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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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30.6.05

Boatos, verdades e jornalismo musical

Claro Q é Rock: Além do Garbage, também estão no bico do corvo para assinar contrato os grupos Weezer, Kings Of Leon e Foo Fighters.

Se eu fosse você eu acreditava. Se a Claro tem como divulgar a grande aposta dela no ano, é por aí. O boato tem fundo de verdade, e nos próximos dias a notícia se espalha. Aliás, essa guerra de celular é uma tal de jogar verde pra ver se cola, pior do que reforço pro Flamengo, jogador do Fluminense dizendo que vai pra Europa, Mossoró contando proposta e o Pânico de olho no Sílvio Santos (fora jornalistas azuis marinhos).

BIZZ

A Bizz volta em agosto, mensal e coisa e tal, e antes disso conta a história do rock em edições especiais. Já li a do Elvis e a dos Beatles, e recomendo as duas. A dos Beatles tem Alexandre Matias, Ana Maria Bahiana e o metido e bom Pedro Alexandre Sanches (o Matias vai de 68, que não tem hora pra terminar, a Bahiana de Dylan e o vaidoso de Velvet Underground). A do Elvis tem o Roberto Muggiati e o chato mas, veja, tem quem goste, Sérgo Martins (o primeiro pra contar do pacto entre Robert Johnson e o anjo da encruzilhada, o segundo pra Motown).

Bons textos, mesmo os de quem não citei o nome - ou por não ter referências anteriores ou por tê-las pouco. E uma seleção legal de discos, no fim das revistas. E de chefão, Ricardo Alexandre, cara bacana também, autor de 'Dias de Luta'.

Só danço samba

Peço licença para evadir-me um pouco.

Resolvi praticar meu portunhol no site de um jornal esportivo sul-americano, super malandrito, e eis que encontro isso por lá:


Por razones técnicas no se pudo imprimir esta tapa. Disculpen, hasta mañana.


Día de miércoles: La Selección fue goleada y River fuera de la Copa. Festeja Brasil. (by Olé Clarín, tão malandrinhos!!!)

Alguém sabe me dizer o porquê disso?!


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Para não fugir totalmente do tema deste site, destaque para a observação de Bruno Natal sobre a análise musical de Galvão Bueno e Walter Casagrande Júnior ao final da partida! Sensacional !!!

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Melhor do que isso, só o Roque Júnior. Viva o Roque Jr !!! Meu herói, desde anteontem!

Quem quiser, canta comigo : Ão, ão, ão Roque Júnior Seleção! Ão, ão, ão, e ainda capitão!



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Trilha sonora: "Olha, olha, olha água mineral!/ Água mineral/ Água mineral do Candeaaal,/ Você vai ficar legal!"

28.6.05

O vôo do tempo

Há 10 anos, chegava às lojas o disco de estréia mais vendido na história da indústria fonográfica brasileira. Os Mamonas Assassinas apareceram e arrebentaram com todo e qualquer referencial que uma banda nova pudesse utilizar para chegar ao sucesso. Depois de anos no ostracismo musical de Guarulhos sob o nome de Utopia, os cinco rapazes trocaram de nome, de estilo e, em menos de 6 meses eram a principal banda do país.

“ – Eu dizia para eles que o som do Utopia não tinha nada de novo, que eles deveriam fazer algo mais original. Quando eu ouvi “Robocop Gay”, pirei na hora e aconselhei de que aquele era o caminho” – conta Rick Bonadio, produtor da banda, que anos depois produziria ainda os discos de estréia do Charlie Brown Jr, do CPM22, do Rouge, do Br’oz, entre outros.

Era fim de junho de 1995. Momento promissor para o rock nacional, que vinha se reestruturando. Chico Science e Nação Zumbi, Raimundos, mundo livre s/a e Skank tinham lançados seus primeiros discos. A vendagem de estréia dos Raimundos já beirava as 100 mil cópias – número, na época, pra lá de animador para qualquer artista de rock. Aí vieram os Mamonas e venderam 1 milhão de discos só naqueles seis meses restantes do ano.

“ - Os caras chegaram zoando tudo!” – lembra o produtor Carlos Eduardo Miranda – “Todo mundo foi muito acolhedor com eles, mas era um momento que o rock estava se reorganizando, apontando novos caminhos e os caras confundiram geral. De repente, passou-se a achar que fazer rock era só tirar sarro! As rádios só queriam ouvir aquilo”.

O humor e o carisma do grupo fizeram com que muitas outras virtudes passassem batidas. A mais evidente delas era o talento musical dos cinco, todos grandes músicos. Algumas letras também tinham valor como retratos da época. Um bom exemplo era a que abria o álbum “1406”, uma crítica ao consumismo burro desenfreado da classe média brasileira, impulsionado pela ilusão do início plano Real. Quando fizerem o almanaque dos anos 90, ninguém poderá esquecer de citar vários produtos descritos ali. O serviço telefônico-televisivo “zero-onze-catorze-zero-meia” (quem não se lembra?!!?) que vendia seus ambervisions, masterline, facas guinsu, e outros balangandãs é um dos ícones da década passada.

Muito antes dos caras do Massacration saírem de Petrópolis para avacalhar com o estereotipo do heavy metal, os Mamonas já o tinham feito. O pagode, a música brega, o sertanejo, o vira, o hard core e o próprio rock’n roll também tiveram seus clichês ridicularizados por eles.

Ao todo, foram 182 shows em 190 dias, marca impressionante. Nesse meio-tempo, toda uma geração de pré-adolescentes se forjou ao som do grupo. Pais e mães foram carregados pelos filhos para casas de shows em todo o Brasil. Faustão e Gugu disputaram avidamente a presença da banda em seus auditórios. Eles garantiam audiência. A Globo chegou a oferecer um contrato de exclusividade para tentar impedir as participações da banda no canal rival. Em uma das vezes que tocaram no Rio de Janeiro, Faustão colocou um link ao vivo, direto do Metropolitan, para transmitir um pedaço do show no seu programa.

O acidente que interrompeu a carreira meteórica do grupo, no dia 02 de março de 1996, serviu para imortalizá-los. A piada poderia perder a graça com o passar do tempo, mas os caras tinham potencial para se reinventar. Experimente, hoje em dia, tocar qualquer música deles numa rodinha de violão e veja como trazer a atenção de todos seus amiguinhos para você. A piada era boa, durou mesmo. Desde a tragédia, o disco passou a vender ainda mais. Atualmente está na marca de 2,7 milhões de cópias vendidas.

Preciso voltar a trabalhar

Já andava desconfiado disso, mas agora o camarada Lúcio Ribeiro me fez ter certeza!!!

Junho acabando, segundo semestre entrando em campo. Possível escalação:

* Strokes (Como eu gosto do Tim Festival...)
* Weezer
* Foo Fighters
* Oasis
* Outkast (Como eu gosto do Tim Festival...)
* Wilco (Como eu gosto do Tim Festival...)
* Flaming Lips
* Kings of Leon

Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Se isso foi esmola pouca, o White Stripes também pode voltar ainda esse ano... Ah vá!!

24.6.05

Rock'n'roll

Assista a Nove Canções, sobre o rock, o sexo e basicamente só isso. E o que há mais, afinal? (a qualquer momento este post será atualizado).

22.6.05

Como é ser um rockstar?

Este é para você que queria ser um rockstar e morre de curiosidade de saber como é estar em cima de um grande palco.

- "Ah, sobremusica ... Eu queria tanto ser o vocalista de uma banda de rock... Tocar na Cidade do Rock... Num palco grande como o do Vibezone... Como será lá em cima?"
- Seus problemas acabaram. Sobe lá e arrebenta, meu(inha) garoto(a)!





- "Não, sobremúsica , minhas pretensões não são tantas. Sabe, minha banda tá começando e o palco menor já me contetaria..."
- Ok, ok, no problems. Vai lá!




E aí? Gostou, rockstar?

Existe poesia nas letras de música

Na crítica do livro "Ainda Lembro" (do ex-BBB, Jean Wyllis), publicada no dia 18 de junho pelo Ilustrada, da Folha de S.Paulo, o professor da UFJF, Gilberto Felisberto Vasconcellos lança as seguintes mal-traçadas linhas sobre o autor: "Meteram-lhe na cabeça (ele não tem culpa) que existe poesia nas letras de música".

O tom do texto demonstra claramente que o professor discorda desta idéia.

Eu não tenho nenhuma pretensão em ser ex-BBB (nem em falar mal ou bem deles), mas pra mim, há (e muita) poesia nas letras de música. O Programa Ensaio - que foi ao ar no último domingo, na TV Cultura - reforça minha opinião.

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Retomando a discussão recém-surgida, rock irresponsável pode ser legal sim. Mas o termo 'irresponsável' é perigoso pois permite legitimar o mau gosto sob a pecha do 'irresponsável'. As bandas neo-nazistas de metal industrial da Alemanha também são irresponsáveis.

Além do que, esse tipo de 'irresponsabilidade' é tão boba, tão.... bff... É tão demodê quanto o próprio termo demodê. E tanto quanto esta discussão também.

21.6.05

Ficção Científica??

Matrix é um dos melhores filmes da minha lista nunca feita de melhores filmes. Eu gosto muito de listas.
Nisso, em Matrix, não nas listas, eu fui parar no livro Neuromancer, de William Gibson. É dele e de ‘Simulacros e Simulação’ que o filme foi gerado – dizem que de um do Deleuze sobre o cinema e o movimento, mas esse eu não li.
E a questão que ficou na minha cabeça, finda a leitura, é a música do futuro – pelo menos a ficção científica sobre a música. Ou seja, o que se projeta hoje, por metáfora/comparação com o contemporâneo, como o que será em quinze ou vinte anos dos hábitos de escuta.

Há uns anos, na Inglaterra, um dado amedrontava conservadores: o número de turntables vendidas naquele período de trezentos e sessenta e cinco dias tinha superado o de guitarras, rainha desde os tempos de garotas gritando por Paul McCartney.
No livro, de 83, o mundo é predominantemente um submundo, mas com interfaces para um virtual seguro (apesar de falhas e vírus, a segurança em si não é real, e tal). E, claramente, os elementos clandestinos estão lá, em Zion, de dreadlocks e ouvindo dub.
Ou seja, o dub é o som do futuro para o terceiro mundo que sabota a escassez de tecnologia e recursos. Para vinte-e-dois anos atrás, é um raciocínio bastante interessante.
Em 83, poucos álbuns de dub haviam cruzado as fronteiras da Jamaica, onde só ficavam atrás do chamado reggae roots, que não tem nada a ver com o reggae hippie de shows cariocas no Mourisco ou na Fundição. O reggae roots é um gênero antes de tudo urbano e de resistência.
Pois então, ao lado do frio alemão do Kraftwerk, o dub surgia como primórdio (pop, entenda-se) do eletrônico.
A idéia do estúdio como instrumento, da subversão da lógica de mixagem - baixo e bateria atrás – já era apontada como a identidade pirata e clandestina do terceiro mundo. Improvisar com o precário até que dali brote o novo mutante, autêntico e legítimo, pra gringo não entender e comprar pagando caro.
O dub, hoje, está a um passo de entrar na moda, já tem equipes de sound system espalhadas pelo mundo, é referência de bandas como Nação Zumbi, O Rappa, Asian Dub Foundation, Manu Negra, etc.
E, hoje, 20 anos depois, OK Computer é escolhido disco mais importante do período. O OK Computer, lindo, inorgânico, importante, mas branquinho e europeuzinho.

O futuro do terceiro mundo chegou?


Defuntos

Uma vez eu toquei com o falecido Area51 no também falecido MHK Skate Park, em Jacarepaguá (se a sigla não for essa, é quase essa). Foi um dos shows mais maneiros da minha vida, tocar e ver os skatistas interagindo com punk, ska e rock’n’roll. E isso, sem falar que na passagem de som os esportistas não queriam que eu parasse de tocar. Foi bem bom.
Claro, vendia cerveja e o público não ficava atrás dos skatistas.

Quanto ao rock virar coisa de skatista, no trabalhosujo, indispensável, há um texto fantástico que se chama ‘Prisioneiro do rock’ . Pois é, lá se fala da redhotchilipepperização do rock para a indústria. Vista seu bermudão, vira um boné pra trás, seja musculoso e tatuado e você tem uma banda de rock. Atitude é sempre emoção pra valer.

Quanto ao sinal com a mão, isso é um pouco de rock’n’roll irresponsável, faz bem sim. Agora tem uma pergunta que é boa: rock’n’roll (não o redhotchilipepperizado, entenda-se) virou coisa de menina? Cada vez mais eu acho isso.

OK Computer

OK Computer, da banda britânica Radiohead, foi eleito o melhor disco dos últimos 20 anos pela revista americana especializada em música Spin.

20.6.05

Programa Ensaio, com Chico Buarque

A benção Tom, Saravá Vinícius...

Hoje à noite, desprentesiosamente trocava eu de canais pelo decoder da TV a cabo, quando cruzo com um rapaz buchechudo, de bigodinho, cabelos desgrenhados e violão em punho no canal 17. O rosto podia até deixar dúvidas, mas o branco e preto das imagens, o jogo de luz e sombra, as respostas sem perguntas, não. O programa era o clássico "Ensaio", de Fernando Faro. Um banho de modernidade televisiva feito há mais de 30 anos. Nada na TV brasileira (principalmente naquela especializada em música) atual chega aos pés do charme, do encanto e da modernidade daquele programa.



Ah, o entrevistado (?) era Chico Buarque de Hollanda. Não tenho dados mais precisos, mas chutaria que o programa é de 1975, senão 74. Foi nesta época que, para driblar a censura, o rapaz assumiu o codinome de Julinho Adelaide para assinar três músicas (Acorda, amor, Jorge maravilha e Milagre brasileiro).

O raciocínio de Chico parecia meio confuso, perdido na fumaça das tragadas excessivas que dava ao longo do programa. Contudo, antes de ser um problema, a fumaça do cigarro aumentava o charme das imagens em preto e branco. Para quem gosta (de música, de Chico ou de televisão) foi um desbunde. Vê-lo tentar achar os acordes de suas próprias músicas, sem sucesso na maioria delas... Parecia até eu tentando tirar àquelas pérolas no violão aqui de casa. Não há muito o que falar de um programa desses.

Se alguém não sabe que programa é esse de que falo, vale a pena conferir o DVD "Ensaio - Elis Regina" (Trama * 2004). E torcer para que os outros programas da série, como este de Chico, estejam à venda em breve também. Vale tanto pelo acervo musical que ali está, como pela aula de televisão e bom gosto (e televisão-de-bom-gosto[!]) que Faro dá. Impress(Emoc)ionante.

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Enquanto escrevia: Chico Buarque de Hollanda Vol.3 (1968)
Enquanto revisava: Chico Buarque de Hollanda Vol. 1 (1966)

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Inevitável : Depois de escrever o "Vibezone * Parte 2" (próximo texto, se continuares descendo a barra de rolagem), foi impossível não ouvir o programa e lembrar do Dibob falando que se sentia influenciado pela obra de Chico. Ai ai.. Perdoe a eles, Tom. Eles não sabem o que dizem. (Se não entendeu este pós-texto, mas quis entendê-lo, leia o texto que vem abaixo.)

19.6.05

... (Vibezone * Parte 2)

Este texto só vai falar dos shows do palco principal.

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O primeiro dia do Vibezone mostrou como estão fazendo falta bandas para maiores de 18 anos no rock nacional. Nada contra à garotada, mas a coisa tá meio monotemática. O rock vai além do skate e a sensação que tenho é que, se você não gosta de skate, você deve esquecer a possibilidade de ouvir/ver uma banda nova ganhar dimensão nacional, palcos grandes, boas estruturas e, conseqüentemente, bons espetáculos. E se você não só não curte skate, como também é maior de idade, aí fudeu. Relaxa, maifrênd.

O Vibezone teve esta tônica. Tinha até - como já disse em outro texto - o Vibe Gás, que era um palco atrás de uma pista de skate, nitidamente tratado como pano de fundo para a galera passear com suas pranchas sobre rodas. A coisa era tão pra molecada, que alguns dos poucos maiores de idade que encontrei por lá (a maioria tocando ou trabalhando), saiu fora da Cidade do Rock antes dos principais show da noite, pois o local não vendia bebida alcólica. Se uma hidroxila, coitada, pensasse em desfilar pelas imediações da Salvador Allende, naquela noite de sexta-feira, seria rapidamente exterminada. Só refrigerante. Para mim, que não bebo mesmo, até que isso não foi grande problema, mas espantou uma boa parte dos "tios" de 24, 25 anos que ousaram passar por lá.

A primeira banda da noite, o Dibob, é uma das da 'novageração' que vem seguindo o caminho aberto no Brasil pelo Charlie Brown Jr., e pelo qual tantos seguiram. Foi um espetáculo bem trash. Eles têm um bom público no Rio de Janeiro (e pelo que a agenda deles mostra, parece que é só aqui mesmo) e foram, certamente, um dos principais responsáveis pelos ingressos esgotados daquela noite. Nesse sentido, os organizadores acertaram em colocá-los como uma das atrações principais. A galera cantava as músicas em uníssono, mas as letras carregavam assustadoramente um teor machista, por vezes discriminatório. Punk-rock do século 18. Segue um pouco da poesia dos rapazes:

"Outro dia por acaso eu a conheci / Foi num daqueles que você não tem pra onde ir / Eram 4 da manhã via duas de você / Um é pouco dois é bom / É assim que vai ser".

Romântico? Peraí que tem mais. A atual música de trabalho.

"Não tenha medo não / Vamos ali pro canto / Pode deixar que eu não mordo / E isso eu te garanto " ... Aí, na mesma música, os versos finais diriam: "Você gostou de um jeito / Que eu nunca tinha visto / Nem parece que era eu". Esses até que seriam versos normais, mas o vocalista fez questão de cantar: "Você mostrou um peito / Que eu nunca tinha visto / Nem parece que era seu." E a maioria das menininhas ali nem peito tinha ainda.

Buscando um pouco na internet, vi uma entrevista em que eles se dizem influenciados por Chico Buarque. E precisava dizer? Tá na cara, não?!

Posso citar só mais uma? Prometo que é a última. Se liga no Buarque de Hollanda: "Fala pra ela / Que no teu quarto tem ar condicionado / Dvd, frigobar engaubelado / Que ela vai se interessar/ Leva a bitch pro teu quarto amigo e chupa ela lá / Mostra pra ela o que melhor você podia lhe dar / E quando perceber / Ela vai se amarrar / E aí tu dá um veto nela / E deixa rolar". E aí? Muito emocionado? Tá bom... Pronto, parei.

A galera dimenor cantava e fazia com a mão, aquilo que parecia ser o código de comunhão da banda com o seu público: Uma buceta. Exatamente. Aquele sinal no qual você junta as pontas dos seus polegares e a ponta dos seus indicadores. E dá-lhe jogar a mão pro ar! Tinha menina de 12 anos fazendo isso! Será que eu tô ficando velho ou isso ainda é totalmente freak mesmo?! Bizarrice.

O show deles ainda teve uma participação especial de um cantor (?!) que compõe o mesmo "movimento musical" do qual surgiu o Dibob. MC Fox entrou, cantou um monte de coisas que eu não consegui entender, mas antes de sair ensaiou um coro que parecia que a galera conhecia e que o vocalista da banda acompanhou: "Eu não sou cafetão de puta pobre / Eu sou playsson, stronda / Morador de bairro nobre!"

Juro que eu tava ficando com medo. Era muito preconceito para apenas 50 minutos. Bem, como eu gosto de mulheres e acho que elas devem ser bem tratadas, prometo que tentarei nunca mais falar dessa banda, nem fazer nada que possa ajudar a propagar este tipo de discurso.

Apesar de tudo isso, alguns elogios também são válidos: a banda pareceu estar bem ensaiadinha, pronta para enfrentar palcos daquele tamanho. O baixista é o que canta melhor. Ele já divide boa parte dos vocais com o vocalista principal, mas poderia assumir essa função com mais freqüência. Eles têm um bom guitarrista, Miguel. Se tomarem mais cuidado com os versos que cantam, têm todas as condições ($$$) para ficarem muito tempo na estrada. Tenho minhas dúvidas, mas torço para que a implacável seleção natural se encarregue da carreira deles. Eu confiarei no que ela decidir.

O Ira! tocou depois. O show acústico era o mais complexo em termos de som naquela noite. A produção precisou usar uma mesa de som analógica especialmente para a banda. Eu confesso ter achado que a galera nem ligaria para o Ira!, mas ligou. O show começou bem cheio, mas foi minguando. Talvez por terem descoberto que Nasi, Scandurra, Jung e Gaspa não sabiam falar de skate. Mesmo assim, as letras (cada vez mais leves) da banda facilitaram uma certa identificação da galerinha. As três músicas de trabalho do último disco foram as mais cantadas.



Fazia tempo que eu não ia a um show do Ira!, mas a apresentação parecia feita sob encomenda para aquele evento e para aquela garotada menor de idade. Tanto é que antes de tocarem "Núcleo-Base", Edgard Scandurra fez questão de mandar: "Essa é para quem ainda não completou dezoito anos". Ovação.

Apesar disso, a banda fez um agrado para a galera que tinha ficado fora da dedicatória de "Núcleo-base": Mandaram "Foxy Lady", de Jimi Hendrix e "Should I Stay or should I go", do Clash. Acho que tocaram mais alguma outra que eu não estou me lembrando agora.

Já o CPM22 quebrou tudo. Voltando ao clima "músicaparaandardeskate", a platéia, fanática pela banda, mostrou algo que beirava o messianismo em alguns momentos. Frases de efeito no refrão é um grande segredo; "O mundo dá voltas / Não posso mais parar / É só correr atrás!"... ou "Chega de mentir / e me iludir / Encarar de frente / é o que temos a fazer". O CPM22 é uma realidade no rock brasileiro e caminha a passos largos para ocupar o posto que os santistas do Charlie Brown Jr vão deixar vago com o fim da banda. Pelo menos eu acho que o Chorão sozinho não vai conseguir manter o que a banda vinha fazendo até aqui. E o CPM22 vai tomar de assalto o posto. Entre a galerinha de 12 a 15 anos, eles já são a principal banda brasileira. Digo isso de camarote, pois tenho um irmão (muito querido, por sinal) que está na lista de fãs incondicionais dos paulistanos.

Chega? Aham, chega.

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Obs: Meu irmão não gosta do Dibob.

18.6.05

A música ainda fala por si? (Vibezone 2005 * parte 1)

Primeiro dia de Coca-Cola Vibezone

A grande pergunta que fica da primeira noite é esta, a do título deste post. Não resta dúvidas de que o Vibezone está se consolidando como um dos grandes eventos do país, e principalmente do Rio de Janeiro - esta cidade sem grandes opções grandes.

O que ocorre ali, é a venda de um "estilo", o "estilo Coca-cola". [[ Quem não se lembra do Chorão cantando "Se liga no estilo! ? Eu é que não vou falar mal do cara, senão ele vem quebrar o meu nariz com a testa dele... ]] Pois é, o que acontece ali é a tentativa d'A Empresa de criar uma aura para o seu produto, ligado à radicalidade, à juventude, uma tentativa de associar a marca com os adolescentes do início de milênio.

Então, que qui acontece...

Você chega lá e encontra tiroleza, tobogã, bob's, camas elásticas, pista de skate, domino's pizza, tenda para correios do amor (essa era uma das maiores tendas!)... Pausa para respirar ... Segue: Tem um troço que parece bungie-jump ao contrário, no qual você é alçado a vôo, tem um outro no qual você sobe num guindaste a uns 40 metros de altura, senta numa cadeira que se abre e você cai lá de cima numa rede gigante... Longuíssima pausa para respirar ....
São tantas opções que eu devo estar esquecendo de alguma coisa... Ah, sim... Rola música também.



Várias bandas e Dj's tocaram nos palcos e nas tendas do evento, mas fica claro que a música é só uma parte. Aquilo, definitivamente, não é um evento de música. É música num evento. No palco Vibe Gás (onde tocaram os locais Moptop, Som da Rua e Carbona) está a prova disso. Lá, a galera fica a uns 20 metros de distância(!) do micro-palco, separada por um mini-circuito de pistas de skates. A banda é pano de fundo, trilha-sonora, pra galera mandar as manobras. Pelo menos é assim que os organizadores tratam a coisa.

No extremo-outro-lado da Cidade do Rock, no palco Sussa, as bandas tocariam para a galera que queria dar uma relaxada. Era para ser música incidental. Acabou não sendo tanto, porque as bandas que passaram por lá eram mais agitadinhas do que o ambiente, entre elas a Posto 13 única que eu consegui ver, devido à quantidade de coisas que havia para se observar num evento daquele tamanho.

No palco principal, rolavam os shows grandes, de artistas não necessariamente grandiosos. Claro que quando eles estavam no palco, grande parte da galera se concetrava para curtir aquela atração. Consegui assistir alguns shows da mesa de som. Graças à essa privilegiada posição, consegui ver o evento como um todo, do alto. Era muito engraçado, ver o Ira! tocando, a molecada cantando e, ali, ao lado do palco, dezenas de adolescentes pulando em camas elásticas ou fazendo fila para cair de 40 metros de altura. Fotograficamente, eram belas imagens.

{{Abre janela :: Olhando aquilo, conseguia imaginar a felicidade do cara (normalmente um publicitariozinho) que deve ter desenhado o projeto do Vibezone num papel - onde tudo sempre parece lindo, romântico e inviável na prática - vendo seus desenhos tomando formas reais. :: Fechou }}

Os organizadores tiveram um outro grande mérito. Naquele local, daquele tamanho, onde o Rock'n Rio 3 diz ter posto até 250 mil pessoas, só foram postos 20 mil ingressos à venda (esgotados, claro!). Com tantas tendas e tanto espaço vazio, o evento criava vida própria. Olhando de cima, era fácil ver o fluxo migratório. De lá pra cá, de cá pra lá, pra tudo quanto é canto tinha gente indo e gente saindo. O tédio passa longe da molecada. Tudo colorido por um "vermelho-e-branco" que nada tem a ver com White Stripes. Hahaha. Longe disso!!!



É muita coisa, muita informação, muita constatação, muita gente. E várias músicas de trilha-sonora. Voltando ao título desse texto, a grande dúvida que fica é acerca do que seja a música hoje em dia. Ela ainda fala por si ou ela é apenas trilha-sonora para outras distrações mais interessantes do que ela? O Vibezone pergunta isso e coloca um palco minusculo como fundo de uma pista de skate. Na atual conjuntura, os músicos parecem não ter muito o que fazer e nem se interessar por questões como essa. Por isso, acho eu, que para os organizadores, "vermelhos-e-brancos" como os do White Stripes ficariam longe dali, ou pelo menos do palco principal. Quem sabe fizesse fundo numa pista de skate.

Ah! Quem tocou no tal palco principal? Six Foot "Quem??" Halo, Dibob, Ira! e CPM22. Faz sentido? Sim, faz sentido... E muito!

A divagação continuará. A seguir cenas dos próximos capítulos:

#####

* Machismo de bobos
* "Eu tenho mais de 18 anos. Eu posso ir ao Vibezone?"
* Skate naveiadosirmãos
* " - Tio, quantos anos você tem?
- Eu? Dezessete!"

17.6.05

Lucy in the Sky with Diamonds

Você deve ter visto que a Lucy morreu. A Lucy "in the sky with Diamonds", musa inspiradora de grande sucesso dos Beatles. Todo mundo dizia que, na verdade, a inspiração era o LSD, mas John Lennon sempre bateu o pé dizendo que a musa era uma mulher chamada Lucy Richardson, uma amiguinha de escola do filho Julian, quando os dois tinha 4 anos. Julian um dia teria aparecido em casa com uma pintura da Lucy num céu estrelado. Lucy morreu este mês de câncer, aos 47.

13.6.05

Who's bad?

Michael Jackson foi inocentado. Sei não, hein.
Mas também...
O Sérgio Naya foi inocentado...
O casal Garotinho recuperou os direitos eleitorais...
A maioria dos PM's de Vigário também foi inocentada...

E pensar que eu me condenava simplesmente por gostar de algumas músicas do Só pra contrariar e do The Calling...

Sei lá...

*****
obs: as músicas do Só pra contrariar são "Domingo" e "O que que eu vou fazer com essa tal liberdade". Já do The Calling, hehe, são várias...

Eu acredito em lendas urbanas

Sem desmerecer o nosso bom e velho Trabalhosujo, mas para aqueles que têm dificuldade com o idioma de George Bush, William Sheakspeare e Paul McCartney e se sentem mais a vontade com o também bom e velho português .

*************
complementando: Ainda na língua-carro-chefe, a RollingStone escala mais uma lenda urbana.

Pros que Acreditam em Lenda Urbana

E aos que caíram naquela de que o sonho terminou. (Ops!, acho que confundi as bandas). Tudo via trabalhosujo reatualizado.

11.6.05

Explicação

Este lugar (blog/site/caderno velho/sabe-se lá) ainda está em fase an alfa beta, o que significa erros de percurso e tudo mais. Portanto, queira entender, posts repetidos, fora de ordem, etc. podem cruzar a pista.
Pela atenção, nosso agradecimento.

Administração sobremusica/com/br

Clean

Filmes de jornalistas e de músicos são filmes com tendência a agradar. Talvez sejam os dois temas que façam prestar menos atenção em roteiro, mão do diretor, moral da história, mis-en-scène, etc e tal. E são dois temas que apresentam sempre o glamour como personagem central de muita obstinação e amor a uma verdade superior que os outros não vêem (Verdade Superior?, com letra maiúscula?).
‘Clean’ é um filme belo, sobre uma ex-vj da MTV que vive na cena alternativa e tem problemas com as drogas. E, veja bem, sem glamour ou onda errada de heroína. De uma Yoko Ono a detenta e depois desempregada em recuperação sem a custódia do filho, a mãe de Jay passa por momentos distintos e escolhas muito difíceis e próximas a quem se identifica com a situação de desconfianças de quem está perto, sonhos readaptados e um recomeço que não é mais do ponto zero. A vida não é um círculo, mas uma espiral que dá voltas, mas sempre avança. Um fio de telefone, pra quem preferir.
Emily Wang recorre a antigas amizades que lhe viram as costas e somem do filme, o que contraria a lição 13 da página 7 do guia “Como se faz um filme legal e que você já viu”: se uma arma aparece, em alguma hora ela vai ser usada. Uma das “armas” é Tricky, que faz papel de Tricky e é aquele cara que a vida afastou, mais nada. Sem traições, fama subindo à cabeça ou fórmulas fáceis de entendimento para a simples vida. Ou seja, a espiral se mexe.
(Aliás, Tricky é um cara que já cruzou por várias vezes a minha vida auditiva, mas nunca o dei o tempo necessário pra gente se entender, e isso desde que fazia um programa de rádio na Interferência fm, da Eco-UFRJ, sobre as aproximações do jazz com o pop/alternativo).
Enfim, entre os percalços que ali estão, há o mais belo e franco diálogo sobre drogas na minha memória, dentro desse contexto de vida na cena alternativa londrina/européia. Ao contrário do moralismo de filmes “maneiros mas vacilam” como ‘Réquiem para um Sonho’ e ‘Aos Treze’, Jay e Emily caminham no zoológico e o garoto resiste a conhecer a mãe, por que a avó e todo mundo lhe contaram que foi ela quem matou o pai, Lee Hauser. O ex-ídolo alternativo (onde dinheiro é o caminho oposto a prestígio) morreu de overdose, com heroína conseguida com a Yoko Ono/Courtney Love em questão. As drogas não são as vilãs.

O diretor Oliver Assayas fala muito sério.

E pra não dizer que não falei: a lindinha Emily Haines é mais uma que aparece como ela mesma, da banda Metric; um cartaz de Nick Cave and the Bad Seeds aparece no fundo do escritório de uma gravadora; e Nick Nolte e Maggie Cheung são muito bons.


Chumbo listrado de branco
Faltou dizer que um dos pontos fundamentais do show foi ‘Black Math’. Desculpa aí!, ah ah ah ah ah ah ah ah oh oh....

9.6.05

"Ecletismo musical" é diferente de "riqueza musical"


"- Quais são as influências (referências) no som que você(s) faz(em)?"
Para tal pergunta virou lugar-comum se ouvir os músicos (principalmente os novatos) responderem:
"- Ah! Muita coisa, a gente tem vááárias referências...",
ou
"- Não ficamos presos (?) a um estilo.."
ou pior...
"- A gente ouve de tuuuudoo e tenta botar isso no nosso som!!!"

Nossa... Dá até medo...

***********
Ao texto:
Freqüentar shows de bandas independentes é uma faca de dois gumes. Na noite de quarta-feira (08 de junho de 2005) fui a dois shows desse tipo no Humaitá. Em um, vi uma grande banda, em plena forma, a qual não me canso de elogiar, que é o Moptop. Certamente, a melhor banda do Rio há algum tempo e a qual me envaideço de conhecer e acompanhar o crescimento dos caras desde o início. A outra, foi a outra.

(Moptop:)
Citar referências musicais como forma de justificar o gostar ou não de uma banda é pobre. O Moptop tem um tipo de som como referência e o ataca com toda a força. Não devem nada aos Strokes, Franz Ferdinand, Kings of Leon, Bloc Party, Kaiser Chiefs e outros do gênero. Eles estão conectados a um tipo de som que é tratado por muitos, no mundo inteiro, como "a salvação do rock" (pfff!). E óh, que o Gabriel Marques (vocalista, letrista e guitarrista) já fazia isso antes de 4 das 5 bandas acima citadas aparecerem para o mundo. Tá certo, não é pra tanto e nem o Moptop quer salvar o rock (afinal eles mesmos cantam, em tom de piada, que o rock acabou). O que mais me atrai neles é a potência de som. O que os caras (quatro caras) tiram é alto, é bom, é cheio. Definitivamente, é uma banda mainstream em palco indie. Logo, logo essa discrepância começará a ser corrigida. O show começou atrasado, mas como se trata de uma banda consciente, que não precisava querer brilhar mais do que os donos da festa - que no caso, era o Jimi James lançando disco novo -, eles souberam fazer o deles e sair do palco na hora certa. Resultado óbvio: Galera pedindo bis. Não rolou, mas beleza. Preço: R$5,00.

(A outra:)
Em seguida, fui ao show da outra. Não pude ver o Jimi James fechar a noite no Sérgio Porto, pois um compromisso maior e afetivo me levava a esse outro lugar. Lá, só esta outra banda tocaria. Preço: R$10,00 (ou se preferir, pode dizer "o dobro do preço no Sérgio Porto"). Cheguei e a tal outra banda atacava um som que misturava um monte de referências e não chegava em lugar nenhum. Dado momento contei 8 ou 9 cabeças no palco. Um vocal, duas (ou três) guitarras, um baixo, um batera, um gaitista, um saxofone e um trompetista. E um som inversamente proporcional ao número de cabeças. No fim, mesmo com Argentina x Brasil começando, a banda, sem senso crítico nenhum, ainda mandou duas músicas. Um tremendo desfavor a eles mesmo. Foram obrigados a ouvir os gritos de "Nããão" vindos da galera eufórica e ansiosa para ver a nossa seleção de brancos Kakás, pretos RonaldinhosGaúchosRobinhos e mestiços Adrianos arrebentar os brancospseudoseuropeus da terra-do-brancoMaradona-que-se-acha-superior-ao-negritoPelé.

{{Abre janela :: Dessa vez, foi ridículo. 3x0 pros caras no primeiro tempo?! Era melhor que a banda tivesse mesmo continuado a tocar... Pensando bem... Ah! Deixa pra lá :: Fecha janela}}

A tão propalada "mistura de referências" virou lugar comum na música brasileira. Tá certo, somos um povo mestiço (apesar do Ronaldo Fenômeno ser branco, segundo as palavras dele), a mistura e a miscigenação são os traços mais fortes da nossa formação cultural e étnica. A mistura de sons é vital para a evolução. O problema é quando a mistura não mira nada, só a mistura em si. "Misturar é legal porque dizem que misturar é legal", esse tipo de postura cega é que mata. Normalmente quem a segue, ainda não se deu conta de que está seguindo.

O Moptop e a outra banda são bons exemplos disso. Já cansei de ouvir pessoas criticando o Moptop com o seguinte argumento: "Parece muito 'nãoseioquê' ". Pode parecer, mas é bom. É bem feito. Não parecer com nada não é caminho. Misturar, misturar e misturar sem razão só serve para criar coisas híbridas, sem vida, sem graça. SDS's.

Viva a mistura e a miscelânea cultural. Mas na música, o importante é deixar tudo soando bem aos ouvidos. Quanto ao resto...Ah!, que se foda o resto.

Música para ouvir quando fores reler este texto: Mexe, mexe (Jorge Benjor) * na versão original, que é do mundo livre s/a, no CD "Por Pouco" (2000 - Abril Music).

***O autor deste texto toca numa banda que mistura estilos musicais.

Trilhas

'Quanto Vale ou É por Quilo?' é muito mais uma decepção do que um bom filme. Quem viu 'Cronicamente Inviável', do mesmo Sergio Bianchi, ou gostou de 'Prisioneiro da Grade de Ferro', de Paulo Sacramento - que em 'Quanto vale...', como em 'Cronicamente...' é editor (e produtor de 'Amarelo Manga', se isso não for informação demais) não deve ir esperando nada ao cinema, e talvez a experiência valha por alguma coisa. Pouca discussão, acidez menos perspicaz, e uma vontade de chocar meio sonífera.
De qualquer forma, a questão é: até onde boas músicas fazem uma boa trilha?
Sérgio Bianchi desperdiça 3 do Nação Zumbi, uma de Marcos Valle (é a segunda vez em 3 posts que eu falo em aprender a ser só), uma de D2, uma de Cartola, e outras mais. Sendo que entre as do NZ está a batida 'Quilombo Groove' e a fantástica 'Jornal de Sangue'. Mesmos motivos: pouca discussão, pouca perspicácia e pouca sutileza.

6.6.05

O Som dos Nós

Sábado à noite, depois de ver o belo 'Casa de Areia' com interessante trilha de João Barone, interessante mesmo, fui parar no Teatro João Caetano de boas lembranças minhas. Meu lugar marcado não era um primor, e deve inclusive ter contribuído para a impressão que tive do espetáculo de Deborah Colker.
De Dança sei pouco, mas pelas poucas apresentações de minha vida, tenho a impressão que ver de perto faz parte da organicidade da relação olho-corpo. Sendo o corpo nunca meu, só o olho.
Ainda mais se o desejo é tema, com figurinos a favor. Enfim, o assunto é outro.
Do segundo piso, de um lugar quase lateral e quase não-muito-longe, vi Nós. E a impressão que ficou foi a de que mais do que de expressão corporal, ali o bacana é a trilha ilustrada. A música é o primeiro plano que a cena (cenário-figurino-dançarinos, vamos chamar assim) preenche. A culpa é de Kassin e Berna Ceppas, dupla do Monoaural e do Artificial que, aliás, tem um dedo em boa parte do que o Rio tem produzido de bom. De Acabou la Tequila a trilhas de curtas, de disco do Caetano a Berna experimental no Sesc Copabana, até a Orquestra Imperial, a Adriana Partimpim e o trio +2, que sempre vai com amigos para cima do palco.

O texto é disperso e não engrena, mas eu tento de novo.

Tudo começa com um estranho, muito estranho ruído eletronicamente musicado, sem um ritmo definido. A primeira parte das duas do espetáculo é mais climática do que rítmica ou melódica – quase uma experiência contemporânea, não fosse isso tão antigo e fora do caso aqui. Ouvidos mais atentos pensam haver um defeito no som, até entender um sentido musical naquilo. Enquanto isso, uns bonequinhos movimentam-se desalinhando o que se convencionou ser as possibilidades do corpo. Quase uma história em quadrinho bacana, mas surreal, e tal. Sem contorcionismos circenses, mulheres parecem babuínos de bunda empinada, algo igualmente estranho, muito estranho. Aos poucos, as cordas e os cabelos (um imenso emaranhado de cabelos naturais cai do teto à esquerda do palco) entram na composição daqueles corpos que o figurino já dá um jeito de bi-dimensionar, ou des-volumar. Uma corda segura a menina que planta bananeira a 45 graus do chão. Demora a entender, e a música tira ainda mais esses chãos de referência. Os sentidos do desejo disputam alguma coisa ali. Dançarinos se dividem em diferentes focos de ação coexistente. Como um quadro gótico de Bosch, só que sem diabinhos verdes e criaturas celestes – ao contrário, o figurino joga todos em cena a uma identidade quase uniforme.
Ruídos, alteração de volumes e tons inorgânicos tornam a consciência inquieta, mas não desconfortável. Vem a segunda metade, e de cara um cool jazz de Chet Baker mostra a transformação. A caixa/vitrine vermelha com vidros transparentes do cenário precisa de calor, mesmo que o jazz seja frio ele soa como a frase curta sussurrada ao ouvido, a temperatura não sobe exatamente ali perto da boca que te fala. Colker faz o solo de saia vermelha, aberta nas costas, e isso é tudo que este texto vai dizer. Menos dissonante, há ainda Moacir Santos, antes que o que vinha bem caia um pouco. Um espetáculo todo sugerido e com imagens a cargo de quem vê entrega uma metáfora vagabunda com o som de ‘Eu Preciso Aprender a Ser Só’ na voz de Elizeth Cardoso. Voz dela e base eltrônica da dupla. Em nenhum outro momento a voz tinha sido o instrumento em destaque, e em nenhum outro momento as palavras explicaram a graphic novel em movimento de Colker. Pra dizer que relacionamentos a dois têm a ver com nós, atados ou desatados? Infelizmente, o fim entrega pornograficamente o que cada um imaginou eroticamente ao longo de todo o espetáculo.

4 de junho de 2005

Festival

Tem sempre aquele papo de que festival lá fora dá inveja em brasileiro fominha, que se contente com vaibisone e pastéis sem recheio. Pois o ano do Brasil na França, isso, na França, reservou mais uma dose verde-e-amarela daquilo que é uma merda. Eurockeennes. Além de Tom Zé, Cake, Kraftwerk, Kasabian, Bloc Party, Amon Tobin, Interpol, Nine Inch Nails, Queens of the Stone Age, La Phaze, The Killers e Sonic Youth (entre os que eu conheço e me disporia a ir), existe na escalação a estréia internacional de Turbo Trio – que vem a ser o resultado de BNegão + Tejo + Alexandre Basa – na ordem de fatores que lhe convier. (info)

Mudando o mundo

Notinha do Carlos Albuquerque no Globo On cita as 5 músicas que mudaram o mundo. Sou ruim de títulos de música, mas dificilmente conheço alguma mesmo. Em primeiro, o ídolo GrandmasterFlash, fundamental para a divulgação e invenção do hip hop ("Adventures on the Wheels of Steel"). Depois, vieram Kraftwerk, que realmente mudou o mundo com ‘Trans Europe Express’, Goldie, Soul II Soul e Underworld. Sei lá, mas a minha seria bem diferente. O nome da revista é Mixmag.

5.6.05

Chumbo Listrado de Branco

Casado com a bênção de um pajé, debaixo de um sagrado coração de Maria que vira a maçã do pecado, Jack White transforma som e fúria em comunhão enquanto aciona com movimentos de mão e cabeça a bateria meiga e tosca da irmã (é ele quem diz).
Um show de surpresas, embora nenhuma música das mais esperadas tenha ficado de fora. A guitarra chora e soluça, a marimba tem distorção elétrica e vira baixo ou guitarra, o piano soa como se em vez de teclas os dedos fossem direto aos martelos nas cordas ali de dentro. E ainda há um teclado pra incrementar os ruídos brancos, vermelhos e pretos - algo entre a Música e o pacto com o Profano e o Sagrado. Ao lado de Robert Plant, Jimmy Page, Angus Young e Brian Johnson, está o jovem Robert Johnson assinando o contrato pela alma.
Claro, e há: Dolly Parton, Bob Dylan e Burt Bacharach. Claro. E sombrio.
Ao lado de tudo isso, a doce Meg não disfarça que não manda nada, mas não é suporte. Não é uma bateria eletrônica programada com acenos de mão e testa, e sim um oposto cênico e dramático.
Assim como a maçã branca ao centro do palco é o pecado de cor pura, que dependendo da luz vira o Sacré Coeur de cor de sange da Virgem, assim como o silêncio é tão importante quanto a distorção, assim como o Satã é a referência e a fuga do que ali está, Meg é a metade do White Stripes. Não o fundo que faz a listra branca ser uma listra branca. E sim a própria listra. Voz suave e angelical (um anjo que cai e volta ao céu), batida delicada e firme na bateria, sedução de pequenos gestos. Qualquer baterista ali rivalizaria e perderia de Jack. Ela rivaliza e não perde – só realça, desencaixa, causa estranhamento e provoca inquietações. Afinal, quando a cabeça se esvazia, é que vira a moradia.
Logo na terceira música, ‘Jolene’, todo mundo grita. O sul da América folclórica se polui de vozes creoles e eletricidade detroiteana, a cidade máquina. O country se urbaniza sem ficar cinza nem virar fumaça, necessariamente. Séculos mais tarde, quando o show terminaria, Jack White pediria que todos, deixando de ser cools, lembrassem ao recém-casado que ele procurasse por uma casa, em outra brincadeirinha popular da mesma região, uma cantiga infantil caipira de coro, em que o líder pede e todos respondem, no caso, “he is looking for a home”. Sendo he, qualquer um, desde que Jack diga assim. Country e blues regurgitados com simpatia. Depois de uma série de baladas, quando o show parecia começar a esfriar (afinal o calor só é calor porque existe o frio, aquela história), de marimba em punho soa a linha de baixo mais sem baixo da história do rock. Ele e Meg enfrentam todos, nem um exército de sete nações os impediria. O estrobe revela um apocalipse. A surpresa de uma platéia em maioria bem preparada para só ouvir o hino depois do bis demora a entender, como se ouvisse um canto dos céus (ou das profundezas – ainda não há certeza em cena). A essa altura, ‘Fell in Love with a Girl’ e ‘Blue Orchid’ já tinham sido tocadas, viriam ‘Hotel Yorba’, e ‘The Hardest Button to Button’. A voz do público já falha, a do pastor de chumbo não. E é com ela que ele volta e pede que a criançada não faça muito barulho antes que Meg ria inocentemente e todos tornem pública a angústia em não saber o que fazer consigo mesmos. O que há de sagrado e profano se esvai, o terremoto desmancha a velha ordem, ao vivo, e o novo renasce do que ali se encontrou onde existiram, um dia, fronteiras. Tudo o que veio antes da década de 20 e o que veio depois da de 70 teve a sua época. “Filmes preto-e-branco explodem em cor. A arte é um blefe. O estilo é substância”. Só o que existe é vida.

E morte.

3 de junho de 2005

ps.: A citação entre aspas é de Salman Rushdie, em O Chão que Ela Pisa.


Enfim, a casa própria
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