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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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29.6.07

ALEATÓRIO FM


Continuando com as prometidas novidades desta semana no SOBREMUSICA, é com tremenda alegria que posso dizer, agora oficialmente, que neste domingo, 1 de julho, às 22h, estréia o ALEATÓRIO FM, programa de rádio apresentado e comandado por este que vos digita tais linhas. Mais um produto da família SOBREMUSICA.

O conceito do ALEATÓRIO é... bem, a idéia é procurar música bacana pela internet. Viajando entre hiperlinks, indicações, blogs, algoritmos, comunidades, vlogs, ou qualquer outra ferramenta, vou guiando um caminho improvável pelos arquivos de áudio disponibilizados de alguma forma na grande rede. É uma espécie de apropriação da tecnologia nova em prol de um formato clássico de indicação e sugestão de música. Uma consequência natural dos pensamentos de alguém que se apaixonou por música ouvindo rádio, mas migrou, como toda sua geração para a web e fez dela a sua nova biblioteca de áudio. Enfim... Quem lê as linhas desse site há mais tempo, há de entender o "processo de criação" dessa criança. Tava tudo aí...

A idéia era ser um podcast. Mas um interesse da Multishow FM fez com que o projeto ganhasse mais corpo. A Multishow pareceu ser a parceira perfeita: uma rádio na web, alicerçada por uma marca forte, com planos de expansão, fornecendo uma estrutura de rádio à vera pra fazer programa bacana e entendendo que era importante o programa ser disponibilizado em outros formatos, como o podcast. Isso tudo sem falar na moral de encarar o desafio de tratar com naturalidade as ferramentas como o Last.FM, Musicovery, Youtube, Imeem, Myspace, etc, reconhecendo que não há mais tempo para ficar vendo o novo como uma ameaça que deve ser escondida, como a maioria dos veículos brasileiros ainda faz. O jogo é esse e cada um que venha com suas armas. A parceria começou firmeza. Batia conceitualmente e ainda abria perspectivas pro futuro. Nada melhor.

Então é isso. Às 22hs de domingo, o ALEATÓRIO FM entra no ar, na Multishow FM. Na mesma hora, entra no ar o site oficial do programa, que é http://www.aleatorio.fm/. A partir de segunda-feira, quem quiser poderá ouvir também no site do programa, tal qual baixar os arquivos como podcast. Por favor, quem puder, ajude a divulgar, espalhar o link e tal. A família agradece. Vamo que vamo!

Primeiras impressões

É pisar na Europa e já entrar na primeira banca, ainda que no aeroporto, pra ver revistas bacanas. As de música não eram muitas no setor de desembarque de Frankfurt. Mas o que tinha já dava a entender que, por mais interessante que o Roskilde possa ser, nunca vai ter a mídia em torno dos festivais ingleses. Glastonbury, encerrado semana passada, era o principal assunto. E, claro, sempre, os Arctic Monkeys. Como num protesto velado anti-festivais-britânicos (só uma birra momentânea), comprei um NME de 16 de junho, mas que pelo menos não trazia nenhuma citação ao festival na capa (estampada pelo MUSE, atração do Roskilde, heheh) e ainda vinha com um cdzinho incluso (cheio de atrações do Roskilde!!!! heheh), tal qual as que tinham "Glasto" na capa.

fotos: Bruno Maia
Tudo bem que quando o avião abriu as portas, o som ambiente sapecava um Simply Red. Mas rapidamente um clima mais rock'n roll tomou conta, depois da visita à loja de revistas. No trem pra Colônia, antigas paisagens e lembranças ao som da primeira edição do Aleatório, que eu revisava cuidadosamente. Já na cidade do Dom, mais lembranças e muita música brasileira na casa do Selim, amigo e irmão alemão, que só ouve e toca Tom Jobim, Luiz Bonfá, João Gilberto, Caetano e, no ano passado se apaixonou pela Tábua de Esmeraldas no meu iPod. Acabou ganhando um de presente esse ano e não se conteve de alegria. "Por aqui não é fácil achar essas coisas", ele disse. Por lá também não, respondi. Ouviu o meu da Orquestra Imperial e perguntou-me quanto custava um desses no Brasil. Disse que uns 10 euros. Ele sacou o mesmo valor da carteira e pediu pra ficar com o meu. Golpe baixo. Levou de graça.

Mais à noite, os ingressos para o Aerosmith estavam esgotados. A saída foi partir pro outro lado da cidade. No Underground, um bar cujo nome é auto-explicativo, a noite já estava por findar. Alguns emos alemães saiam de lá com suas guitarras e cabelos calculadamente desgrenhados. Na porta, um cartaz lembrava que não foi exatamente o CSS que abriu as portas do mundo às bandas brasileiras. Mesmo dez anos e dois desfalques depois, o cartaz continua tendo destaque.



Em um outro bar, ainda mais underground que o primeiro, Selim disse que um grupo punk brasileiro certa vez tocou lá. Disse que o vocalista era um cara gordo e que a banda tinha alguma coisa como "de Porão" no nome. Adesivo do SOBREMUSICA na parede e aquela coisa toda...


Já hoje, um dia perdido pra recuperar o sono e pra passear na cidade. Rever lugares e pessoas. Mas a rápida visita à loja da Starbucks (adivinha o que eu fui buscar lá???) e o paraíso Zweitausendeins são assuntos pra amanhã.

28.6.07

Festchenha sobremusica 2 anos

Dia 14 de Julho, no Cinemathèque


      Nem vale dizer, a essa altura, que viver é a arte do encontro. O Bruno já falou um pouco disso, por aqui, e tá mais do que claro que entre longas entrevistas, loucas elocubrações, links de vídeos que no mínimo um de nós dois acha maneiríssimos, projeções futurísticas de mercado, e furos espetaculares de quem vem quando tocar, bem, lá no meio disso tudo, está uma busca por encontrar pessoas, idéias, músicas novas, velhas, diferentes e mais daquele mesmo que a gente sempre gosta. Além do mais, tem hora pra tudo, até pra citar o poetinha.
      Mas tentando ser direto, pelo menos para variar aqui a linha editorial (a torta pretensão).
      São dois anos de sobremusica, algumas realizações, vários novos amigos, perguntas para irem sendo respondidas no caminho, uns poucos e diletos desafetos, e vários projetos... Uma coisa assim em cima da outra, misturada, virando sempre uma nova coisa. Afinal, os tempos são de mashups. De Internet, noticiário a cabo, download, iPod e foto digital ao mesmo tempo. De filme com três tramas que viram cinco e depois se resolvem em uma (e meia). De ansiedade e muita vontade.
      Tempos de pensar demais, mas de parar com isso e ir dançar, sair, se divertir. Encontrar músicas, idéias, pessoas. Trabalhar, estudar e se entreter. Não se preocupar. Relaxar. Esquecer. Lembrar.
      Daí, a festchenha sobremusica de dois anos. Chegaê. Vai ter noite carioca se encontrando com banda carioca, cheiro latino com fumaça praiana, topete de beatle com calça de mafioso, garage e candomblé, tudo junto, apertado na casa nova de uma galera que já vem movimentando a noite da cidade há um tempo. Mas o frio do inverno merece um calorzinho à noite, vai.
      É para ir no istaile, porque é noite de baile. Vai ter djs da festa Phunk atirando nas bolas da mesa verde sem respeitar vez nem cor. Tudo ganha ponto para Artur Miró e Saens Peña. Vai ter também trio Ordinário tocando qualquer coisa de um jeito muito melhor. Vai ter Nervoso participando, Lucas do Binário, gente de Moptop, o naipe do Songoro Cosongo, o verde do Lucas Santtana, os scratches do dj Babão. Quer mais, né? Vai ter.
      É além da pista da vida, é a vida no melhor estilo. E mais? Vai ter.
      Vai ter você, que tá pronto a trocar uma idéia. Você, menina, que não quer mais saber de lugar chato cheio de pose. E você, carinha, que sabe que menina que gosta de curtir sem amanhã com som bom e gente bacana sempre é mais legal. A ela e a ele, é apostar no talento individual, porque o talento coletivo vai estar assegurado.

      E quando rola isso de coletivo, os individuais se sobressaem. Aquele esquema, né?
      Daí pro encontro, é o mais que natural...

Dia 14, sábado
Cinemathèque Jam Club
Rua Voluntários da Pátria, 53
Botafogo
R$ 24,00 ou na lista amiga R$ 15,00


listaamiga@sobremusica.com.br ou via Orkut
Djs Saens Peña e Artur Miró da festa PHUNK
Ordinário Groove Trio e convidados



Mais informações a qualquer momento

27.6.07

Clipe: Tears Dry On Their Own, Amy Winehouse

Amy Hits Hollywood Blvd.


      Já que a gente começou, lá vai o novo clipe da Amy Winehouse. Não gosto tanto assim, prefiro qualquer outro dela, mais atrevidos, mas vale o resistro. É o mercado americano neocon que ela quer, então nada como um diretor americano com clipes para Elton John, Britney Spears, Gwen Stefany e Robbie Williams (David LaChapelle, nada contra). Diretor e fotógrafo, aliás, com certo gosto pelo bizarro e pela distorção, mas aqui, isso é um pano de fundo bem levezinho mesmo.



      Aliás, a propósito da música, você já deve ter notado que ela se parece com aquela outra, né? Só falta alguém chamar de Niu Motown (porque Niu Gaye deve ser outra coisa...).

The Mix-Up, Beastie Boys

Aí Eu Quero Ver



       O disco novo instrumental do Beastie Boys saiu hoje em lojas virtuais lá de fora, mas a essa altura todo mundo que gosta mesmo dos caras já ouviu várias vezes. Até em programa de rádio pela Internet ele já rodou, inteiro. Os timbres lembram mesmo o In Sound From Way Out!, disco dos garotos bestas instrumental de onze anos atrás, com a diferença de que em 96 o interesse de Ad Rock, Mike D e MCA pelo Tibet era maior. Isso se refletiu em uma busca por sons indianos, orientais, naquele disco. Misturados, claro, aos pedais de guitarra e teclados psicodélicos e cheios de sustain de Money Mark.
       Pois os sons de moog, wurlitzer e Rhodes continuam, e também os pedais de guitarra. Mas, onde tinha Índia, agora tem um pouco de Brasil. Tá, bem menos. Mas não dá para achar que é só a música Suco de Tangerina que tem uma influência (um) da passagem deles por aqui no ano passado, e (dois) da parceria de mais de dez anos com Mario Caldato. Essa, aliás, parece uma trilha de seriado de tv antigo, meio b. 14th Street Break também é parte brazileira: tem um pedaço em agogô e apito que pode lembrar uma bateria de escola de samba dessas de encontro Brasil-Japão nos arredores de Tóquio, ou sei lá. Mas não vai além disso.
       No geral, quem domina mesmo é Money Mark. Tivessem chamado o dj e mágico Mix Master Mike, e seria a dupla a dominar. E olha que eu sou fã dos três desde moleque...
       The Gala Event é etérea, sonolenta, clima esfumaçado. A partir de Off the Grid, música que já tinha vazado pelo youtube, mais ou menos na metade do disco, outra cara aparece. São inversões de dinâmica, que jogam as músicas para andamentos mais pesados e voltam. Na idéia de trilhas, seria o momento da perseguição de carros, da disputa entre herói e vilão na escadaria sem poder desperdiçar a pouca munição que restou no revólver, ou do mergulho em profundidade para salvar a mocinha que afunda junto com o navio. Mais velocidade, mais tensão...
      Os caras entendem de estúdio, botam a bateria mais seca ou mais harmônica de acordo com o que acham que combina com o wahwah de guitarra da vez, aumentam ou abaixam a presença da percussão meio latina de Alfredo Ortiz. Ou seja, clima sobra. É fechar os olhos e entrar.
       Falta é o humor que lá atrás eles usaram para o meu clipe preferido da adolescência, Sabotage. A malandragem meio impetuosa da década de 90, que até no último disco, To the 5 Boroughs, aparece aqui e ali.
       Só para destacar, ainda tem Dramastically Diferent e Kangaroo Rat que valem a atenção, além da também vazada no youtube The Rat Cage.

       Resumindo. É ruim? Não. É médio, então? Não. Mas se fosse o disco de outra banda, valeria ouvir tantas vezes tentando achar alguma coisa? Certamente não. É um funk-dub-jazz legal, e só. Duro é concluir que apesar daquele papo todo do Mike D de que mais do que qualquer outra coisa eles amam é ouvir boa música, hoje, em 2007, eu prefiro os três rimando no microfone.

       Mas a promessa é que esse instrumental seja relançado com voz e convidados. Aí eu quero ver...

26.6.07

Roskilde 2007 :: Hey ho...


Semana de muitas novidades no SOBREMUSICA!

Agora é oficial! Pra começar, pelo segundo ano seguido o SOBREMUSICA vai cobrir o Roskilde Festival in loco! Ano passado, a viagem foi na raça. Consegui credenciamento e só. Acampamento, chuveiros longínquos e detalhes orgânicos desnecessários, foram a tônica do perrengue. Porém, mais do que isso ficou o grande impacto de ter participado de algo tão especial. Organização impecável, inteligente, segurança plena, dias de sol, Bob Dylan, Strokes, Primal Scream, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Roger Waters, Wolfmother, Racounteurs, Kanye West, Gogol Bordello e até Guns n Roses se somaram na vontade de um dia voltar lá... Cenário quase ideal, mas como nada é perfeito, foi de lá que eu vi o Roberto Carlos arrumar o meião, enquanto o Placebo fazia trilha sonora lá longe.

Em 2007, o esquema vai ser outro. A viagem terá o apoio da Kunststyrelsen, a agência de artes da Dinamarca. Além da cobertura que será feita normalmente no SOBREMUSICA, também irei postar minhas impressões no portal G1. Isso significa correria das boas. Provavelmente os textos não virão com tanta freqüência como no ano passado, mas terão o mesmo esmero.

Os perrengues, de certo, serão parecidos. O meu provável lar será novamente uma barraca sobre a grama dinamarquesa. A alimentação deverá transitar entre o pato e algum outro bicho exótico que, no ano passado, eu preferi trocar por sanduíches. O resto, Deus dará.

A viagem inclui ainda uma passagem de uma semana pela Alemanha, a começar nesta quinta-feira. Experiências musicais acontecem a toda hora. Vamo que vamo!

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Essa foi só a primeira. Mais novidades virão ao longo da semana. Mas eu não posso me adiantar.

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Se eu pudesse me adiantar, eu até falava sobre a nossa fest... Ops!

25.6.07

Errata - Em Estúdio: Nervoso e os Calmantes

Droga, Errei

      O Nervoso me pediu para fazer umas correções no texto ali de baixo, e eu queria pedir desculpas, mas errei três coisinhas ao longo da reportagenzinha. Pelo menos três, né? Se você achar mais alguma, não se acanhe em me avisar. Demorei a subir a correção mais por goiabice do que por qualquer outra coisa. Vamos a elas.

parágrafo 02 - na verdade, o estúdio AR fica na Barra, e não nas ladeiras arborizadas do Jardim Botânico.

parágrafo 06 - depois que voltou da Europa, o Guilherme trabalhou com assistente no estúdio Drum, em Laranjeiras e, como estava querendo fazer o curso em Berklee, queria colocar o Nervoso no lugar dele. Só que ele acabou não ficando.

parágrafo 22 - o nome da musica dedicada ao Canastra é Peça de Tabuleiro, e não Jogo de Tabuleiro.

Egotrip pura

O chappa Raul Mourão (de novo ele!) sempre toca na questão de que ter um blog de música é bacana, mas que é importante conseguir ganhar dinheiro com o nosso trabalho. "Aliás, esse é um mal da sua geração. Tudo em troca de visibilidade e dinheiro que é bom...". Concordo em gênero-número-e-grau, mas isso é papo pra outra hora. O fato é que além do bom e velho faz-me-rir, há outras coisas tão (ou mais) importantes quanto isso, que são os encontros. O próprio Raul foi um desses momentos especiais. Essa sempre foi a grande motivação do SOBREMUSICA, mais do que propriamente fazer dinheiro. E olhando por esse viés, somos bem-sucedidos bagarai!!!!

Um dos últimos grandes momentos foram os recentes papos com o ídolo-guru Maurício Valladares. Sujeito do bem, vascaíno (lógico!), que já embalou muitas noites e aulas musicais ao longo da estrada. Entre as coisas que conversamos recentemente esteve o meu testemunho sobre a primeira vez que o encontrei. Eram idos de 1998, Copa da França. Estava para chegar aos 16. No fim-de-semana em que o Brasil ganhou do Chile, 4x1, oitavas-de-final, eu tinha ganhado uma promoção bizarra do "Planeta Globo", suplemento adolescente da época, para ir assistir um show da turnê do Biquini Cavadão. Para a empreitada, recebi dois rolos de filme 36 poses. Ao retornar pro Rio, entreguei os rolos pra alguém e depois de revelados fui convidado pela BMG (gravadora dos caras) para ir até a sede na Praia do Flamengo buscá-los "de presente". Depois de receber as tais fotos e os negativos, alguém do departamento de Promoções virou e disse:

- Vem aqui que eu vou te apresentar uma lenda.

Pelos corredores empanturrados de cds (tempos idos...), cheguei até a saleta e o rapaz sentenciou: "Maurício Valladares! O homem por trás do rock brasileiro!". Na época eu tinha poucas informações, mas já era fã dos Paralamas, já tinha lido aquele nome em várias capas de discos e cds. Não sabia o quão, mas sabia que era alguém muito importante, afinal aquele nome já tinha peso nas linhas da minha memória.

Apertei-lhe a mão timidamente. Fui apresentado como o ganhador de uma promoção e talz... Nada além do protocolo. O tempo passou, iniciei-me no processo roNcador, até chegar ao instante sublime que vocês podem ver no final desse texto.

Putaqueparile! Cheers!

22.6.07

The Cribs, Beth Ditto e Amanda

Bom Fim-de-Semana



      Primeiro, a versão sem censura desse rockzinho bacana do the Cribs, que foi censurado nos EUA e Europa, e que eu acho que tem uma direção de arte muito legal.




      E, bom, Beth Ditto (the Gossip) e Amanda (Dresden Dolls) se acham estranhas. Reparem na parte da letra que se refere a um corpo perfeito. E à platéia travestida.

      O primeiro, nota-se, foi via Lúcio Ribeiro (parabéns aos Móveis!), e o segundo via StereoGum.

Nada a ver

      Brogue: o chappa Raul Mourão adere ao lado de cá do mundo. Você sabe, né? Todas as mulheres são casadas. Só pra começar.

21.6.07

Da série "Qual é a música?"

Reuters


Sem alardes. O resgate já foi feito.


19.6.07

CD :: Orquestra Imperial, "Carnaval só ano que vem"

A essa altura, já começaram a pipocar as manchetes de “melhor disco do ano” e etecetera por aí... Apesar de não ter dado muito tempo pra galera processar o álbum, que só chegou às lojas na semana passada, e também de ainda estarmos em junho, é irresistível a tentação de dizer o mesmo. Discaralhaço da Orquestra Imperial.

Pra começar, o encarte bem acabado devolve ao ouvinte um prazer que pra muitos andava esquecido, que é o de tatear, sentir o cheiro, olhar e reolhar as fotos, ler as letras, buscar informações técnicas, saber quem é o compositor daquele verso que bateu tão bem... Surpreendentemente o álbum é distribuído pela Som Livre, a gravadora mais associada à produção por atacado do que à qualidade artística (que aqui sobra).

A coincidência de este trabalho chegar ao público na semana seguinte à despedida dos Los Hermanos serve de consolo para metade dos fãs da banda, aquela que curtia mais as composições de Amarante do que de Marcelo Camelo. Não que o disco da Orquestra seja regido pela batuta de Ruivo, mas sim porque a turma de lá está diretamente ligada à estética que ele já vinha trabalhando na banda há algum tempo. “Retrato pra Iaiá”, “Deixa o verão” e “Paquetá” (pra ficar só em uma de cada um dos três discos em que ele participou mais efetivamente como compositor) são pequenos teasers daquilo que veio a se consagrar como “o som da Orquestra”.

O (ex-?) hermano se sai bem, sobretudo na deliciosa (e mais pop de todas) “Yara Djaruba”. As aventuras da Cleópatra caribenha, que “fez do Amazonas seu Nilo e de São Paulo, Bagdá” são acompanhadas por um coro sensualíssimo e empolgante das ‘meninas’ Nina Becker e Thalma de Freitas. Nessa e em outras faixas, os backing vocals delas remetem às pastoras dos sambas clássicos. Chega a ser engraçado ouvir “Yara” e pensar que esse tipo de música já foi popular no Brasil, sobretudo nos anos 40. Hoje em dia é difícil encontrar algo próximo ao que a Orquestra faz.

Outro belo destaque é Thalma. “Não foi em vão” é dengosa e sai arrastando no ouvido. Ela encontra uma interpretação muito acima da média, especialmente se a compararmos com as das “novas” cantoras que vêm inundando as FM “perfil adulto contemporâneo”. O baile de Thalma continua em “Rue de mes Souvernirs”, um samba de Wilson das Neves com o baterista Stephan San Juan, com letra em francês. Com uma pronúncia perfeita, a música tem um quê de cabaré e a voz sussurrada é uma tentação praa quem sente prazer ao pé do ouvido.

As mãos de Berna Ceppas, Kassin e Mario Caldato encontram o equilíbrio que a gravação de uma orquestra demanda. Com as músicas tendo sido gravadas todas ao vivo e em apenas quinze dias, o trabalho dos pequenos ajustes é preciso pra dar vida a tantas tonalidades. Normalmente, quando um disco desce tão redondo e natural é porque a banda é competente e o produtor tem uma mão boa . Bingo.

Podia alongar o texto comentando dos metais - sem dúvida dos melhores que se ouviu na música pop brasileira nos últimos 30 anos -, da faixa cantada por Rubinho Jacobina, das guitarras semi-acústicas que marcam os arranjos, ou das percussões, ou, ou, ou, ou....., tanta coisa pra falar... mas os dedos coçam pra falar de Max Sette e depois que se falar dele, não há porque se falar mais nada.

O disco é dele. Max dá o tom que o samba contemporâneo merecia ter. A voz te leva pros ares da boemia, da cafajestice, da gafieira, do samba de roda, enfim... É a voz masculina mais interessante e mais carioca de que se tem notícia por aí. Nunca tinha me ligado no trabalho dele, mas agora vou cair dentro. Como disse o Bernardo, “melhor que Seu Jorge, né?”. É, muito melhor... As músicas conduzidas pela voz do rapaz deitam nas outras. Mas que fique claro, isso não é um demérito a nada, nem ninguém, e sim uma grande e longa salva de palmas pras interpretações do cantor. “Ereção” tem toda a sacanagem típica que o nome já propõe. A canção, que tem mais parceiros do que versos, deve ter sido composta num ambiente deveras inspirador. A tal “aguardente com limão”, que Max canta, parece muito melhor do que qualquer Sagatiba.

“Era bom” é a música deste disco. Parceria do mestre Wilson das Neves com o próprio Max Sette e cantada em dueto por eles. Alternando as estrofes, eles constroem uma bela ponte entre a “velha guarda” e “a renovação”. A letra é um dos melhores sambas que se registrou recentemente, um primor desde o primeiro verso até o derradeiro “é bom ficar desimportante pra alguém que eu já encantei”.

O que o grupo faz é um disco como há muito não se ouvia no samba brasileiro. No samba? Sim, essa é a fonte mais inspiradora da rapaziada imperial. As canções têm o lirismo e a cadência que o tempo exige para preservá-las. O flerte com o caribe e com os cabarés ajuda o grupo a avançar. Mais do que querer se apropriar de um gênero específico, fazer um “resgate” ou qualquer coisa do tipo, a Orquestra Imperial confirma o que vinha mostrando nos palcos. É uma banda capaz de se apropriar de uma série de influências para se fazer relevante e conquistar seu lugar por méritos próprios e não pelo vazio da nostalgia pura. Palmas para todos eles.

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Vai rolar hoje na Cinemathèque mais um lançamento do bravo selo Midsummer Madness. A banda da vez é a Private Dancers. Além dela, o (bacana) Supercordas também se apresenta por lá. Quem puder, vale o ingresso. (R$20/R$10)

13.6.07

Em Estúdio: Nervoso e os Calmantes

A Tranqüilidade Dele


      Não tem mais essa de jovem guarda do século XXI, embora a voz ainda seja aquela, anasalada, colocada, sincera, chegando perto à de certo Roberto. O disco ainda não está pronto, deve se chamar Nervoso e os Calmantes, e vai ser a chance de mostrar que os rótulos do primeiro disco, além da jovem guarda tinha o de querer parecer Los Hermanos, não davam conta de tudo o que tem para dizer. “Quero gravar mais e mais discos, esvaziar a cabeça, que tá pesando”. Dessa vez, entram em cena muitos efeitos de guitarra, mais programações disparadas pelo teclado, e participações várias de amigos e nomes próximos. Até nas composições, a variedade marca presença, a começar pela participação maior da banda (que se você reparou, assina junto o trabalho, agora). É mais relaxado e menos desconfiado, sem que isso seja melhor ou pior, que Nervoso conduz esse novo trabalho. Prepare-se porque não dá para não notar a diferença.

      É esse o Nervoso que me oferece carona para o primeiro de três dias acompanhando a mixagem do segundo disco dele. “É o disco em que eu to experimentando tudo que eu sempre quis fazer... Quarteto de cordas, piano de cauda. Tudo dentro das possibilidades, e pra ver se o que eu quero em casa funciona mesmo”. O piano de caudas, por exemplo, foi o único elemento gravado fora do estúdio Soma-Rio, no AR, os dois na mesma região tranqüila e arborizada de ladeiras do Jardim Botânico, na zona sul do Rio. Sentado em frente ao instrumento, Lafayette, o mesmo da jovem guarda e do projeto de baile dos Tremendões, que reúne além de Nervoso, Renatinho e Marcelo do Canastra, Érika Martins, Gabriel do Autoramas e Melvin do Carbona.
      Ainda dentro do carro, Nervoso fala das tentativas de abordar Zé Ramalho para declamar um trecho da Canção do Vento – parceria com Bernardo Vilhena e uma das quatro faixas-demo disponíveis no myspace, que farão parte do disco em versões retrabalhadas. Quase todas tiveram o bpm (batidas por minuto, a medida do andamento da música) reduzido. O Bob Dylan da Paraíba não respondeu às cartas deixadas na portaria do prédio, depois que uma rede de contatos apurou o endereço correto.
      Chegando ao estúdio, começo a saber da boca de Nervoso como funciona a parceria que permitiu a gravação e agora a mixagem do disco, em um esquema confortável. “O clima tá bem solto, os caras se revezam e vão pegando as músicas na medida em que o ouvido vai pedindo e cansando. Eu fico ali de prancheta na mão, pra ter alguma organização.” Os caras são os quatro sócios do estúdio. As histórias vão surgindo emendadas uma na outra, o que - é claro – vem da empolgação com o momento.


      No dia 23 de dezembro do ano passado, o que existiam eram várias músicas prontas, algumas já sendo apresentadas ao vivo, inclusive. Perspectiva de virarem um álbum, não havia. “Não penso em formato disco. Vou pensando as músicas”. Daí, numa bela noite, saindo do Baixo Gávea, Nervoso dá de cara com Guilherme Vaz.
      Morango, como é conhecido, tinha esbarrado com Nervoso pela primeira vez há dez anos, na Inglaterra, quando os dois cruzavam a Europa de mochila nas costas. Voltaram, e Guilherme montou um estúdio em Santa Teresa, no Centro do Rio. Nervoso até foi chamado pra trabalhar lá, mas as mesas de mixagem ainda não despertavam tanta curiosidade assim. O estúdio durou tempo suficiente para levar Guilherme para Berklee, nos EUA, onde estudou engenharia de som. Voltou de novo ao Rio, depois de sete anos, com uma mesa Neve Broadcast debaixo do braço. O equipamento estava abandonado, debaixo de uma mesa bem mais vagabunda em uma tv de Boston, e foi comprada por um preço irrisório. De suporte na estação de tv americana, virou a base do Soma-Rio, com três outros sócios. Quem fala da mesa não usa outra palavra que não preciosidade.
      No Baixo Gávea, Guilherme pegou Nervoso de saída, mas insistiu e foram tomar um chopp. “Há quanto tempo?” pra lá, “o que você tem feito?” pra cá, e Guilherme perguntou: já tem repertório pronto pra ir fazer o disco lá com a gente? Marcaram de começar as gravações quarenta dias depois. “A gente chegou aqui dia 5 de fevereiro, 9 da manhã, como combinado. Com tudo pré-produzido, ensaiado. De gravação, foram duas semanas, a mixagem é que leva mais tempo”.
      O estúdio, a mesa Neve, e até o dedo e ouvido dos quatro sócios são elementos que Nervoso acha decisivos para a qualidade desse trabalho em reta final de gestação. “Na verdade, eu queria um porto seguro para gravar, que eu não tive no primeiro [disco]. Essa parceria com o Soma é um pequeno sonho: o disco é deles, não tem distanciamento. Cederam instrumento, participaram da logística”. No Saudade das Minhas Lembranças, a gravação foi sendo feita em etapas. Agora, não. “A diferença maior vai ser a unidade de som que existiu agora, por ter sido feito mais em um lugar só. Depois do primeiro disco, meu interesse em estúdio cresceu. Eu nunca estudei engenharia de som, que nem o Alê [de Morais, guitarrista do Psicoativos e um dos sócios]. Músico precisa... É que nem oficina de carro, se não entender um pouco daquilo, o mecânico vai e te engana”.
      A idéia de dominar o estúdio é mais do que uma preocupação com o resultado final da própria obra, de levar trabalho pra casa e experimentar no equipamento que tem. “Eu faço trilhas, em parceria com o [baixista gaúcho] Flu. Temos uma produtora, a gente passa trabalho de um pro outro, faz junto... E o sonho é ter um estúdio. É o de todo músico, né?”



      Nervoso chega dentro da sala de mixagem com uma garrafa d’água na mão de dois litros. Senta-se. Levanta-se. Oferece alguma coisa do bar, se senta de novo, se lembra de um cd de plug ins que trouxe, levanta e pega, oferece para Alê, se senta de novo.
      Alê já tinha chegado, está no início do trabalho em Teimosia. Nervoso ouve um pouco, e começa a discutir uma primeira idéia de arranjo. A bateria é reta, dançante, e a música tem momentos que soam a Franz Ferdinand enquanto os filtros da guitarra não se definem. Nesse primeiro momento, ela ainda pode virar qualquer coisa. Os teclados têm um timbre oitentista, eu penso em New Order, uma idéia que já tinha me passado pela cabeça no showzinho da banda naquela mesma semana. Pergunto sobre a referência, e Nervoso se surpreende: “É mesmo? Pô, adoro New Order”...
      Na medida em que a música vai sendo recomposta, ou seja, em que vão sendo adicionados os diferentes elementos com os volumes, filtros e dinâmicas adequados, a interpretação vai se construindo. Em determinado momento, a frase do teclado e a da guitarra disputam quem deve ir para o primeiro plano. Nervoso quer a guitarra à frente, Alê tinha pensado em deixar as notas longas do teclado. Ouve-se de um jeito, de outro, ajustam-se os filtros de cada uma. Até que o ouvido cansa.
      Quem já editou vídeos, música, ou mesmo quem escreve textos longos, sabe que arejar os sentidos é fundamental para perceber melhor para onde está indo o trabalho. Depois de várias repetições, os detalhes somem aos olhos/ouvidos, e arte depende muito do arranjo das pequenas coisas, da construção do que pode ser chamado, mais amplamente, do ambiente para o recado que se quer passar, seja ele estético, político, existencial ou meramente de diversão.
      É a vez de trabalhar no trompete de Fernando Oliveira, da banda irmã Canastra. O sopro é aveludado, fechado, e bonito. Parece que usa uma surdina, mas dá para perceber que só parece. Começa uma discussão sobre jazz, e sobre como são bons os discos que se abrem para parcerias fora do próprio universo, como Doo Bop e Chaka Kan, de Miles Davis. Lembramos da parceria nunca estabelecida entre o jazzista e Jimi Hendrix. Falamos de histórias das biografias de Max Roach, Charlie Parker, e do próprio Miles. Alê lembra das dinâmicas dos naipes, que tocam muito alto ou muito baixo sempre muito coordenadamente, em um entrosamento que dá certa raiva. Raiva no sentido de admiração, claro. A discussão vai além, e mais do que um intervalo nos trabalhos, pode ser parte de novas abordagens na mixagem do material. Alê está com a palavra dinâmica na cabeça, e ela certamente estará de alguma forma no resultado final do disco.
      Hora de acrescentar a voz em Teimosia. Ouvimos um pouco, paramos e vamos conversar lá fora. Quando essa música ficar pronta, será a quinta, de um disco com quatorze faixas (uma instrumental) e vinhetas. Todas já foram mexidas, pelo menos um pouco, e de gravação, só falta mesmo saber se Donatinho vai cumprir a promessa e gravar um piano para a caribenha Eu Que Não Estou Mais Aqui – que já tem a participação do percussionista francês Stephanne San Juan, com passagens por Amadou et Mariam, Orquestra Imperial e Kassin +2.
      Nervoso fala como está gostando de fazer o disco, e da participação da banda no processo. Em Saudade das Minhas Lembranças, a banda era de apoio, praticamente. Hoje, ela assina junto o trabalho, não é só Nervoso mas Nervoso e os Calmantes, a idéia do nome é de Tavinho Paes. “Eu quero mais é ver gente gritando o nome do Benjão, no show, dizendo que o Kiko é lindo, rarrá”. O guitarrista Benjão tem duas composições no disco, Despertar e Eu Que Não Estou Mais Aqui. Os arranjos têm o dedo de todos. Além do mais, batizar a banda permite que Nervoso tenha trabalhos-solo com o nome artístico dele, sem precisar recorrer a outra assinatura.


      Voltamos para dentro, e como Teimosia não está pronta, é hora de ouvir o que já está. Bloco Neguinho, por exemplo, é velha conhecida de quem acompanhou a trajetória do Carne de Segunda (uma banda que ainda vai ser cultuada como o Acabou la Tequila, mas eu falo disso em outra hora). Só que saiu um pouco o clima de carnaval Osmar e Dodô via Novos Baianos, e entrou uma levada bem Superstition de Stevie Wonder. A voz de Nervoso na música também tem uma graça meio inusitada, mas se segura na ironia e não cai no deboche. (Enquanto escrevia o texto, fiquei sabendo que a faixa não estará mais no disco, será usada de uma forma ainda a ser definida).
      Eu Que Não Estou Mais Aqui estava pronta até ser mostrada a Donatinho, que ouviu, gostou, e se convidou. È mais uma que reforça o clima de baile que parece estar presente no disco. Pergunto para Nervoso se ele tem isso em mente mesmo, assumir o Acabou la Tequila (ex-banda dele) e o Carne de Segunda como referência, no sentido de se propor uma unidade mesmo que experimentando linguagens tão diferentes como o Caribe, a Motown e Air. Ele pára, reclama da pergunta, que baile pressupõe uma unidade de ritmo, ao contrário da onda das duas bandas, justamente reprocessar a referência do Mano Negra (ex-banda do Manu Chao), tudo do mundo junto com música brasileira ainda por cima. Mas vai lá e conclui: “As músicas funcionam. É a solução que a gente tem para não ser banda de escritório. Os caras nunca seriam que nem Ramones [no sentido de manter uma fórmula mesmo que muito boa ao longo da carreira]. Por isso que eu saí das outras bandas, onde eu tocava bateria. Tirando o Tequila, eu tenho certeza que eu ia continuar fazendo a mesma coisa um tempão.”
      Universo Vocacional é um delírio sobre nuvens que acerta as contas com as passagens de Nervoso por trabalhos de escritório. Literalmente. No caso dele, em redação. Tudo começa meio suspenso, no ar, até entrar em pura psicodelia meio Beatles, meio Mutantes. A temática do mundo corporativo veio de um sonho, foi acordar e escrever. A letra é cínica, algo ingênua se não percebida com a devida atenção. Longa, é para mergulhar no mundo da anestesia das fugas para a máquina de café, e dos sapos que pulam direto para dentro do esôfago, para só sair como um sorriso amarelo de funcionário do mês.
      Por fim, Despertar é outra viagem, etérea mas não psicodélica. O tema é repetido ad infinitum, com timbres que lembram discos anteriores da dupla francesa Air. Até que se chega ao clímax de um lalalá (até então a música era só instrumental) com jeito meio Azymuth meio orquestra de Ray Conniff. Não dá para não se surpreender com a virada.
      Ouvir quatro músicas, e uma quinta em edição, dificulta o trabalho de perceber o que será do disco inteiro, mesmo que conhecendo a demo e tendo assistido ao show de pré-lançamento (que ainda testa repertório até o segundo semestre, quando o disco deve ir para as prateleiras de lojas e de downloads).
      O que dá para perceber é que o espectro de referências mais do que mudar, aumentou. Ainda estão lá Tom Waits e Roberto Carlos, mas tem também, ou pelo menos mais claramente, Wilco, novo rock e trilhas sonoras. A parceria com o Canastra aparece em Jogo de Tabuleiros, que tem a letra toda baseada em jargões da banda do também ex-Tequila Renato.
      Mas se em Saudade... as letras apontavam para uma reafirmação de escolhas, uma virada na vida (pense em “Enquanto isso estou trancado/Sentindo a dor de quem vai desistir/E ser feliz em outra vida/Sem mais ninguém”, só para citar a minha preferida do disco, Maus Limites), agora o momento é de mais serenidade. Se for para ser injusto e escolher um pedaço de letra que sintetize tudo, eu ficaria com “Sei que minha ex-esposa a incomoda/E que meu filho é tudo que mais me importa/Mas meu amor saiba que dou valor a tudo que você representa para mim”. O eu-lírico, digamos assim, não é mais um cara decidido apesar de um percurso incerto e desconhecido demais. A coragem daquele David frente a um Golias do que vem à frente dá espaço a um cara mais consciente do caminho e do caminhão, quer dizer, do como caminhar. Os obstáculos são vários, mas a realização é a de percorrer a estrada, e isso está assumido nas escolhas que compõem o que será o disco.


      Na minha segunda ida ao estúdio, não fico muito tempo. Nervoso chegou com discos do Pogues, do Squirrel Nut Zippers, do Brian Setzer, do Pixies e dois do Wilco. São possíveis referências para que a dupla à frente da mesa saiba estar falando a mesma língua. Agora, só faltam quatro músicas. O prazo inicial de mixagem está esgotado, e ele comenta que acha que já está na hora mesmo de acabar. Mas sem acelerar. O cuidado com o resultado ainda é, naturalmente a prioridade, e isso aparece na fala o tempo todo. Alê está atrasado, e nessa reta final de mixagem, qualquer meia horinha perdida é uma preocupação. E mais, dentro de quarenta minutos, Nervoso vai levar o filho à escola.
      Ainda é Teimosia a música sendo trabalhada. A guitarra, a voz, o trompete, tudo já está em cima da cama de baixo, bateria e teclado, e é justamente a hora de ajeitar os timbres enquanto se ouve a música completa. A questão da guitarra x teclado lá do primeiro dia ainda está em desenvolvimento. A guitarra está em primeiro plano, mas os filtros que vão ser jogados em cima dela ainda estão sendo mexidos. E é aquilo, ouvir, ouvir, e ouvir de novo para ir achando o que agrada e o que incomoda.


      É na minha terceira ida ao estúdio que vejo os discos de referência que Nervoso levou serem utilizados. Ele pega o Being There, do Wilco, e escolhe Say You Miss Me, para mostrar para o Alê. Quer em O Grande Herói a mesma bateria cheia de sala, ou seja, reverb, ressonância. Como se o instrumento fosse tocado em um lugar fechado, em que os harmônicos (principalmente de caixa e pratos) ecoam por mais tempo. “Sobram”, como se diz. A música que fala de paternidade, e do aprendizado que é repetir os ensinamentos que ganhou sem repetir erros, deve ganhar um tratamento para ganhar um tom de rock de arena.
      A música é de Nervoso, e é mais uma das que indicam o tal caminho da serenidade para que esse disco aponta. Ainda passando pelo tema da infância, uma das músicas do repertório terá o coro de três crianças, os filhos do próprio, de Sérgio Martins (baterista) e de Kiko Ramos (baixista). Uma Simples Questão é uma visão sobre o unilateralismo a partir das crianças. Um recado a bin Laden e Bush, que conta com a parceria de Nina Becker na autoria e na cantoria, por assim dizer. Ela também toca kazu, um instrumentinho de sopro que contribui para o clima.
      Nina canta também em Kit Homem, uma das quatro disponíveis no myspace em versão demo, portanto ainda sem ela.
      Outra música da demo é A Canção do Vento, parceria com Bernardo Vilhena. Aliás, o trabalho com Vilhena costuma ser a única ocasião em que Nervoso parte de uma letra para fazer a música. E nesse caso, a letra saiu no pau: “foi um dia na casa dele, ele em pé, com um copo de caipirinha na mão, mandando eu anotar idéias, e tal. E foi uma [idéia] atrás da outra”.
      A mesma dupla compôs A Minha Saudade, a música em que participa Lafayette, e uma das três a ter um quarteto de cordas regido pelo professor de harmonia de Nervoso, Rodrigo Russano. As outras duas são Candidato a Amigo (aliás, também na demo) e o tema instrumental Antes, de autoria do tecladista Alberto.
      A composição é parte muito importante do trabalho de Nervoso, e ver que agora ele experimenta mais parcerias é a mostra de que a cabeça dele está aberta. Voltando à comparação com o disco anterior, o que ali há de urgência, agora – tudo indica – há de generosidade sem perder concentração. Afinal, quando escreve, ainda há a característica da “observação da minha vida, e da vida dos outros”, como ele mesmo diz.
      O legal de conversar com Nervoso é ver que mesmo tendo feito um primeiro disco muito bom, que esgotou a tiragem pelo selo midsummer madness e vendeu umas quatro vezes essa quantidade ao ser lançado em versão remix, e mesmo estando nos últimos ajustes para o segundo álbum, ainda resta tempo para projetos futuros. Talvez pela proximidade com Vilhena, que recentemente participou da montagem de uma ópera em homenagem a Oswaldo Cruz, Nervoso também pensa em se aproximar do formato: “é um sonho lançar uma ópera instrumental, com um tema que vá e volte, tudo ligado como se fosse uma música só”. Paro e pergunto se ele viu o show do Daft Punk no ano passado, quando apresentaram uma “ópera” em que faziam mashups deles mesmos. Quis saber se o que ele pensa já não é contemplado, de alguma forma, pela música eletrônica de que ele vem se aproximando... “É, muito legal essa coisa do Daft Punk, até porque supera a coisa do show e do disco. Não é uma coisa só. Em show tudo pode acontecer. Do primeiro disco para cá, sem exagero, não tem nenhuma música que não tenha mudado, pelo menos um detalhezinho”. Entre aquele momento e agora, fora a mudança de baterista (a entrada de Sérgio), passou a existir um forte elemento eletrônico, com forte uso de samples. Isso, claro, já falando dos shows. Que, enquanto o disco não sai – e nem a data e nem a forma como isso vai acontecer estão certas – é a única chance de ver o que será desse Nervoso e os Calmantes. Pelo menos por enquanto.

foto: Zé Maria Palmieri

foto: Zé Maria Palmieri

11.6.07

Show :: Los Hermanos [A despedida]

Um filme no close pro fim

foto: Mauro Nascimento/G1

A última temporada do Los Hermanos antes de entrar no tal “recesso por tempo indeterminado” foi marcada pela alegria e complacência dos fãs, mais do que pela tristeza, revolta ou sentimento de perda. Parece que passada a ressaca que o comunicado oficial causou, os admiradores do grupo passaram a “confiar” nas reiteradas afirmações de que esse momento é apenas um “até logo” e não um “adeus” definitivo. Foram três apresentações que arrastaram cerca de 10 mil pessoas para a Fundição, se considerarmos que a capacidade do local é de 5 mil e que muita gente não se contentou em ver um dia apenas.

foto: Louise Palma


A mini-temporada foi uma grande celebração dos oito anos em que a banda passeou por grandes palcos. Afora o numeral desenhado na tampa do bumbo de Rodrigo Barba, não havia nenhuma citação à turnê do disco “4”. Foram shows especiais, com repertórios diferentes a cada dia, e que tiveram como cenário apenas a cortina atrás dos músicos. Camelo e Amarante comandaram a retrospectiva que recuperou momentos tão longínquos quanto a presença dos terninhos no figurino, as canções executadas sem a presença dos músicos de apoio e ainda preciosidades como “Onze dias”, “Azedume”, “Descoberta”, “Tenha dó” e “Lágrimas Sofridas”. Esta última estava tão distante no inconsciente do público que Camelo ficou algum tempo sozinho, na penumbra, conduzindo os acordes em contratempo até que a platéia se ligasse e entendesse do que se tratava. Ao mesmo tempo em que a visita ao repertório do primeiro disco incendiou os fãs, também serviu pra deixar mais claro porque a banda tinha tanta relutância em apresentá-lo recentemente. De fato, as composições e os arranjos do álbum lançado em 1999 estão muito distantes do resto. Das 55 músicas gravadas, 35 foram incluídas no set-list alternadamente. O grupo se esforçou pra manter o clima de festa e o que se viu foi uma preponderância das músicas com andamentos mais rápidos às baladas.

foto: Bruno Maia

Isso gerou efeito direto na platéia. Nada de sentimentalismos. O máximo que se ouviu foi um grito, como os de estádios de futebol, no fim da terceira noite: “Ahhh, Los Hermanos vai voltar... Los Hermanos vai voltar...”. Estádio de futebol. Tá aí uma boa comparação para o que se tornou a Fundição (e todos os outros palcos por onde o grupo passou em mais de 500 apresentações). A torcida era uma só, empurrando o time. Amigos marcavam de se encontrar pra torcer juntos. Outros, mais solitários, iam sozinhos, mas rapidamente se abraçavam com quem estava do lado para cantar junto. O nome da banda parece sempre ter servido para definir seus fãs. A irmandade e a cumplicidade com que todos celebraram o ritual hermânico é comumente comparada à da Legião Urbana.

foto: Bruno Maia
foto: Mauro Nascimento/G1
Tal qual muita gente – inclusive este que digita estas linhas – se ressente por não ter visto Renato Russo no palco, a saudade do que não se viu também há de se abater sobre uma nova geração que descobre, aos poucos, a obra dos Hermanos. Apesar dos fãs de sempre, era possível observar na Fundição muita gente que nunca ouviu uma fita-demo, nem tampouco tinha idade para ir a um show em 1999. A renovação do público já é visível. A consistência da obra dá a certeza de que o passar do tempo pode ser apenas um detalhe para a arte.

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Quando o assunto é Los Hermanos, falar em “intenção” é sempre meio caminho pra ser desmentido daqui a dois segundos. Mas o que se observou nesses shows foram que, além de se confraternizar e encerrar um ciclo junto de seu público, o grupo quis (?) mostrar que não havia brigas, nem desentendimentos graves, por trás da decisão tomada. Durante todo o tempo, Barba, Camelo e Amarante trocavam sorrisos cúmplices. Lógico que quando o assunto é sorriso, você pode excluir a sobriedade de Bruno Medina, sempre. Mas ainda assim, os quatro aparentavam estar com as pendengas internas bem solucionadas e tranqüilos sobre a decisão tomada.

E é isso. O último disco da banda já tinha avisado, a quem quisesse ouvir, qual seria o próximo momento deles. “E agora o amanhã, cadê?”, perguntava Camelo em “Dois barcos”, música cujo título era a melhor metáfora para definir o que o grupo vivia artisticamente. Amarante respondia que “se a gente já não sabe mais rir um do outro, meu bem, então o que resta é chorar. E talvez, se tem que durar, ver renascido o amor, bento de lágrimas”. É esperar pra ver. Só resta a certeza de que foi bonito pacas enquanto durou.

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O som da Fundição é aquela coisa trágica de sempre. Vá lá, a galera cantava tudo como se os decibéis alcançados fossem nos salvar, mas em teoria – pelo menos em teoria – um sistema de PA deve servir pra fazer os músicos serem ouvidos. É evidente que falar de aspectos técnicos diante da comoção e da efusão de sentimentos que podia se observar em qualquer ponto da casa, em qualquer um dos três dias, beira a implicância. Por isso, não vamos nos alongar.

10.6.07

Acontecerá :: "A música no séc. XXI e as transformações na indústria fonográfica"

Quando o Música Chappa Quente veio ao mundo, ele já era um sinal da necessidade de conversa, diálogos e encontros que a indústria da música vive. Quando se está passando por um momento de mudanças, conversar com os outros é sempre bom e necessário. Parece que torna o caminhar mais ameno e claro. É esse o momento que a indústria atravessa.

Segunda-feira, 11/junho, os alunos da faculdade de Produção Fonográfica da Universidade Estácio de Sá darão sua contribuição ao debate, promovendo o encontro de algumas pessoas pra discutirem essas transformações todas. Fui convidado para sentar-me à mesa com alguns agentes da cena musical e por isso estarei lá. As pautas propostas são muitas, não sei se haverá tempo para todas receberem a devida atenção. Mas de qualquer forma, é mais uma oportunidade de se encontrar pessoas, fomentar o diálogo, as trocas e, principalmente, aproveitar essa época que estamos atravessando. Pra mim, é a melhor de todas.

As inscrições são gratuitas e aberta a todos.

local: Universidade Estácio de Sá
Av. Presidente Vargas, 642, 9o andar
11 de junho - 20hs

inscrições:
seminario.prodfono@gmail.com
(nome, email, tel para contato)

contatos e informações:

e-mail: prodfonografica@hotmail.com // cel:9337-1242(Flávia)
Tels: 3272-8030 / 8877-9169 / 9205-9169 (Mônica)

9.6.07

Qual É a Música? (ii)

Hope You Guess My Name...


CD :: Rogério Skylab, "Skylab VII"

Escrever sobre um disco de Rogério Skylab não é das coisas mais simples. É evidente que o lance do cara é o uso da palavra. A música é um pano de fundo pra construção de uma poética bizarra. Vez por outra ele resolve utilizá-la como apoio para as loucuras que propõe em seu texto. Vem sendo assim e não há perspectiva de mudança no sétimo disco da série que leva seu sobrenome artístico. As músicas divididas com a galera do Zumbi do Mato só reforçam que Skylab já achou seu (não-)lugar. Um dos grandes méritos dele está em ainda conseguir provocar algumas risadas em que já riu daquela mesma piada antes. A culpa não é do Programa do Jô, onde o cara sempre vai para lançar seus discos. Mas é inevitável que a caricatura que toma forma ano-a-ano na TV se imponha com força e influencie na percepção que se tem da obra.

Skylab tem escrotidão suficiente pra sacanear a vaidade dos marombeiros do dia-a-dia em “Eu vou dizer”. Ou ainda pra provocar o ouvinte em faixas como “Qual foi o lucro obtido?”, afinal é de certo que você conhece pelo menos um exemplar da espécie que só mede a vida por esta pergunta. (“Comprei um fuzil AR15 por cinqüenta mil reais/ meses depois, vendi esse mesmo fuzil por 5 mil reais/pergunta-se/ qual foi o lucro obtido?/ Me casei, tive dois filhos, pago pensão e sou fudido/ qual foi o lucro obtido?/(...) Eu olho pra você, você olha pra mim/ Qual foi o lucro obtido?”). Mas Skylab também tem vícios suficientes para “estragar”(?) ou “consagrar” (?) o que poderia ser uma puta música, como “A última valsa”. Tudo depende da percepção.

Voltando ao papo da força do texto na obra de Skylab, isso é reforçado pela constante presença de trocadilhos, inclusive alguns caetanicos, que não passam batidos. Tais referências aparecem, por exemplo, em “O mundo tá sempre girando”, parceria com Maurício Pereira (Mulheres Negras). As bizarrices de “Eu chupo meu pau” e “Hei moço, você já matou uma velhinha hoje?” - pode rir, leitor amigo, pode rir... - você já deve ter ouvido em outro disco do cantor ou em alguma das entrevistas pro Jô. Ainda assim, elas te fazem rir de alguma forma. “Corpo e membro sem cabeça” também entra nessa lista, graças às singelas citações às pernas do Lars Grael, ao dedo mindinho do Lula e ao piru de um travesti operado. Todos dançando. E assim, nessa toada, Skylab toca sua sétima ópera. Você já ouviu antes, mas se quiser bisar, tá aí.

7.6.07

Qual É a Música?

Sorria...

5.6.07

Albert Hammond Jr

O disco solo de Albert Hammond Jr, guitarrista do Strokes, tá rolando há um tempo na rede. Inicialmente o cara meteu três músicas no Myspace e depois lançou, em outubro, o produto físico pelo bacanudo selo inglês Rough Trade, sob a título de "Yours to keep". As músicas deste trabalho já vinham sendo elaboradas de longa data, já que no Strokes, a pena é de Julian. Albert foi co-autor de "Automatic Stop" no segundo disco. No documentário "In transit", de 2001, que mostrava a banda em turnê, três temas instrumentais aparecem creditados ao rapaz. Todos eles se desenvolveram, mudaram de nome, mas reapareceram em "Yours to keep", uma delas inclusive se chama, não coincidentemente, "In transit".

"In transit" (Strokes, 2001)


Além de Sean Lennon, Jody Porter (Fountains of Wayne) e Ben Kweller (ouça esse rapaz), o próprio Julian Casablancas participa tocando baixo e colocando vozes na baladinha "Scared". O empresário do grupo e "sexto-Stroke", Ryan Gentles também colabora como músico no disco. Publicamente os Strokes sempre apoiaram a aventura solo de Albert e isso não parece indicar nada sombrio para os fãs.

O trabalho lançado pelo rapaz é de altíssimo nível, melhor do que o terceiro disco de sua banda. Sonoramente não é muito diferente do que os Strokes fazem, a linha que guia está ali. Isso ajuda a entender um pouco melhor da estrutura do som do grupo e deixa claro que é pela mão de Albert que a poética de Julian encontra escape.

A base do disco é feita pelo baixista Josh Lattanzi e pelo baterista Matt Romano (que é o técnico responsável pelas baterias de Fabrizio Moretti, quando a banda tá ativa). Na estrada desde o fim da turnê dos Strokes, o rapaz voltou a um formato menor, reassumiu a posição de banda pra tocar em palco dois, palco três... No esquema quanto mais camaradagem melhor, eles vão viajando pelos festivais europeus e norte-americanos, contando com a presença de alguns amigos nos shows...

Nesse clima, ele vai abastecendo o Myspace com vídeos e pequenos registros. Ele não tem site oficial. Resolve tudo por ali. Um formato mais interessante da figura do "artista" nesse início de século.


Música para Elevador:
"In Transit" / "101"


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Olimpíadas New Rave. Será que em vez de Anastacia, Tiesto e Gloria Stefan, os Klaxons vão fazer a música de abertura? Se liga na logo...

4.6.07

Lírica Beretta

Frases soltas de uma música lançada há dez anos...

Rio, cidade desespero...
Rio de Janeiro, cidade hardcore
Sarajevo é brincadeira
Segurança é subjetiva
Tudo acontece sob um calor inominável
Onde eu nasci, não troco por lugar algum
Esse é meu lar
Zerovinteum
Mas se liga, meu irmão
Malandragem não tem dó
Mar de sangue, chacinas brutais, porrada de gangues
A lei do silêncio fala mais alto
Um dia alguns se cansam e pow...


foto: Agência Estado/Marcos D'Paula

Moptop e Móveis Coloniais de Acaju no Canecão (apoio: sobremusica)

Também Conhecido Como...



       O Moptop é dessas bandas que não dá mole. Falaram pra eles que os tempos mudaram, e as respostas também. Mas eles, parece, já sabiam. Difícil dizer quando começa, mas um site muito acima do normal com uma demo bem gravada, com músicas cantadas em inglês seria o meu palpite.
       Ainda mais quando a referência clara ao rock do Strokes é acompanhada pela técnica de quatro bons músicos. Tá, a voz grave e roca de Gabriel, à la Julian Casablancas, ajuda. Um pouco de sorte, que você sabe que só funciona onde há talento, e a demo da banda brasileira, até então só conhecida no Rio do rock e olhe lá, cai nos fóruns de fãs do Strokes. São vários os elogios ao “segundo disco vazado” da banda de Nova Iorque. Isso mesmo, confundiram o brasileiro cantado em inglês com o que o Strokes estava gravando em sigilo.
       A confusão não foi ruim para ninguém, e para o Moptop então, muito pelo contrário. A única dor de cabeça era decidir se investiam em ir lá para fora, ou se ficavam aqui. Letras em português? Apesar de convites lá de fora, os quatro meninos acharam que sim.
       Veio um prêmio da etapa carioca do festival Claro Q É Rock, em 2005, mesmo ano em que o prêmio de melhor site de banda/artista do Vídeo Music Brasil da MTV ficou com eles. No ano seguinte, quase que era o prêmio de melhor site, no Texas, no South by Southwest. Os concorrentes eram Arcade Fire e Eminem.
       Deu para entender que a Internet tá ali o tempo todo com o Moptop, né? Pois chega a hora de concluir que o cenário alternativo tem limite no Brasil, e o vôo deles mira além. Assinam com a Universal. Uma banda de Internet em uma major, história parecida com a daquela banda de Is This It, em 2000, como é mesmo o nome dela? Isso, Strokes. Mas o Moptop sabe de onde veio, o potencial que tem. É aquela história, os tempos, as perguntas e as respostas mudaram. “Uma gravadora de grande porte quis contratar uma banda que fez sucesso disponibilizando tudo na Internet. Algo de novo está acontecendo”, só para roubar um pensamento alheio e mostrar que não sou só eu que vejo assim.
       Mesmo em uma major, as ferramentas subversivas da nova tecnologia estão aí (ironia, por favor). O disco é lançado junto com um falso documentário, no youtube. Viral, sabe? O release é assinado por Alexandre Matias, t.c.c. (também conhecido como) trabalhosujo. È a Internet, estúpido. Mas é rock também, não se esqueça. Se não fosse, já tinha parado onde várias outras histórias parecidas pararam.
       Pois bem, e pra ganhar dinheiro com Internet, qual é a receita? Ninguém sabe, mas o que tem de pista, hoje, aponta para a publicidade, o cinema e a televisão. T.c.c. convergência de mídia. Superstar, fora do repertório do disco, foi parar em um filminho para a Harley Davidson. O Rock Acabou, a do primeiro clipe oficial, teve a versão em inglês vendida para a Samsung, em comercial que ainda vai ao ar. Na tv, Sempre Igual, a do segundo clipe oficial, está na trilha de Malhação, da tv Globo. E no cinema, é o filme de Jorge Duran, É Proibido Proibir (ainda em cartaz), que conta com Ninguém Pra Te Esquecer.
       Se dá para viver de música, Gabriel Marques, vocalista, disse recentemente na mesa Mercado Independente, do Música Chappa Quente, que sim. A propósito, ele está compondo para outras bandas. E é com outras bandas, não as mesmas (eu não disse isso), que o Moptop participa no projeto da MTV (a que não passa mais clipe) Ao Vivo 5 Bandas de Rock.
       E é com outra banda, o Móveis Coloniais de Acaju, na terça-feira, no Canecão, aqui o Rio, que o Moptop vai te provar que Internet, convergência, referência gringa, clipes e versões de clipes no youtube, mercado independente e grande gravadora, nada disso sobe ao palco. Investigando essa historinha toda, ainda mais para quem já viu o desempenho dos quatro por aí, a certeza é de que só porque é bom é que se sustenta.

       A propósito, a propagandinha tá por aí. E em cinco versões (mas as outras quatro, faz o favor de clicar ali na janelinha de related vídeos).



Nada a ver

      É isso aí, estamos apoiando o evento. Os motivos são aqueles mesmos, gostamos e acreditamos nas bandas, e achamos que há momentos em que se aproximar é melhor do que se distanciar, ainda mais se for para fortalecer parcerias entre bandas, casas de shows, e meios de comunicação.
      Agora, a dúvida fica para o motivo pelo qual o documentário-farsa do Moptop sumiu do youtube...

Os Móveis Coloniais de Acaju vão tocar na capital...


Provocações e trocadilhos à parte - afinal, o carioca ainda vive a inconsciente frustração de não ser mais Estado da Guanabara -, os Móveis Coloniais de Acaju fazem o que muitos consideram o melhor show da atual música pop brasileira. Subvertendo a ordem que uma "direção de palco" pode propor, os caras criam em cima do caos. Um caos pra lá de palatável, diga-se de passagem. E se você ainda não entendeu o que eu acho, eu acho fodão.

Vi o show uma vez e quis ter visto mais. A banda tá na pista pra negócio há algum tempo vivendo na raça, afinal não é coisa muito simples uma banda de Brasília, sem grandes verbas nesses tempos vacas-secas, viajar o país todo tocando. Muito menos quando esse grupo tem, só de músicos, dez pessoas. A essa altura do campeonato, algumas das viagens já devem ser pagas pelos contratantes, afinal o MCA faz um dos melhores e mais consistentes shows do país.

Se você ainda acha que o rapaz que digita essas mal-traçadas linhas está querendo forçar uma barra, a dica é ir no Canecão. Afinal, você nunca ouviu falar nesses brasilienses de nome tão esdrúxulo. A apresentação no último Humaitá Pra Peixe mostrou que a horda, o séquito de fãs que os seguem e urram em todas as músicas não pode deixar dúvidas. É você que está desplugado. Los Hermanos você conhece? Pois é, os fãs são desse tipo. Ah, mas o Los Hermanos é mil vezes maior... Hmmm, bem, da última vez em que o LH tocou em Brasília, eles abriram para o Móveis.

Vá lá que em Brasília, eles já dão as cartas faz tempo. O disco "Idem"(2005) vendeu duas mil cópias em dez dias e isso não é fruto de nenhuma campanha intensiva de marketing. O release é de André Abujamra, em tom de lamentação por não tê-lo produzido. Não é papo de dizer "na semana em que o Los Hermanos se despede, o Móveis chega no Rio de Janeiro mostrando que está pronto pra ocupar o posto". Isso seria demente. Mas é papo de dizer que, sim, a roda continua girando e a renovação acaba sendo empre positiva.

Eu tenho lá minhas dúvidas se é o melhor show entre todas as bandas novas (?!) porque o do Moptop é sempre aquela coisa, né... Mas terça-feira não tem do que reclamar. Sem dúvidas, o melhor da atual música pop brasileira vai estar em um único lugar, o Canecão, a preços módicos diante de tanta qualidade.

1.6.07

Nação Zumbi de casa nova

Essa É Pra Tocar no Rádio


       Saiu na Folha, e de lá para os blogs rapidinho. Depois, chegou o email da assessoria de imprensa da Deck confirmando. O Nação Zumbi, vai gravar o quinto disco (contando com o póstumo) na quarta gravadora. Na Deck.
       A história da relação do Nação com gravadoras, em versão bem resumida, precisa ser contextualizada. Ainda com Chico Science, executivos da Sony acreditavam que aquele som novo de Pernambuco poderia ser o novo axé. Em uma história que até hoje é reavaliada pelos integrantes da banda, a gravadora botou Liminha para produzir o Da Lama ao Caos, e o entrosamento entre artistas e produtor não funcionou. Era difícl registrar os graves das alfaias, não havia microfone no Brasil para isso, enfim. O disco não vendeu o suficiente para fazer frente a Daniela Mercury, Carlinhos Brown e Olodum. E os pernambucanos tinham música em novela...
       Mas todo mundo torcia pelo CSNZ, e lá foram eles gravar o Afrociberdelia, com grana para convidados, naipe de metais, e produção de Bid ao lado da própria banda. A gravadora pressionou para incluir Maracatu Atômico no repertório (música que só voltou a ser tocada ao vivo depois da morte de Chico há pouco tempo, já na turnê do Futura). E forçou a inclusão de uma série de remixes no disco. Agora sim, a banda chegava ao disco de ouro.
       O terceiro era muito esperado, Chico comentava que estava compondo um frevo, vinha ouvindo muita música eletrônica (trance, dub e jungle, e isso há dez anos) comprada nas turnês pela Europa. A própria carreira da banda fora do Brasil chamava a atenção, tanto pelos sucessos quanto pelos encontros e pelo que isso renderia ao virar som. Mas um acidente interrompeu a expectativa.
       A banda ficou sem rumo, pensando até se valia a pena seguir. Lúcio Maia foi abordado para participar do Soulfly, um dos frutos das brigas que separaram o Sepultura. Não aceitou. E o Nação Zumbi lançou uma homenagem póstuma a Chico, ainda assinando com o nome dele. Seria o último disco pela Sony. E o primeiro da história que começava ali.
       O intervalo até Rádio S.Amb.A demorou, principalmente na cabeça dos fãs, e o disco mostrou uma virada importante: saíam as cores, entrava um ar sombrio, as tripas do samba. A gravadora YBrazil permitiu a gravação de um belo trabalho, mas a distribuição tornou muito difícil comprar, divulgar ou mesmo fazer com que as pessoas conhecessem o, agora sim, Nação Zumbi.
       Era a hora de partir para um lugar de mais fôlego, que não fosse uma volta atrás a experiência estranha da passagem pela Sony, na década de 90. A jovem Trama seria o lugar perfeito. Mantida por um grupo ligado a tíquetes de alimentação, não tinha a urgência por lucros de uma multinacional, e era conhecida pela liberdade com que lidava com artistas. Veio o Nação Zumbi, disco encalorado, amarelo, suado, pesado, empoeirado. E depois o Futura, preto e branco, frio, seco, praticamente uma sala de projeção onde se ouve até o tec-tec-tec do projetor.
       O Nação Zumbi é hoje uma banda respeitada, com vozes aqui e ali ressoando o tal Melhor Banda do Mundo. Até quem não acha, entende o argumento. Ver Lúcio Maia ou Puppilo tocar é uma experiência única. Du Peixe imprimiu a sua personalidade ao som, a voz que você enxerga é a cara da banda. A alegria religiosa de Toca Ogan, o baixo cada vez mais de personalidade de Dengue, a porrada e o suingue de Gilmar Bola Oito...
       E eles agora partem para uma gravadora com forte trabalho e aproximação da tv. O Nação Zumbi tem tudo para aparecer mais, entrar em novas audiências. Resta saber se as poucas entrevistas e relacionamento bissexto com veículos de comunicação vai mudar. Se depender do novo chefão João Augusto...

       O que mais interessa: o disco novo sai em outubro, se não atrasar.

Entrevista: CEO's do Last.FM (Martin Stiksel e Felix Miller) * parte 2

Continuando a entrevista de respostas curtas com os dois então-presidentes do Last.FM, feita em abril, antes da compra feita pela CBS. Para ler a parte 1, clique aqui.
(por Bruno Maia)


:: Especialmente nos Estados Unidos, vem ocorrendo um aumento nas punições pela prática do jabá pra rádios. Mesmo sem revelar nomes, vocês já foram procurados por alguma empresa propondo coisa parecida ao Last.FM?

Martin Stiksel: Não.

- Qual é a importância dos pequenos selos e dos artistas independentes para o Last.FM? Você tem uma porcentagem do que é busca por artistas de gravadoras e o que é por independentes?

MS: Os selos independentes foram os primeiros a nos dar suporte e nós trabalhamos com muitos deles atualmente. Há pouco tempo, anunciamos a parceria com o The Orchard and IODA, dois dos maiores agregadores digitais de conteúdo independente. Nós amamos esse setor! ;)

:: Recentemente, vocês criaram a versão em português dos services da Last FM e há muitas especulações sobre a abertura de um escritório no Brasil. Quais são os planos para o país e para a América Latina nos próximos anos?

MS: Fiquem ligados e aguardem! ;)

:: Índia, China, Brasil, Rússia, Polônia e Turquia são os países que registram o maior crescimento da Last.FM. Todos eles têm muitos problemas com pirataria e a venda de CDs está em queda acentuada. Você percebe alguma relação entre esses fatos?

MS: Eu acredito é que o modelo do Last.FM eventualmente pode ser a melhor maneira de monetizar a música nesses mercados.

:: Tal qual os tradicionais modelos de rádio, a Last.FM trabalha com a centralização da informação em um único pólo. O usuário pode dizer o que ele quer, mas não escolher diretamente aquilo que gostaria de ouvir. Com o crescimento das redes wi-fi e a convergência de mídias cada vez maior em pequenos aparelhos, você acredita no nascimento de uma enorme rede de rádios peer-to-peer, onde cada um possa ouvir exatamente o que quer, na seqüência que achar melhor, na hora em que desejar?

MS: O armazenamento de dados está se tornando algo cada vez mais barato e mais barato. É concebível pensar que você vá poder ter um iPod que armazena milhões e milhões de músicas. Então, quem precisará de p2p?

:: Modelos como o de vocês e as redes p2p podem extinguir o que conhecemos hoje como “broadcasting”?


MS: Não acredito. O “broadcasting”sempre estará por aí, porque grandes programas são produzidos desses jeito. Haverá uma redefinição das fatias de mercado, mas não uma “morte”.

:: É evidente que existe uma nova geração de criadores de negócios bem-sucedidos na Internet, depois da chamada “primeira bolha”. Vocês, YouTube, Revver, Pandora, MySpace, Meebo, Napster, BitTorrent, Facebook, etc... A maioria é baseada nos EUA. Vocês têm alguma relação pessoal com esses caras?

MS: Como você disse, nós estamos em Londres. Realmente não conhecemos ninguém pessoalmente. ;)

:: A maioria das plataformas que usam a internet como mídia desenvolvem conceitos que misturam informação e comunidade de relacionamentos. Que tipo de tendência é essa?

MS: As mídias tem que ser nesse contexto. Senão, você não encontra o que quer e, conseqüentemente, não usa. Os usuários do Last.FM trabalham com a música nesse sentido, então todo mundo se beneficia do conhecimento de outros usuários.

:: Quando vocês tinham bandas, eu presumo que vocês deviam tentar assinar com uma grande gravadora. Se vocês tivessem 16 anos hoje em dia e fossem montar o primeiro grupo com os amigos, acreditam que ainda pensariam daquele jeito ou hoje a internet é suficiente para quem está começando?

MS: Agora que existem sites como o Last.FM por aí, você realmente não precisa mais de uma grande gravadora! ;)


Enfim, a casa própria
Perda :: Dorival Caymmi
Dorival Caymmi :: Compilação de vídeos
Show: Momo, no Cinemathèque
Site:: OEsquema
Agenda :: Momo, Hoje!
Aviso: Última Digital Dubs na Matriz
Entrevista: Fabrício Ofuji, produtor do Móveis Col...
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