se o nosso sambista não recebe tal louvação (ou seria glorificação?) por aqui, bem que poderia. Mais do que desfilar sua arte, ambos carregam suas história pelo mundo e o valor que elas, em si, representam. No caso de Perry, a super-banda ajuda e muito. A loucura o transforma num freak-do-bem. E tudo isso misturado cria uma atmosfera única e uma lembrança desse fragmento de História que o Circo Voador viveu.


ficha técnica
:
Lee Perry
Rio de Janeiro, 14 de abril de 2007
Circo Voador
abertura: Digital Dubs

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Aliás, o som do Circo estava espetacular. Coisa rara. Vale o registro.

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E também vale frisar que o show era pra ser uma edição carioca do Abril Pro Rock. Era. A produção não providenciou nenhuma citação, nenhum banner, nenhum backdrop ou um fundo de palco que remetesse ao festival e aos patrocinadores – entre eles a Petrobras e o Governo de Pernambuco – que viabilizaram, com o dinheiro público, tal iniciativa. Nenhuma menção dentro do Circo Voador. É o tipo de cuidado que não se pode deixar de ter, ainda mais num momento onde toda a política cultural do Brasil é financiada por iniciativas públicas. Eu, pelo menos, fiz a minha parte e fui com a camisa do festival. Edição 2005.... Não custava ajudar...

Isso sem falar na divulgação precária feita para um evento desse porte no Rio de Janeiro. Parece que isso está virando moda.


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Vale o registro. O SOBREMUSICA começou há exatos dois anos, nesse tal Abril Pro Rock 2005. Coincidência ou não, esse é o post de número 400 desde então - talvez a gente chegue ao 1000 antes do Romário -, e traz justamente um um texto da edição carioca do APR. Pra completar, hoje o site chega a marca de 50 mil páginas vistas. Não é nada, não é nada... Não é nada.

De qualquer forma, a família agradece por tudo.

14.4.07

Fino Coletivo no Cinemathèque

Universos entrecruzados

      Um pop de fim de tarde, que dosa bem as programações eletrônicas e a valorização à melodia, de músicas compostas ao violão. É assim a transposição do som gravado do Fino Coletivo para o palco, pelo menos nas que dá para ouvir no myspace.
       A apresentação tem mesmo a cara de união de forças, são oito artistas reunidos em um projeto paralelo coletivo, e isso é perceptível na extrema divisão de tarefas – e no resultado de tantos elementos sonoros. Ontem, na mais nova casa de shows da zona sul do Rio, dois do octeto não estavam: Wado, em Maceió, e Lucas Margutti, normalmente atento às projeções. A falta pode fazer a mistura globo-regional pender mais para o Rio, mas o risco não é de preocupar. O que soa, soa bem e rico. Sem excessos, sem ruídos.
       O show começa com as duas músicas mais fortes do repertório que está na Internet, Boa Hora e Partiu Partindo. Na primeira, a guitarra de Marcelo Frota suinga o samba ao se passar por cuíca. A canção defendida por Alvinho Lancellotti é preguiçosa, no sentido caymmiano, e se apresenta como um samba de apartamento com jeito de mpb. A segunda, cantada por Marcelo, tem um groove funkeado – e privilegia as vogais das sílabas, sempre esticadas um pouco além do que seria o esperado. A linha de baixo é reforçada por bases que também são disparadas também por Daniel Medeiros. Nas duas, um violão esperta segura a base.
       O show segue abrindo espaço para o que é do universo de baile autoral que a banda pretende, e para obras dos trabalhos principais dos finos, até que Lucas Santtanna – o convidado da noite - sobe e vai de Lycra Limão. O naipe cheio de ecos da versão original é substituído por uma base gravada que tira um pouco de calor do som para trazer a idéia para a mistura fina, mistura coletiva da banda. Do sol forte de meio-dia de Lucas, entardece-se um pouco até o ocaso alaranjado. E em seguida Dragão, também do myspace, também com Lucas. Ele entra no lugar de Siri – que aliás mereceria um texto só para ele. A segunda, às vezes terceira voz da banda, é o toque de forró que o coletivo ensaia mas não concretiza.
       A que mais levanta o público é, acho que o nome é esse, Uirapuru. Refrão fácil, onda de vinheta. E já nos ensejos para encerrar a apresentação, Tarja Preta, uma aproximação ao samba esquema nordestino de um mundo livre s/a, por exemplo. Que, aliás, foi até a última música do set do dj Galalau, preparando a entrada do Fino.
       Em resumo, um show de repertório até irregular, mas com muitos e variados excelentes números e – o melhor de tudo - sem fronteiras entre os universos de cada cabeça do coletivo.



Nada a ver

      Na platéia, aproveitando os últimos dias de anônimo, e à caça, o destruidor de reputações...

13.4.07

Completando os sentidos...

Um produto da Papai e Mamãe Produções Artísticas e da inebriante banda Tanga de Sereia "completam o sentido" daquilo tudo que o Bernardo falou. E também serve pra "completar o sentido" de quem ainda não entendera o que é Espírito Cafusú Total.



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Via GTalk, meu colega pede

Bernardo: bota:
destaque para a barriguinha de hermila
preste especial atenção na barriguinha de hermila...
uma de nossas mais amadas sobremusas

Tá dito.

MAGIC NUMBERS NO BRASIL !!!!!!

Para deleite de um monte de fãs - entre os quais me incluo fácil fácil - o Magic Numbers está confirmando em sua homepage a vinda ao Brasil. O grupo se apresenta dia 25 de julho no Circo Voador e no dia seguinte em São Paulo.



Recentemente o grupo lançou o segundo disco. Não é tão bom quanto o (sensacional) primeiro, mas ainda é bem acima da média do que está rolando por aí.


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Esse ano tá demais... Só pra lembrar que amanhã, no mesmo Circo Voador, tem Lee Perry. Segura.

12.4.07

DFA 1979, Panic! At the Disco, Gabriel Benni

Semiótica

      O melhor de um videoclipe é enriquecer com imagens o que a música, por vezes, já tava ali te dizendo. Achei três exemplos que revelam muito do subconsciente de três artistas diferentes para pensar um pouquinho o que é esse tal estudo dos símbolos e imagem na produção contemporânea de clipes.

      Pra começar, o rock eletrônico canadense do Death From Above 1979, que bota uma mulher bonita sem cabeça com um efeito mal feitíssimo de chroma key no peito. Não só a louvação do sexo sem compromisso, mas a festa das preliminares sem o ato em si. É quase um quadro surreal da suruba sem consumação. E os movimentos manipulados da moça só afastam qualquer possibilidade de alguém realmente se envolver com a lingerie bege.



      Depois, outro coito interrompido. Só que emo. Na onda de paixão adolescente platônica, a tristeza e desilusão do amor é trágica. O namorico de piquenique vira traição sem que ninguém encoste em ninguém - a não ser por mímica. Bonito, mas igualmente sem êxtase.



      E, finalmente, o nonsense do reggaetón italiano de Gabriel Benni. Começa com uma piscina inflável amarrada a vários balões brancos que em vez de voar, aterrissa no chão, ao lado de um dicionário aberto na palavra enchufa, que quer dizer tomada. Tipo, encaixe. O som é de igreja. Não tenho como desconfiar do que pode passar numa cabeça que faz o clipe começar assim, mas isso é só o início. Disso vai para uma capela obviamente picareta, e daí para o começo de verdade: uma espécie de festa na piscina - onde a piscina ou é a inflável do primeiro plano ou um poço vazio e meio sujo.
      O clima é do que o tal Benni deve imaginar ser a festchenha particular de um novo-rico de segunda linha. Ele reclama dos estresses da vida sentado em poltronas muito maneiras. Em volta, um conjunto de meninas com carinha de quem tá gostando demais. De biquini, elas pulam em cima de uma bola, tomam banho de chuveiro, rodam bambolês, e "make love to the camerrá", assim com sotaque francês de desenho animado mesmo.
      Entre a fabulosa canastrice dos trenzinhos que o italiano faz com as moças, da garrafa de champanhe, e das meninas usando o terno e a gravata do patife-reggaetón, o que mais me chama a atenção é o porque de uma empregada gordinha demonstrar com a própria tomada o que enchufa realmente quer dizer - afinal a sutileza pode dificultar a compreensão - usando máscaras de vaca e de raposa. De vaca e de raposa. Será que foi a experiência da empregada que, de fato, e no fim das contas, botou o bigodinho para enchufar? Eis o mistério...

Se você tem um videoclipe...

SERVIÇO DE UTILIDADE PÚBLICA

Pessoal,
quem tiver um videoclipe e quiser veiculá-lo em rede nacional, o SOBREMUSICA está recebendo esse material, que será destinado ao programa Mais Pop, da CNT, que deve estrear na próxima terça-feira (dia 17), às 19h30.

O programa é uma parada de sucessos, mas com espaço para um videoclipe de artistas novos por dia. A direção está precisando de material de artistas novos e/ou (atenção ao "e/ou") independentes, pois poucos disponibilizaram seus clipes até agora. Por favor, avisem a todos que possam se interessar por esse espaço. É importante demonstrar que existe bastante coisa legal sendo feita pelo país afora, até para tentar aumentar o espaço destinado a este tipo de iniciativa.

Quem quiser enviar seu videoclipe, por favor entre em contato pelo e-mail clipe.sobremusica@gmail.com . O material deve ser disponibilizado em DVD ou Beta.

Além disso, o programa terá um VJ convidado por dia. Veja bem, VJ no sentido de videomaker e não de apresentador... Ele poderá meter suas criações e projeções nos fundos de tela durante todo o programa e também haverá um momento "solo" para as divagações artísticas de cada um... Então, VJs, vocês também estão convidados a mandar material.

Divulguem essa campanha do SOBREMUSICA.com.br em seus blogs, fotologs e afins. Isso pode ajudar alguém. :+)

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Que fique bem claro: o SOBREMUSICA não é responsável pelo aproveitamento ou não de cada clipe no programa.

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Programete em horário nobre, pleibói... Dá mole... hehe.

10.4.07

New Rave (Old Punk)

No Fun

Showzinho do Iggy Pop e Stooges, em Nova Iorque, na semana passada. Alguém ainda precisa de bastões fosforescentes para se divertir?

9.4.07

"Abriram o portal..."

Se o objetivo do "Ídolos" é encontrar o novo fenômeno pop do Brasil, começou bem.


Que fique claro: a decisão de clicar no play é por sua conta e risco.

8.4.07

Entrevista: Felippe Llerena (iMúsica)

Felippe Llerena transita de forma ampla pela indústria musical brasileira. Além de ter um selo independente, a Nikita, e ser um dos conselheiros da ABMI (Associção Brasileira de Música Independente), ele transita junto às grandes gravadoras com as quais negocia parcerias para o portal iMúsica. Com a experiência de quem consegue ver os dois lados dessa moeda, ele deu algumas das suas respostas para o CHAPPA.

(por Bruno Maia)

:: Depois da revolução digital, a indústria da música ficou mais forte ou mais fraca?

FL: A completa revolução, na verdade, aconteceu na área da criação musical e distribuição, que se tornou a maior aliada do artista independente – ainda mais com a queda do custo de gravação e a facilidade de acesso às novas tecnologias. A indústria digital só tende a crescer, entretanto a do disco ficou muito fragilizada e impotente, pois o modelo não mais depende da via crucis “artista - gravadora - estúdio - marketing – loja”.

:: O pagamento de direitos autorais para os artistas sempre foi um problema no Brasil. A distribuição digital pode acrescentar alguma nova perspectiva a esta questão?

- Não acredito que o pagamento de direitos autorais sempre tenha sido um problema, pelo contrário. Melhorou e muito nos últimos anos. Os autores passaram a contar com fortes aliados de uso legal a partir da proliferação de novas fontes de utilização para a música (videogame, dvd, cinema, karaokê, celular, download, execução pública, etc). A distribuição digital tende somente a crescer. Temos que ficar atentos é com o controle que deve ser adotado para que a distribuição de direitos seja justa.

:: Quais são os principais gargalos jurídicos que ainda existem para a distribuição digital no Brasil?

- O maior gargalo, na verdade, é educacional. Os usuários de música na internet pensam que conteúdo audiovisual é de graça. Não houve um ensinamento apropriado para adequar este usuário e hoje estamos sofrendo as maiores conseqüências. A questão jurídica ainda é um problema, mas não chega a ser o maior de todos. Acho que a formação de hábito uma das maiores questões a se resolver. Quando as pessoas pensam que música é de graça, por que deveriam comprar?

:: De todas as mudanças que se pregam na nova configuração da indústria da música, qual você acha que é definitiva e qual é apenas balela?

- Definitiva: User generated media. Balela: que vai acabar o CD e as gravadoras. (A&R é uma sabedoria de anos)

:: Você costuma ouvir podcasts? Tem algum favorito?- Tem um que eu escuto que é de uma rádio inglesa. Esqueci o nome correto agora.

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Só a título de "recordar é viver", a comunidade do SOBREMUSICA no Orkut continua aberta a novos "friends". Uhhu. Chega aê.

7.4.07

Entrevista: Paulo Marinho (Multishow)

Às vésperas da participação de Paulo Daudt Marinho na mesa RÁDIOS ON-LINE E PODCASTS: de ouvinte a programador, converseis com o gestor do projeto Multishow FM. Numa conversa aberta, ele pontua as ações da marca e indica que uma rádio on-line é só o primeiro passo do Multishow na internet.
(por Bruno Maia)

:: A televisão paga é, de certa forma, uma "evolução" da TV, que, por sua vez, é uma evolução do rádio. Criar uma rádio online a partir de um canal de televisão paga também é uma evolução?

PDM: Sim. É um reflexo das novas oportunidades geradas pela internet e convergência das plataformas de distribuição. É uma evolução, também, porque proporciona ao canal a oportunidade de se aprofundar em um dos pilares que atua fortemente que é o mercado da música - os outros dois são humor e comportamento. Com isso, o Multishow se fortalece como uma marca jovem, ligada às diversas formas de entretenimento e mídia - não se limitando à TV.

:: Com o boom recente dos vídeos na internet, por que um canal de televisão opta por entrar no meio virtual por uma rádio?

- Essa é parte da estratégia e o primeiro passo do canal nos seus projetos de internet que serão implementados ao longo do ano. Um projeto mais amplo está em desenvolvimento e abordará, além do conteúdo do canal, muita música, vídeo e interatividade . Vale lembrar que temos um site no ar em constante evolução.

:: Na TV, o canal opta por exibir uma linha de videoclipes que está diretamente associada à parada de sucesso das rádios tradicionais. Muita gente acredita que as pessoas não buscam mais a informação sobre música na TV paga, devido à grande oferta que há na internet e que a função dos canais de videoclipe já estariam muito próximas às das rádios, que a pessoa ouve enquanto faz outra coisa. O senhor concorda com essa visão?

- Não é verdade que a linha de programação do TVZ esteja "diretamente associada à parada de sucessos das radios tradicionais". Esta, sem dúvida, é uma das fontes que abastecem a nossa programação, mas estamos multissintonizados com os clipes que ainda não estouraram. Na realidade, lançar clipes inéditos é uma das caracteristicas de nossa programação - assim como dar espaço a bandas novas que ainda estão muito longe "da parada de sucesso das rádios tradicionais".

Quanto à musica na internet e tv paga, acreditamos que são complementares. Segundo pesquisas realizadas pelo canal, as pessoas buscam informações e novidades na internet, mas assistem aos videoclipes na televisão. Afinal, pelo menos no atual estágio do "veículo" internet, a qualidade de som e imagem ainda estão longe da TV. A internet pode funcionar como "aperitivo", mas o mergulho no clipe é mesmo no TVZ. Nossos índices de audiência comprovam o fato, tendo em vista um crescimento de 16% da "familia" TVZ entre 2005 e 2006.

Fonte: Ibope Telereport (GRSP + GRRJ)Período: 2005 e 2006 Tabela de Programação / Total de indivíduos


:: Além de uma rádio on-line, que outras ambições o Multishow já enxerga para si na internet?

- Isso faz parte da estratégia do canal... Mas posso adiantar que além da rádio, aumentaremos nossa presença na música e daremos atenção especial aos vídeos. Somos um canal de televisão e buscaremos formas criativas para distribuir nosso conteúdo na internet e atingir o público jovem em diversas mídias.

:: O hábito de se fazer download de músicas não afeta diretamente o modelo de negócios de um canal de TV que lida com música. Pelo contrário, pode até estimular a audiência, pois aumenta o número de pessoas que estão participando desse mercado. O senhor acredita que o consumidor final voltará a pagar pela música ou um novo modelo se consolidará?

- O número de downloads legais (pagos) vem aumentando no mundo todo, principalmente nos EUA e Europa. É difícil prever... O usuário se habituou a fazer download grátis, mas as empresas estão se movimentando e buscando formas de regular o mercado. Acredito que existirão modelos diferentes convivendo em harmonia. As gravadoras vêm desenvolvendo novos modelos de negócios e, mesmo com o download gratuito, estão criando receitas de outras formas. Muitas delas através de parcerias com sites e portais: temos a participação na receita publicitária, participação na receita de assinatura, receita por streaming... O download pago não reverterá o quadro econômico das gravadoras sozinho, mas é uma receita adicional.

6.4.07

Entrevista: Alexandre Matias

Durante o feriado de páscoa, vamos recuperar algumas das entrevistas e textos que fizemos para o MÚSICA CHAPPA QUENTE e que foram publicadas no site do evento. Depois de quatro semanas com debates de altíssimo nível, vamos tentando retomar a vida normal. Desde já, aproveito para agradecer a todos que visitaram o site do MCQ, a todos os convidados e principalmente a todo mundo que esteve presente nas oito mesas de discussão. Já já, a CHAPPA esquenta de novo.

Pra começar a retrospectiva, o troco em Alexandre Matias.


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Há doze anos, Alexandre Matias começou a atuar no jornalismo cultural. 2007-12=1995. (1995-2007). Impossível não associar esse período ao crescimento da imprensa on-line. Matias é um dos principais nomes do jornalismo musical brasileiro e, além de colaborar com grandes órgãos da imprensa do país, põe no ar o blog/zine TrabalhoSujo.

Ele é um dos jornalistas que acompanha mais de perto as inovações comportamentais e tecnológicas trazidas pelas novas plataformas on-line de suporte à música. Antes de participar do MÚSICA CHAPPA QUENTE, na mesa sobre este tema (21/03, às 14hs. UFRJ), ele deu alguma de suas respostas para o CHAPPA.

(por Bruno Maia)

:: Que negócio é esse que está por trás de Napster, iTunes, YouTube, MySpace?

AM: Responder "Long Tail" ou "Web 2.0" é resumir demais, tanto em uma teoria só, como em uma atividade do mercado. Acho que o que tá rolando diz mais respeito ao fato de que as pessoas finalmente aprenderam a usar a internet e aos poucos estamos derretendo o muro entre o real e o virtual. Nao havia este muro quando foi inventado o telefone, a televisão ou outra forma de mídia - mas o aspecto da internet ser uma via de duas mãos criou essa realidade paralela, em que se parecia ser habitável longe da vida real, mas que era uma ilusão. O ser humano sempre criou "second lives" em sua cabeça (quer mundo virtual maior do que a escrita?), mas agora estamos começando a ter consciência sobre isso. Quanto à pergunta, eu trocaria o iTunes (uma loja virtual ligada a um software proprietário) pela Amazon, devido ao sistema de recomendações da loja do Bezos, e incluiria o movimento software livre, o verdadeiro pai da matéria. Foram eles quem lançaram o conceito de colaboração na prática, aplicado comercialmente pela primeira vez pela Amazon, no seu sistema de dicas de compras.


:: O Drew Shuttle, da Wired, disse que a tecnologia é o rock'n roll dos nossos tempos. Se for por aí, já apareceram os Beatles ou ainda estamos no Chuck Berry?

- Tecnologia é ferramenta, é o que nos difere dos animais. É a habilidade do ser humano de criar ferramentas: garfo, cadeira, estilingue, nave espacial. O termo tecnologia é usado para vender equipamentos, mas o grande barato é o termo eletrônica, a linguagem pós-industrial, em que tudo acontece ao mesmo tempo. Esse talvez seja não o novo, mas o próprio rock'n'roll - tem que lembrar que o rock é uma atividade colaborativa (bandas em vez de artistas solo) e total 2.0 (no sentido "eu também posso" do termo). O aspecto participativo e a possibilidade de ser ouvido num monólogo disfarçado de diálogo (a mídia pré-internet) - isso é o verdadeiro rock'n'roll. E, sim, já temos os nossos Beatles, nossos Sex Pistols, nossos Kraftwerk e nosso gangsta rap. Todo ano teremos novos nomes, prontos para se encaixarem nos parâmetros pré-concebidos. Mas a história aqui (mesmo parecendo começar na mesma proverbial garagem das bandas de rock) tem outros padrões e patrões - é a primeira vez que o underground milita no mainstream como causa. Jobs e Gates saqueando a Xerox para vender para a IBM é algo parecido como os Sex Pistols, o gangsta rap, o Kraftwerk e os Beatles ao mesmo tempo.

:: Se você fosse um executivo da Google com a palavra final sobre investir ou não US$ 1,7 bilhão num modelo de negócio como o do YouTube, o que você faria?

- Se eu soubesse o que fazer com a pirataria no YouTube, sim, porque a mídia espontânea dessa negociação consolidou a importância do Google no imaginário coletivo. E é como se eles dissessem: o que tiver de bom e novo por aí, a gente compra. Acredito que eles tenham uma resposta pra isso, mas não deve ser posta em prática rapidamente e envolverá inúmeros acordos com diferentes grupos de mídia - e aí acho que o próprio Google deverá comprar alguns veículos tradicionais para garantir seu próprio conteúdo. Além de seguir a mesma lógica do "pode vir que a gente compra" que eu disse antes.

:: Cada vez mais a vida on-line a off-line das pessoas se mistura. Os olhares de um jornalista diante dessas duas realidades devem ser diferentes ou o princípio que os rege é o mesmo?

- Cada vez mais, essa separação torna-se uma ruína. É uma separação próxima de um outro tipo de vida virtual, quando o sujeito leva uma vida dupla - o bancário que é gótico, a executiva que pratica S&M, o advogado que curte rock e moto no fim de semana. Isso sempre existiu, sempre vai existir. Mas a internet aumentou essa ilusão e agora está ruindo. Você ganha muito mais se todo mundo souber de todas suas facetas - a não ser que você esteja fora-da-lei ou mal intencionado, que é outra história (e também, outra "second life").

:: A obra musical sempre sofre mudanças estéticas derivadas das inovações tecnológicas e comportamentais que surgem em volta dela. Você acha que isso já acontece nesse momento, sob influência dos myspaces, youtubes e napsters?

- Com certeza. Bandas lançam singles mais do que nunca, vídeos promocionais são pensados por diferentes setores do mercado da música, ações de empresas já são usadas pelas plataformas citadas no título do debate no MCQ.

:: Para a mesa YOUTUBE, MYSPACE, NAPSTER, ITUNES: AS NOVAS PLATAFORMAS ONLINE, do Música Chappa Quente, quais você acha que são as principais questões que precisam ser levantadas?

- Acho que o principal ponto é discutir a natureza social da internet - esta separação entre "real" e "virtual". As pessoas aos poucos estão se associando a marcas e personalidades como uma forma de afirmar seu estilo de vida ou caráter - e isso é cada vez mais consciente a partir da lógica do link. Quer dizer, você não precisa mais endossar, basta linkar. Em paralelo a isso, vem a cultura mashup, fundir justamente estes links e criar universos novos que não são tão novos assim.

:: Alguma outra questão para alguma outra mesa?

- Sempre tem, mas já digitei demais por hoje.

:: Algo mais a acrescentar?

- Sim. Desliga o computador e vai dar uma volta.

4.4.07

Promoção Eumir Deodato

Um Email Por Um Par de Convites



      Ficou a fim de ver o Eumir Deodato, na sala de melhor acústica do Rio de Janeiro? A promoção é relâmpago: o Urbe e o sobremusica tão te oferecendo um par de ingressos para a apresentação do Eumir Deodato, às 20:30, na Sala Cecília Meirelles, hoje, dia 4. Ou seja, de manhã você vai na UERJ para o Música Chappa Quente, ver a mesa do Mercado Independente. À tarde, fica por lá para ver o embate triplo ABPD x Creative Commons x iMúsica. E, de noite, assiste a um show bom. Bonzão.

      Vamos lá, se você tá mesmo a fim de ir, e acha que não furar, manda um email para falaurbe@gmail.com e escreve no assunto "promoção eumir deodato". Os vinte primeiros ganham um par de convites.
      A Sala Cecília Meirelles fica ali na Lapa, do lado do Bar do Ernesto.
      E o Música Chappa Quente é de graça também, só chegar, às nove da manhã, e às duas da tarde.

      Falou?

3.4.07

My Humps, Alanis Morissette

É ou Não É, Piada de Salão...



Pode até ser só piada. Mas me permita a paranóia de juntar uns pedaços de informação: Alanis sumida da mídia, vídeo barato, versão inusitada, arranjo que não demandou tempo nem dela nem do pianinho, estética tosca, e a aposta no marketing viral do youtube - único lugar do vídeo. Andando um pouco pela internet, descobre-se que está em andamento uma negociação para que a canadense volte a gravar ainda em 2008...
Mas que é engraçadão a pós-neurótica adolescente rindo da Fergie, da internet 2.0 e dela mesmo, é.

2.4.07

Pandora + Last.FM = Pandora.FM


Uma das características da indústria fonográfica sempre foi a concorrência selvagem. Quanto mais puder afundar o concorrente melhor. Agora, quase todo mundo que estava nessa linha vai morrendo afogado. E não tem mão que os ajude.

Na mudança de cenário que vemos pós-revolução digital, novos conceitos podem estar sendo aprendidos. Last.fm e Pandora são dois dos principais novos negócios criados para a música nesses últimos anos. Concorrentes? Até que de certa forma sim. Mas melhor do que se tratar desta forma é ver como um pode somar força com o outro, sem inviablizar o mercado pra ninguém. E assim surge o PandoraFM. Ninguém está falando em fusão, em um comer - com o perdão do trocadilho - o rabo do outro. É unir força e gerar um novo fruto, bom pros dois e bom pra quem usa.

Diz assim no site:

"PandoraFM is simple. As you listen to music via the excellent Pandora music service each song gets submitted to your profile on Last.FM. You're listening to music, so why shouldn't you be able to account for it? Some call it a mash-up, others call it a hack. I call it Pandora.FM"

Mash-Up ou "a hack" (um golpe) não importa. O cinismo da frase é uma ironia com os velhos tempos. O que você prefere?

1.4.07

Ai ai ai ai.... tá chegaaando a hóó-ra!!!

Camiseta, chaveiro, boné, adesivo, cartão de mensagem, caneca... Tudo mais que puder ajudar o tempo a passar mais rápido...

Aliás, falando em "tá chegando a hora"...

montagem a partir do
blog Romário/Globo.com

*********************
Nessas horas, o tempo parece que demora mais a passar...


Enfim, a casa própria
Perda :: Dorival Caymmi
Dorival Caymmi :: Compilação de vídeos
Show: Momo, no Cinemathèque
Site:: OEsquema
Agenda :: Momo, Hoje!
Aviso: Última Digital Dubs na Matriz
Entrevista: Fabrício Ofuji, produtor do Móveis Col...
Vídeo: Reckoner, de Gnarls Barkley
Vídeo: L'Espoir des Favelas, de Rim'K

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