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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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30.1.06

É hoje o dia...

O carnaval está chegando e os versos de um dos mais belos sambas de enredo da história servem para descrever o dia 30 de janeiro de 2006. Com uma onda (ou seria uma tsunami) em volta, sai hoje o primeiro disco do Arctic Monkeys. Há muito tempo já escrevo aqui sobre eles, mas sem cometer o exagero e o excesso de certos colunistas por aí. O disco é aguardado pois a banda surgiu como o primeiro grande fenômeno realmente significativo da era do mp3. Mesmo sem ter nenhuma gravação oficial lançada, a banda galgou postos no mercado do exagero que é o rock inglês. Hoje, o show mais disputado, e quiçá mais caro, da ilha da rainha é o desses garotos de Sheffield, que não chegaram aos vinte anos ainda.

Já que este site está em clima de singles, vou (re)dizer que o primeiro deles é sensacional. "I bet you look good on the dancefloor" é uma das melhores músicas desse novo gênero que tomo licença para chamar de rockdance, ou rock para dançar, com o qual ainda tenho certa dificuldade para me relacionar, apesar de elas estarem melhorando desde que fui ao show dos Strokes e ouvi o segundo disco do Franz Ferdinand. Noel Gallagher disse em entrevista recente a NME que o nome da música é sensacional e que queria ter escrito uma letra com este título. E lá, cê sabe, Noel é o Romário da parada. Quarentão e o cara.

Na mesma entrevista, ele diz ainda que "eles parece garotos de 11 anos de idade, assim como os seus fãs. Não se pode vencer isso. É o mesmo que acontece com o Libertines. Eu fui ao show do Libertines e senti algo que não percebia desde que nós roubamos os palcos em 1994 e aqueles momentos se tornavam os mais importantes das vidas daquelas pessoas." Modéstia nunca foi o forte do rapaz, mas o sentimento descrito dá noção do potencial que o Arctic Monkeys traz consigo.

A segunda faixa do single (que tem uma ótima capa, como você pode ver lá em cima), Bigger Boys anda Stolen Sweethearts também é muito boa. Traz a imaturidade instrumental da banda misturada com a vontade de esboçar uma assinatura em algo que nem eles sabem direito o que é. Não é a toa que o disco que sai hoje se chamará "Whatever people say I am, that what I'm not". A terceira e última faixa é a instrumental Chun-Li Spinning bird kick. Não se se ela foi feita realmente para a personagem homônima do Street Fighter, mas se foi, cabe perfeitamente de trilha para o jogo. Dá para ouvir e imaginar aquelas cenas finais que aparecem e ficam em loop na tela depois que se zera o jogo.

O sucesso dos rapazes é tanto que o segundo single também saiu antes do hoje-lançado disco. A música escolhida foi "When the sun goes down" que está mexendo com a discussão sobre a prostituição na Inglaterra. Falarei mais depois que ouvir o single inteiro. Como eu ainda não o tenho, fica lá pra frente.

O disco cheio, que chegou hoje às lojas de lá, já está em qualquer programa de download de música. Pode catar e tirar suas conclusões. Hoje era só para falar do primeiro single e registrar o lançamento do 'disco do ano'... Será?

Whatever...

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Falarei também mais sobre o single do Franz Ferdinand.

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Mais uma frase de Noel em recente entrevista para a NME. A intenção era provocar o Bloc Party e outras bandas. Tire suas próprias conclusões.

"A band that constantly describes good music as interesting, taht sickens me to my fucking stomach. And for a band that's constantly describing good music as interesting... music's not supposed to be interesting! Music's supposed to make you want to fight or fuck! What the fuck'all that about? Dictionaries are interesting, The History Channel, that's interesting. Music's supposed to be from the bollocks to the heart"

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Tomou?

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Lá, a frase foi direcionada ao Bloc Party. E se fosse aqui?

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Atrasado, mas vai o parabéns ao cara! Quarentinha arrebentando pro meu Vascão!

29.1.06

A importância dos singles

Comprei o single de "Do you want to" do Franz Ferdinand. A música já está estouradíssima e é uma das melhores composições do rock neste século, pelo menos até agora. Não, não sou fã incondicional da banda, apesar de curtir bastante o trabalho deles. O fato é que uma visita rápida a uma megastore dessas de shopping na tarde de ontem me colocou a frente com o produto de 4 músicas a R$9,90. Numa espécie de deja vu, tive a sensação de voltar aos tempos (1997, 1998) em que a equiparação do real com o dólar me fazia comprar singles em sites americanos como hoje eu compro cd's usados em sebos. Ontem, por aquele preço, eu podia comprar, de novo, um single atual, da música do momento, e ouvir mais três faixas do que aquela banda que eu curto está fazendo agora, sem cheiro de naftalina.

O disco saiu pela Trama, que é a distribuidora dos caras no Brasil. Esse é um caminho que o mercado deveria estar mais atento, principalmente na hora de tentar promover uma renovação do cenário musical brasileiro. No caso do rock e de toda a música pop, principalmente. Até a década de 80, era comum as bandas lançarem os compactos-duplos e simples antes de terem um álbum inteiro posto ao crivo popular de consumo. Quem chegou ao mercado na década de 90 não teve essa chance. O formato morreu no Brasil com o advento do CD como mídia. Virou apenas material de divulgação enviado paras as emissoras de rádio. A razão disso não é muito clara, já que no resto do mundo os singles nunca foram abandonados e nem tão pouco tiveram dificuldades para sobreviver pelas próprias pernas.

Para quem começou a consumir música mais intensamente na década de 90, a existência dos chamados 'compactos-simples' ou 'compactos-duplos' era uma espécie de lenda. Eu, por exemplo, não sei qual é a exata diferença entre eles. Imagino que um tenha o dobro de alguma coisa que o outro, certo?

Foi na época da cotação baixa do dólar que minha geração começou a se relacionar com os 'singles importados'. Tempos idos de 1995-1998. Era muito fácil ter acesso a todos os singles do Oasis, por exemplo, e conhecer os lados b's sensacionais que a banda lançava. Muitas vezes eram até melhores do que o próprio álbum. Lembro-me que cheguei até a ver encarte de publicidade da Mesbla ou das Lojas Americanas anunciando a venda de single do Oasis (no caso, era o de "Don't look back in anger", que até hoje não tenho e me culpo por não ter comprado naquela ocasião por R$5,90. É um dos que falta na minha coleção).

Ter encontrado este single nacional (sim, ele foi produzido na Zona Franca de Manaus), por um preço acessível, foi um sopro de nostalgia pessoal e incompreensão do porquê de as gravadoras nacionais não voltam a fazer mão deste expediente. Produziria-se discos mais baratos, diminuiria o peso do sucesso obrigatório imediato e avassalador que cai sobre os ombros de todas as bandas novas, e, conseqüentemente, se daria chance a mais gente. Quanto mais 'tiros' a gravadora der, mais chance ela vai ter de acertar no seu alvo: a figura abstrata do 'mercado'. Seria tão bom pra todo mundo... Difícil entender porque essas coisas não são levadas adiante.

22.1.06

Entrevista Dé Palmeira

"O trabalho não é só do artista que está na capa do CD, é preciso uma equipe boa pra um CD ficar bacana". A frase é de Dé Palmeira, atualmente diretor, produtor e, sobretudo, baixista do elogiado (e muito bom mesmo) show/dvd/cd "Adriana Partimpim". O sobremusica assina embaixo destas aspas.

Membro da formação original do Barão Vermelho, integrante seminal do movimento que fez do rock, música pop no Brasil, na década de 80, ele é dono de uma história e uma bagagem que nos cativou o interesse em entrevistá-lo. E devo admitir, sempre que via a dancinha e a pose do Dé nos vídeos e fotos das antigas do Barão, ele sempre me despertou curiosidade. A conversa foi feita ao longo de imensos e-mails no mês de dezembro, com alguns ajustes já em janeiro.

Esta é a primeira de uma série de entrevista que pretendemos fazer com músicos como ele, que de tanto acompanhar bandas e turnês nas últimas décadas, são testemunhas oculares e auditivas de boa parte da história da música brasileira, nem sempre ouvidas. É disso que vamos atrás...

sobremusica: Você começou a 'carreira' de músico no rock, numa época em que não se pensava muito em se ter uma 'carreira' de roqueiro no Brasil, já que o cenário não favorecia. O que vocês tinham em mente, pretensões e objetivos, quando formaram o Barão?
Dé Palmeira: Hummmm...bom, ninguém naquela época tinha pretensão nenhuma de começar uma "carreira de roqueiro", como você disse. Éramos apenas adolescentes, amadores querendo tocar. Eu tocava em duas ou três bandas simultaneamente, acho que o Frejat também tinha outras bandas... enfim, a gente só queria se divertir. Tem um episódio engraçado que já foi falado algumas vezes mas eu acho que é legal contar. O Léo Jaime tinha feito um ensaio conosco antes do Cazuza. Como ele não gostou muito do som, sugeriu o Cazuza pra vaga de vocalista dizendoque era uma cara super legal, gente fina e, " filho do dono da gravadora Somlivre". Ele olhou pra gente e ficou esperando a nossa reação, mas nós nem ligamos, parecia que ele estava falando grego. Ninguém estava nem aí pra isso, só queríamos que o vocalista fosse maneiro e gostasse do nosso som. Ninguém pensava em gravar LP, em fazer carreira, nem se o pai dele tinha uma gravadora, nada disso. É uma coisa que mudou muito, tempos depois os caras já montavam uma banda querendo ficar ricos e famosos!

Existia no Rio de Janeiro naquela época, um lugar que fez toda a diferença pras bandas que estavam começando a tocar e as que já tocavam e faziam o circuito "undergound". Chamava-se "Circo Voador" e foi, todos sabem disso, o berço desse movimento chamado "Rock Brasil" ou "BROCK" (palavra que abomino)!

(Dé é o segundo da esquerda para a direita)
O Circo fez a diferença porque era o lugar mais democrático do mundo. Era um palco onde aconteciam shows de música, peças, dança, performances etc. Ele desempenhou um papel fundamental na época, como plataforma de lançamento, laboratório, e milhares de coisas que fizeram com que todo aquele pessoal que tinha a sua banda, o seu grupo de teatro, etc, pudesse trabalhar e ser visto pela cidade inteira, pelo Brasil inteiro. Hoje isso já não acontece mais. Não que eu ache que o Circo de hoje devesse, obrigatoriamente, fazer a mesma coisa (embora pudesse), mas não existe mais um lugar assim no Rio e, com isso, não há mais espaços pra escoar uma enorme produção artística, cultural e de entretenimento. Para as bandas então é pior. O Ballroom, no Humaitá, que foi demolido, era o único palco decente que tinha na zona sul. Nos outros bares é preciso pagar pra tocar. Para um grupo, ou artista, que está começando isso é mortal. Os empresários da noite não têm o menor interesse nisso. Talvez, agora, com a grande movimentação dos bares da Lapa, isso seja atenuado um pouco. Então, olhando em perspectiva, a minha geração teve uma oportunidade de ouro. Um lugar pra tocar quase de graça. Isso, definitivamente, faz diferença.

sm: Como foi a sua entrada no grupo, já que normalmente só se sabe/fala da entrada do Cazuza?DP: Eu entrei no Barão antes do Frejat e do Cazuza. O Maurício e o Guto eram meus conhecidos e me chamaram para uma audição. Cheguei lá toquei, eles gostaram e me convidaram pro time.

sm: Outra questão é sobre a sua saída da banda em 1990. Isso foi perguntado para você em um comentário do blog do Antonio Carlos Miguel, mas a resposta ficou no ar. O que aconteceu e quais eram seus planos na época?
DP: Uau! Só assunto novo? Bruno não faz isso comigo!! ;-)
Decidi me afastar da banda por motivos musicais. Você quer detalhes né? Bom, o que eu posso dizer é que eu já não via muito futuro pra mim sendo apenas músico de uma banda de rock no Brasil. Achei que, pra mim, já estava bom aquela experiência e fui tratar da minha vida.

(Dé ao centro)


sm: Sobre suas composições. O seu nome, como o de vários outros parceiros doCazuza, ficou um pouco de lado na biografia dele, devido ao enorme sucesso da assinatura Cazuza/Frejat. Mas você esteve ao lado dele em algumas pérolas,como "Minha flor, meu bebê" (a minha favorita), "Mulher sem razão", "Mais feliz" e "Preciso dizer que te amo" - essas três últimas em parceria, também, com Bebel Gilberto. Não sei se existem muitas outras suas com ele. Depois da morte do Cazuza, me lembro agora de "Pense e dance", com o Frejat e o Guto Goffi, se não me engano. Em suma, você é autor de poucas canções, mas só manda clássicos. De que forma seu lado 'compositor' continuou na década de 90 e, se você puder, comente o processo de criação desses 'clássicos'.
DP: Bom, não acho que meu nome tenha ficado assim tão de lado na biografia do Cazuza. O Frejat foi o seu principal parceiro, autor, ele sim, de verdadeiros clássicos que mudaram o perfil da musica brasileira e é natural que se dê mais atenção à dupla do que às outras parcerias. Minhas composições com Cazuza são bem poucas, na verdade nem sei quantas, mas não devem chegar a dez. Trabalhamos mais depois que ele saiu do Barão e nos tornamos mais próximos. Duas delas viraram "standards" nacionais como "Preciso dizer que te amo", que tem várias gravações com Marina, Léo Jaime, Bebel, Emílio Santiago, Cássia Eller, Zizi Possi etc... A outra é "Mais Feliz" que na gravação da Adriana Calcanhotto se tornou um inesperado hit radiofônico. Sob o processo de criação dessas músicas, o livro que a Lucinha Araújo fez chamado: "Cazuza, Preciso dizer que te amo" traz entrevistas e comentários sobre várias parcerias inclusive essas.

(Trecho retirado do livro Preciso dizer que te amo, Ed. Globo)

sobre 'Minha Flor, meu bebê: 'Tive muita dificuldade em terminar essa música. Já estava com a letra, fiz a primeira parte e não conseguia terminar a segunda. Cazuza começou a gravar e me cobrava e eu, nada. Meu irmão, o Ricardinho, que é guitarrista, estava tocando com o Cazuza no disco e também me trazia os recados: cadê a música? Um belo dia, meu irmão chega em casa e diz: terminei a música para você! Como? Ele estava no estúdio gravando, precisavam da música e como eu não comparecia, terminou pra mim. Foi a música que me deu menos trabalho, porque eles fizeram para mim. E eu e o Cazuza, malandramente, resolvemos não dar parceria para ele. O Ezequiel [Neves, produtor] sacaneava, porque a música ficou linda e ele dizia: parece aquelas coisas do Lupícinio Rodrigues, famoso por pagar cachaça para alguns e ficar com a música. Mas, enfim, o Ricardinho é meu irmão, brother mesmo, uma flor de pessoa e ficou tudo certo.)

sm: Considerando sua resposta no livro, me vem uma pergunta. Vocês fizeram isso com seu irmão só de sacanagem?! Seu irmão não ficou muito puto com vocês não?! hahahah...
DP:Não cara, é claro que não teve nada disso. O Ricardo é um gentleman e me ajudou a finalizar a seqüência de acordes finais. A história é longa e nem sei se vale a pena... Na entrevista pro livro ficou parecendo sacanagem, mas não foi assim que aconteceu exatamente. (sabe como é imprensa né? hahahah...) Eu na época achei tudo certo mas depois percebi deveríamos ter dado aparceria.
sm: E nos anos 90?
Nos anos 90 minha produção musical foi, como de costume, modesta. Trabalhei um pouco com o Fausto Fawcett, que eu acho genial, e fiz algumas coisas esporádicas com o Alvin L e com o Humberto Effe. Também compus com o Gil e o Liminha a música "Quero ser seu funk" do disco "Parabolicamará" de 92. Nessa época eu me afastei muito do ambiente Pop/Rock e trabalhei como DJ de uma casa noturna obscura no Rio. Tocava às quintas e sábados. Meu contato com musica era basicamente esse.
sm: Como foi esse trabalho de DJ’s? Que tipo de DJ vc era? hehe...
DP: O Gustavo Corsi (guitarrista dos Picassos Falsos, Marina, Gabriel Pensador, etc...) me convidou. Ele já era DJ da casa e me chamou pra formarmos uma dupla. No começo queríamos tocar apenas musica-negra-americana-dos-anos-70. Depois a gente viu que era difícil de ficar só um tipo de musica, abrimos para uma seleção mais variada e tocávamos de tudo. De Motown a Clementina, e por aí... Foi um período onde eu aprendi bastante e revi muitos conceitos, mas nunca pensei em ganhar a vida com esse ofício.

sm: Numa entrevista recente que fiz com Wagner Tiso, ele comentava das dificuldades em se criar um 'clássico' nos dias de hoje, seja no cinema, sejana música, ou em qualquer outra manifestação artística. Ele atribuía isso a velocidade do consumo da arte nos dias de hoje. Você, como autor de alguns 'clássicos' (hehe) também enxerga assim ou acha que não isso não mudou?DP: Eu li a entrevista no seu site, o Wagner é um mestre e sabe o que diz. Ele tem uma certa razão quando atribui esse tipo de coisa aos novos hábitos de consumo de massa. A maneira de se ouvir musica mudou, ninguém mais tem tempo pra ouvir um disco por inteiro.

Os próprios artistas têm culpa nisso também. Há uma porção de Cd's onde apenas duas ou três músicas são boas. O resto é embromação.

O download de musicas é uma coisa sensacional, na minha opinião. Mas também acho que isso faz com que as pessoas prefiram baixar uma canção de cada artista em vez do álbum inteiro. Acho também que ainda estamos numa fase de transição, onde os formatos ainda não estão definidos. A tecnologia de transmissão de dados ainda é cara e lenta. Só quando isso for sendo absorvido pela indústria é que poderemos ter um panorama mais definido.

Com as novas tecnologias sendo aperfeiçoadas, você vai poder comprar uma canção pelo celular em qualquer lugar que se esteja.

sm: Depois de sair do Barão, você chegou a tocar com o Lobão e ainda teve uma outra banda, a Telefone-Gol. Nessa época em que formou esse grupo, você pensava em voltar a viver a rotina de uma banda ou isso foi só uma brincadeira?
DP: Quando eu decidi sair do Barão, já ensaiava com o pessoal do Telefone-Gol. A idéia era montar a banda e sair tocando pelo Brasil. Gravamos uma demo na Warner e outra na EMI, mas os tempos estavam mudando mesmo. O cenário já não era mais o mesmo e não existiam mais os lugares pra tocar no Rio. O país passava pela crise do Plano Collor ou seja, a maré não tava pra peixe. Como ninguém se interessou pelo trabalho ficou difícil levar a banda adiante. Ou talvez o trabalho não fosse lá essas coisas mesmo... Haha! Logo depois, fiz parte da banda do Lobão na turnê que comemorava os seus dez anos de carreira e fizemos um show muito legal no Circo Voador. Mais tarde, junto com o Fausto Fawcett e Carlos Laufer montamos a "Falange Moulin Rouge" que era a banda que acompanhava o Fausto e as Louras no show "Básico Instinto". A banda tinha o Dado Villa-Lobos, João Barone, Laufer e eu. Gravamos um CD pela Sony e fizemos três anos de turnê. Ou seja, rotina de banda sempre foi o meu forte.
sm: Depois, se não estou enganado, você seguiu a vida de diretor musical e músico de apoio. Tendo sido integrante de uma das bandas mais famosas do país, como você enxerga o fato de passar a trabalhar por algoque vai levar a assinatura de outra pessoa?
DP: Depois de terminar a tour "Básico Instinto", eu fui “trabalhar” de DJ, como já disse, e fiquei nessa por uns três anos. Só depois é que voltei a trabalhar como músico. Gravei e toquei ao vivo com o Lobão novamente nas turnês dos CD "Noite” e "A Vida é Doce". Toquei também com o Kid Abelha durante dois anos e fiz alguns shows com o Gil nessa época.
O trabalho não é só do artista que está na capa do CD, é preciso uma equipe boa pra um CD ficar bacana e eu me sinto orgulhoso de fazer parte de uma assim hoje em dia. Todas as experiências que eu tive me ajudam no meu trabalho atual. Ter feito parte do Barão me traz vantagens porque eu entendo bem os dois lados.

sm: Depois do Barão e Telefone-Gol, seus principais trabalhos nem sempre estiveram ligados ao rock, certo?
DP: Não? Não sei! Mas isso é ruim? Isso é bom? Minha humilde opinião: sou um músico brasileiro, nascido em 1965, portanto pós-tropicalista e não posso me dar ao luxo de, em 2006 me interessar por um gênero apenas. O Brasil é imenso, o mundo é vasto e não podemos deixar de olhá-los com curiosidade.

sm: Ainda há espaço para o rock na sua vida hoje em dia?
DP: Fala sério! Que pergunta é essa??!! ;-) Outro dia fui convidado pra produzir o DVD de uma dupla romântica gaúcha e acabei de fazer a trilha sonora de um documentário onde foi só roquenrol: baixo, bateria e guitarra! Porradaria franciscana! Mas acho que sempre, em tudo o que eu fizer terá um pouco de rock. sm: Por mais esquisita que possa ter soado a última pergunta, acho que ela não é de todo. Pergunto isso pois o próprio Antonio Carlos Miguel é um que já escreveu que o rock já nao lhe apetece tanto, bem como o Marcelo Camelo o fez numa entrevista recente, e outras pessoas que vêm no rock uma porta de entrada para a música, mas ao longo da vida, vão se afastando, colocando seus interesses em outros focos...
DP: É, mas não é o meu caso. Eu gosto muito de tocar e ouvir rock, não é o único gênero que eu aprecio mas eu não deixei de gostar disso porque passei a ouvir outras coisas. Mas eu entendo o ACM e o Camelo, às vezes é preciso por o rock no seu devido lugar! ;-)


sm: Atualmente, como falamos, você trabalha com a Adriana Calcanhotto, no espetáculo/disco/dvd "Adriana Partimpim". Você foi o produtor do disco, diretor-artístico do show, além de tocar na banda. Quais foram as referências que vocês utilizaram nesse trabalho, já que há tanto tempo, acho que desde os trabalhos do Toquinho nas décadas de 70 e 80, que grandes nomes da música brasileira não se aventuram nesse formato? Quais as principais diferenças que você enxerga entre o que vocês fizeram e o que se fazia há 20 anos para as crianças, que no caso éramos eu e meus amigos... (hahaha)?
DP: É, esse foi um dos trabalhos mais bacanas que eu participei em toda minha vida. Na verdade não trabalhamos com muitas referências, as canções foram arranjadas e produzidas de uma maneira muito livre. O que houve de fato foi um entendimento muito grande de toda a equipe do tipo de atmosfera que a Adriana queria imprimir. Não só a banda, mas os diretores, o cenógrafo, o iluminador, os técnicos, o video maker etc... Todos os profissionais que participaram foram contagiados pelo mesmo entusiasmo e vontade de criar sem clichês e prisões e armadilhas que o mundo "POP" inventa pra si mesmo. Não vejo muita diferença nesses trabalhos, acho que existe, sim, uma coisa que os une que é a maneira com a qual eles abordam o universo infantil, sendo lúdico, mas não menosprezando nem excluindo nenhuma faixa etária.
sm: Partindo da sua frase:"criar sem clichês e prisões e armadilhas que o mundo "POP" inventa pra si mesmo."... Quais desses clichês são os que mais frequentemente aparecem no seu processo de criação e aos quais vc, frequentemente, precisa se policiar, se é que isso é tão racional assim e se é que existe um...
DP: Talvez a pior coisa seja ficar batendo na tecla do: "isso é rock" ou "issonão é rock", "isso é MPB", "isso é MTV"!! ;-)

sm: Como você falou de se interessar por outros gêneros, sobre misturar o rock com essa coisa brasileira e eu já li em algumas coisas sobre o seu interesse pela bossa nova, surge a pergunta... Na minha opinião, o Cazuza foi um dos que mais se aproximou de uma fusão do rock com este gênero, principalmente em "Faz parte do meu show", que traz aquela cadência rítmica bem clara da bossa nova e uma letra que apela para figuras visuais e textuais do rock, como “te levo pra festa e testo teu sexo/ com ar de professor”. Como se dá e qual é a sua relação com a bossa nova, já que ficou evidente que você, querendo ou não, hahah, é um 'roqueiro' ?
DP: É, acho que foi a primeira vez, depois de muito tempo, que uma bossa nova estourou nas rádios."Faz parte do meu show" tem arranjo do Waltel Blanco que é um maestro da bossa nova. Fez arranjos pro João Gilberto e etc... Não é exatamente uma mistura, mas tem suas peculiaridades como a seqüência de acordes maiores sem dissonância, coisa que não existe muito em bossas. Sempre ouvi bossa nova desde criança e isso foi uma influência muito grande. Gosto imensamente de João Gilberto e Tom Jobim. Outro dia ouvi uma frase que dizia assim: "a bossa nova era tudo o que o Brasil devia ter sido e não foi"! E acredito nisso piamente, houve um desvio de rota e deu no que deu.

sm: Pra terminar, o Caetano Veloso, no Tim Festival, comentava que shows de Strokes e Kings of Leon o atraíam pois ele tinha curiosidade em saber onde tinha ido dar tudo aquilo que ele viu surgir quando estava na Inglaterra, no fim da década de 60 e que, de certa forma, ele trouxe para cá, se não na música, pelo menos numa 'postura rock'n roll'. Você, como participante ativo do movimento que fez o rock se tornar música pop no Brasil, como enxerga a renovação atual do gênero, no país e fora dele, se é que você acompanha e tem interesse nisso?
DP: Claro que eu tenho, eu estava até junto do Caetano em alguns desses shows! Antes de mais nada é preciso entender que o Rock não nasceu na Inglaterra nos fim dos anos 60, e sim renasceu lá no começo dos 60. Vi os Strokes e eles são uma banda legal principalmente ao vivo, mas não fazem um som propriamente novo. Vi o Kings of Leon, gosto do Kings Of Convenience, gostei do show do Vincent Galo... Mas entre essas bandas prefiro o Flaming Lips, (só não fui no “Claro Q é Rock” porque estava trabalhando) White Stripes e o Jet, que é outra banda que acho muito legal, fazem um som super calcado nos anos 60 /70 e são muito bons. Acho que tem coisas muito boas.
E você disse bem: Rock no Brasil é musica POP. Aqui no Brasil temos a Pitty que já é uma "star", o Cachorro Grande como a banda darling da MTV. Vejo o pessoal do Leela aparecendo mais, Autoramas, etc. Mas eu acho que o pessoal aqui ainda prefere emular as bandas de fora quando pra mim, o mais interessante é misturar tudo e criar um som próprio. Os Paralamas são a única banda da minha geração que misturou a musica brasileira com o pop rock. Eu tiro o meu chapéu pra eles. Acho que ser um "roqueiro" (detesto essa palavra) é um pouco mais do que só tentar imitar o som que vem de fora. Nesse sentido o recado dos Tropicalistas nos anos 60 e do Chico Science nos 90 ainda não foi completamente entendido.
sm: Concordo...
DP: É, a coisa toda tem que ser diferente, e vou te dizer, isso me influenciou muito quando pensei em largar o Barão. Esse papel de "roqueiro brasileiro" me incomodava muito.

sm: Só uma observação dentro dessa sua resposta. Acho que esse formato de rock de bandas, com um trabalho autoral explodiu, de fato, na Inglaterra e no início da década de 60. E foi com esse 'formato inglês' que o rock ‘explodiu’ no Brasil na década de 80, concorda?
DP: Não sei, pode ser. Isso já rolava nos USA antes, mas lá era "Som de Preto e Favelado". Quando as bandas inglesas surgiram, elas faziam covers dos artistas americanos. Não tinha nada de autoral, depois é que eles se apropriaram do estilo e o recriaram de uma maneira mais sutil e mais bacana. Nos anos 80, no Rio, a influência era o "Pós Punk"e a "New Wave". E eu vou te contar, muita gente nessa época achava que o rock tinha começado em 75 com a explosão do Punk na Inglaterra!! ;-)

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Falando em novo rock, falando em Dé Palmeira, falando em Barão Vermelho, em Circo Voador e em 2006, me veio a cabeça aqui aquela música do Barão, "Milagres". "Se me perguntam o que é que eu faço/ e eu respondo/ Milagres". Clica aqui e saiba mais sobre um rapaz milagreiro, que não é Paulo Coelho.

15.1.06

Los Hermanos 4, o show

Enfim...

Bati a primeira dobra do mar e fui dar bandeira qualquer. Depois de me recusar a ir nos primeiros shows cariocas da turnê do quarto disco do Los Hermanos, fosse por achar que a onda hermética e egocêntrica da banda tinha ultrapassado o talento do grupo em seu último trabalho (no caso da apresentação do Claro Hall), fosse pelos preços abusivos (no Noites Cariocas), fosse pela distância (nos shows das Lonas Culturais), enfim, fui ao show.

A razão da ida foi a confluência de acontecimentos opostos a todos os que me impediram de ter ido até então:
1) Sim, continuo achando o disco egocêntrico e hermético, mas já vejo alguns momentos de grande talento. Além disso, depois de ouvir registros ao vivo desta turnê, tive a sensação de que o show era melhor do que o disco e que o disco ficava mais interessante no show.

2) O preço bem em conta: R$25,00, o par de convites. R$12,50, portanto. Como? Graças a uma amiga que ganhou uma promoção da Rádio Cidade e me passou seu prêmio em troca apenas do valor que ela já havia pago por seu ingresso, antes de saber que a sorte a escolheria.

3) A facilidade, proximidade e aconchego do Canecão.

Conclusão desnecessária: quando a música é oferecida de maneira acessível, ela se torna inevitável e desejada.

Dado isso, o que importa nesse texto é dizer que o carinho que a banda ainda recebe dos fãs é ímpar. Não se vê nada parecido em termos de cumplicidade e confiança no cenário pop brasileiro. Isso é resultado do trabalho construído ao longo de três discos e que ainda ressoa.

(Guarde a próxima frase até o fim deste texto. O show da turnê "4" Los Hermanos é bom.)

O cenário remete à pintura de Rodrigo Amarante que também está na capa do disco. Como já dissera em textos anteriores, Amarante supera Camelo nesse álbum, com músicas, em sua maioria, generosas com o resto da banda e com a coragem de trafegar entre experiências com diferente formas de linguagem nas suas letras. Desde o barroco aparentemente vazio, porém delicioso, em "Paquetá" (Ah, se eu mereço ouvir outro não,/ quem sabe um talvez/ ou um sim, eu mereça enfim (...) que desfeita intriga, o ó/ um capricho essa rixa;e mal/ do imgróglio/ que quiprocó/ e disso, bem/ fez-se esse nó/ e desse engodo eu vi luzir/ de longe o teu farol"), até os clichês pop's da também deliciosa "O vento" (Posso ouvir o vento passar/ assistir a onda bater/ (...) não te dizer o que eu penso/ já é pensar em dizer/ (...) o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer/ (...) se a gente já não sabe mais rir um do outro/ meu bem, então o que resta é chorar"). Essa superioridade de estúdio não se confirma no palco, onde a discrição e as poucas palavras de Camelo ainda soam como um dos grandes charmes da banda.

A idéia de que a banda está "mais fechada em si", que poderia ser a causa do tal hermetismo do disco, ressurge no palco. Camelo, Amarante, Barba e Bruno estam, fisicamente, mais pertos uns dos outros. Juntos, eles ocupam pouco espaço no grande palco, formando um pequeno quadrado (referência ao nome do disco?), como se quisessem simular um clima intimista. Unidade? Talvez. Mas certamente não seria esta forma de ocupação do palco que mostraria ser isso verdade. E não é só. Os quatro parecem realmente mais próximos quando estão em cena, do que no disco. O evasivo Camelo já ri mais dos excessos cometidos pelo expansivo Amarante. Os dois, definitivamente, se completam e precisam, muito, um do outro.

Camelo está cantando cada vez melhor, é verdade. Parece estar cada vez mais ciente da extensão de sua voz e da cara que quer dar a sua obra. A banda de apoio é a mesma de muito tempo e a sintonia que isso cria entre todos é, inevitavelmente, maior. Assim como Os Paralamas do Sucesso que optaram, desde muito, em evitar mudanças no elenco de músicos que os acompanham, o Los Hermanos parecem apostar na mesma tática e isso mostra que, no Brasil, dá certo.

O único e principal senão do show volta a ser o disco. Até antes da última sexta-feira, todas as mais de dez, quiçá, vinte, apresentações do Los Hermanos que eu tinha presenciado se diferenciavam de qualquer outra banda nacional pela intensidade da participação da platéia. Nesse, e apenas nesse, sentido parece que a coisa decaiu um pouco. A platéia parecia reagir muito mais pela cumplicidade e pelo apoio às experiências da banda do que propriamente por uma empolgação com o resultado apresentado. Os momentos de ápice do shows ainda vêm do repertório dos outros discos. Dirá um fã cego: 'mas eles acabaram de ganhar um disco de ouro, o que não acontecia desde o primeiro álbum!'. Sim, é verdade, direi eu. Mas isso também é conseqüência da cumplicidade, do voto de confiança resultante dos bons trabalhos prestados anteriormente. Fato é que o show da sexta-feira, 13 de janeiro de 2006, no Canecão, não foi tão diferente do show de qualquer outra banda mainstream (argh! esse termo...) do país. Fãs empolgados, cantando várias músicas - veja bem, eu disse várias, não disse todas -, mas com destaques para os 'grandes sucessos', ainda que estes não tenham tocado tanto no rádio. "A Flor", "Cara Estranho", "Além do que se vê", "Todo Carnaval tem seu fim", "Retrato pra Iaiá", "A outra" e "Conversas de botas batidas" são as que rapidamente me surgem na cabeça. Do disco novo? Bem... "O vento", "Dois barcos" e as outras bem menos.

De novo o fã cego há de me perguntar: Mas ter vários sucessos na boca da galera, mesmo sem ter tocado no rádio... isso não é muito? Sim, é MUITO. MUITO mesmo! Só que, talvez, seja menos do que o MUUUUUITO que o Los Hermanos podem conseguir e já conseguiram em outras oportunidades, quando o coro altíssimo ia da primeira à última música. Só isso.

Na turnê do disco anterior, "Ventura", a banda não se prendia tanto a obrigação de apresentar o material novo. Tanto que "O pouco que sobrou" raramente aparecia no repertório das apresentações por não ter um resultado tão satisfatório quanto no disco. Isso podia ter acontecido também dessa vez, especificamente com "Os Pássaros" e "Sapato novo", apesar da presença inusitada e bem vinda de um vibrafone nesta última, que, pra mim, é a melhor do disco, elas caem ao vivo. No site da banda, vejo que "É de lágrima" não estava aparecendo tanto na turnê. No Rio, se minha memória já não está me traindo, ela apareceu.

Outras se destacam mais no show do que no álbum. É o caso de "Dois barcos" . Para substituir as que não ficam tão bem, os quatro poderiam ter recorrido mais ao uso de músicas que não estavam mais na turnê de "Ventura". Digo esse 'mais', porque eles o fazem com o renascimento da (linda) "Casa Pré-Fabricada". Esta música, que está nas rádios na (ainda mais linda) versão de Roberta Sá, nunca devia ter deixado de estar no repertório. É uma daquelas que, com o tempo, vai receber mais valor do que na época em que foi lançada.

O trauma que ficou do primeiro disco parece não estar resolvido ainda. Dessa vez nenhuma música do álbum lançado em 1999 aparece no set-list. "Anna Júlia"? Parece que morreu de vez e não reencarnará jamais. "Pierrot" e "Quem sabe", que ainda, de vez em quando, apareciam, com toda a justiça, dessa vez foram relegadas. Será que um dia o Los Hermanos vai descobrir que o primeiro disco deles é feito de ótimas canções? Se um dia eu tirar o Marcelo Camelo num amigo oculto, eu juro que dou esse CD para ele.

Dito tudo isso, o show vale os R$12,50 que eu paguei e até um pouco mais! Volta, então, a frase que pedi que ficasse guardada até o fim deste texto: O show da turnê "4" Los Hermanos é bom.

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There isn't photos by now.

10.1.06

A Importância de Ouvir

       O Timor Leste foi uma colônia portuguesa desde o século XVI até 1960, quando a ONU classifica a porção oriental de uma das ilhas da Indonésia como território sem auto-governo com prazo para iniciar processo de autonomia. O fim do Salazarismo em Portugal foi o impulso para a independência do Timor, e a independência do Timor o impulso para – dez dias depois – a invasão da Indonésia. As Nações Unidas protestaram, não reconheceram a anexação, e mantiveram o povo timorense sob os auspícios do governo português. Ninguém na Ásia prestou atenção.
       A administração indonésia é violenta e brutal, com crimes contra qualquer resistência mais organizada. Só com a renúncia do ditador Suharto, em 98, o Timor Leste (sim, existe o Timor Ocidental) ganha apoio internacional e começa a reivindicar a tardia independência.
       Um ano depois, em maio de 99, Portugal e Indonésia assinam um acordo. O povo timorense decidirá em referendo popular conduzido pela ONU se quer a independência ou ter autonomia e se manter parte da Indonésia. Comparecimento de 98% da população dá vitória de 76% à independência. Em vez de festa, ataques de milícias indonésias contra imprensa, Nações Unidas, ONGs e população civil. Um mês se passa até que é autorizado o uso de uma força multinacional liderada pela Austrália.
       O trabalho dura um ano, e chega-se à conclusão de que mais do que uma força para garantir infra-estrutura para a ajuda internacional, é preciso construir instituições fortes no país para que se estabeleça um país com um sistema de justiça e estabilidade. Em setembro de 99, Portugal e Indonésia assinam compromisso de repassar para a ONU a administração do Timor Leste até a independência formal.

       Outro lado do mundo, 1990, Jean-Michel Aristide é eleito presidente do Haiti, o país mais pobre do mundo fora da África, com 70% dos votos depois de 30 anos de ditadura de Papa e Baby Doc. Em 91, golpe militar, condenado pela OEA e ONU. Onda de refugiados cria problemas sócio-econômicos na Flórida, República Dominicana, e em menor escala na Jamaica, Nicarágua e Honduras.
       Na música pop, um trio formado por haitianos regrava “Killing Me Softly” e é adotado pela emissora transnacional que o presidente americano Bill Clinton gosta de ver associado à sua administração. O trio é o Fugees (de refugees), e a tv é a MTV.
       E o presidente, é o que para consertar a declaração de que teria fumado maconha sem tragar em rede aberta, investiria mais dinheiro em uma operação na Colômbia como política anti-drogas. E que ao ver Aristides cair, vê no espelho um sorriso de “democracia irrestrita nas Américas” se desmanchar (o sorriso queixudo nem considerava Cuba).
       Em 93, Clinton é forçado pela chamada opinião pública (algo entre a MTV e a CNN) a permitir a entrada de refugiados no país. Um ano depois, uma resolução da ONU autoriza o uso de força para restabelecer o governo legítimo haitiano, na primeira intervenção da Organização em um país com problema interno. Até então, uma ação estrangeira por um golpe de Estado seria considerada um ataque à soberania.
       Aristides volta ao poder para completar o mandato ainda em 94, que cumpre até 96, quando elege o sucessor, com quem rompe dois anos depois, com o país de Parlamento dissolvido. O Haiti é ali mesmo, e em 2000, Aristides está de volta, nos braços do povo, em eleições fraudulentas, com polícia aparelhada. Quatro anos sem avanços sócio-econômicos e o presidente é deposto em 2004.



       2004 no Haiti, 99 no Timor: a ONU vira protagonista na resolução das crises.

       O Brasil de Lula, de olho na liderança continental, de olho em um assento no Conselho de Segurança, concentrado em superar a boa fama do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, amigo de Clinton e Tony Blair, faz um belo e importante gesto (sem ironia) e se candidata a liderar os capacetes azuis no Haiti. O desinteresse americano de Bush contribui para o oquei. Cinco anos antes, tinha começado a intervenção no Timor Leste, com o diplomata da ONU, Sérgio Vieira de Mello à frente, em missão considerada um sucesso. O brasileiro morreria em 2003, no Iraque, depois de designado para uma missão até hoje impossível.
       A maior diferença entre as duas missões: no Haiti, a missão é de Paz, não de Ocupação, como no Timor. Há governo provisório no país da América Central, enquanto no sudeste da Ásia a comitiva das Nações Unidas tinha poderes executivos e legislativos, além de administração da Justiça. No Timor, entre os objetivos da missão estava a criação de instituições fortes (polícia, sistema público de educação, imprensa, justiça, sistema eleitoral-político-partidário, etc.). E, claro, no Timor a intervenção já terminou.



       Depois de um ano sob o comando do general Heleno, as tropas de vinte diferentes países da ONU no Haiti passam para o comando do general Urano Bacelar, no dia 31 de agosto de 2005. No último sábado, 7 de janeiro, de manhã, véspera da quarta data cancelada para as eleições do novo governo do Haiti, o mesmo general Bacelar é encontrado morto no quarto do hotel Montana. A morte se passa em um momento de crise de comando, investigações da OEA indicam que há casos de mortes de civis haitianos por erros ou abusos de capacetes azuis, o governo brasileiro critica a falta de prazo para o envio de recursos pela ONU e reclama da demora em aprovar uma resolução que permita investimentos no país antes de qualquer contrapartida na paz. A admiração pelo país de Ronaldinho, Ronaldo, Roberto Carlos e Roger já não é aquela. O general Heleno não se cansa de repetir, do Brasil, que “não há possibilidade de paz sem que ao mesmo tempo haja desenvolvimento”.
       Para piorar, há um boato de que os oficiais da tropa de paz desaprovavam a linha dura do general Bacelar, gaúcho de Bagé, disposto a acabar com as festas com mulheres haitianas, bebidas e maconha. O Haiti, além de tudo, fica ao lado da Jamaica.

       Ao se estudar a presença do brasileiro Vieira de Mello no Timor Leste, o que salta aos olhos é um regulamento datado em 2 de dezembro de 1999, de número 1272 (1999/2). Nele, cria-se um Conselho Consultivo Nacional, formado por quinze membros, onze deles timorenses de diferentes partidos políticos ou da Igreja Católica (religião da maioria da população), três membros da missão da ONU e o próprio administrador transitório, Vieira de Mello. O artigo 1.2 do regulamento é claro quanto ao objetivo da medida: “será o mecanismo principal através do qual os representantes do povo timorense participarão activamente no processo de tomada de decisões durante o período da Administração Transitória das Nações Unidas...” A ONU se presta a ouvir.

       Não há Conselho Consultivo Nacional no Haiti. O primeiro-ministro provisório, Gerard Latortue, mora na Flórida, e anda com seguranças particulares armados quando está no país que governa. Seu francês não tem sotaque haitiano. As eleições, que marcariam uma segunda etapa da presença da ONU no país, estão marcadas para o dia 7 de fevereiro, a quinta data desde o dia 31 de agosto de 2005, quando chegou o general brasileiro Urano Bacelar.



       Não sei o que há para se concluir, qual será a música do Haiti? O que ouvia Sérgio? O que ouvia Urano?




Do the Evolution, Pearl Jam

I'm ahead, I'm the man
I'm the first mammal to wear pants, yeah
I'm at peace with my lust
I can kill 'cause in god I trust, yeah
It's evolution, baby
I'm a beast, I'm the man
Having stocks on the day of the crash
On the loose, I'm a truck
All the rolling hills I'll flatten them out, yeah
It's herd behavior, uh huh
It's evolution, baby
Admire me, admire my home
Admire my son, he's my clone
Yeah, yeah, yeah, yeah
This land is mine, this land is free
I'll do what I want yet irresponsibly
It's evolution, baby
I'm a thief, I'm a liar
There's my church
I sing in the choir:Hallelujah, hallelujah
Admire me, admire my home
Admire my song, admire my clothes
'Cause we know appetite for a nightly feast
Those ignorant indians got nothing on me
Nothing, why?
Because, it's evolution, baby!
I am ahead, I am advanced
I am the first mammal to make plans, yeah
I crawled the Earth, but now I'm higher
Twenty-ten, watch it go to fire
It's evolution, baby
It's evolution baby
Do the evolution
Come on
Come on, come on

2.1.06

Entrevista Sérgio Filho, do Gram (Parte 2)

Ainda para fechar a tampa de 2005, fazendo aquela arrumação na casa, publico a segunda (e final) parte da conversa que tive com Sérgio Filho, vocalista do Gram. Não houve um tópico "melhores dvd's 2005", senão, certamente, o "MTV Apresenta Gram" estaria lá. Na ocasião da publicação da crítica deste trabalho aqui no sobremusica, aproveitei para conversar com o compositor e líder deste grupo paulistano. A conversa foi realizada via embratel (ou foi via 31?! não lembro...), em 15 de outubro de 2005, e a primeira parte foi publicada em 1°de novembro de 2005. Agora, aproveitando a chegada da banda ao Rio de Janeiro para duas apresentações neste mês, colocamos no ar o que ficou faltando dessa conversa. A quem esperou e tanto me cobrou, peço desculpas. De fato, estive muito atrapalhado no fim do ano, com diversos trabalhos. Quem quiser reler a primeira parte da entrevista, é só clicar aqui.

Vamos lá?!


PARTE 2

sobremusica: Vocês tinham uma banda que cantava em inglês, antes de ter o Gram, chamada Mosva. No meio independente, é uma realidade que as bandas que fazem essa opção, sofrem uma pressão para cantarem em português. Isso, normalmente, ou vira uma pressão, e a banda acaba cedendo, ou vira um experiência traumática de resistir ideologicamente. Isso aconteceu com vocês? Como foi o processo de mudança?
Sérgio Filho: Sabe o que foi? Foram duas coisas que aconteceram. Quando a gente tinha o Mosva, o Lobão uma vez foi no IG, participar de um chat. Daí nós fomos lá falar com ele. ‘Ô, Lobão... Esse aqui é o nosso trabalho e tal...” Ele mandou (Sérgio imita Lobão, engrossando a voz):
- É em inglês ou português?!?!
- Inglês – eu respondi
- Então enfia isso no cu!

sm: Mas ele falou sério ou falou brincando?
SF: (risos) Ele falou sério, véio! Daí ficou uma hora falando:
- Inglês é o caralho! Vou fazer música para gringo ouvir?! Acho a maior merda isso aí... A língua portuguesa é riquíssima, quando você fizer em português, você me procura.
E o Lobão, você sabe como é... Ele começa a falar e não te dá nem espaço pra argumentar! Mas aquilo, de certa forma, ficou na nossa cabeça. Ele falou muito bem... Tanto é que no fim do papo a gente ficou puto, mas pensava: ele tem razão, né... Mas a gente não desistiu. Daí, uns dois meses depois, em 2002, a gente voltou para o Beatles Cover, o Beetles. E quando a gente tinha tocado no Cavern Club em 2001, nós fomos muito bem! O dono do Cavern, o Alex, falou que a gente podia ir tocar lá quando quiséssemos, nós ficamos amigos. Daí a gente fez um disquinho do Mosva e resolvemos ir lançar lá. Só que quando nós chegamos no aeroporto de Londres, onde só se pega o visto na hora, a gente não conseguiu. Ficamos umas seis horas lá esperando o pessoal da imigração ligar para o Cavern Club, localizar as pessoas, para confirmar que nós íamos tocar lá e depois iríamos embora. Aquilo me deixou muito puto. A gente arrumou tudo direitinho, estávamos com mil cd’s do Mosva na mala para vender lá. Iam ser dois shows do Mosva... Mas a gente não estava nem conseguindo entrar no país, depois até conseguimos. Naquele meio-tempo, eu estava sentado no aeroporto e só ficava ouvindo a voz do Lobão na minha cabeça dizendo: “Vou fazer música pra gringo ouvir? Meu país é aqui...”. Daí eu decidi que, assim que chegasse aqui, iria compor em português.


sm: Mas você pegou as músicas em inglês do Mosva e traduziu ou criou tudo novo?
SF: Não, tudo novo. Quando nós voltamos, o guitarrista saiu, foi trabalhar em Curitiba e isso deu uma caída na banda. Porque a gente tinha ido lá, tocado e... até vendemos bem os discos, teve o cara de uma loja que queria comercializar os cd’s, mas nada sensacional, que mudasse a nossa vida a ponto de ir pra lá. Era sonho, né. Viver lá e de rock. Mas percebemos que aqui é bacana também. É tão prazeroso quanto, tão desafiador quanto, mas, às vezes, você demora a perceber isso. Só que o guitarrista foi embora e o baterista, que morava em Limeira, já estava querendo casar e não estava a fim de morar em São Paulo. Desmanchou-se o Mosva.
Entraram o Marco (Loschiavo), que é o outro guitarrista e o Fernando (Falvo), na bateria. Daí a gente já começou pensando nas composições em português. A própria mudança na formação influiu no fato de não se aproveitar mais o material do Mosva. O Marco trouxe uma outra pegada. O guitarrista anterior tocava demais, conhecia muita teoria musical. Já o Marco não sabe nada de nota, é mais emotivo, mais inusitado. Mudou muito, não tinha mais como se aproveitar nada do Mosva mesmo.

sm: E nesse início qual era a sua maior dificuldade na hora de compor em português? Você jogou muita coisa fora?
SF: Ah, sim. Minha maior dificuldade era o medo de ficar brega, piegas. A primeira letra foi “Vem você”, já em 2003.

sm: Quanto à presença do piano. No Brasil, não é comum as bandas trabalharem os arranjos em cima do pianão mesmo. Algumas até usam teclados, mas mais para somar e não de uma forma a colocá-lo como cerne da estrutura do arranjo como o Gram faz. Como isso se dá para vocês?
SF: A gente usa o mesmo truque do Coldplay e do Paul McCartney: temos um móvel e colocamos um teclado dentro dele. Ao invés de usar a estante, a gente usa esse móvel que é mais elegante. O timbre é o mesmo do piano da Roland que o Paul usou a vida inteira... Sempre o mesmo timbre no piano. Esse piano da Roland ninguém imita. E eu uso mesmo porque o Paul usava.

sm: Qual a maior dificuldade que vocês encontravam em arranjar assim?
SF: É que eu já trago a música no piano.
sm: Você compõe no piano.
SF: Sim, eu componho nele. Sempre. Eu não consigo criar na guitarra. O piano foi o meu primeiro instrumento. No Beatles cover, inicialmente, eu só tocava piano. Mas quando saiu o primeiro guitarrista, a gente resolveu ficar em quatro, igual a formação original. Daí, o (Marcello) Pagotto (baixo) me ensinou a tocar guitarra. Eu arranho a guitarra, eu não sei solar, por exemplo...

sm: Mas você tem duas Rickenbacker’s que é a guitarra dos sonhos de muitos guitarristas.
SF: É, eu tenho... (risos) Mas também por causa do Beatles cover... Eu gostava de tocar com o instrumento igual e sempre tive esse cuidado. Ficava grilado com o que as pessoas iam pensar. Eu queria fazer com que aquilo fosse realmente o mais próximo possível do que foi na realidade. Nunca vai ser, mas queria chegar o mais próximo possível. Por isso as guitarras também eram as mesmas.

sm: E ainda no assunto piano. Tem algum artista que vocês achem que o resultado da presença do piano é parecido com o que vocês fazem no Gram?
SF: Todo mundo fala que eu coloquei o piano para imitar o Coldplay. Mas não é. Vou botar o piano aonde?! Tem que ser no centro! Eu sou o vocal.
sm: Mas você acha que sonoramente vocês se parecem com o Coldplay?
SF: Não... Eles usam o piano de outra maneira...
sm: Que maneira?
SF: Eu uso o piano mais "Let it be", "Hey Jude", "Imagine"... mais para marcar o acorde, do que para arranjar a música. O Chris Martin dedilha mais. Até existem horas em que eu faço dedilhado, mas vou demorar horas para lembrar aonde. Então eu cubro mais a harmonia, porque nem sempre as nossas guitarras estão fazendo essa harmonia. Elas ficam mais brincando com a melodia. Com isso, a harmonia fica mais comigo, no piano, e com o baixo. Por enquanto também, pode ser que um dia a gente mude e faça diferente. Você pega "Clocks", por exemplo, e tem um solo de piano! A gente não tem solos... Então, é diferente. Mas eu gosto pra caralho do som dos caras e ouço muito Coldplay. Acho que a influência de Coldplay vem muito mais pela busca da melodia bonita do que pelo uso do piano.

sm: Então você reconhece a influência? Ou apenas acha que o resultado é que é parecido? Porque são duas coisas diferentes: ter influência e soar parecido...
SF: É, eu acho que o resultado não é parecido. Agora, influência, sim. Pode-se encontrá-las. Agora, não na questão do piano. O Paul McCartney quando tocava "Hey Jude" colocava o piano ali também...

sm: E pelo que eu posso perceber o seu maior ídolo se chama mesmo Paul McCartney, não é? (risos)
SF: Não... Não. Os Beatles todos.
sm: Igualmente distribuídos...
SF: É. Não tem nenhum que eu goste mais, todos são importantes. Eu gosto muito de Chico Buarque também. Acho tão foda quanto os Beatles. Talvez a antena dele seja menor, mas eu acho que ele fez coisas tão fodas quanto. As harmonias dele são foda. Fora as letras, né?! Até a interpretação dele eu acho fudida!

sm: Outra coisa que vocês falam no DVD de vocês, é que vocês ainda se consideram uma banda pequena, que quando vocês vão se apresentar dizendo que tocam numa banda, logo em seguida, vocês já completam a frase dizendo “mas não é conhecida ainda...”
SF: É, minha mãe quando vai falar que o filho toca numa banda tem que sempre explicar isso... (risos).
sm: Mas então. Vocês já lançaram um disco, já tem um DVD muito bem produzido, com a marca da MTV... Qual é o parâmetro que vocês usam para avaliar isso de “ser uma banda grande” e o que vocês precisam para achar que chegaram lá?
SF: Putz, eu também queria saber. Agora melhorou um pouco por causa do “MTV Apresenta”. Já tem mais gente que ouviu falar da gente e não só do gato... A gente sempre tinha que falar: “Ah, você lembra do clipe do gatinho que morre... Pois é...”
sm: Mas isso incomoda vocês de alguma forma?
SF: De maneira nenhuma. Não é porque fui eu quem fiz, mas eu acho que o clipe tem um valor para a gente. E é arte. Não é uma coisa passageira. A MTV sempre vai passá-lo. Muita gente vai se lembrar... É uma historinha, que está muito bem linkada com a música... Modéstia à parte, nessa eu acertei, peguei na veia! (risos!!)
sm: Eu também acho, cara. Parabéns! (mais risos!)
SF: (risos) Pois é, não é sempre que acontece, que você pega assim na veia. Não esperava que fosse ficar tão bom! Eu me tranquei aqui, ninguém sabia o que eu estava fazendo. Sabiam apenas que eu estava fazendo um clipe, mas não o que... Eu falei o roteiro meio por alto para os caras e fiquei aqui trabalhando. Enquanto eu ia fazendo, eu me arrepiava e pensava: “Meu, os cara vão chorar vendo isso aqui”. E de fato, o Riba (Luiz Ribalta, guitarrista) chorou... O pessoal se emocionou.
sm: Eu também, cara. Admito que me emocionei da primeira vez que vi.
SF: Pois é. De fato, aquela cena em que a gatinha mostra o número 1, é muito inusitada.
sm: É muito dramático! Muito pesado!
SF: Eu fui fundo mesmo. Pior foi na propaganda do DVD... Ali é pra matar o gato de vez! Ele se fode mesmo! Não tem mais chance!
SM: E a voz do pato na propaganda também é muito boa!
SF: É do nosso empresário! Hahahahahahaha!!! Eu pedi para ele fazer essa voz bem carregada. Ficou aquele negócio meio carioca. Com todo o respeito, mas o carioca tem mesmo essa coisa de ser mais esperto...
sm: Meio Zé Carioca, né?!
SF: É, no Brasil existe essa cultura em torno do pessoal do Rio...

(Explicação: Na tal propaganda do DVD, o tal pato, com quem a gata trai o gatinho no clipe, aparece na cama com ela, fumando depois de ter consumado o ato, assistindo o show do Gram na televisão e caçoando do casamento que ele mesmo arruinou.)

sm: Antes do clipe do gatinho, vocês tinham a ilusão de que depois de assinar com uma gravadora a vida de vocês iria mudar?
SF: Não, cara. A gente nunca achou isso. A gente achava que era uma ajuda a mais. Sabíamos que para o Gram ia ser muito difícil viver de música. Primeiro por causa do nosso estilo. Daí aconteceu também de sermos muito comparados ao Los Hermanos. Isso atrapalha. Às vezes ajuda, mas muitas vezes atrapalha.

sm: O que me incomoda é que, hoje em dia, qualquer banda que aparece o pessoal fala que é influenciado pelo Los Hermanos... É uma observação óbvia e que não quer mais dizer nada.
SF: É, isso aí tá foda! Eu acho que eles têm um puta valor, são bons pra caralho, grandes compositores... Melodicamente o Camelo e o Amarante são muito fodas, mas...
sm: Já houve algum contato com eles?
SF: Não, cara. Eu gostaria até. Queria conhecer para saber o que eles pensam da gente. Eles já devem saber que a gente existe, né?!
sm: Acho que já, já sim...
SF: Já deve ter chegado para eles que o Gram é o Los Hermanos paulistano, né? (risos)
sm: Eu já vi muita gente dizendo que o Ludov é igual ao Los Hermanos, sendo que Ludov e Gram não tem nada a ver. Então, como é que se atribui a mesma avaliação rasa aos dois?
SF: Pois é, Ludov e Gram não tem nada a ver um com o outro. Ludov, Ramirez, Moptop... Um monte de gente foi comparado a eles... O Mombojó... E não é assim, né? Tudo bem, eu até entendo que o Los Hermanos chegou primeiro, que fez essas músicas com letras e melodias pouco mais elaborada, desde a Legião... Mas porra, eu cito mais umas dez bandas: Ira, Legião, Paralamas, Titãs...

sm: Você falou de Moptop e Ramirez. Você curte o som dessas bandas?
SF: Eu não conheço muito, pra ser sincero...
BM: O Moptop eu acho foda.
SF: Pois é, todo mundo fala isso! Sobre o Ramirez eu também já ouvi ótimas críticas. Preciso ouvir. Eu ouvi o Reverse. Gostei mesmo e até liguei para o Daniel (Lopes) para conversar. Desde que o Gram começou a aparecer mais, eu passei a receber muita coisa, as pessoas vieram me procurar mais. Quando eu gosto da banda, eu ligo pra conversar.
SM: E você ouve tudo que chega até você?
SF: Ouço tudo. Só quando é muito ruim, não dá pra ouvir... Falta de suingue me desanima. Quando nem a bateria e o baixo conversam, quando não tem um drum and bass legal, eu paro.

sm: E quanto ao site. Há uma sintonia do conceito dele com o do resto do trabalho?
SF: Não, ali a idéia é diferente. Eu nunca tinha visto alguma coisa naquele sentido. É uma idéia do Marco (Loschaivo, guitarrista) que se inspirou numa campanha que ele estava fazendo na DM9 (conceituada agência de publicidade paulistana) quando ele trabalhou lá. Como era um conceito novo, a gente resolveu apostar. O site laranja ficou muito tempo no ar, até por isso aproveitamos para mudar um pouco.

sm: Explica o conceito do site...
SF: É todo mundo falando o que quiser. Pode falar bem ou mal da gente, ou falar sobre qualquer outra coisa, se utilizando de uma webcam. Eu assisto a todos. Ainda não estorou a quantidade e o espaço que a gente imaginou que fosse ter. Acho que se fosse no site do Los Hermanos já tinha acontecido.
sm: E muita gente não tem internet a cabo, não tem webcam...
SF: É, são várias dificuldades. A gente sempre soube que era um projeto um pouco a frente da hora, a frente do tempo dele. Não é nada genial até porque é uma idéia roubada, mas é a frente... Além das dificuldades técnicas, há o fato das pessoas não conhecerem o Gram, tem também que muita gente não tem assunto, não tem nada para falar – até porque estamos numa era em que as pessoas não tem muito do que falar. Mas já surgiu muita coisa boa. Teve uma menininha, muito bonitinha, tocando "Sonho Bom"... E eu acho que pelo fato de nenhuma banda ter aquilo, é importante você fazer algo novo, inventar um conceito... Essas coisas são importantes e é o que a gente vai buscar no segundo disco, não ser mais comparado ao Los Hermanos.

sm: Mas também há um cuidado para não ficar se prendendo nem se pautando por essas comparações, certo?
SF: É, a gente aprendeu que crítica é assim mesmo...
sm: Pois é. O jornalista, normalmente, tem que fazê-la num certo prazo, em um tal formato, com tantas linhas... É um trabalho, por vezes, muito complicado e injusto.
SF: E é a opinião de uma só pessoa. Então, no começo, eu me importava mais. Na primeira crítica negativa, eu fiquei muito mal. Eu fui fazer terapia, pra você ter uma idéia.
sm: É mesmo?
SF: É... Porque foram quatro meses só de elogios. A gente virou hypezinho em São Paulo. Daí, quando eu li essa crítica, do (Marcos) Bragatto, entrei em contato com ele na hora. Não para xingar, mas eu falei: “Bicho, você fez a primeira crítica negativa, não sei o quê... É ruim ouvir...” Acabou que a gente se conheceu, ficamos amigos... Quer dizer, amigos não, mas a gente se cumprimenta, conversa... Tem uma letra até, não vou falar qual é, que eu fiz em cima desse episódio. Vai estar no próximo disco. Não vou falar qual, mas você vai perceber (risos)... É porque pega um pouco na veia, daí eu não quero falar. Mas me inspirou muito na época.
sm: E isso ajudou a banda? Foi bom para vocês?
SF: Foi legal. Porque a crítica foi mais em cima de mim. Ele falou que o meu timbre de voz era de mau gosto, chato de ouvir e eu fiquei muito mal com aquilo, porque eu não gosto da minha voz. Sabe aquela história de vestir a carapuça? Pois é. E porque eu gravei a voz num dia só, a gente não tinha grana... Foi na correria, com um microfone lazarento que eu tinha em casa... Eu sei que eu posso fazer melhor, mas foi o que deu para fazer. Pegou muito mal, muito na veia em cima de mim. Com o tempo e com a terapia, eu fui entendendo que não dá para agradar a todo mundo. Eu já devia saber disso, porque eu já trabalhava com desenho e lá também é assim, não dá para agradar a todos. Nem os Beatles conseguiram. Isso foi entrando na minha cabeça com o tempo, fui vendo outras críticas negativas, fui absorvendo de outra forma, trabalhando melhor...

sm: Você faz aula de canto?
SF: Até isso eu fui fazer! Mas fiz só um mês. A pessoa com que eu trabalhei queria me impor um padrão de postura que não é o que eu gosto. Muito popzinho, muito Fama, sabe?! (risos). Daí eu saí fora, botei na minha cabeça que eu sei cantar, sim, sou afinado, sim... E meu timbre de voz é esse mesmo, o que eu vou fazer? Vou mudar meu timbre? É a minha voz, cara. Vou cantar com a minha voz e que se foda. Quem gostar, gostou.
sm: E a banda nessa história?
SF: Não, eles sempre me apoiaram. Desde o início, só quem não gostava da minha voz era eu. Eles sempre gostaram. Meu, foi uma coisa imbecil da minha parte ficar mal por causa daquilo. Não tem cabimento. Era a opinião de uma pessoa. Ao mesmo tempo em que ele falava mal, tinham vinte falando bem! Só que eu estava mal acostumado. E hoje, a crítica dele do DVD, que saiu na (revista) Laboratório Pop, é elogiosa. Elogia o DVD, mas não fala nada de mim. (risos). Só fala que o DVD é bom. Talvez ele continue achando a minha voz irritante, mas não falou nada. Mas, cara, é a opinião dele. Eu respeito, ele é um cara bacana, nos damos super bem. Na última vez que tocamos em um festival em Natal (MADA), ele foi para o evento na mesma van que a gente. Foi até engraçado.
sm: Bem, eu espero que as críticas do sobremusica não levem ninguém para terapia... (risos)
SF: Ô, loco! A de vocês é o contrário! Quando se está na merda, aí é a hora de levantar e ler aquilo. (risos) E do contrário, a gente também não se deslumbra muito fácil. Nós temos a noção de que o Gram pode acabar amanhã. Talvez por já sermos mais velhos, a gente já sabe dos perigos da vida...
sm: A média de idade de vocês é qual?
SF: Eu faço 32 no dia 29 (de outubro de 2005)...
sm: Parabéns, antecipado.
SF: Valeu. Então a gente já sabe que a vida é perigosa e que temos que nos preparar mesmo para uma eventual falha. Mas eu acho que não tem mais volta não. Eu confio muito. Eu tenho uma maneira de escrever que, eu confio, está indo pelo caminho certo. Eu estou pegando algumas manhas e macetes que me levam a confiar na minha técnica de escrever melodias... Eu confio muito nisso. Enquanto a gente estiver unido, vai ter disco. A gente se gosta muito, eu não me vejo sem eles e eles também não enxergam a banda sem um dos integrantes. Então, eu confio.
sm: Bacana, cara. Acho que é isso...

** Fotos retiradas do site da banda.

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Agenda Gram no Rio de Janeiro:
07/01/2006 - 20hs
QuebraMar Cultural
Avenida do Pepê, 32 – Barra da Tijuca

30/01/2006 - 22hs
Festival RockHour - Melt
Av. Rita Ludolf, 47 - Leblon

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Cadê o Bernardo?


Enfim, a casa própria
Perda :: Dorival Caymmi
Dorival Caymmi :: Compilação de vídeos
Show: Momo, no Cinemathèque
Site:: OEsquema
Agenda :: Momo, Hoje!
Aviso: Última Digital Dubs na Matriz
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