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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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30.9.06

Internet: My Space

O Que Será do Meu Espaço?



      O engraçado de tudo que está mudando ao redor é que a perplexidade não tem nem tempo de se instalar. Há dias rolou um post aí embaixo - não vou linkar, é só apertar a setinha do canto de baixo à direita do monitor - sobre uns discos que provocavam certa ansiedade. Enquanto a listinha de 5 que sim e 5 que não nascia, o pensamento ficava no disco do Beck, a principal razão para a pressa. Outra relação, interatividade, a urgência de se enterrar o modelo que não dá mais certo mesmo.
      Sabia que a indústria do videogame já fatura mais que a do cinema?
      O disco tinha vazado, daí a pouco já estaria velho, não seria mais lançamento, essas paranóias de jornalista blogado. Ao mesmo tempo, o senso de separar o que é notícia do hype, do caô, da histeria, apitava. E mais, a crise existencial: ainda vale falar de disco?

      Essa semana, em poucas horas livres, rolou um passeio pelo mundo livre do myspace. Até vi gente como Céu, the Slackers, the Rapture, Artificial, 2manydjs, etc. Mas a viagem durou mais em ouvir umas ondas tipo o Maquinado ou o Autônomo (dica de Mariana Vitarelli, aliás), projetos-solo paralelos de Lúcio Maia e Jorge Dü Peixe do Nação Zumbi. E Ganjaman da Trama, e Albert Hammond Jr do Strokes (legal, é com o Sean Lennon), e Nick McCarthy do Franz Ferdinand (mais ou menos), e João Brasil (Supercool é melhor que Baranga), e Guizado de Rian Batista, Gui Mendonça, Curumim e Régis Damasceno (Compadres é a melhor das disponíveis), e ainda Abujamra (já reparou que tem uns metais do Karnak que levam direto a Móveis Coloniais?).

      Ou seja, tá fácil chegar direto no músico, que gravou ali uma idéia sem compromisso e botou no ar pra ver qual é. E, mais do que isso, a relação está diretamente ligada à canção. Esses músicos todos não gravaram o que tá ali disponível (nem sempre para download, mas para streaming) como parte de uma concepção que vai marcar determinado momento na carreira deles, etc. É uma música, e pronto, de repente só um estudo. O álbum deixa de ser um conceito a se pensar, e passa a nem ser. É o que os ventos levam a crer.
      O mais legal é que, ao contrário do que poderia se concluir, a estrada não conduz a um novo mundo jamais desbravado onde o chão em que se pisa pode se desmanchar e engolir os pés, pernas, e assim por diante.
      No início do século passado, era assim. A tecnologia só permitia gravar uma música de cada lado de um vinil. A relação com a música era essa, gostou da canção, comprou, e leva o lado b de brinde. Era o tempo de Robert Johnson, para ficar só em um.

      Robert Johnson nasceu na virada para a década de 10, no Mississipi, e vendeu a alma para o diabo em uma encruzilhada. Em troca, o dom da voz e da guitarra para o blues. Gravou vinte e nove músicas na vida, nenhuma preocupada em ser coerente com um período determinado da vida dele, com uma imagem forte para a capa e um título para resumir aquele estado de espírito, de criação. Cada uma lançada só, individualmente, para o gosto do freguês. Aliás, certo Bob Marley começou assim também, no iniciozinho de 60, nos arredores de Trench Town. My Space, tramavirtual, escolhe neguinho. Para achar o cara, o jeito era os googles e as redes de relacionamento da época, tudo real da maneira que o século permitia.
      Ao que parece, tudo caminha para uma relação com a música que tem referência com os anos 20 e 30, com a evidente diferença da internet. Gostar do trabalho de alguém pode estar muito próximo dos negros pobres do Sul dos EUA (Jamaica de 50 e 60 também), que iam beber bourbon em bailes para dançar e encontrar a nêga cara metade, e a partir disso se encantavam com uma canção em específico. Daí, corriam atrás do compacto. Hoje, seria o mp3. De resto, nêgas, bourbons e bailes ainda estão por aí, assim como a música.

      A questão é se tudo isso melhora as coisas. Melhora?

28.9.06

Arto Lindsay :: show

O silêncio distorcido
Arto Lindsay tocou ontem no Rio. Pra quem tem alguma curiosidade sobre o trabalho dele, imperdível. Numa aconchegante Casa da Gávea, cerca de 60 pessoas lotaram as cadeiras para vê-lo.

No palco, apenas um pedestal com microfone, uma guitarra azul, dois pedais e um amplificador. Quando ele entrou em cena com aquele rosto lânguido, meio Woody Allen, meio Antonio Adolfo, disse boa noite, vestiu a guitarra e começou a distorcer o silêncio que enfeitava com a sua voz. A viagem de Arto Lindsay é desconcertante. A mão acerta a corda, que não acerta o som, seco por sua outra mão. A melodia da voz vem despida da harmonia e eu não me entendo bem. Os ruídos sempre me incomodaram. Eu não gosto de Sonic Youth. A mão direita bossanoveia, eu me desconcerto. Cadê a harmonia que estava ali? Eu continuo fazendo as mesmas observações, as mesmas questões. Sinto o silêncio do lugar. As inserções do trovão azul apitam, sobram aos ouvidos. Entortam. Tem gente rindo. Eu levo a sério. Não sei bem o porquê, mas levo.

O repertório passa por canções que talvez sejam do blues americano. Não conheço, mas pressinto. Al Green estava lá, salvo engano. O português claro, carregado de sotaque nordestino e novaiorquino, é outra materialização da estética que junta as sobras e distorções da bigapple com os silêncios de um lugar remoto qualquer. Conheço as (poucas) canções em português. Não são dele. Quando eu chego em casa nada me consola é o que ele começa a silabar com seus entrecortes agudos e baixos abafados. O som não é limpo jamais, a não ser pelo excesso de limpidez de sua voz. Meio baixinho, meio João Gilberto. Mas por vezes o grito rompe, geme, uiva. O artista se retorce e o som vem. Jackson Pollock.

A força do afoxé “O mais belo dos belos” é lapidada, não bruta. A melodia dança em labirintos desacompanhada do surdo, da percussão, e se revela surpreendentemente sutil. Não conheço seu inglês, me encontro no nosso português. O tempo verbal é infinito, randômico e contínuo. Ainda ecoa por aqui. Me acho de novo quando ele evoca o Mar da Gávea, canção de Lucas Santanna, das mais belas dos anos 90, gravada por Arto no disco Mundo Civilizado (1996). Maneiras. Se ele quer fumar, fuma, se quiser beber, bebe gemendo. Ele tem fé no apego e não chora de barriga cheia. Não chora. Todos riem. Cadê a piada? Levei a sério demais a idéia de descontrução? Talvez.

Fui falar com ele. Talvez esclarecesse algumas questões que minha percepção não resolveu sozinha.

*Quatro perguntas para Arto Lindsay.

eu: Pra que o silêncio?
Arto Lindsay: Olha... (silêncio). Eu uso muito o silêncio na minha música.. É... a música é isso, né, a relação dos sons entre si, a relação do som com o silêncio. Eu uso muito, é... Fundamental o silêncio.

eu: E a distorção?
AL: A distorção também é fundamental pra mim. Você vai embora??? [[ Pergunta para Lucas Santanna, que apareceu na porta do camarim se despedindo... :: Eles acertam um chope pra daqui a pouco.]]. E então...
eu: Pra que a distorção?
AL: A distorção... não sei... Faz parte... entendeu? (silêncio) É... ssss... é... O interessante da guitarra, pra mim, pessoalmente, sempre foi o som e o som da guitarra começa com a distorção, começa com, vamos dizer, uma falha na intenção do negócio.

eu: Pra que a voz?
AL: (silêncio) Aí tá muito profundo... muito existencialista.
eu: Você acha que tá muito existencialista?
AL: Pra que a voz? Sei lá. Pra cantar. Porque a gente fala. Porque a gente geme. Não sei... Porque a gente chora. Sei lá.

eu: E as letras?
AL: (...)
eu: As letras que você escolhe...
AL: As letras... olha, eu faço minhas letras...
eu (interrompendo): Por exemplo, as letras que você escolheu cantar aqui hoje.
AL: Ah, sim, as músicas de outras pessoas?
eu: É, e eventualmente as suas que você gravou... Pra que a letra na música?
AL: Porque eu acho que... ... ... É até uma boa pergunta. ... Não sei. A a a.... A música e a palavra se atraem e eu não pude resistir à tentação. Eu não vou ficar uivando que nem um macaco também. Ou pelo menos não somente fazendo isso. ...

(em off)

eu: Era isso. Foi mal aí se pareceu muito existencialista... (risos). Era só uma tentativa de desconstrução...
AL: Não, imagina. Foi ótimo... É isso aí.

*Uma pergunta para mim mesmo (e para quem mais quiser responder)

Eu levei a sério demais?

Rockz : show

Antes de ter ido para a Casa da Gávea, fui conferir o show do Rockz, no Sérgio Porto. Como o show do Arto Lindsay foi depois, minha cabeça ainda estava num andamento que permitia acompanhar e curtir tudo aquilo. A banda é muito bacana, tem uma pegada nervosa, bons riffs e um vocalista, Diogo Brandão (ex-Benflos) extremamente atuante, cheio de ironias e interpretações, com uma presença de palco diferente, meio robótica, meio epilética, mas bem rock’n roll, seja lá o que isso signifique atualmente. As letras não ficavam tão claras – não por causa da banda, só mesmo pelo som alto – , mas me remetiam a construções poéticas livres, com certa independência em relação a melodia. Por vezes, as palavras saem quase faladas, mas um ‘falar’ que quer encontrar o canto, não o ‘falar’ do rap, por exemplo. Além disso, a banda é excelente e conta com Gabriel Muzak (guitarra, ex-Funk Fuckers e atual Seletores de Freqüência), Pedro Garcia (bateria, atual Seletores, ex-Planet Hemp, ex- Cabeça), Daniel Martins (baixo, ex-Benflos, atual Lobão) e Nobru Pederneiras (ex-Cabeça) .

Só de pensar que o Moptop se sentia sozinho há 3 anos atrás... É muito mais fácil perceber a influência do chamado novo rock no cenário independente carioca hoje em dia. E as bandas estão se saindo bem. Do Rockz, pra começar: “O amor é uma piada” e “Relacionamento Saudável”.

Cooper Cobras eu não vi, infelizmente. Mas é que o primeiro show, que estava marcado para começar às 19hs, só teve o primeiro acorde às 20h25. Ainda assim, paguei meu ingresso para ver uma banda só, pois já tinha comprado o do Arto, que era às 21h30. Fiz o que pude, mas com essa bagunça de horário, seja do Circo ao Sérgio Porto, passando pelo Jardim Botânico a Modern Sound, do mainstream ao indie, fica difícil cobrir tudo que a gente quer. Espaço aberto pra quem quiser falar do show do Cooper Cobras, que lançava seu EP.

27.9.06

Ivan Lins em 3 atos

Primeiro ato

De graça, dizem, até injeção na testa. Ontem, rolou Ivan Lins, na Modern Sound. Às 19hs, horário marcado para o show, muita fila ainda do lado de fora da loja/casa-de-pequenos-shows, em Copacabana. No fim da fila, onde eu estava, uma senhora, duns 60 anos, se assustava com aquela quantidade de gente e desistia. “Eu vejo Ivan Lins toda semana”, dizia ela. Talvez seja tia dele.. Mais alguns minutos e eu já não era o último. Outra senhora resolvera encarar uma fila já maior, com a minha presença. Fiquei prensado entre ela e o senhor grisalho, que estava à minha frente e a reconheceu:
- Você é amiga da Maria dos Anjos, não é?
- Sou sim - disse ela.
- Ela tá aí?
- Não, ela não veio hoje não.
- Ah, que pena! Eu só vim por causa dela. Você diz pra ela que eu só vim por causa dela e que ela não apareceu. – disse, sem se identificar. Como aquela senhora daria o recado, eu não sei.

O senhor ainda reclamou um pouco. Quando a chuva começou, foi ele quem organizou a fila para que as pessoas saíssem da calçada e fossem para a galeria. Não queria se molhar. Continuou o seu monólogo. Não sei se comigo, não sei se com a senhora amiga da Maria dos Anjos, atrás de mim.

- Hoje tá um tempo perfeito pra se tomar um vinho. Várias vezes eu venho aqui e nem entro. Vou pra lá – e apontou, do outro lado da rua, a loja Lidador, com sua adega. – Pago R$15,00 na garrafa e tomo um vinho maravilhoso. Aí dentro, é R$8,00 uma taça. E eu não gosto do Ivan Lins.

O monólogo continuou. Eu, que não estava afim de interação, só ouvia. Além do que, nem sabia se aquilo era comigo, com a senhora amiga da Maria dos Anjos ou talvez com Deus. Queixas para Deus podem ser eficientes. Afinal, se ele resolver te ajudar, você tá bem. O senhor olhava a fila e não acreditava que fosse entrar. Reafirmou algumas vezes que não queria. Mas quando se viu, estava lá dentro. E agora? Ele não gostava do Ivan Lins, não havia mais cadeira para se sentar, não podia nem consumir o seu vinho (devido a tal lotação) e estava sem a Maria dos Anjos. A noite dele foi um mistério pra mim.

Eram 19h38 quando entramos. Ele, a amiga da Maria dos Anjos e eu. O show marcado para 38 minutos antes ainda não tinha começado. Ainda tardaria mais 23. Nesse meio-tempo, às 19h55, perguntei a um dos seguranças, que organizava a parte interna da loja em áreas que privilegiavam os que tinham chegado mais cedo, se aquele atraso era normal. Ele disse que sim, sem me olhar muito. A minha pergunta foi a senha para que uma chuva de reclamações começasse ao meu lado. A primeira veio de uma velhinha que já passava, mole mole, dos 80 anos. A menos de um metro e meio do chão, seus olhos tentavam mirar o palco, atrás das costas de linho preto daquele segurança. “É sempre assim, mas hoje tá demais. Não vou poder nem ficar até o fim. Não sei pra que que (sic) marcam às sete, se nunca começa”.

[[Será que ela leu o meu texto de terça-feira passada, conhece minha cara e tá querendo me cativar? Larga de ser pretensioso, Bruno]].

Enquanto a vaidade chega e sai da minha mente, outra queixa chega e fica nos ouvidos. “A gente vem aqui toda semana. E é sempre assim. Nós até conhecemos o pessoal da loja. Só porque é de graça?”. Uma terceira senhora, resignada, emenda. “É porque eles tem que abrir mais cedo para as pessoas beberem. Fazê o quê?”. Surge de algum lugar, então, uma sugestão. “Por que eles não avisam que o horário limite para a entrada é às 19hs, já que é de graça, mas que os shows começam às 20hs, ou às 20h30, sei lá?”. Revelo-me, pois, como jornalista e, antevendo este texto, pergunto se posso entrevistá-las.
- Mas se o senhor é jornalista, podia estar lá dentro. Fala com o Pedro Otávio – me sugere uma das senhoras. Vale explicar que o “dentro” se refere à parte de mesas e cadeiras, perto do palco, reservada à alguns clientes e convidados e que Pedro Otávio é um dos sócios da loja. Declino à idéia.
- Jornalista de qual jornal?
- Escrevo em um site, na internet. – simplifico.
- Ah...

E então? E a entrevista?
- Ah, moço, sabe o que que (sic) é? Eu não quero não, porque nós estamos sempre aqui, conhecemos as pessoas da loja. Temos até amigos. Não fica bem falar mal. As pessoas podem não gostar. – disse uma das senhoras, mas já respondendo pelas duas. Poucos segundos depois, ela mesma explica para uma outra senhora qual é a minha profissão e insiste em dizer (agora não mais pra mim) que eu deveria estar lá “dentro”. Esta outra, por sua vez, ouve e devolve: “E por que não ele está lá?”. A resposta é precisa.
- Porque ele é da internet.

(??????????)


Hmm... Bem, não tinha sido essa a justificativa que eu dera para ela anteriormente. Talvez ela não tenha ouvido. Ou talvez jornalista seja quem escreve em jornal. Ou talvez eu seja de uma classe inferior de jornalistas que não merecesse estar lá "dentro", já que eu não escrevo para jornal.

Independente da classe a que pertenço, ainda assim milhares de perguntas permeiam minha cabeça. Penso em falar com Pedro Otávio, mas antes quero ouvir melhor as críticas ao meu redor para fazer perguntas mais concretas. Organizo-as em minha mente. “Da próxima vez que ele passar, eu o chamo” - pensei.

Ivan Lins desce as escadas. Não dá mais tempo de falar com o Pedro Otávio.

Segundo Ato

O atraso de uma hora no horário previsto já me faz antever que não estarei lá na última música. Aniversário de família é algo que, socialmente, não se deve usar o trabalho como desculpas para faltar. E eu até concordo com isso.

O mais recente disco de Ivan Lins, “Acariocando” tem no Rio de Janeiro sua principal temática. O músico será uma das atrações do próximo Tim Festival. Ele, que viveu seu auge de popularidade nas década de 70 e 80, é um dos compositores brasileiros mais reconhecidos no exterior, muito admirado por pessoas do naipe de Quincy Jones. No Brasil, alguns o acham démodé. Azar o desses. As parcerias de mais de 30 anos com Vítor Martins (um dos maiores letristas do país) já seriam suficientes para reservar seu lugar de honra na nossa música popular. Além do que, ele era casado com a Lucinha Lins quando eu era menininho e, só por isso, eu já o admiro (e invejo) desde os meus tenros quatro anos.

[[Lucinha Lins era a mulher mais bonita do mundo para quem tinha quatro anos em 1986. Ainda mais em Roque Santeiro.]]

Pude conferir as dez primeiras músicas. Ou os primeiros 45 minutos, como queiram. O show deve ser diferente do que vai ser apresentado no Tim Festival, onde Ivan Lins fará um tributo ao produtor Paulinho Albuquerque, falecido em junho, que o acompanhava desde 1978.

A tônica da apresentação de ontem foi uma ode ao Rio de Janeiro, resistente às evidências do momento. É difícil saber até que ponto esse tipo de discurso ainda é uma forma de resistência artística ou um reflexo da atitude blasé do carioca de se confortar na beleza natural da cidade para não enxergar a draga social onde a cidade está há anos. De qualquer jeito, essa reafirmação do ‘ser carioca’ não é à toa e, certamente, vem permeada e permeando essa discussão. O compositor também optou por um ritmo de suíngue lento nas músicas, próximo à bossa nova de Menescal e Lyra, não tanto à de João, Vinícius e Tom. Isso é curioso, já que, recentemente, “Madalena”, sucesso na voz de Elis Regina, voltou a ser sucesso e invadir às pistas de dança num andamento muito mais acelerado e cheio de marcações de drum’n bass.

Para falar do Rio de Janeiro, Ivan Lins recorreu a alguns standarts no começo, como “Aquele abraço” e “Samba do Avião”. Ter aberto o show com “Acariocando”, a faixa título de seu novo disco, dele e do gênio Aldir Blanc, também não foi surpresa, mas foi importante pelo aspecto do discurso. Depois destas músicas mais gerais sobre a cidade, o compositor se valeu de alguns personagens para falar de quem vive por aqui. Enumerou três mulheres tipicamente engendradas no inconsciente coletivo musical carioca: “Dandara”, parceria dele com João Bosco, “Dinorah, Dinorah” (sucesso cantado por todo o público), e a recente “Renata Maria”, dele e de Chico Buarque. Nesta última, o que chamou atenção foi a falta do coro que uma música de Chico faz pressupor. “Renata Maria” ainda não caiu na boca do povo. Ivan Lins aproveitou também para fazer reverência a outros parceiros, já que ele acaba de vir de um trabalho, a turnê “Abre alas”, em que homenageou sua história com Vítor Martins. Além dos já citados, ele desfilou Abel Silva (“Passarela do mar”), e Lenine (com a ótima “Se acontecer”). Devem ter rolado outras, como “Lar, doce lar”, a parceria com Dona Ivone Lara, mas eu não estava mais lá pra ver.

Saí de lá para o tal aniversário. Fiquei curioso para saber como vai ser a apresentação dele no Tim Festival. Acho que, por se tratar de um tributo a Paulinho Albuquerque, vai acabar sendo um tributo ao próprio Ivan Lins. Provalvemente, um grande best of. E, em se tratando de Ivan Lins, isso é animador.

Terceiro ato

Para não faltar com a informação, liguei para Pedro Otávio, da Modern Sound hoje de manhã. Falamos sobre a programação da casa – quase sempre interessante, ainda que, na maioria das vezes, seja em parceria com grandes gravadoras – e sobre alguns dos problemas. Relatei a ele as queixas que ouvi e com as quais concordo. A seu jeito, ele soube explicar suas razões.

Disse que, como os shows são de graça, precisa trabalhar com reservas antecipadas e limite de horário. Explicou que qualquer um pode reservar sua mesa, desde que se respeite a lotação e se chegue até às 19hs. Disse-me ainda que as apresentações sempre começam às 20hs, que isso já é sabido do público que freqüenta a casa. Perguntei, então, porque não anunciar o show para a hora correta. “Infelizmente existe uma cultura, no Rio de Janeiro, de se chegar atrasado. Imagina se eu marco às 20hs? Eu não vou ter tempo nenhum de organizar essa chegada do público”. Ele também falou que o consumo do bar é a única receita da loja nessas noites de shows.

Pedro Otávio explicou ainda que, quando as pessoas com reserva não chegam até às 19hs, essas caem e abrem espaço para outras pessoas, que esperam na fila da calçada, entrarem. Questionei se não seria responsabilidade dos produtores reeducar o público em relação ao horário dos shows, pois se começassem os eventos na hora, rapidamente as pessoas mudariam suas posturas, ainda mais sendo de graça. Ele respondeu: “Eu acho que se estão reclamando, estão reclamando demais. Estão procurando coisa pra reclamar. Ver um show do Ivan Lins, nesse horário, de graça, com ar-condicionado, podendo beber alguma coisa... Essa é a única forma que eu tenho de organizar todo mundo, com o sistema de reservas até às 19hs”.

A lotação máxima, segundo ele, não passa de 450 pessoas. “Quando dá esse enumero, eu fecho. Não entra mais ninguém”. De fato, ninguém passou aperto e o ar-condicionado segurou bem com aquela lotação de ontem. Além disso, os últimos a chegar e que ficaram mal posicionados, ainda podiam escutar alguns cds naquelas máquinas de parede enquanto esperavam o atraso da apresentação.

Deslizes como aquela senhora do alto de seus (aparente) 80 anos, apoiada num balcão de cds, sem ter onde sentar, só porque não foi uma das primeiras a chegar, deveriam ter sido evitados. O horário é uma questão séria. Justificar com o fato de ser de graça pode ser inevitável, não é correto. Dizer que a casa precisa que o público, que não paga ingresso, consuma, também não. Até mesmo porque, em eventos como esse, há um grande retorno de mídia para a loja, como o próprio Pedro Otávio admitiu.

É muito bom que exista espaços como a Modern Sound desempenhando esse papel numa cidade como o Rio de Janeiro. A noite foi bem agradável, como sempre é quando se vai lá. Achar um ponto mais claro para exercitar esse respeito ao público e ser financeiramente viável é uma questão maior, que foge à atitude de um ou outro produtor. Mas, é de certo, que cabe a alguém começar esse novo tempo, apesar dos perigos.

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Meu lugar era muito distante do palco e, por isso, as fotos não saíram num padrão aceitável. Vou tentar recuperar alguma coisa aqui. Se der, eu coloco mais tarde. Se não, eu tiro essas três últimas frases do post.

26.9.06

Semanada ::: 26/09 # 30/09



Ivan Lins - Hoje, Modern Sound - Grátis
Cooper Cobras e Rockz - Amanhã, Sérgio Porto - R$12,00 / R$6,00
Tributo a Bezerra - Hoje, Fundição - R$ 50,00 (!!!)/ R$25,00
Arto Lindsay - Amanhã, Casa da Gávea - R$ 10,00
Grupo Mundo Grande - Quinta e sexta - R$ 5,00 / R$ 2,00
Teresa Cristina - Sábado, Circo Voador - R$ 30,00 / R$15,00

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E ainda tem Tom Zé, Quinta, no Centro Cultural Telemar. 19h30. R$10,00 / R$ 5,00

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Porém, eu acho que você deveria assistir os debates dessa semana. Até porque, provavelmente, você não assistiu os outros que tiveram. Mas se você não tiver nessa pilha, são todos ótimos programas. E alguns são cedo, dá até pra voltar pra casa e acompanhar a corja tentando te convencer de qualquer coisa.

Ansiedade Atrapalha o Momento

Pressa Para Apreciar Com Calma

5 discos que eu tenho que ouvir imediatamente

*) The Information, Beck . É, é o tal do álbum infinito, parece que tá na internet já.
*) St. Elsewhere, Gnarls Barkley. Na boa, o Danger Mouse é o novo gênio cdf da música, tipo o Kurt Cobain há quinze anos. Só que um é Youtube, o outro é MTV.
*)Pieces of the People We Love, The Rapture. Podia ser só pelo título do álbum, mas Gonna Get Myself Into It é um musicão.
*) , Caetano Veloso. Pela banda que formou, acima de qualquer chatice, eu me afasto um pouco dos meus (pós)conceitos.
*) ?, The Good, The Bad and The Queen . Antes de fazer careta, presta atenção: Damon Albarn (Blur e Gorillaz), Paul Simonon (Clash), Tony Allen (batera africano que tocou com Fela Kuti) e Simon Tong (The Verve). E Dangermouse, aquele ali do segundo asterisco.


5 discos que me desinteressam demais

*) Carrossel, Skank. Samuel chorando que quer crachá de sofisticado é muita chatice junta.
*) Diplo presents: Bonde do Rolê, Bonde do Rolê. Com o CSS eu voltei atrás, mas Melô do Vitiligo não rola.
*) Meu Samba É Assim, Marcelo D2. É, cansei.
*) Rockabye, "Nirvana". Versão de Kurt Cobain para embalar o som dos moleques... Não é por aí, é?
*) Sebastião Estiva IV: Meu Paraná: verdades, mitos e falácias, Sebastião Estiva. Tanta coisa pra se levar a sério e aparece um Wally indie bancado por colunista...

É que eu não resisto a fazer listinhas, e nem me lembro da última publicada aqui.

25.9.06

Os Gianoukas Papoulas :: crítica

Em tempos de mp3 é muito comum os artistas novos acharem que basta colocar mp3 na rede que alguém irá descobri-los. A verdade é que isso é fundamental, mas está longe de ser suficiente, a não ser que se crie uma forma genial de atrair as pessoas até o seu mp3. Um site inteligente pode ser um bom caminho. No excesso de informações da rede, a chance de se destacar na multidão é a mesma que na correria das grandes cidades reais e depende de fatores ímpares e particulares. Ouço bastante coisas em minhas andanças pelo internet explorer, pelo Soulseek e (mais recentemente) pelo Last.fm. Mas não há como não dedicar atenção e algumas linhas às bandas que entram em contato e enviam, com todo carinho e zelo, o seu trabalho, esperando só uma recíproca atitude de respeito. Não é difícil retribuir, ainda mais nesses tempos em que quase ninguém mais envia cds - fora as gravadoras, mas essas têm o comercial e a exposição em mídia como único norte.

Semana passada foi a vez dos paulistanos dOs Gianoukas Papoulas. Me mandaram um e-mail num dia e, no outro, o carteiro entregava o disquinho aqui. Qual não foi também a gratíssima surpresa ao ouvi-los. Apesar do nome de difícil pronúncia, que mais parece o nome de algum dos meus remédios de homeopatia, o som é bastante acessível e bem feito. Um pop rebuscado que usa bases de violões e teclados sintetizados, numa mistura que lembra final de anos 60 e meio de anos 90. A sonoridade, porém, não é inédita. Só pra ficar no Brasil, podemos citar a finada Videohits, o Ludov e até os últimos álbuns do Skank. Como me disse o Bernardo, também lembra Fellini, a banda paulistana dos anos 80, que já tentou voltar algumas vezes, mas sem grande êxito. O principal fator de aproximação vem pela voz, que alterna as melodias cantadas com as frases faladas, recitadas, numa velocidade característica. Não sei bem qual a intenção estética desta opção, mas é fato que ao longo das 14 músicas do disco, acaba se tornando, mais do que uma marca registrada, uma coisa cansativa. Contudo, o grupo é mais que isso.

[[Não tem nada a ver com isso, mas Fred 04 já me disse que o Fellini era a única banda brasileira pela qual o pessoal do manguebit se interessava no fim dos 80.]]

Algumas letras se destacam no disco Panôramica (2005), dOs Gianoukas (toda vez tenho que olhar o encarte e soletrar pra mim antes de escrever esse nome), como “Nada na cabeça”, “Desilusão de óptica” e “Ela se foi”. Esta última é a minha favorita até agora. “Queda livre” começa com uma entrada de bateria igualzinha a que o Skank está usando agora em “Uma canção serve pra isso”. Só falta o tchutchurururu pra ficar igual, sendo que a do GP (isso, vou escrever assim agora, GP!) é mais antiga. A faixa traz ainda um sonoridade que passa pelo folk-country e cai naquele clima “acorde menor do britpop”, saca? Pra completar a mistureba, vem o tecladinho esperto numa das passagens. Faz bem. “Não passa” poderia estar no repertório de algumas bandas que emergiram no rock nacional no meio dos anos 90, como Acabou La Tequila, Ultramen e outras tantas que a cabeça não consegue mais achar o nome, mas se lembra de ver tocar na MTV naquelas tardes com reprise de Teleguiado, Chris Nicklas e Sabrina. Isso, em si, não é um elogio, pois me soou velho. “Bom rapaz” é uma que evidencia uma coisa meio jovem-guarda, tão em voga no atual novo rock nacional. “Todo bom rapaz/ é um desvio da espécie/ por tanto não comece/ a me pedir demais”.

De uma forma geral, a banda não abusa das guitarras. Elas são todas espertinhas, mas sem grandes pretensões. Isso é uma boa diferença para a mesmice dos emos e dos pastiches de hardcore que inundam o underground brasileiro, que só usam guitarras nas alturas, overdrive e voz chorosa. Quando muito, moogs e escaletas para parecer Weezer e Los Hermanos. No GP, o teclado é muito mais presente, climático e interessante, como em “Godzilla”, onde o baixo também vem moendo. A bateria, por sua vez, consegue se sair muito bem nas diferentes andanças do disco. A gravação da voz é que poderia estar um pouco mais pra frente e mais alta, porém isso é um detalhe de mixagem que não entra na discussão sobre o valor da banda. Em “Na sala da justiça”, por exemplo, os efeitos utilizados na voz deixam ela mais dentro do climão da música, uma coisa meio “Revolver”, cheia de ruidinhos, num ambiente lisérgico.

Só falta mesmo um pouco mais de pressão em alguns momentos. Mas a banda tem melodias e letras acima da (baixa) média dos grupos novos. Tem arranjos mais interessantes. É, sem dúvidas, uma das bandas novas mais bacanas. Vale a pena prestar mais atenção nela e aguardar seus próximos passos.

**************

Outra opção bacana é o Cooper Cobras. Pude assistir a um show deles na semana passada, na festa de 3 anos do URBe e me surpreendi. O grupo se sai melhor ao vivo do que nas músicas disponíveis no Myspace deles. A performance é vigorosa, bem como a mistura do power-trio guitarradistorcida-baixo-batera. O som lembra algumas bandas do rock australiano como os ‘novatos’ Wolfmother (só que sem teclados) e Jet (quando não resolvem fazer baladas), e os dinossauros do AC/DC. Dá pra ouvir os suecos do Hellacopters lá dentro também. Tá certo que, no fundo, a origem do som do grupo tá lá atrás, nos USA 70 dos MC5, Stooges... Há alguns excessos e exageros na performance poser que beiram o ridículo. Só precisa diminuir um pouquinho só. Mas tá valendo. Quarta-feira, 27/09, eles tocam no Espaço Sérgio Porto e eu vou tentar ir de novo para ouvir “Até o fim do show”. Quer marcar de encontrar lá?

22.9.06

Minha Alma Canta

Sobre a Cidade

      Posso falar? Foi em sete dias que tudo se fez, segundo dizem alguns (Algum?). É no período de sete dias que os ocidentais organizam a vida, os compromissos, o que inclui aí a diversão. Daí, que vai ser em sete dias que eu vou contar um pouco do Rio de Janeiro, aquela velha história remixada com assinatura, pra não entrar em disco mas ser postado na Internet com links e encontros acertados e aquele papo todo de the times they are a-changing. Se liga.
      Na sexta-feira, sem muita perspectiva, de um Baixo Gávea de pouco assunto armou-se com gente conhecida e agregadas um sambinha no Horto, clube dos Macacos, com o que chamaram de um samba de raiz e o sub-monobloco odisséico Quase Nove. Chegando lá, aquela fila de gente bonita, clima de paquera, e até alguns formadores de opinião-celebridade confirmando a presença.
      Em volta da piscina, o samba de raiz era mais um the best of emendando clássicos da Marquês de Sapucaí com o repertório dos últimos discos Pagodes de Mesa da Beth Carvalho. Isso com um som ruim, que não dava muita chance pro cavaquinho. Sobrava a percussão e uma ponta de voz, só pra indicar qual era a idéia de canta-junto (de raiz, dizia-se) que se pretendia. Hora de rodar, cervejinha, trocar idéia, achar gente, processo lento.
      Daí a pouco, dentro do salão, começava o pop-samba do Quase Nove. Com uma crooner mirando em Elza Soares, guitarra e uma formação mínima de bateria de escola, o repertório foi de Tábua das Esmeraldas a Raul a Novos Baianos e Luiz Melodia, fora os clássicos da Sapucaí, indefectíveis. A estrada há de trazer personalidade. Hora de agilizar o processo, achar idéia, tocar gente, e cervejinha. Para fechar, uma passada na Pizzaria Guanabara que resultou em nada pela falta de lugar pra sentar.
      Dia seguinte, às seis da tarde, um Baixo Botafogo chamado Aurora. Às oito, histórias de viagem e rock n’ roll na casa de uma amiga com passagem por festivais europeus. Onze horas, chopp no Carlitos de aquecimento para a festa Phunk, no Bola Preta, despedida temporária de Pedrão Selector e B Negão, a essa altura já na Alemanha. E, oportunidade de receber os cumprimentos de amigos depois da meia-noite, um ano a mais na conta. Na minha e na da phesta.
      Sonzão, do sambinha ao batidão com James Brown e o charme Madureira no caminho, Beastie Boys na expectativa, cerveja de garrafa a quatro conto, live pa de trompete selectah, amigos convidados, amigos que apareceram, amigos que nem sabiam, fila na porta, visão embaçada, recorde de amor, papo rápido com cada um que nem noiva, pleno Centro da cidade, B Negão cantando um lamento em cima da base, aquela história toda.
      Domingo às duas da tarde, o acordar. O almoçar. O enrolar. O jantar, Copacabana, família e uma amiga de há vinte anos (no ano que vem) com os pais, narrativas de viagens, comida polonesa, o passar do tempo, eu perco a hora do Zion Train sem nem perceber. Deixa pra lá.
      Quarto dia da semana torta, e o som dos copos e dos sorrisos faz a mesa pras gargalhadas, pra contos de boteco, sucessos e decepções do laralaiá, histórias de “quando eu tinha dezesseis” com quatro anos ou pelo menos três décadas de distância, uma série de “mas eu estava apaixonado” para cada chance única que passou, um anúncio de paternidade à vista, e tiração de onda culinária em volta de uma porção de moela. O jiló frito eu não encarei. E disso, para uma saideira dois bairros depois, no Jobi vazio de segunda-feira.
      Bem, na terça-feira, Bernardo descansou. Na rede. Ouvindo a seqüência Revolver-RubberSoul-SgtPepper’s em mp3. Na quarta rolariam os 3 e meio do Urbe, no 00, com Nego Moçambique provando e comprovando toda sua versatilidade. O cara dança, quebra as batidas, bota umas frasinhas que grudam na mente, faz o tempo passar sem cansar. Rogério Flausino não foi ruim. O Capitão Presença também marcou por lá. Entre galera que se cruzou naquela esquema orkut de friends que add friends, uma comunidade se formou, o mundo virtual um pouco se materializou, “já passei lá” se referindo a endereços onde o Correio não chega, a Wired do Beck e mais uns passos rumo à canonização, e o Matias acabou quase não tocando os mash-ups tapa-na-pantera dele.
      Quinta-feira, sétimo dia, e dentro do ônibus o sanfoneiro do 571 (ou 572, na volta) dava o risão sem som dele para o engravatado fã do Roberto e o casal punk pedindo samba canção, enquanto o personagem da cidade enfileirava um set que pra mim começou com “Boemia, aqui me tens de regresso...” A idéia era essa mesmo.

20.9.06

Rock'n Mall


Moptop
"Adeus" (acústico)
dir: Bruno Maia
sobremusica_tv


Uma noite no Fashion Mall. Lojas caras, gente chic, quadradinhos marrons sobre o chão cinza. Aquela escadaria tradicinal. E o rock. Seria difícil para Sid Vicious imaginar uma banda de rock se permitir tocar num lugar daqueles sem cometer atrocidades e quebrar todas as vidraças. Rock no shopping só nos clipes da Avril Lavigne e do New Radicals. E sempre foi cretino. Rock no Fashion Mall, então?!?!? A relação mais estreita que aquele shopping tem com o rock é a cena do Dado Villa-Lobos (de novo ele, hehe) descendo uma daquelas escadas que ligam o estacionamento ao segundo piso, no clipe de "Angra dos Reis", da Legião Urbana. Até hoje me pergunto o que aquele take quis dizer...

Ontem o Moptop bem que tentou. Vestindo seus belos all-stars surrados, eles tocaram tendo a joalheria Natan de fundo e a H. Stern a frente. O set seria acústico. Mas chegando lá, de acústico mesmo só o violão do vocalista Gabriel Marques. E mesmo assim, um violão folk devidamente plugado. A platéia era composta sobretudo por amigos e gente do cenário independente carioca, que, a priori, não costuma ir muito ao Fashion Mall. O show era de graça, mas a galera não apareceu. E agora, sim, a pergunta do Bruno Levinson, produtor do evento, faz mais sentido: Cadê o público??!! Ontem era uma boa oportunidade. Vá lá o horário ingrato, vá lá a localização do Fashion Mall.

O palco era muito pequeno, é verdade. Assim como São Conrado, aos olhos de 98% dos cariocas, é um bairro de passagem (fica num vale entre a Barra e a Gávea), o espaço disponível para a rapaziada tocar era numa passagem entre os dois corredores do segundo andar. Estreito como só, valeu a brincadeira do Gabriel, horas antes, ao me encontrar: "E aí, Bruno?! (abraços)... Tem que ver só o palco, gigante, a orquestra já tá toda lá."

No show, a banda se saiu bem. Como era de se imaginar, acústico foi só a denominação básica. Os arranjos continuaram bem parecidos, só que agora tocados num violão folk. Este, aliás, é o instrumento preferido de Bob Dylan, a nova referência no show do grupo. "Like a rolling stone" apareceu muito bem executada (e cantada) e apontou o que pode ser um bom caminho para o grupo fugir das, já chatas, comparações com Strokes. A influência da cultura norte-americana é muito grande sobre Gabriel, principal compositor da banda. Nada mais justo, já que ele viveu 10 anos de sua vida lá e não tem obrigação nenhuma em homenagear Luiz Gonzaga. E nisso, Dylan pode ser a good new road para os caras continuarem a desenvolver e evoluir o som da banda. Esta música já tinha sido muito bem apresentada por Gabriel em sua participação no programa Claro que é rock, do Multishow, apresentado por Frejat. Tomara que continue.

A apresentação não acrescentou muito ao que a banda vem fazendo. Às vésperas do lançamento oficial do disco, serviu mais como uma confraternização com amigos e fãs mais devotos. A aparição de "Adeus" no repertório foi outra grande (e agradável) surpresa. A balada é muito bonita e a sua falta sempre foi sentida nos shows. O resultado ficou legal e vale a pena investir mais nela. Sem falar que ela tem um solo de guitarra arrebatador no final.

Uma hora depois do fim do show do Moptop, rolou show da banda Damas, no muito mais generoso palco da livraria New Books. Comandada por Andrea Thompson, ex-vocalista da finada banda Pólen, o grupo investe num pop-rock meio Leoni, meio Zélia Duncan, que eles definem como "Pop incrementado, MPB endiabrada". Não empolga. A cozinha da banda é muito bem comandada pelo excelente baterista Guga Coelho e pelo tecladista Gui Marques, que foi uma grata surpresa, com suas intervenções pequenas e delicadas. Mas chegando na frente, não empolga tanto. Falta resolver se é MPB ou se é rock, porque atualmente não é nenhum nem outro. Nem empolga adolescentes indies, pela falta de uma guitarra e de um baixo mais presentes, e nem se destaca como MPB pela temática das letras ainda adolescentes. Andréa pode até seguir rumo a um espaço na tal da chamada 'MPB' (sic), porém teria que adequar mais sua voz a este formato. Ela ainda parece um pouco incerta sobre isso. Ou talvez, pelo menos, não combinando o jeito que ela canta com a forma que a banda toca. Houve uma certa evolução vocal desde os tempos de Pólen, mas parece que ainda ela não montou a banda que sirva melhor ao seu registro vocal e às suas composições.

Basicamente, foi assim a noite de rock no Fashion Mall.

17.9.06

3 anos de URBe :: Flautistas da ProArte

AGENDA ::

Quarta-feira tem a festinha de 3 anos do URBe, um dos sites independentes mais bacanas do Brasil. Parabéns ao xará Bruno Natal pela 'militância' permanente e pelos frutos frondosos que vem, merecidamente, colhendo. Se você não conhece o URBe, dá uma visitada lá (www.gardenal.org/urbe) que, com certeza, você vai ficar pilhado de ir...

Dica: e-mailzinho esperto para falaurbe@gmail.com, dizendo que você é gente fina, que viu o anúncio da festa no sobremusica, que prefere o Rogério Flausino de DJ e que quer ir lá pra se acabar na pista de dança, garante 50% de desconto... Ah! Tem que dizer o seu nome também, hehe...

Dia: 20/09, quarta-feira
Hora: 22hs
local: 00 - Av. Padre Leonel Franca, 24, Gávea - Rio de Janeiro.

Mais pro fim da semana, sábado e domingo, os Flautistas da Pro Arte se apresentam na Sala Cecília Meirelles. Também vale um confere.
Dias: 23 e 24 de setembro
Hora: 18hs
Sala Cecília Meirelles - Largo da Lapa, 47 - Lapa - Rio de Janeiro

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Na apresentação dos Flautistas da Pro Arte, destaque para a presença do saxofonista mais marxista do Brasil, neto da famosa (e finada) Velhinha de Taubaté, o colega André... André... Mendonça, vai... Vamos chamá-lo assim... hehe

Franz Ferdinand :: Do you want to (vídeo)

Franz Ferdinand - Do you want to (live in Rio 14.09.2006)


Pra fechar o assunto, um videozinho do show. Mais um oferecimento da Bernardo Lins Produções!

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E em SP? Foi bacana?

16.9.06

Vai ter o Motomix em SP!

Agora, sim, parece que tá confirmado. Vê aí.

Franz Ferdinand é carioca

Segundo o Globo Online, a edição 2006 do Festival Motomix. que seria realizada hoje, dia 16/09, foi cancelada pela prefeitura de SP. Há a possibilidade do evento mudar de lugar. A decisão oficial será anunciada pela produção do festival às 13hs. Tudo isso porque não tinham o alvará correto. Disso tudo, só ficam duas certezas:
1) Que vergonha
2) O Franz Ferdinand é mesmo carioca e ponto final.

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Agora sim, com isso se confirmando, eles vão ter as merecidas férias! E começando num local mais adequado, né não?!

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Como diria o Ancelmo Góes, deve ser tão ruim morar numa cidade com eventos tão mal produzidos...

15.9.06

Franz Ferdinand :: Uma segunda vez

crédito: Bernardo Lins
A primeira vez, a gente nunca esquece. É o que diz um certo fraseado de conhecimento popular. E a segunda vez? Não há uma constatação específica sobre isso. Na noite de quinta-feira, o Franz Ferdinand tocou pela segunda vez no Rio. E a primeira, confirmando a teoria, foi inesquecível para quem assistiu e para a própria banda.

Tanto é que logo no início, o vocalista, Alex Kapranos, disse que estavam muito felizes por terem voltado à cidade onde fizeram o melhor show da carreira do grupo. Ele, que por volta das 14 hs, saltou de uma van na porta da Fundição Progresso, acompanhado pelo guitarrista Nick McCarthy e foi dar uma volta pela Lapa, sob um ostentoso chapéu Panamá, entrou no palco com seu visual indefectível e demonstrava sinceridade quando falava da alegria de estar aqui.

A primeira música, "This boy", esquentou bem a galera. Vá lá que o pessoal vinha de um set matador dos DJs José Roberto Mahr e Edinho no qual testemunhou-se um coro de 6 mil vozes entoar freneticamente "I bet t hat you look good on the dance floor", "12:51" e "Yellow submarine". Mas depois da primeira, veio, inexoravelmente, a segunda. E a segunda, bem, você sabe, não é igual à primeira. Se não me engano, foi "Come on Home" que sucedeu "This Boy". A avalanche humana e o extâse coletivo da primeira faixa foram substituídos pela razão - que permitiu perceber o quão ruim estava o som, sem os agudos das guitarras, que se embolavam nas freqüências médias - e pelo senso de responsabilidade dos organizadores, que pararam o show para arrumar a frente do palco, que não estava agüentando a pressão humana. Não cabe elogios, porém. O que se fez foi só o mínimo. O correto era ter preparado bem o lugar para não ter que passar pelo constragimento de 10 minutos de show interrompido e de ter que pedir os cases de amplificadores da banda emprestados para colocar na frente do palco. Enfim, Rio de Janeiro.

Na volta do show, o que se viu foi a tentativa de se reproduzir o que aconteceu no Circo Voador, em fevereiro. Mas já entrou setembro e a boa-nova que anda por esses campos é que a relação da cidade com a banda já é especial e definitiva. Encontros de uma noite só e que não são nunca esquecidos. Mas como havia um segundo, do your best.

Contudo, a atmosfera não foi igual. E isso foi bacana, pois fez com que esse segundo encontro fosse o segundo e não apenas mais do mesmo. A maioria das 6 mil pessoas - muitas das quais compraram seus ingressos horas antes do show -, só conhecia os hits. Ao contrário do que se vira no Circo, quando todas as músicas foram cantadas com ardor por fãs insadecidos que esgotaram os ingressos em poucos dias, ontem, os hits foram sublimes. As outras foram normais. Não tanto pela performance do grupo, que foi espetacular sempre, mas, sobretudo, pelo som ruim e pela platéia mais mista, digamos assim.

Depois da primeira saída do palco e do retorno para o bis - que dessa vez foi bem mais curto do que no primeiro encontro - a galera já não sabia o que esperar daqueles últimos minutos. Porém, a performance em "This fire", a última da noite, com mais de 13 minutos de duração, com direito ao guitarrista Nick escalando as estruturas de sustentação da Fundição, foi o momento mais apoteótico das duas apresentações. Nem "Do you want to", nem "Take me out", nem "Michael" do primeiro show. Nem os auges desta segunda apresentação, como a execução de "Can't stop feeling", que segundo Kapranos, há anos eles não tocavam. Nem as notas do riff de "Seven Nation Army" durante "40 feet". Nem a execução de uma música inédita não identificada, com um violãozão na mão de Kapranos. Nem o "Happy Birthday" para o incontrolável baterista Paul Thomson - que disse que, se havia uma cidade no mundo onde ele queria estar no seu aniversário, esta cidade era o Rio. Nada.

E foi bom assim. Com a cidade incediada, eles saíram de cena, pela segunda e definitiva vez. Antes que o pessoal clamasse por mais uma volta, os DJs acertaram em cheio, de novo: "It's the end of the world as we know it". And I feel fine. E todos se sentiam fine. Foi a saidera perfeita, o chorinho. Ninguém reclamou. Todos voltaram para casa plenamente satisfeitos. Pela segunda vez.

Mas o primeiro, ah... aquele primeiro...

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Não existe nenhuma música nova chamada "Ghost in Rio". O que existe, sim, é uma música nova chamada "Ghost in a ditch" e outra chamada "Wine in the afternoon". Ambas tiveram takes gravados no Rio de Janeiro, mais precisamente no estúdio Cia dos Técnicos, na Rua Barata Ribeiro. Eles até tocaram uma das novas na Fundição, mas não sei identificar qual. O que existe com o Rio é o documentário filmado na primeira passagem da banda por aqui, pelo lendário Don Letts e que vai ao ar, pela primeira vez, neste fim-de-semana na TV inglesa e se chama "Rock it to Rio". É isso.

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Boas férias para a banda. Apesar de que começar férias tão merecidas em São Paulo não é... bem, deixa pra lá.

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"Hey Rio!!! Do you want to????????"

14.9.06

Festival internacional da canção

Para os que vivem saudosos da era dos festivais, mesmo sem ter vivido aquela época, aqui está a sua chance de entrar para o mainstream internacional e ganhar um trocado extra nesse fim-de-ano. Coisa finíssima.

Os jurados? Ah, coisa pouca... Uns tais de Robert Smith, Brian Wilson, Frank Black e Tom Waits.

E aí?! Vai encarar?

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Conselho: veja também os patrocinadores fraquinhos do evento.

Branquinho, pretinho ou marrom?












Zune; o "iPod" da Microsoft.


E aí? Vai querer qual?

13.9.06

"Cadê o público??!!"

arte sobre foto de divulgação

Venci a tentação de colocar o título “Dado vira lobo” nesse texto. Achei mais correto não jogar sobre o artista tal responsabilidade. Optei por uma pergunta, a mesma com que o produtor carioca Bruno Levinson introduziu uma discussão sobre a (não) participação do público carioca em eventos culturais da cidade, no blog Jam Sessions. Essa é a pergunta-queixa freqüente que se ouve de produtores musicais hoje em dia, especialmente no Rio de Janeiro. Este é o tipo de pergunta que não é feita apenas por Levinson. Sem querer soar pretensioso, ouso afirmar que, na noite de terça-feira, acho que descobri mais uma parte dessa resposta que parece não ter fim.

Fui ao Jardim Botânico, do Rio de Janeiro, no Espaço Tom Jobim para conferir a primeira apresentação de Dado Villa-Lobos, no lançamento do disco Jardim de Cactus. Seria um show especial, cheio de convidados bacanas, num espaço novo que eu ainda não conhecia. Além disso, pra minha surpresa, na noite anterior, eu tinha escutado uma música na MPB FM que me chamara a atenção. Não lembro do nome dela, mas lembro que o locutor disse que era do Dado Villa-Lobos com mais alguém. Quando soube do show, na terça-feira de manhã, pelos jornais, resolvi ir.

O horário divulgado era 19hs. Cheguei às 19h15. Poucas pessoas estavam no lugar. Muitos seguranças vestiam seus ternos chics. Uma iluminação bacana indicava um ambiente meio (argh!) lounge, cara de noite paulistana. Sem filas. Procurei a bilheteria. Já havia três pessoas por lá. O funcionário me disse para esperar um pouco porque os produtores estavam vendo se iriam liberar mais ingressos para venda, pois já estava tudo esgotado. "Uau!", pensei.

Vá lá, esperei cinco minutos, até que chegou a produtora. Ela virou para o rapaz da bilheteria e o instruiu a avisar a quem aparecesse por lá, que estava tudo esgotado, que esperassem até uns quinze minutos antes do começo do show (minha cabeça perguntava "ué, mas o show não era às 19hs? Já são 19h20?") para ver se alguns dos convidados desistiriam. Eu, com essa cara de bobo que Deus me deu, só assistia aquilo, enquanto a produtora, seríissima, continuava falando com o funcionário, que só aquiescia. Dizia ela que não podia fazer nada, que já tinham quase 500 pessoas na casa, que não podia entrar mais ninguém. O funcionário fez cara de susto com tal número, afinal a casa estava vazia e a capacidade oficial do lugar é de 400 pessoas. Vendo a cara dele, a produtora completou, ainda mais séria: “Ééé! Quase 500: 327 convidados confirmados – ela enfatizava o “confirmados” –, 40 da MPB FM e mais os 100 ingressos. Não dá mais ninguém! Se os Bombeiros aparecerem, fecham a casa. Tem que esperar quinze minutos antes do show. Quinze pras nove eu venho aqui e a gente vê se dá pra vender mais algum ingresso".

Aha! Achei a resposta tão procurada pelos produtores. "Cadê o público??!!".

Cadê?!

Bem, uma parte tá do lado de fora, tentando entrar, chegando no horário previamente estipulado para o evento, esperando os convidados que confirmaram presença e que provavelmente não vão aparecer. E, por sua vez, cadê os produtores??!! Estão lá, tranqüilamente, pedindo que você, que quer pagar por um produto cultural, espere mais uma horinha e meia, ali, em pé. Espera aí, uma horinha e meia, que, de repente, você-mané entra. Afinal de contas, você-mané já saiu do trabalho direto pra cá, sem nem passar em casa. Afinal de contas, você-mané já pagou o táxi, ou a gasolina/flanelinha. O que te custa, você-mané, mais uma horinha e meia que nem um pastel, em pé, do lado de fora. Aproveita, você tá no Jardim Botânico. Ganhou uma hora e meia de ar puro como brinde! Aproveita, você-mané, com essa cara de bobo que Deus lhe deu.

Tudo bem que a crítica de que hoje em dia todo mundo quer ser vip é válida. Mas o que fazer quando os próprios produtores estimulam esse tipo de postura? Se você não der um jeito de ser “vip”, você corre o risco de não entrar. E outra coisa. Neste caso, estávamos falando de CONVIDADOS! Esta foi a denominação dada pela produtora. Convidados, o nome já diz, são convidados pelo dono da festa, certo? E se confirmaram presença é porque realmente foram contactados pela produção. Então o Dado vira lobo? A culpa é dele? Sei não...

Agora me diz o que você acha disso: TREZENTOS E VINTE E SETE convidados CONFIRMADOS. Mais os que não confirmaram. Quantos seriam esses? Setenta e três, que completariam os 400 lugares oficialmente disponíveis na casa? Mais 40 ingressos para bancar a “divulJAgaBÁção” da MPB FM? É isso? “Ah, mas tiveram 100 ingressos”, há de surgir um pra dizer... Faça a conta e veja qual é o percentual de cada “faixa de público”. São esses 100 que vão pagar e viabilizar o evento? É isso que é ser produtor?

Não adianta reclamar da falta de público assim. As pessoas tentam ir, saem de casa ou do trabalho e vão direto pra lá. O horário do show divulgado é falso, afinal, a própria produtora disse que “às quinze pras nove eu volto aqui”. Não há ingressos para quem quer comprar. Há que se esperar os “vips”. O momento já é difícil, o mercado está retraído. Quando um episódio desses acontece, desestimula-se ainda mais o processo de recuperação. E não venham se queixar da falta de espaços, de público, de não sei o quê mais. O Globo de ontem deu destaque para o show no Megazine. A MTV colocou chamadas do evento nos intervalos da programação. O site Globo Online, em certo momento da tarde de ontem, colocava o show de Dado Villa-Lobos na capa geral(!) e ainda em destaque na sua seção de cultura. O Whiplash, especializado em outro público musical, também noticiou. O portal Terra, idem. Isso, só para citar os que eu vi.

Como sou jornalista formado e escrevo sobre música há algum tempo poderia ter utilizado o expediente de me “credenciar como imprensa”, o que não seria nenhum absurdo. Mas como era um show pequeno, num lugar (provavelmente) bacana, eu tinha decidido de última hora, e como sempre penso sobre a situação da cena carioca, na qual todo mundo tenta ser vip e dar um jeito de entrar de graça, inviabilizando muita coisa legal, achei que não convinha tentar este credenciamento. Mesmo sabendo que iria estar pagando para trabalhar (já que era certo que daquela noite surgiriam novas experiências musicais no meu universo particular, principio básico para que surjam linhas no sobremusica), topei ir. Não quero aqui posar de vítima. Sei que pagar por entretenimento é justo e correto. Aliás, 90% das vezes, sobretudo em eventos pequenos, eu pago meus ingressos e, ainda sim, escrevo sobre eles depois. Por paixão.

No começo do ano, a discussão sobre este tema rolou forte em alguns veículos on-line, com destaque para o blog de Jamari França, no Globo Online, onde houve quase 500 comentários nos textos do produtor Bruno Levinson e da assessora de imprensa Julia Ryff. Bruno Natal, nosso coleguinha, também se posicionou no Urbe. Alguns outros textos pipocaram naquela época em outros lugares, mas peço desculpa pelo esquecimento de agora. A situação continua complicada. O modelo de negócio praticado por parte da indústria musical – veja que não estou me restringindo apenas à fonográfica – é velho e desagradável.

Falta coragem para se adaptar a um mundo novo, com um público novo, com uma nova forma de consumo. Isso vai desde a manutenção das tentativas esdrúxulas de combate ao download de músicas com campanhas de apelo ridículo, passando pelo investimento quase-exclusivo de verbas em mídias que já não se mostram eficientes e moldadas por um velho e obsoleto paradigma, pelo distanciamento da comunicação ágil e direta das ferramentas instantâneas ligadas à internet, chegando até aos shows que não se bancam, que privilegiam os convidados, que colocam os seus “vips” nas melhores cadeiras do Canecão e deixam o público pagante, consumidor, com a péssima visão lateral, isso quando esse público consegue entrar. Isso quando ele consegue um ingresso disponível pelo qual ele possa pagar e ver o artista que admira num show que vai ter só umas duas horinhas de atraso. Isso quando ele consegue vencer os maus tratos de seguranças desaforados. Isso quando ele consegue achar uma vaga para o seu carro e pagar dez realecas para que o flanelinha não quebre o seu vidro. Etc, etc e etecetera.

A rotina segue a mesma. Assim como os meninos que morreram no acidente da Lagoa não vão impedir novas irresponsabilidades de jovens no trânsito, esse texto também não vai mudar nada nessa rotina vergonhosa. Mas é preciso sempre botar a boca no trombone e seguir com a corrente de indignação.

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Adoraria saber como foi o show. Se algum dos convidados puder, conta para a gente.

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Mais uma vez, o parabéns à produtora do evento, tããão zelosa em não exceder a lotação do local.

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Ai ai.

11.9.06

On The Other Side, the Strokes

O Tédio de Casablancas


      Filho de um pai milionário e playboy, chefão de uma agência de modelos que é grife de beleza, Julian Casablancas não precisava gostar de rock. Nascido e cercado por oportunidades, escolheu ser vocalista em Nova Iorque, e assim sem querer lidera desde o início do século the Strokes, a banda que é considerada a primeira do novo rock. (Para ser exato, o nome Strokes é de 99). Internet, bebida, guitarra, retrô, uma amizade que nasceu do colégio, clubes pequenos que foram crescendo junto com a fama, em vários elementos reconhece-se uma clássica história do século XXI, esse que mal começou.
      Pois bem, Casablancas não é exatamente uma figura de muitos boatos, de namoros de paparazzi, de envolvimentos expostos em manchetes de tablóides, nada disso. A não ser por uma ou outra acusação ligada ao álcool, a parar de beber, a mandar nos colegas, nada bombástico ou perto de ser levado a sério. E é um pouco disso que trata On The Other Side, do ‘First Impressions of Earth’.
      Com um currículo inevitável de festas e coquetéis familiares com elencos milionários, a música começa com uma variação de baixo algo monótona, econômica, repetitiva, marcial, grave. Daí para ataques nas cordas mais agudas da guitarra, que ressoam, sem alterar muito a levada. E Casablancas reclama, sem muita vontade: “I’m tired of everyone I know/ Of everyone I see on the streets and on tv”. Cansaço do ambiente que o cerca, essa é a receita, que no caso dele não chega a ser a descoberta de um mundo novo de terceiro disco. Como se disse, a alta classe artística provavelmente o pegou no colo quando ainda de fraldas.
      Do cansaço que irá se repetir em choros entediados ao longo da música, vem a conclusão algo mórbida, em tom de depressão. “On the other side/ Nobody’s waiting for me/ On the other side”. O abandono da voz da canção é mais inevitável do que desesperador, há aceitação ali. No encarte do disco, vem junto à letra uma citação ao poeta persa Rumi, doze séculos antes de Cristo: “ninguém é adulto a não ser os que não têm desejo”. Onde está o Strokes portanto? Adulto e sem vida?
      A música segue e uma cena escura do cotidiano busca a identificação imediata. “I hate them all/ I hate myself for hating them,/ So I drink some more./ I love them all/ I’ll drink even more/ I’ll hate them even more, then I did before.” Os instrumentos param a base marchada já com a guitarra somada ao baixo de poucas notas. Volta o refrão: ninguém o espera do outro lado, a solidão o isola.
      Entra um pedaço de flash back, a guitarra é espaçada, surge um interlocutor, “you”, sem rosto. O que se sabe é que “you” o ensinou a cantar, há um tempo que parece distante. A fama surge como assunto, o que só tinha se ensaiado até então. O raciocínio para o cansaço, em uma linha melódica já diferente, mais alta e algo mais sóbria, mas ainda de fins de frase prolongados leva a uma conclusão. “I’m tired of being so judgemental of everyone” e “I will train my eyes to see” são a resposta, já na base dos refrãos, marchada de guitarra e baixos repetindo uma subida e descida simples. Os verbos “sing” e “see” podem ou não ser levados ao pé da letra, já que se trata de um vocalista líder de banda e de um jovem atormentado pelo tédio da vida dos artistas de capas de revistas. Sing seria da alegria, e see da verdade, ambos distantes.
      O fim se aproxima, e a conclusão não exagera no otimismo. The Strokes não é emo nem ressuscita ídolos ingleses da década de 80, como o Killers faria, por exemplo. “On the other, I know what’s waiting for me./ On the other side.” “On the other side,/ I know you’re waiting for me./ On the other side”. Sombrio sim, e só com o além como solução, Casablancas e a guitarra de Nick Valensi encerram juntos, secos, o lamento de meninos atormentados pelo tédio.
      No século XXI, uma história de amor sem redenção em vida ainda pode tocar os ouvidos de fãs do rock’n’roll. Strokes: adultos e com vida, nova vida, o desafio é compreendê-la.

10.9.06

Moptop :: And the Oscar goes to...



Sensacional.

Um vídeo revelador e preciso sobre uma das principais novas bandas do país. O olhar preciso dos diretores Bruno Natal e Felipe Continentino aprofunda e revela as idiossincrasias deste grupo tão promissor. Um tratado. Um documento histórico.

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heheheh....

9.9.06

Veja isso...

Escrevi o último texto e saí para a praia. Passei pela banca de jornal e eis que me deparei com isso aqui.


Ai meu Deus.

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Aliás e a propósito
Alguém sabe me dizer por que há algum tempo a Veja parou de publicar capas e matérias envolvendo denúncias de corrupção? Ainda mais às vésperas da eleição,, com o Lula disparado nas pesquisas... Que tem algo esquisito nisso tudo, ah! isso tem.

O Eldorado

Já me perguntaram se o sobremusica virou filial do Youtube. Ainda não, eu acho. Mas eu também não sei mais o que nós somos exatamente. O grande barato de ter um site sobre música hoje em dia é poder sentir o tesão de estar perdido, no meio da cruzada, sem saber pra onde se está indo, mas se divertindo horrores. Lembra aquele papo meio metafísico do mundo novo, do novo tempo, da terra prometida... Pois é, parece que a música vai ser uma das primeiras a chegar lá. Já tá chegando. Ou já chegou.

No momento em que a 'e$ecutiva' (sic) revista Exame e a cool Wired soltam essas duas capas, cresce a sensação de que a nossa Jericó é logo ali.














Dá pra ler as duas matérias on-line. É só clicar nas capinhas que você vai para cada uma delas. Não precisa pagar nem os R$9,90 da nacional, nem os R$27,00 da importada. Mas se puder, vale a pena passar na banca e levá-las pra casa. É artigo para um museu iminente.

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Você conhece algum site de música que ainda não virou filial do Youtube?

Beck to the future

Sempre a frente de seus companheiros de mainstream, Beck voa alto novamente. Dentro dessa formidável matéria da Wired sobre o renascimento da indústria musical, ele solta uma entrevista lisérgica, vanguardista e sonhadora. Foda.

7.9.06

A diagonal e o meião (atrasado)

Eu sei que o Parreira já não é mais o técnico da seleção brasileira, que o Dunga já estreou, que metemos 3x0 na Argentina e que o Elano corre risco de virar a nossa salvação da lavoura. Eu sei disso tudo. Mas como ninguém falou muito desse texto, peço licença só para postar aqui o comentário do jornalista Paulo Vinícius Coelho em seu blog, no dia 02 de julho, horas antes de Brasil e França jogarem em Frankfurt, lembra? Encontrei isso perdido aqui, ao limpar o draft de uma conta de e-mail qualquer... Quis enviar para alguém, mas nem isso eu consegui naquele dia.

CUIDADO COM A DIAGONAL (Paulo Vinicius Coelho)
A jogada da França é clara: bola em diagonal, desde os pontas, Ribery e Malouda, para o meio. Assim nasceram quase todas as jogadas de gol dos franceses. Se o lateral não acompanhar, a bola é lançada e o que era ponta entra como atacante, em diagonal, na cara do goleiro adversário. O Brasil também vai cansar de ver Henry nas costas dos dois laterais. O risco França não é pequeno.

E aí? A descrição do PVC te lembrou alguma coisa? Ah, Parreira!!!!

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Desculpa, foi só um desabafo de 7 de setembro...

6.9.06

Evidências

Neimo (FRA) - Hot girl

Que o Youtube já não é mais novidade, é evidente. Que sobremusica anda cada dia mais viciado em Youtube, é (verdade e) evidente também. Que o mundo anda cada dia mais viciado em Youtube (e em sobremusica), idem. Que a MTV, inclusive a brasileira, tá preocupadaça com a chegada do Youtube e por isso tenta correr atrás lançando o mtvoverdrive, também é evidente. E que esse clipe que o Bernardo me apresentou é demais, também é evidente. E que a gente assiste ele no Youtube, hehe, também é evidente...


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A MTV não tem mais coragem de dar o prêmio de melhor videoclipe do ano para uma banda como o OK Go, mesmo sabendo que em todas as retrospectivas que eles façam daqui em diante, serão eles que vão ser lembrados como o ponto alto da festa de 2006. Assim como a Madonna em "Like a Virgin", 1984, e o RunDMC com Aerosmith em "Walk this way", 1987, por exemplo... Pra quem tem entre 12 e 18 anos, fica a pergunta: você acredita que a MTV na década de 1980 era tão legal quanto o Youtube? Não? Então toma...

5.9.06

Shows: Tortoise e CocoRosie no Circo

Experimenta


      Em um dia a pressão cabeçuda do Tortoise, quase virtuose mas essencialmente extasiante. No outro, a viagem kubrickiana do CocoRosie – estranho, melódico, boêmio e algo sedutor. O Circo Voador teve um fim-de-semana pouco convencional, aberto para curiosos e para quem acompanha de alguma forma as experimentações lá de fora.
      Na sexta-feira, os músicos-produtores-improvisadores de Chicago apresentaram um show com dois bis e músicas principalmente dos álbuns TNT e Standards, com Millions Now Living Will Never Die em segundo plano. A esperada versão do Tortoise para Cravo e Canela, do Milton Nascimento, não veio. Os tortoises se revezaram em duas baterias (são três bateristas), dois xilofones (que todos à exceção de Doug McCombs assumem em algum momento), um kit de teclados, dois baixos e duas guitarras (em todas as combinações possíveis). Não houve música cantada.
      Em uma banda com três homens de percussão, não se podia esperar outra coisa. Na maioria das músicas, é a bateria que lidera, na frente do palco, os trabalhos. Com técnica e inversões rítmicas de espantar, John Herndon se destaca sentado na bateria à esquerda de quem vê o palco. O mais irrequieto dos integrantes do combo é John McEntire, o mais famoso e superprodutor de bandas como Stereolab e Nação Zumbi, que sorria já na primeira música com os gritos e danças dos cariocas. Do teclado para a bateria para o xilofone e o que mais fosse preciso, era ele a alma de tudo aquilo ali, a referência, o maestro. Quantos aos outros, chamá-los de coadjuvantes não seria o termo mais exato, mas é o que se encaixa melhor. O dicionário às vezes é injusto.
      O som é baseado em longas repetições que servem de base tanto para o transe quanto para as evoluções do solista da vez. Solista nunca facilmente identificado, tais as idas e vindas dos arranjos pós-contemporâneos ou sabe-se lá que nome dar àquilo. O espírito do jazz de clube liga-se ao free de Ornette Coleman e daí para o rock de guitarras distorcidas e cheias de efeito.
      Junto, vêm as experimentações de filtros e eletrônica como instrumento, para se chegar aos loops de – você pode escolher – rituais africanos ancestrais ou raves lisérgicas de entrega aos deuses do tambor. E do amor, sempre.
      Extasiante, nas palavras de Bernardo, baterista do Binário, que abriu a noite tocando em cima da bilheteria da casa e terminou rindo à toa. Extasiante nas palavras de todos os presentes, entre eles o Bernardo que assina aqui.

      No sábado, as irmãs Sierra e Bianca, do CocoRosie, misturaram rap com árias de ópera, beatbox, climas de cool jazz e muito estranhamento proposital. As americanas, filhas de professores de arte, adotaram Paris como base de origem, e a cidade é mais uma das referências que sobem ao palco. Uma das principais, talvez.
      A banda que as acompanha se apresentou antes, em um show mais longo do que o que tinham a mostrar, mas interessante. O destaque era Taz, um rival à altura de Fernandinho Beatbox no domínio da caixa torácica como sample ao microfone, ou turntable, pode escolher. Spleen, um negão de dread francês, usava a voz para cantar e emitir longas notas agudas em vibrato, com um dedo ao lado do pescoço como ajudinha. Isso quando não rapeava na língua de MC Solaar, o que sempre tem valor. E ainda um hippie no violão e baixo, aglutinando bossa nova européia com folk do norte da América. Uma banda que se costuma chamar de elegante, na sua tranqüilidade e variedade de propostas.
      Quando entram as duas irmãs do CocoRosie, a banda vai para o fundo do palco e ganham espaço a harpa e a voz de soprano de Sierra, ao lado dos brinquedinhos eletrônicos e da voz de timbre entre Billie Holiday e Bjork de Bianca. Sem os mesmos apelos de nenhuma, cabe dizer, mas interessante à maneira ébria dela. Bêbada mesmo, e algo preguiçosa – no sentido manhoso da palavra. Há ainda um piano de cauda que vai e vem ao longo do repertório, tocado por uma ou por outra, sendo Sierra uma pianista de mais recursos.
      Com um público ganho, daqueles que gritam linda e thank you a cada intervalo, e dançam de olhinho fechado, o CocoRosie passou encantado pelas misturas coladas (em oposição a liqüidificadas) de ópera, rap, reggae caribenho (portanto não exatamente jamaicano), e eletrônica européia. O pé em Paris explica o ritmo branco, organizado e discreto, o mesmo de um Serge Gainsbourg, por exemplo, com no mínimo duas décadas de história da música a mais.
      O teatro também entra na dança das cocorosies, ora em máscaras da operística Sierra, ora nas danças de sedução de Bianca, acompanhada ou não pelo negão da banda. Atrás, um telão repete imagens de sonho e delírio infanftis. O excesso de informação não transborda, e até cabe já que os andamentos são sempre adequados para fazer acomodar as citações sem respingar para o lado. O universo parece extraído de personagens de De Olhos Bem Fechados e Laranja Mecânica, em um passeio pelos cenários dos clipes de Spike Jonze. Encontros sempre estranhos, aí sim, às vezes demais.
      Assim como Bjork perde a mão na excentricidade, fazendo-a sobressair-se à novidade, o Cocorosie também passeia sem muita lucidez pela tênue linha do equilíbrio entre bom gosto e subversão do convencional. Um bêbado equilibrista tem charme, um bêbado tropeçante não. E as duas irmãs escorregam de quando em quando.
      No mais, a informalidade é aliada excelente do teatrinho sincero das meninas. Bianca fazia longos intervalos à procura de um cigarro estranho turco que ela jurava sentir o cheiro. Não, não era marijuana, vários foram os que tentaram marcar presença. Em outra hora, foi uma briga envolvendo rapazes e um travesti, ao que pareceu, que interrompeu uma música. A platéia, algo afetada, não parou de bater palma e ensaiou um “sorry, clap-clap-clap, sorry”. Sabe como é, falta de lucidez na linha fina entre bom gosto e subversão...
      De qualquer forma, um bom show – estranho, franco, sexy, com bons músicos e uma proposta definida, que só peca no tom vacilante.

      Fica a sugestão para um fim-de-semana experimental nacional, que pode ter Paulo Moura, Artificial, Cidadão Instigado, Orquestra Itiberê e Hurtmold como atrações.

3.9.06

Where the Hell is Matt?

A Música Não Vai Sair da Tua Cabeça













Rerrê.

2.9.06

Ouvindo Tudo Junto

Tapa na Pantera

      Apreender o que se passa ao redor é um exercício de perseguição à utopia, ao ideal, de acreditar no perfeito (e na falta de defeito, pra rimar). Chegar a uma conclusão precisa não dá, mas o percurso satisfaz mais do que a chegada, e é por isso que a gente tenta e faz bem ao tentar. A saúde agradece qualquer horizonte, e assim se alimentam grandes questões para preencher os intervalos entre um gole e outro da bebida preferida em lugares escuros e mal-iluminados. Viver, quem é da noite entende.
      Pois o que é a música do ano 2006? È o rock retrô de seja lá que década, injetado de ansiedade trôpega, sim. É o dub já de sotaque aleatório e referências jazz sobre loops daqui ao transe, também. É a busca de uma raiz plantada na hora abaixo da terra, atrás de um chão para não sair voando em fumaças rápidas, se for o caso.
      Mas é o fim das tribos e o início da facilidade de sobreposição de comunidades e ritmos nos orkuts e Ipods que formam as referências da vida que se leva. São cinco páginas de Internet abertas uma em cima da outra na tela, são vídeos do Youtube assistidos ao mesmo em que se ouve um podcast em streaming (salve o pause!), festivais com três palcos imperdíveis simultaneamente, e verbos conjugados lado a lado como estudar e conversar, trabalhar e celular a noite de logo mais, consumir e viver. Ninguém nem pensa em chupar cana e assobiar, a não ser que seja para uma piada visual a ser mandada para a lista toda do gmail.
      Tudo isso sempre personalizado, como uma página do myspace. A idéia pode até ser sempre mais ou menos a mesma, mas um perfil não aparece como o outro, e quem domina as ferramentas tira mais onda.
      É no meio disso tudo que surgem cada vez mais as covers inusitadas e os mash-ups. Duas possibilidades de uma mesma idéia. Os djs misturam bases com riffs e letras cantadas de três músicas diferentes para criar o que tem que mexer junto em cabeça e quadris (e coração, sempre) ao mesmo tempo em que a banda de rock manda ao vivo, no mesmo dia e em palcos vizinhos o hit dos negões do hip-soul-hop duo que todo mundo tá ouvindo. É mais do que o fim das fronteiras, é a soma de camadas que a seleção natural tornou mais transparentes e que agora coexistem enquanto competem em creative commons – tudo liberado, mas não roubado.
      O mash-up e as homenagens ocupam espaços alternativos: mp3s divulgados de graça e apresentações. As duas pontas da história da música, os dois espaços que chamar de alternativos só não é um pecado porque a doideira é justamente que o alternativo virou o espaço do convencional hoje, e você sabe disso. Porque fora do alternativo/convencional, o que há é crise e espaço vazio. E baixar música de graça é mole, nem parece que é proibido.
      Quando um cara percebe que um clássico pode encaixar com um hit e com uma batida irresistível e meio desconhecida (ou qualquer outra combinação parecida), ele está andando na tradição de misturar para criar o novo, ele permite um encontro de diferentes que joga o híbrido para a natureza. E se for bom, sobrevive. Às vezes até demora, mas sobrevive.
      E o mesmo é com a banda de country punk que toca Hey Ya, com Jack White do Raconteurs gritando Crazy em festivais do verão do ocidente, com a Orquestra Imperial naipeando Iron Man, o Áudio Bullies indo de Bang Bang... My Baby Shot Me Down, o Móveis Coloniais de Acaju atacando Take Me Out, Radiohead chorando Nobody Does It Better, qualquer coisa do Easy Star All-Star ou com o Cake tornando a versão de I Will Survive um clássico indie. Os exemplos nunca vão parar. Aliás, estão cada vez mais aí.
      Aliás, dá uma passeada na nossa MTV e vê se não é por aí.





Enfim, a casa própria
Perda :: Dorival Caymmi
Dorival Caymmi :: Compilação de vídeos
Show: Momo, no Cinemathèque
Site:: OEsquema
Agenda :: Momo, Hoje!
Aviso: Última Digital Dubs na Matriz
Entrevista: Fabrício Ofuji, produtor do Móveis Col...
Vídeo: Reckoner, de Gnarls Barkley
Vídeo: L'Espoir des Favelas, de Rim'K

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