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Bernardo Mortimer
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Bruno Maia
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30.8.05

Eu quero ter um milhão de amigos...

Enquanto esse dia não chega, gostaria de agradecer a todos que passaram pelo site nos últimos dois meses e meio. Ontem, dia 29/08/2005, atingimos a marca de 1000 visitas.


Não é nada, não é nada... não é nada.


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Mas é legal e gratificante. Obrigado a todos.


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Valeu, Bernardo. Muito chão, muito chão...

29.8.05

Pro Dia Nascer Verde

Como faço todo ano, sem nenhum motivo especial, não vi o VMA 2005. Pra ser sincero, nem sabia que ia rolar. Nada contra. Só desinteresse.
Mas quando soube o “grande vencedor da noite”, yada yada yada, Green Day, fiquei feliz. Fiquei bem feliz. Há muito tempo, não ganhava nenhuma banda interessante, com tempo de serviços prestados à música, com energia e sem enfeites.
Quem mais se aproximou disso, nos últimos 5 anos, foi o Outkast, ano passado, com o musicão Hey Ya. Pura paudurescência, aquilo ali, se me permitem a palavra meio assim, sei lá. Nenhuma outra define aquele cheiro de sexo exalado em tecladinhos, baixarias e porradas sonoras. Quem mais se aproximou do efeito de Hey Ya, em definição, foi Alexandre Matias, no texto que me tornou fã dele. Mas aí ele tinha o carnaval do Rio a favor...
Voltando ao Green Day, foram eles que dedicaram um álbum – e não uma turnê ou um verso ambíguo na música de trabalho, para combater George W Bush. Sem quixotismo de boné, à la Michael Moore. Em ‘American Idiot’, que é sim um dos grandes discos de rock desde que o bug do milênio não rolou, os californianos atingem o segundo ápice da vida, e empatam com o grande disco que é ‘Dookie’. Claro, antes disso rolou muita história, e entre issos também, mas tanto ‘American Idiot’ quanto ‘Dookie’ são provas suficientes para colocar o Green Day acima de Offspring e Bad Religion, por exemplo. Não me vem à mente nenhum power trio que toque como power trio, em atividade, tão intenso, sério e dançante.

E a MTV merece um pouco de respeito por ter reconhecido isto. O Outkast e o Eminem, lá com o valor dele, que me perdoem, mas: ei, dançaram.

Últimos cinco vencedores das duas principais categorias do VMAs:

Melhor clipe:
2000 -> Eminem: The Real Slim Shady
2001 -> Christina Aguilera, Lil' Kim, Mya, Pink, (e Missy Elliott): Lady Marmalade
2002 -> Eminem: Without Me
2003 -> Missy Elliott: Work It
2004 -> OutKast: Hey Ya!
2005 -> Green Day: Boulevard of Broken Dreams

Escolha popular
2000 -> *NSYNC: Bye Bye Bye
2001 -> *NSYNC: Pop
2002 -> Michelle Branch: Everywhere
2003 -> Good Charlotte: Lifestyles of the Rich and Famous
2004 -> Linkin Park: Breaking the Habit
2005 -> Green Day: Boulevard of Broken Dreams


Nada a ver (1)

Terminei de ler a mentirinha divertida da Bizz, 100 shows inesquecíveis para paulista, e não resisti.
Aí vão mais alguns melhores de todos os tempos pra mim: Planet Hemp no Canecão, ‘A Invasão do Sagaz Homem Fumaça’// volta do Acabou la Tequila na Casa da Matriz// Yamandu Costa de surpresa no Semente, no mesmo dia que todo mundo sabia que o Manu Chao ia estar no Circo de surpresa com o Reggae B (e eu tinha nome na porta)// Wander Wildner e Júpiter Maçã na Loud do Cine Íris// Racionais no primeiro Hutus, no Armazém 5// Wynton Marsalis e Lincoln Jazz Orchestra no Metropolitan, em 98// Primal Scream no Timfa carioca, Armazém 5// Branford Marsalis no Club do Timfa, São Paulo// Kraftwerk no Timfa de São Paulo, todos no ano passado// O Rappa na Lapa, verão de 2001.

Faltou gente, mas aí ficaria demais, né?

O que o vento vai dizer...

O novo clipe do Los Hermanos, da (maravilhosa) música "O vento", é hermético como o disco. Numa primeira audição/visão parece tosco. E é. O clipe é bem tosco. Fico me perguntando: Se a minha banda fizesse um clipe daquela qualidade, com aquela "linguagem", seria indicado ao VMB???

imagem tirada do site do VMB2005


De qualquer forma, o clipe mostra que a banda continua coerente. A postura é a mesma já descrita aqui no site. Por preguiça, vou recuperar (viva o Ctrl+C) um trecho do que já escrevi. Cabe perfeitamente aqui. Ser diferente não é uma escolha, é uma conseqüência. "É difícil perceber até onde os caras ainda são naturais ou até onde se esforçam para manter um discurso bobo que montaram para si e do qual não conseguem mais fugir". "Esse suposto relapso, dessa vez, soa tão falso, bobo e infantil, que me faz acreditar que o grupo virou prisioneiro do próprio personagem que criou para si".

O total relapso do clipe segue a linha "vamos-fazer-diferente-do-que-todo-mundo-faz", simplesmente pra 'ser diferente'. O que adianta ser diferente se não é bom? Essa noção de recusar o sucesso, de só querer levar uma parte de todo o pacote que envolve o fato de se estar numa banda de rock famosa nacionalmente, é perigoso. A banda tem que ter a noção de que de tanto recusar esse sucesso, o sucesso pode, em um dado momento, os recusar também. É aquela mesma história dos times cariocas que flertam todo ano com o rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Tanto flerta, que uma hora conquista. Eles têm que ter essa noção de que se um dia o público deixar de tratá-los como uma banda do primeiro escalão do rock nacional, isso terá sido consequência natural de todas as posturas que eles vêm tomando ao longo dos anos. Assim como fazer sucesso por meio de playbacks em programas de auditório é ser fácil, fazer o oposto para fugir daquela situação também é muito fácil. Difícil, é saber se valer das ferramentas do sistema para construir a carreira sempre com a maior qualidade possível. Talento, é indiscutível que eles têm. Não há porque recusar o que de bom o "star-system" oferece para fazer sua obra se comunicar com o público. A arte tem que falar com alguém. Não existe arte para si. O clipe de "O vento" não é feito para falar com ninguém.

Mas fala. Para mim falou.

Numa primeira aferição, não gostei e pronto. Da segunda vez, a coisa mudou. Gostei do clipe por motivos muito particulares. Quem passou 2005 no Rio de Janeiro, vai me entender.

O clipe se passa ao longo de um dia lindo, com um sol retumbante e pesado, torrando nossas cabeças e asfaltos. Esse ano, os dias na cidade do Rio foram especialmente bonitos. O sol foi mais generoso do que nunca. As nuvens estiveram muito longe daqui. Sem nenhuma estatística, ouso chutar que em 80% dos dias de 2005, eu não vi nuvens no meu céu. Os dias foram especialmente lindos e isso me afetou profundamente. Esta é a principal marca que vai ficar na minha memória quando pensar em 2005. Assim como no auge da minha 5ª série, tive a sensação de que o mês de maio daquele ano (1993) foi o mês mais longo da minha vida. Não houve nenhum motivo especial. Não fiquei triste, não foram dias ruins, mas simplesmente o mês não passou. Demorou muito! Até hoje eu guardo essa lembrança de que maio de 1993 foi o mês mais longo da minha vida. Da mesma forma, 2005 vai ser o ano mais ensolarado e bonito (plastica e paisagistacamente falando) da minha vida. O clipe me remeteu a isso. A esses dias seguidos de sol, de não-nuvem. Cariocas não gostam de dias nublados e eu sou carioca. Este ano, trabalhei muito em casa, de frente para janela, vendo esse tal sol todos os dias. Assim como Beto Guedes fala do "sol de primavera", no clipe de "O vento" eu vejo o meu "sol de 2005". Por isso, eu gosto deste clipe. Ele continua sendo mal-feito e muito. Mas eu gosto, porque ele fala comigo numa coisa que só eu sei.

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Nada contra o diretor do clipe, mas assim como elogiei a postura de Zezé di Camargo e Luciano de terem ido buscar grandes nomes para fazerem o filme, e não um diretor amigo lá dos tempos de Goiás, acho que o Los Hermanos acaba ficando muito restrito a um universo de pessoas. O argumento é de que eles se identificam com a forma como essas pessoas enxergam a arte. Isso também me incomoda. Dá a sensação de que as outras formas de enxergar a arte, com as quais não necessariamente você precisa se identificar, são menos relevantes. Outras formas de encarar arte e de encarar as ferramentas da arte, podem levar a obra a um novo lugar, provavelmente mais interessante. O que teria acontecido se Chico não tivesse se juntado com Caetano e Gil no início da década de 70, por "não se identificar com a forma que eles vêm a arte"? Certamente, a arte estaria menos rica. Esta postura, pra mim, é restritiva, pretensiosa e egoísta. Pouco generosa. Acho que se outros nomes, com outras visões, passassem a trabalhar com esta ótima banda, a arte tenderia a ganhar. E muito.

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Cada dia eu gosto mais das canções de "4". Mas ainda sim, acho "o disco" equivocado.

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Não vejo a hora de voltar a escrever sobre Magic Numbers. Não tarda. Afirmo, com toda a força dos verbos imperativos, que é a melhor banda de todos os tempos. Da última semana, é verdade. Mas não deixa de ser.

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Eu ainda adoro Los Hermanos. É importante deixar isso claro. Continua sendo, para mim, a melhor banda brasileira em atividade, musicalmente falando. Nunca daria tanto espaço para um grupo que eu não admirasse demais. Não gastaria meu tempo escrevendo sobre algo que eu não tivesse carinho. Não aqui. Só acho que a melhor forma de gostar é se permitir discordar, criticar. É a discordância que permite uma dialética maior, e isso é bom. É assim que o pensamento se move. Dialeticamente.

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Até mesmo por isso, costumo dizer que adoro quando alguém deixa um comentário discordando de mim. Prefiro (muuuuuiiiiito mais) que discordem de mim, do que o contrário.

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Concorda?

28.8.05

Experiência no Parque Lage

Sábado à noite, céu aberto, o Redentor guardava debaixo da mão esquerda um grupo de pessoas em volta da piscina do casarão do Parque Lage. Um lençolzão branco servia de tela para projeções, e um combo de músicos Binário transformava em som o resultado das reações químicas que a história via se liberando, como se fosse fumaça.
Lucas Vasconcelo faz as bases na guitarra se repetirem em loops, e grita poesias remetendo há anos de cep 20.000. Na outra guitarra, Fábio Lima dá um toque de cool jazz em frases cruas. Ruídos de um mundo diferente ao das pessoas convencionais saem sintetizados da mente de Eduardo Manso. No baixo, com linhas em primeiro plano, a metade da versão carioca de Sly and Robbie, Bruno Di Lullo. E, para completar a cozinha jamaicana, Bernardo Palmeira mantém o ritmo quebrado e Rafael Rocha colore as batidas.

O Binário experimenta pelo jazz, drum’n’bass e dub, a tal da música sensorial. Faz parte do show o trabalho de Paulo Camacho, que insere ao vivo, como num live pa, as imagens que substituem os músicos na visão dos participantes da história toda. O que importa são as notas e o que resta delas, aos olhos que se distraiam com imagens impressionistas digitais, de quem já aprendeu os segredos dos ccds há tempos. Flares, focos doces e detalhes fechados que desconstroem o todo entram na dança.
Sinestesia: som sugere imagens, que sugerem viagens, que voltam ao som, temperaturas variam, cheiros se levantam, a idéia é um som exalado que altere a relação platéia/artista para algo próximo a uma instalação plástica. Uma peça de arte que só acontece em um dado momento, um sinal do efêmero que rege os dias contemporâneos, e louva a solidez da memória dos sentidos até a próxima – ver de novo o Binário é sempre uma boa.

A melhor banda do muuuuuuuuunnndo

http://www.kerrangawards.com/kerrangawards/

Não entendeu??? Então toma esse...

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u53012.shtml
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Melhor nem comentar, né?!.

26.8.05

Coletivo Instituto

Bem, achei a Outracoisa do Instituto numa banca do Rio. Mais precisamente na rua Jardim Botânico, perto da rua Lopes Quintas, e eles só tinham a que eu levei. Terá sido a última?, a única?, aquela? Não sei. Consegui e pronto. E com ela levei a Bizz dos 100 melhores shows, como se isso fosse possível. E prudente.
Uma mentirinha mais, outra menos, não tenho dúvidas de que me divertirei na leitura.

Pois, o Instituto. Sou um fãzoca, portanto suspeito. Os ouvi pela primeira, lá no filme “O Invasor”. Achei aquilo bom. Não comprei o disco, pedi emprestado de uma ex-namoradinha e ouvi até quase furar, ou melhor, até ser intimidado a devolvê-lo. Nesse momento, já conhecia uma ou outra coisa do Rica Amabis, sabia que o Tejo estava envolvido na punkadona ‘Quem que cagüetou’, e Ganjaman eu acompanhei de perto no Planet Hemp (uma banda bem interessante que existiu no Rio da década passada, sabem?).
Pois, comprei o Coleção Nacional e fiquei boquiaberto com o sambista Sabotage, boquientreaberto com o sambista Rappin’ Hood, e de boca aberta mesmo com o B Negão (grande nome o desse cara), o Otto, o Zeroquatro, Los Sebosos Postizos, Daniel Bozio (do Sujeito a Guincho) e Maurício Takara (do Hurtmold). Na seqüência, ou ao mesmo tempo, a cronologia eu não sei mais, cheguei ao Bonsucesso Samba Clube, ‘Nação Zumbi’ (o disco), a trilha de Amarelo Manga e Cidadão Instigado.
Pois, de acordo com a parte que não falha da memória, só falta o Mauritsstadt Dub (do Candeeiro de Pupillo), o Mamelo Sound System, a quem devo uma segunda chance, o solo do Sabotage eu ouvi o do meu irmão, e a trilha de Narradores de Javé. Ah, nesse meio tempo, rolou também o disco do Rica, ‘Sambadelic’.

Pois, a revista do Lobão lançou na última edição um disco feito todo ele pelo coletivo Instituto, que vem a ser não uma banda, não um projeto, mas um coletivo. E um coletivo vem a ser, no caso, três produtores/engenheiros de som e um designer que configuram as músicas de artistas escolhidos, para quem também trabalham como banda ou produtores. A idéia, dentre tantas, é formar uma galera para atuar profissionalmente, mas sem vínculos, em trabalhos diversos de quem se oferecer com um projeto, em combinações aleatórias adequadamente juntadas. Sendo o Instituto, portanto, Daniel Ganjaman, Tejo, Rica Amabis e o designer Rodrigo Silveira. Eu já tinha dito isso?
Pois. Assim, explicando caoticamente a confusão por um exemplo-fato, Otto é convidado para uma música no disco do Instituto, e convida Ganjaman para tocar no MTV Apresenta dele. E convida também Fernando Catatau, que só está no disco do Instituto da Outracoisa, e que teve o disco ‘O Ciclo da Dê Cadência’ do Cidadão Instigado (a banda de um homem só de Catatau) lançado pelo selo Instituto.
Pois, Instituto também, e agora principalmente, é um selo. E lança discos. Parece complicado, mas quem é carioca pode pensar na Orquestra Imperial, que é lá aquela orquestra bacana, mas é também um ponto de encontro para o projeto +2, para o Monoaural e o Artificial, para Thalma de Freitas e Nina Becker, para a banda de Rubinho Jacobina, para o Los Hermanos, etc. Só que a Orquestra não lança disco. Os participantes se reorganizam em shuffle como se tudo não passasse de listas de friends no Orkut da música boa brasileira.
Pois, se faltarem exemplos, posso falar de mangue bit, hemp family, ou até J.T Meirelles e os Copa 5, como sugeriu a revista do cd assunto desse texto (texto?). Um cara faz uma coisa em um disco, outra em outro, e lança o dele com elementos humanos instrumentais que passaram pelas primeiras fases da frase.
Pois, quando se vê, as mesmas figuras estão dando em lugares repetidos diferentes, e isso é o que o Instituto chama de coletivo. É ou não é bom?
Pois, isso não impede, é claro, que um friend se add no coletivo alheio, e assim o... vamos dizer, B Negão, a princípio do Instituto, pule de convidado no show da Orquestra, tendo saído da hemp family lá na década passada. E a trilha de Amarelo Manga é uma das provas disso. Já dei outras por aí, estou me cansando de me repetir.

Pois, tudo isso primeiro pra louvar o selo Instituto, que é o primeiro não-artista-ou-banda independente a se lançar pela Outracoisa. É um selo, e lançou versões inéditas de músicas que já existiam em discos deles mesmos. O trabalho permite uma avaliação de um parâmetro para um bom produtor (ou três em coletivo): com personalidade própria forte, mas nunca sobreposta ao trabalho do artista. Cada música é sem dúvida uma produção Instituto, mas essencialmente uma composição e interpretação do Mamelo, Sabotage, Lúcio Maia e Jorge Du Peixe ou Flu.
E pois, segundo, é pra dizer que a divisão que existe no rap brasileiro entre carioca e paulista, sendo um o engraçado/sambeiro/malandro e o outro o sério/oldschool/social, é uma mentirinha que te contaram e você caiu. O fato de o Instituto ser sediado em São Paulo naturalmente o enche de parceiros paulistas. E, por mais engraçado, o Instituto acaba por levar ao conhecimento do Rio, principalmente, rappers de São Paulo muito distantes da estética Racionais, da qual meio que só os próprios acabavam se salvando da repetição. (Isso fora o fato de que o Rio está cheio de engajado chato fazendo rap, e que fora Rio e São Paulo há muito rap por aí, mas aí o texto (texto?) vai ficar muito maior e enfadonho do que está, e ninguém quer isso, não é mesmo?).

Pois, dito isso, faça o favor de ouvir ‘Selo Instituto na Coleta Seletiva’, percebam a ironia: Coleta Seletiva -> Cole letiva -> Coletiva -> Coletivo. É só achar em uma banca.

Ps.: Inevitável recomendar globalmente o futuro que já começou: Turbo Trio (B Negão + Tejo + Basa) e Três na Massa (Rica Amabis + Dengue + Pupillo). Prestem atenção, tem o selo Instituto de qualidade.



Nada a ver (1)

Já que eu falei da mentirinha dos melhores shows da Bizz que eu comprei, porque sou viciado em listas injustas e discutíveis, vou botar aqui os quatro que me vieram à cabeça como inesquecíveis: REM no Rock in Rio 3, Instituto no Humaitá pra Peixe, Jorge Benjor no Espaço Baden Powell quando ele era Sesc Nossa Senhora de Copacabana e Nação Zumbi na Lona de Realengo. Se eu pensar mais, lembro mais.



Nada a ver (2)

Perdoem o trocadilho do “ps” aí de cima, eu jurei que ia fazer um texto inteiro sem a forma mais baixa de humor, mas não cumpri o juramento. Selo Instituto de qualidade.... que sem-graça....
E outracoisa (hehe, abriu a porteira), não achei jpeg da capa do 'Coleta Seletiva', sinto muito.

25.8.05

Magia // Los Hermanos 4 (5)

Nem sempre se vê mágica no absurdo. Certo? Certo...

Mas há coisas magicamente absurdas.

Mágica Um)
O processo de digestão de um disco. Retomando as dissertações autistas que faço sobre "Los Hermanos 4", chego a novos lugares. Para mim, continuo ouvindo dois discos distantes um do outro. Isso não mudou. Mas a magia que envolve certas músicas e a relação que se estabelece com elas, me tem chamado a atenção. Não tinha atentado ainda para a atração de Marcelo Camelo pelo mar... Das 7 músicas dele, 4 e meia 'mergulham' (com o perdão do trocadilho) neste campo semântico.

As quatro são: "É de lágrima" ("É de lágrima, que faço um mar pra navegar..."), "Dois barcos" (Quem bater primeiro a dobra do mar, dá de lá bandeira qualquer, aponta pra fé e rema"), "Horizonte distante" ( "aprumar" , "avante" e "horizonte distante") e a mais óbvia, "Fez-se mar", que não precisa de mais para se entender. A "e meia" fica por conta de "Sapato Novo" (linda demais!), que me sugere um mar no verso "vou passear, sozinho, como der eu vou até a beira"... como ele não diz, eu imagino que seja a beira do mar.

Esse encantamento dos compositores pelo mar é algo muito engraçado. Em algumas entrevistas sobre o novo disco, Marcelo andou citando Caymmi, um clássico-compositor-fã-do-mar. Ano passado, a banda gravou o hino do Vascão, com o Paulinho da Viola, outro compositor "do mar"... Essa recorrente abordagem do mar no disco dos Hermanos (afinal, Amarante também passeia por ela) me cativa um pouco. Acho que ela cria um clima, uma aura, que até agora é uma das melhores coisas do disco para mim. Às vezes, porém, tanto mar me dá nausea e eu troco o CD por uma música qualquer no rádio. De qualquer forma, esse marzão todo me remete a uma questão que já coloquei aqui no site. O que é que a água tem?

A (ótima) entrevista do Kassin para o URBe também é bastante reveladora. Ele tem uma visão do disco de muito parecida com a minha, só que com uma diferença: o que eu acho ruim, ele acha bom. Resumidamente, eu continuo achando o disco sem unidade (a não ser a tal temática "mar) e dividido. Os mais inadvertidos podem argumentar que sempre foi assim, com cada um compondo uma parte. Mas não é isso! A questão continua sendo que a banda parece não ter espaço em algumas músicas (as do Marcelo, no caso) e fica, sim, parecendo que são dois discos diferentes. Tá, tá bom. Talvez isso seja um ponto positivo, algo que demonstre a força de diversificar que o grupo tem... Talvez. Mas EU não consigo ver assim.

A grande novidade que o disco tem apresentado para mim é que, das músicas que eu gostei logo de cara, cada vez eu gosto mais. A minha sensação de estar diante de alguns clássicos, de algumas músicas lindas, de algumas letras incríveis, só aumenta. São elas: "Sapato Novo", "O vento", "Paquetá". Num segundo estágio estão "Dois barcos" (com uma letra linda, de uma sensibilidade ímpar, mas que a música não me agrada tanto) e "É de lágrima" (apesar de eu não gostar da combinação lírica 'lágrima/mágica', já assinada outrora por Lobão). "Primeiro andar" andou frustrando minhas expectativas e ainda não me arrebatou como eu supôs que aconteceria. Talvez ainda não tenha tido tempo suficiente. Resumindo: No que eu gosto, o disco melhora a cada dia, do que eu não gosto, cada vez me distancio mais.

Ah! Continuo achando que não vou ao show do Claro Hall, numa forma de protesto velado.


Mágica Dois)
Outra coisa magicamente absurda é misturar The Temptations com Radiohead, "My girl" com "No surprises", Strokes com Beatles 63, "What ever happened" com "Twist and shout", rock americano com rock inglês, rock sessentista com virada de milênio. Vocal de homem, vocal de mulher... É muita referência boa junta e com um som original! Ah sim, de quem eu tô falando, né? Do tal do "The Magic Numbers". A banda é foda!!!

No último post eu disse que estava ansioso para ouvi-los depois de ter recebido várias boas referências... Pois é, o Soulseek baixou. Provavelmente, a banda nova que mais me cativou, que mais me fez interessar por conhecer, desde o Strokes e o Travis. Vale ressaltar que mês passado eu também descobri, ainda que com um certo atraso, os suecos do "The soundtrack of our lives" e também achei fodão.

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O "The Magic Numbers" já tem um disco homônimo lançado. Porém, achei na internet uma música atribuída a demo deles. A música(ça) se chama "Water song". Coincidência? Mágica? O que é que a água tem?

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Quando alguém me indica uma banda, sempre fico em dúvida de que músicas baixar para me iniciar no troço. Humildemente, minhas sugestões para começar: "Water song", "Mornig Elevens", "Forever lost" e "Which way to happy". Mas o conselho mesmo é baixar tudo que você encontrar e ouvir. Principalmente, ouvir.

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Magic Numbers, Magia, Magic, mágico.. sacou? sacou?...

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A seguir, cena do próximo capítulo

*imagem retirada do site do VMB2005


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O ótimo clipe do Pato Fu, para a ótima música "Anormal" me lembrou os clipes do Franz Ferdinand, especialmente o ótimo "Take me out". É isso mesmo ou foi só impressão minha?

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Viva a adjetivação!

22.8.05

Popstar

A decadência de um cara que parecia ter a fórmula dos hits na manga... Lulu Santos... Tive a infelicidad e constatar hoje no carro, que o novo single do "rapaz" é, acreditem, "Pop Star", aquela música do João Penca e Miquinhos amestrados, com os seguintes versos:

"A sua mãe diz que eu sou vagabundo e o seu pai é tão esnobe/'Esse garoto não combina contigo, a gente arranja pra você bom partido'/Mas quando eu virar um astro/Com a minha guitarra e minha prancha ao lado/Eu quero ver na hora do jantar,/ o seu pai sentado à mesa ao ladode um popstar."

Dá pra imaginar o sr. Luís Maurício, pra lá dos 50, cantando isso.. Não sei.. É meio triste, mórbido. Mais um aderindo a (argghhh!) volta dos anos 80? Será que nego acredita nisso mesmo? Muito triste.. E de lembrar que o cara fez o maior escarcéu porque quando roubaram o carro dele, meses atrás, levaram algumas gravações desse novo disco dele. Teria sido melhor mesmo que levassem "pérolas" como essa gravação embora e poupassem o cara desse rídiculo. Depois dessa, a sensação que tive foi de que Lulu Santos entrou para o time do Romário, Gustavo Kuerten, Rubinho Barrichelo...

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Nada contra a música do João Penca. Originalmente, ela era muito boa!

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Comprei o DVD com o documentário do Metallica. Apesar de não gostar muito do "gênero" metal, dizem que o documentário é muito bom. Mais em breve.

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O acesso a FNAC deveria ser proibido a pessoas como eu.

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Neste momento, o soulseek baixa o disco do tão falado Magic Numbers. As referências que tenho recebido são as melhores, estou ansioso.

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Parabéns ao Moptop. Indicados ao VMB 2005, como melhor site. Se justiça for feita, eles ganham disparado. O do CPM22 também é muito bom, mas demora demais pra carregar.

20.8.05

Tortoise

Acadêmicos cdfs tatuados, convidados em disco de Nação Zumbi, referência de grife pra bandas pretensiosas (a qualidade, não o defeito), nerds cheios de piadas musicais internas, revezadores de instrumentos, você que não conhece o Tortoise já deve ter passado por ele sem perceber. Você que conhece, deve ter percebido na primeira passagem.
Dá até para continuar na brincadeira: ratos de estúdio, adeptos de tempos de compasso esquisitos, banda de apoio para Tom Zé, coletivo do underground de Chicago, hobby de produtores cabeçudos, banda para críticos chatos.
A definição da mistura que eles apresentam talvez seja o mais enfadonho de se ouvir: dub de branco, krautrock de americano (ou Kraftwerk de chiclete), jazz sub Ornette Coleman (o do free jazz, sabe?), indie anos 90 sem letra de angústia/melancolia (sem letra nenhuma, na verdade). Nada disso ajuda muita coisa, porém.
Pós-rock? Se você ainda acredita que o rock morreu, e não que ele morre. Se você não entendeu o que gente como Marilyn Manson, Moptop ou Clarah Averbuck quis dizer. Se você viu alguém agonizando mas não morrendo, esperando um ano para recomeçar o carnaval. Só assim. Pós-rock também não.
Mais vale imaginar as experiências de intelectuais – é uma hipótese, não uma adjetivação – ao se passarem por robôs que tentam sofrer, amar, invejar, enraivecer, de alguma forma sentir. O orgânico é presente, mas dominado pela eletrônica mais melódica que rítmica, embora não-linear. Ou linear à maneira deles, lá. Isso antes de ‘OK Computer’, e depois de Isaac Asimov (Eu, Robô) e Douglas Adams (Mochileiro das Galáxias).
Às vezes soa como trilha de filme, não necessariamente de ficção científica. As imagens pulam na cabeça, num sentido inverso ao de trilhas que perdem a graça ao serem ouvidas sem os planos e cortes do diretor. Como inclusive uma certa síndrome MTV, que faz determinada música interessar no videoclipe e chatear no rádio.
Outras vezes soa como uma paisagem árida de pedras retorcidas pelo efeito do vento e do tempo, com areia e um céu de estática (tv fora do ar, não é isso?). O mar tem ondas frias batendo nas rochas e jogando espuma branca pra cima. Ou seja, um esquema noise relaxado, sem dente trincado. Barulhos da cidade ecoam na cabeça.

Vindos de Chicago, eles têm sido nos últimos dez ou quinze anos um dos maiores destaques da cidade que é um dos berços do jazz e do blues, mas que também deu ao mundo o funk de Curtis Mayfield, o punk criativo de Devo e Television ou o rock atormentado e barulhento dos Smashing Pumpkins. Ou seja, uma cidade com tradição na arte estudada, politizada e muitas vezes de vanguarda que os EUA apresentam ao mundo na arte. Da cidade, mais para os prédios de concreto do que para as casas de madeira ou os anúncios de néon, vem ao Tortoise um som urbano que busca, até em títulos de músicas, pontes com o virtual, com o sobre... e o natural, e com o mitológico. Pontes não sólidas, que a pós-modernidade não desmancha no ar.

No primeiro disco, a banda soa como Medeski, Martin & Wood, mas pior. Sem a mesma pegada, mais dura do que livre, poucos improvisos e os andamentos puxados para trás, sem variação ou surpresas. Cada faixa têm, em média, mais de cinco minutos. Ainda assim, não é um disco ruim.
Surge a péssima definição de “jazz mal-tocado”, que talvez seja tão inoportuna quanto space rock (afinal, como é o rock do espaço?, um vácuo negro sem propagação?).
É a partir do terceiro de cinco discos, ‘TNT’, que a vanguarda de John Cage e Stockhausen e a experimentação tornam-se um compromisso mais evidente – aliado às baterias meio drum ‘n’ bass que esquentam as texturas e colorações de guitarras e xilofones. O som também fica mais cheio, torna-se mais difícil ouvir um instrumento soar só, e a guitarra reverbera mais. Xilofones e sintetizadores ganham volume, e tudo é mais convincente ao se propor etéreo. As composições ganham partes que dialogam entre si, e algo muito perto de um refrão.
Em ‘Standards’, o quarto e mais irônico, há brincadeiras com gêneros, entre eles o synth pop oitentista de “Monica”, de novo permitindo a comparação com o trio nova-iorquino Martin, Medeski & Wood. Desta vez, sem hierarquia, só com o jabuti (tradução safada de tortoise) indo por um caminho mais atmosférico.

De cinco membros, três são – a princípio – ritmistas, um é guitarrista, em geral, e outro costuma ser baixista. Todos brincam as brincadeiras de estúdio, e todos tocam outros instrumentos, fora programações pré-gravadas. Um show deles, dizem, é uma troca incessante de instrumentos, mesmo durante músicas. A rigidez rítmica e os loops de melodias curtas e estranhas não cansam, e na medida em que o grupo incorpora mais o uso de sujeiras e distorções na guitarra, mais desmanchado fica o chão, mais presente é a sensação de flutuação.

Breve histórico

Chicago, 1988: John Herndon (bateria) e Doug McCombs (baixo) se juntam para fazer a trilha para um vídeo de skate. É o início do que se tornou mais tarde, em 91, o Mosquito, que no ano seguinte mudaria de nome para o atual Tortoise. Em 93, Dan Bitney passa a fazer parte da banda; o (ainda não) super-produtor John McEntire e o guitarrista Bundy Brown já estão no projeto. É lançado o primeiro disco, ‘Tortoise’. Os shows e convites para compilações (que viriam a ser mais de uma dúzia, entre as quais a de remixes do Tom Zé, ‘Postmodern Platos’, em 99) começam em 94, e Brown acaba saindo para atender a outros caminhos, depois de discordar do convite aceito pela banda de participar de um tributo ao Joy Division. “Muito comercial” para ele, substituído por David Pajo.
Em 95, viajam para um sítio onde é gestado o segundo álbum: ‘Millions Now Living Will Never Die’, lançado em janeiro do ano seguinte e definidor de um rumo. Turnês européias, no Japão e EUA, muitos shows com o Stereolab. O quieto guitarrista Jeff Parker, o membro que faltava para a formação atual (2005, não 96), entra na brincadeira. Já é 97, os shows ainda rolam, e está sendo gravado o terceiro e, para muitos, melhor disco deles. ‘TNT’ é todo gravado na casa/estúdio de McEntire, SOMA.
David Pajo anuncia que está fora, em 98, o Tortoise torna-se um quinteto, como é até hoje. Outra turnê, pela primeira vez passando pela Austrália, uma participação no grupo da punk holandesa The Ex, de quem abriram shows quando eram só um trio. No ano seguinte, vem o encontro com Tom Zé, com quem viajam na condição de banda de apoio – com Bitney temporariamente substituído por Dan Fliegel, baterista. Entre os trunfos dele, falar português e servir de intérprete entre as partes. É quando eles vêm ao Brasil e tocam com e sem o baiano.
‘Standards’ é gravado em 2000 sem pressa, com uma ou outra apresentação para testar composições e com intervalos para projetos pessoais. É lançado em 2001, ano de turnê mundial, ano em que fazem a curadoria do festival inglês ‘All Tomorrow’s Party’. Em 2002 vem o descanso, o intervalo, e o início das gravações do quinto cd, ‘It´s All Around You’. Festivais importantes, como o Coachella tornam-se rotina.
Só no ano passado é que o álbum foi posto à venda.



Nada a ver (1)

O que interessa uma briga de Felipe Dylon contra certo Marcos Maynard? O que? Se você acredita em roqueiro indignado compondo pra aparecer na capa jornal e fazer o pessoal cantar junto, lê aí. Postado no dia 17/08. E aproveita, e dá uma passeata pelo saite. Se você ainda assim preferir o Jabor (o do jornal, não o dos bons filmes), a gente pode finalmente brigar.



Nada a ver (2)

Ainda não vi nas bancas a Outracoisa com o cd do selo Instituto.



Nada a ver (3)

Weezer, será?

18.8.05

Entrevista Bebeto Castilho

Pequenos polaroids da história da música brasileira. Assim foi a entrevista com Bebeto Castilho. Um dos maiores baixistas da música brasileira, participante ativo da fundação e propagação da Bossa Nova no mundo. Aqui, Bebeto fala de Tom Jobim, Stan Getz, João Gilberto, Luiz Eça e outros 'pequenos' nomes... A maioria, amiga dele.

Nada como estrear a seção de entrevistas do sobremusica com um grande nome. Demorou, mas começou muito bem.

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Bebeto Castilho foi durante anos o baixista do Tamba Trio, grupo fundamental na história da Bossa Nova. Nesta primeira entrevista do site, Bebeto desfaz mitos sobre a bossa nova, inclusive sobre o famoso show do movimento no Carnegie Hall em 1962. Fora o romantismo, o que restava aos músicos do gênero, passava bem longe do luxo do jetset. Como todo movimento musical, Bebeto aponta momentos em que os artistas da bossa nova, inclusive ele, precisaram ceder a pressões de mercado para sobreviver. De um ano para cá, voltou a aparecer na mídia devido ao sobrinho-neto famoso, Marcelo Camelo. Marcelo está produzindo o novo disco de Bebeto. Beirando os 70 anos, ele é pura simpatia e amabilidade. De volta ao Brasil, depois de anos e anos morando nos Estados Unidos, ele está tocando todas as quartas-feiras na Modern Sound, em Copacabana, com o grupo "Gente Fina e outras coisas". Quem quiser ouvir e conversar com o cara, ele diz que está esperando, que é só chegar...

sobremusica: Bebeto, começando pelo fim, porque o Tamba Trio acabou e quais as principais recordações que você tem do grupo?
Bebeto Castilho: Da última vez? Bem, mudou de formação várias vezes, mas agora, o Luiz (Eça) resolveu seguir sozinho. Até 1965 foi a melhor época, quando nós saímos do Brasil. Lá fora, nós nos comercializamos demais, perdemos aquele espírito dos dois primeiros discos. Nós éramos muito cariocas, três tipos que jamais dariam certo: Luiz Eça tinha formação clássica, estudou em Viena. Hélcio Milito, de São Paulo, trabalhava em vendas e eu, tijucano, jogava futebol descalço na rua, roubava manga, fugia de cachorro e soltava pipa... Não tinha nada a ver!


sm: Como vocês se juntaram?
BC: Nos juntamos por acaso na Odeon. Fomos gravar separadamente e quando juntou deu certo. O Hélcio bolou de juntar todo mundo. Foi na década de 60.


sm: E por que você diz que o Tamba Trio se comercializou nos Estados Unidos?
BC: Desespero. Lá fora, inocentemente, você sempre acha que está funcionando, mas não é assim. Nós ficamos em Nova York, mas rodamos por México e Canadá. Dizer que a bossa nova conquistou os Estados Unidos é furadíssimo!! Quem conquistou, de verdade, foram Tom Jobim, João Gilberto, Astrud (Gilberto) e Sérgio Mendes, que foi para lá antes de nós. Porque o brasileiro vê o mercado americano de uma forma distorcida. Enquanto aqui se vende um milhão de cópias e acha que é muito, para eles, sucesso de verdade, é 20 milhões, 50 milhões. São mercados muito diferentes. É outra história.


sm: Quando foi que você tomou contato com o que veio a se chamar bossa nova, pela primeira vez? Foi quando você ouviu João Gilberto?
BC: Ih, muito antes!! Em 1952, 53, João Donato, João Gilberto, Johnny Alf, eles iam lá pra casa para ouvir música, ficar tocando...


sm: João Gilberto também?
BC: Sim, o João também, mas ele não tocava. Ele ficava só observando, calado, prestando atenção... A gente ficava lá na Tijuca. A bossa nova foi decorrência. Fica essa idéia de que "Chega de saudade" foi a pedra fundamental, e não foi nada disso! Ela vinha acontecendo naturalmente.

sm: Vocês ouviam o quê? Jazz, samba? A bossa nova era, realmente, uma conseqüênica natural de uma mistura do jazz com o samba?
BC: Era. A gente ouvia muito jazz.

sm: E quem eram os seus heróis?
BC: Cantando era o Chet Baker. Johnny Alf, Donato e eu ouvímos muito. Gerry Mulligan, Stan Getz, Paul Desmond...

sm: Com quais deles você tocou?
BC: Toquei com Paul Desmond, com Stan Getz... Com Stan Getz foi no dia que o homem pisou na lua! Foi num lugar chamado Lenny(?), na cidade Providence, em Rhode Island. Stan Getz, com Stanley Clark, Chick Corea...


sm: Eles demonsravam muita curiosidade por vocês, brasileiros?
BC: Muita! Eles admiravam o uso da técnica que nós fazíamos. O uso da técnica! Por exemplo, eles ouviam o Altamiro Carrilho e ficavam... (suspiros) Fazer o que Altamiro Carrilho faz... Pô, eles ouvem descontroladamente, pensando: "Puxa, eu estudei tanto, não consigo fazer isso"... Porque o virtuosismo todo mundo pode desenvolver, agora, saber onde usar e como usar a técnica é que faz diferença e eles admiram. O que eles faziam também era deformar o brasileiro. Deformaram a Carmem Miranda, deformaram o Tom Jobim... Tiraram o Tião Neves do contrabaixo, tiraram o Dom Um Romão da bateria, botaram o Ron Carter no baixo.. Como eles não conseguiam fazer igual a nós, eles pensavam: "Não compliquem"... Enquanto não chegava naquilo que eles queriam, que eles estavam acostumados, eles não aceitavam. Queriam mudar até ficar no formato deles.

sm: E a tamba? Porque o nome "Tamba trio" vem da tamba, que era o nome do tipo de bateria que vocês montaram. Eles entendiam a tamba?
BC: Aquilo era interessantíssimo para eles, porque tinha som de tambores. Veio do Pedro Solon. Eles gostavam, masss.... gravar eles não deixavam! Em show podia, mas gravar não. Ah, não.


sm: "Tristeza de nós dois" foi escolhida uma das 100 melhores músicas brasileiras do século passado, entrando na seleção do songbook do Almir Chediak. Qual a história dessa música?
BC: Maurício Einhorn começou a melodia. Durval (Ferreira) e eu terminamos a letra e a melodia, em 1959, 60. Mas isso é só a opinião do Chediak, eu não sei não... (risos)


sm: Como você vê a bossa nova hoje em dia? Ela está aberta para ser renovada ou é aquilo ali?
BC: É aquilo ali.


sm: E essas misturas de eletrônico com bossa nova, por exemplo, o que o Roberto Menescal fez com o Bossacucanova, ou as próprias misturas que estouram fora do país, com remixes do Marcos Valle... Isso te interessa de alguma forma?
BC: Cada um faz o que quer. Eu não me interesso. Eu acho que é querer por braço na Vênus de Milo. Deixa ela sem braço, deixa a esfinge sem nariz! (risos) É uma coisa que já foi feita. Pronto. Vamos fazer outras coisas. Aquilo está encerrado.


sm: Mas o próprio jazz, que influenciou vocês, evolui, tem uma linha evolutiva de quase 100 anos. A bossa nova não poderia também ter?
BC: Poderia, mas pra que lado?


sm: Eu que quero saber... (risos)
BC: Aquele jeito de tocar, aquela levada de bateria... Bossa nova é aquilo. A levada da bateria, por exemplo, é bem particular. Não é feita no aro, como muita gente pensa, por exemplo. Aquilo foi feito por um músico chamado Guarany, com um instrumento chamado caixeta. Eu estava no estúdio no dia que ele fez aquilo. O Juquinha, baterista do João Gilberto, estava gravando, tocando escovinha nas duas mãos, como os bateristas americanos. O Guarany pegou esse instrumento, que são pequenos tamborezinhos e tocou com a ponta dos dedos. Todo mundo acha que aquilo é aro! E foi aquilo que entrou para a história como a batida. A bossa nova é muito particular.


sm: Vocês ouviam Dorival Caymmi, Mário Reis? Isso interessava vocês? Pergunto isso pois você só citou americanos como influência e o João Gilberto foi chamado durante muito tempo de sucessor do Mário Reis...
BC: Por causa do jeito simplista. Como o Marcelo, meu sobrinho-neto diz, minimalista, fazer o mínimo. Acho que nesse sentido, sim. Mas eu por exemplo, já não sou assim.


sm: E tem mais alguma grande lenda da bossa nova, como essa que você contou da bateria? Algum fato que não tenha sido exatamente como dizem?
BC: Bem, tem o Carnegie Hall, mas eu não estava lá.


sm: O show de 1962, da bossa nova, no Carnegie Hall em Nova York. Por que você não estava?
BC: Porque a gente tinha acabado de voltar de lá, tocando representando o governo brasileiro para o governo americano. Tínhamos cruzados os Estados Unidos e o governo brasileiro pediu para nós não irmos pois estavamos acabando de voltar.


sm: Mas o show foi um marco da música brasileira lá, não foi? As pessoas falam até hoje desse show.
BC: Que nada! Ninguém falava disso. Só aqui. Qualquer um toca no Carnegie Hall, é só você alugar. Essa dimensão da coisa foi só aqui, lá dentro mesmo não foi tudo isso. Para eles, foi um show como outro qualquer.


sm: Mas de alguma forma, os músicos brasileiros conseguiram mais espaço lá. As b andas do Sérgio Mendes eram muito bem faladas. Vocês se encontravam muito para tocar junto?
BC: O Sérgio Mendes era. Quanto aos nossos encontros, eram raros. Não tinha essa mística toda. A gente estava sempre viajando para fazer show e dar um jeito de sobreviver. Tocando em tudo quanto é lugar. De vez em quando, claro, a gente encontrava se encontrava, encontravámos com o Tom Jobim, por exemplo. Ele foi um grande amigo, nunca deixou o sucesso subir, muito divertido.


sm: Você ainda ouve o Tom Jobim?
BC: Muito. Quando Tom morreu, eu fiquei órfão, nós erámos muito próximos... Mas esses encontros eram raros. O Tom achou a simplicidade pelo auto-conhecimento. Ele era um gozador e tinha um universo muito próprio. Ele sabia que não podia sair dali pois não seria entendido. Tinha muito medo de passar por ridículo, de ser debochado...


sm: Bebeto, queria falar da sua herança genética, que é muito curiosa. Você é descendente do autor do hino norte-americano, certo?!
BC: John Phillipe de Sousa!!! Ele era irmão do meu bisavô! A família saiu de Portugal, meu bisavô veio para cá e o John Phillipe de Sousa foi para os Estados Unidos.


sm: Você é sobrinho-bisneto do autor do hino americano e tio-avô do Marcelo Camelo, do Los Hermanos. Como você viu o crescimento do trabalho musical dele?
BC: Nossa família é muito unida. A mãe do Marcelo sempre comentava que ele estava com uma banda e tal. Quando saiu o disco, eu fui até a casa dele, conversamos muito. Não dei opinião porque não é meu campo.


sm: Mas você gostou daquele hardcore do primeiro disco?
BC: Gostei, gostei sim! Gostei porque eles estavam fazendo direito aquele estilo, que não é o meu, mas isso não tem nada a ver. O talento também veio pelo avô dele, meu irmão. No meu novo disco, que eu estou finalizando e é produzido pelo Marcelo, tem uma música do avô dele em que nós dividimos as vozes, cantamos juntos! É difícil distinguir quem é quem, de tão semelhante que são as vozes. É um timbre próprio da família. (risos)


sm: E como surgiu esse convite para ele produzir?
BC: Na verdade, ele se convidou. Furou a produção, ele soube, me ligou e pediu para produzir. Eu topei.


sm: E o disco sai quando?
BC: Está quase pronto. Faltam algumas coisas ainda, mas o Marcelo agora está muito envolvido com o lançamento do disco novo do Los Hermanos. Eu prefiro esperar um pouco para ele tirar a cabeça desse excesso de trabalho da banda e poder voltar para o meu disco. Eu acho que ele vai precisar tomar um banho de cachoeira durante uma semana para poder voltar para o meu disco. (risos!)


sm: Tem alguma coisa música atualmente produzida que você goste, fora o Marcelo e o Los Hermanos?
BC: Claro que tem. A Cássia Eller, por exemplo. Outro dia eu ouvi uma música dela no rádio, não lembro qual era, mas tinha um quê de mediaval, com uns modais, era tão bonito, mas tão bonito... Eu até parei o carro para ouvir. As coisas de Nana e Dori Caymmi são maravilhosas.


sm: E o disco novo do Marcelo, você ouviu? (risos)
BC: Não ainda não... Ele mesmo, não por ser meu sobrinho, mas ele tem coisas como aquele samba que a filha da Elis gravou ("Cara valente", por Maria Rita), tem a aquela outra de deixar pintar o nariz... Já é um outro caminho, maravilhoso, com uma harmonia bem feita. Não importa se o acorde é simples ou não. O Tom dizia isso: A simplicidade tem dois caminhos. Um que é você estudar muito mesmo para chegar a ser simples, como o Miró, por exemplo, que pintou primeiro feito Rembrandt para conseguir evoluir e atingir o ponto de pintar como criança. O outro jeito é você ser o simplista mesmo. É você mergulhar naquele universo que é seu e fazer todo mundo chorar, pois vem de dentro.


(por Bruno Maia)


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Bebeto se levantou, me deu um abraço emocionado e voltou a tocar. Emocionado também (afinal, motivos não faltam), ouvi mais um pouco do que já tinha passado a tarde a ouvir. Bebeto e banda tocando a simplicidade.

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Só me resta voltar a ler qualquer coisa de Manuel de Barros e a sua arte de infantilizar formigas.

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Bebeto e a banda Gente fina e outras coisas tocam toda quarta-feira, das 17h às 21hs, na Modern Sound, em Copacabana. Além de boa música, ele garante bom papo e boas histórias para quem quiser... É só levar o sorriso junto.

16.8.05

As Pessoas São

Ou Porque Nasci, Nasci para Bailar.


As ceguinhas de Campina Grande usam a música para uma vida de interpretação da imagem, em um mundo de intensos fluxos e parâmetros visuais. Mas não se trata de um filme difícil, de intensa discussão, nem uma crítica a prevalência do sentido mais imediato e mais seguro – não requer tanta proximidade - e mais instrumentado – óculos, binóculo, telescópio, microscópio, etc.
Mais sutil e mais forte do que tudo isso, as ceguinhas de Campina Grande se desnudam como a evidência de que a música e a fragilidade podem ser técnicas de sobrevivência dignas em um mundo (e um país) tão, assim, complicado.
Encontradas em um Programa Legal, lá na virada das décadas de 80 e 90 (e do Projeto Som da Rua, da tv Zero, mais ou menos na mesma época), as irmãs Maroca, Poroca e Indaiá aguçaram a curiosidade de Roberto Berliner, herdeiro de um projeto chamado TV Iser (Instituto Social de Estudos Religiosos, pode ser?) de televisão popular, que virou a conhecida e simpática TV Zero, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O interesse despertou algumas viagens e um curta-metragem bastante premiado com experimentações visuais para simular a visão prejudicada e entrevistas que indicavam o modo de ver o mundo daquelas três figuras tão diferentes. Três irmãs cegas, que viviam de esmolas recolhidas em shows de coco pelas ruas da Paraíba. Mulheres em estado de mendicância, que acreditavam de alguma forma na vida. “De alguma forma” sendo a música. Sem revolta punk ou conformação tibetana, com um bom humor meio puro e nada bobo. Apenas reinterpretando imagens corriqueiras com a particularidade da deficiência visual – abrindo as portas para a imaginação, o sonho, a inteligência.
Pois bem, com trilha de outro mago de vista prejudicada, Hermeto, as ceguinhas de Campina Grande vão se relacionando com as alteridades que se apresentam: a) uma filha criança que se torna adolescente sendo engolida pela fórmula de sucesso da tv em tempos de sexualidade precoce; b) uma vizinha que nasceu pra fazer o bem, desde que uma equipe do Sudeste esteja registrando isso; c) um superastro paternalista que enfileira saias-justas no palco; e principalmente d) uma equipe de documentaristas (intelectuais?) liderada por Berliner que negocia a invasão à intimidade das três personagens em uma relação que esbarra em confusões de sentimento e interesses. Quatro fortes imagens, se é que deu pra entender. Figuras que o mundo já nos apresentou em histórias reais ou de ficção à exaustão
A conclusão é aberta, mas é impressionante ver Maroca – a mais falante – revelar os planos de ficar famosa com o filme, porque ser famosa é melhor.
E, também impressionante é se assustar com uma nudez feiosa quando ao longo do filme as três já se despiram das poucas máscaras que as protegiam de alguma coisa – à medida em que ganhavam algum dinheiro e mudavam de casa, perdiam dinheiro e voltavam a pedir esmola, viam vizinhas se aproximar e se afastar, e concluíam que o feio é que trabalha pro bonito comer.
Um filme, como já se disse, com cara de governo Lula, falta só decidir se antes do trombone de Roberto Jefferson, ou não.

Falta só escutar o cd.

Nada a ver (1)


Kraftwerk Minimum-Maximum é um pouco como ouvir música para enxergar. A fria música eletrônica alemã cria, ao vivo, imagens muito claras enquanto o disquinho roda. Dá pra imaginar por instantes o quanto a visão é dispensável para a música.

Nada a ver (2)

Se andei sumido, foi por um bom motivo. O vídeo (sim, as imagens, o som é de Paula Leal, das Chicas) de A Confissão de Leontina foi feito por mim e Geraldo Pereira, e a peça estreou nesta sexta. Fica em cartaz até o dia 18 de setembro, um depois do meu aniversário. Às 19 horas, no teatro Glauce Rocha, sextas, sábados e domingos. Apareçam.


Nada a ver (3)

Kassin, produtor de "4": Grande entrevista, sobre o tempo de uma obra. Pode render até mais um post por aqui, será?

Nada a ver (4)

É o zum-zum-zum da capital:
Encontrei com o Pupillo na saída de Sin City, em Botafogo. As notícias são as seguintes: gravação terminada, fita mix nas mãos do produtor Scott Hard, que desta vez participou também do processo de gravação. No último, ele meio que tinha entrado só pra mixar mesmo. E foram menos participações: Catatau (Cidadão Instigado e participações em um monte de shows e discos já comentados por aqui) e Maurício Takara, do Hurtmold. Burro, não perguntei o nome, mas Pupillo estava empolgado com o disco, e ansioso pro lançamento em outubro. Nação Zumbi vem aí.

15.8.05

Skank around the world

Tiradas do blog do ACM.


Escalação de um festival em Portugal no início deste mês...


Haroldo, filho do Dr. Ferreti lá de Béurizonte, encontra o Zak, filho do Dr. Ringo Starr, lá de Liverpool...



Diz aê.. Esse maluco baterista do Kasabian parece fã do Skank querendo atenção... Só que foi o contrário...

E cá pra nós, pelo som que fazem hoje em dia, o Skank merecia ter Oasis e Kasabian abrindo o show deles... Aliás, eu não gosto do Kasabian. Não vejo graça nenhuma.

Mais Manoel da Barros

Nem tudo que é bom dura pouco. Starte Globonews, com Manoel de Barros, Parte 2, nesta terça-feira. E ainda tem reprises ao longo da semana!!!

Terça (16/08) - 23h00

HORÁRIOS ALTERNATIVOS:
Quarta (17/08) - 03h30, 17h30 e 11h30
Quinta (18/08) - 06h05
Sábado (20/08) - 07h05
Domingo (21/08) - 14:05




13.8.05

Aproveitem. (Manoel de Barros)

Falando em centro-oeste...

A chance é rara. Uma entrevista com o maior poeta brasileiro vivo. O genial e emocionante Manoel de Barros. Mal pude acreditar quando vi a chamada e, depois, quando assisti o programa. Aliás, o meu carinho e admiração por esse programa já me levaria a recomedá-lo normalmente, mas agora, se superaram.

Globonews - Starte
com o poeta Manoel de Barros
Sábado (13/08) - 07h05
Domingo (14/08) - 14h05


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Nota triste: Pela coluna do Arnaldo Bloch, soube que o velhinho das flores do Leblon morreu. Chato, né.

11.8.05

A música sertaneja dos anos 90

Este é um tema mais complicado. Mas antes de começar a discorrer, é preciso frizar algo fundamental. A história de vida incrível da família e da dupla não legitima a qualidade ou não do trabalho musical deles. O fato de alguém ter passado dificuldade e sofrido na vida não é e não pode ser argumento para uma compaixão musical. O fato das pessoas passarem a respetiar a trajetória dos caras (como eu posso até fazer), não muda o fato de que a música era ruim e pobre. Ponto final.

Eu não tenho nada contra música sertaneja. O "movimento" no qual estão inseridos Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, João Paulo & Daniel, etc, etc, não é o mesmo de Tonico & Tinoco. Nos anos 90, a música sertaneja teve um boom que está diretamente ligado ao esvaziamento cultural do período Collor. O discurso do caçador de marajá trazia uma forte carga bandeirante, de interiorização do país, de valorização da cultura do campo em combate às capitais, onde o presidente não tinha tanto apoio. Regiões como o centro-oeste, o interior-oeste de São Paulo e do Paraná, foram decisivas nas eleições de 89. Lá estava grande parte do cacife eleitoral de Fernando Collor. Não se pode esquecer disso.

A música sertaneja em si nada teria a ver com esse esvaziamento cultural. Não. O problema foi a distorção que ela sofreu. Pegou-se uma fatia da música caipira, com letras melosas de amor, arranjos conservadores, primeiras-vozes carregadas no vibrato, mullets e jaquetas com bolsos dos dois lados e calça-jeans para representar algo que era muito maior. A música sertaneja dos anos 90 nunca teve uma viola de cocho, por exemplo. Este típico instrumento sul-matogrossense que faz a trilha sonora de muitos caboclos da região nunca apareceu. O que ficou foi uma pasteurização, uma clonagem de um protótipo criado.

Essa reprodução intensiva de um mesmo formatinho e o sugamento que fez até o bagaço dessa laranja, ajudaram em muito para que a indústria fonográfica, naquele momento de crise, pensasse por exemplo em voltar os olhos para a renovação. Só se contratava aquilo. O que não era sertanejo, era música internacional. Nada mais foi produzido no país. Os Paralamas, por exemplo, chegaram a cogitar a mudança para a Argentina. Não havia nda no país acontecendo que não fosse "sertanejo".

A culpa disso, é óbvio, não é dos seus representantes. Claro que não. Agora não se pode esquecer também, que mais do que o boom de um movimento cultural, aquilo foi um boom de uma pasteurização, de uma fórmula. Zezé di Camargo & Luciano também o foram. O mérito do sucesso deles está diretamente ligado a essa conjuntura. Se não tivesse sido criado esse contexte estéril, de nada teria adiantado os mil esforços da dupla. Eles seriam só mais dois de milhões e milhões. Eles mereceram o sucesso profissional pois se esforçaram? Sim, mereceram. Mas muitos outros também mereceram e não conseguiram pois o mercado não deixava.

Na saída do cinema, ouvi pessoas cantando "É o amor" como se aquilo pudesse caminhar para um novo resgate burro e estéril como o promovido pela Festa Ploc com o lixo dos anos 80. O Caetano legitimando aquilo também é babaca. A história de vida é uma coisa, a qualidade musical é outra. Aquilo é, em grande parte, muito ruim. É lógico que muitas coisas que essa geração romântico-sertaneja" fez têm qualidades que ficaram minimizadas pelo lixo que era a imensa maioria. Como já falei, eu mesmo, ouvindo "É o amor" no cinema, com Maria Bethânia cantando acapella achei a música muito mais bonita do que antes, quando o único registro que eu tinha era dos vibratos de Zezé com aquele teclado de churrascaria ao fundo.

Outra coisa que me incomodou foi ver o Gabriel O Pensador no palco junto com Zezé, Meio sem graça, ele parecia pensar "Pô, o que vão pensar de mim se eu cantar 'É o amor' com o cara... Deixa eu fingir que não sei a letra" (como se fosse possível alguém com mais de 18 anos não saber a letra dessa música, ainda mais depois de ter acabado de assistir ao filme!)... Para diminuir o contragimento, ele répiou a letra; "É o amor/ Que mexe/ com a minha/ cabeça/ e me deixa/ assim"... Esquisito e constragedor. Gabriel foi um dos grandes responsáveis pelo início da quebra do monopólio sertanejo na década passada, quando "Tô feliz, matei o presidente" entrou da fita-demo direto Rádio RPC e tomou de assalto às paradas nacionais, ajudando até na movimentação dos caras-pintadas em setembro de 1992. Em seguida, o cara veio com Lôraburra e foi contratado pela SonyMusic. Depois do sucesso de Gabriel, a Sony resolveu contratar Skank e Chico Science, por exemplo. Chico, por sinal, se rasgou em elogios para a direção da Sony quando ouviu ainda em pré-produção o trabalho de Gabriel.

Acho que isso é suficiente para essa trilogia se fechar. A música sertaneja dos anos 90 não pode ser legitimada ou adorada a partir do filme, simplesmente porque a vida do cara foi difícil. A opinião de cada um sobre a música dos caras não deveria ser afetada simplesmente pela história do filme. Mas também cada um com seu cada um, deixa o cada um dos outros...

9.8.05

A história da família

Incrível. É a palavra mais exata que encontrei para para descrevê-la.

Como já disse em outro post, o roteiro do filme desloca para o fio condutor para o pai, Francisco. Ele é o personagem principal e através dele a história é contada. Um pai zeloso e sonhador, ao mesmo tempo egoísta e obsessivo em querer transformar os filhos em algo que ele calculou. Certamente, o lado mais lúdico e poético é o que aparece realçado no filme, até porque o final é supostamente feliz. No show que ontem, no lançamento carioca do filme, o humorista Hélio de La Peña cravou: "Quem é pai e vê um filme desses, se sente um merda! Isso é que é pai, não é aquilo que eu tenho lá em casa não!". Bem...

Querer que os filhos cresçam na vida é natural da função do pai, mas o sucesso nacional que dois dos dez filhos alcaçam oculta a morte de um deles. A dupla inicial de Zezé era seu outro irmão, que morreu num acidente de carro enquanto viajava pelas estradas de Goiás carregado por um empresário canastrão, que promete o sucesso fácil para um pai iludido e sem instrução. A morte do garoto interrompeu a trajetória do irmão mais velho, que anos depois volta ao universo da músico para alegria da família que o vê se recuperar do trauma. Dali para frente, a caminhada é mais feliz e bem sucedida. O sucesso final é uma redenção para o esforço, sacrifício e dor daquele pai. Contudo, a questão do preço de um sonho, o preço da fama ficou na minha cabeça. Aquele final é feliz para a história de um pai? O saldo: Dois filhos milionários, sucesso nacional e um filho morto ainda na pré-adolescencia. E aí? Esse pai é um sonhador ou um obsessivo?

É claro que assistir a história da dupla faz com que se compreenda melhor a origem, os orgulhos e os recalques inerentes a trajetória deles. O olhar pode até passar a ser mais simpatizantes. A origem daquele tipo de música fica mais claro. O Brasil é incomprensível das capitais. O Brasil é muito mais interior do que litoral. O olhar pretensioso de queme está aqui, a beira do Atlântico, é engolido no filme. A vida seca das beiras das rodovias, pelas quais o país se constituiu e construiu sua malha comercial, nas quais caminhoneiros viajam dias e dias por situações trash e se afastam da família e vivem a solidão de uma maneira diferente daquela do menino de capital que perdeu a namorada e ficou sem televisão. Na estrada, o tempo pesa mais, a solidão tem um silêncio constrangedor, ensurdecedor e enlouquecedor. É de um ambiente um pouco pior do que esse que eu descrevi, sem conhecê-lo, que surge a música sertaneja, suas vontades, desejos, anseios e discurso. O sonho de dois moleques para os quais, a MTV era a rádio de Anápolis.

Sem dúvida é um história incrível. Ao contrário de muita gente, não consigo dizer que é uma "história linda", pois a morte de um dos moleques ainda está na minha cabeça como um peso absurdo. Mas sem dúvidas, é de se respeitar o esforço e a caminhada dessa família. Na minha opinião, este era o grande objetivo de Zezé di Camargo e Luciano. Fazer as pessoas que olhavam torto para sua música e para eles, passasem a respeitar um pouco mais a sua origem e sua história. Conseguiram.

De qualquer forma, entre Francisco e o pai "que eu tenho lá em casa", eu fico com o meu.

O filme do Breno

"2 filhos de Francisco" é uma empreitada bem calculada da dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano no cinema. O filme supre uma vaidade natural e compreensível da dupla de fazer sua história de vida chegar ao conhecimento do público em geral. Certamente, tendo um passado daqueles é de se imaginar que a rejeição que os dois sempre sofreram das classes médias e altas da sociedade brasileira batesse fundo no orgulho e na auto-estima dos músicos. Contudo, não se pode perder de vista que as dificuldades vividas por aquela família até alcançar o estrelato, não redime a qualidade ou não da música deles.

A dupla é calejada pelo tempo, Zezé di Camargo principalmente. Diante de tantas experiências constrangedoras de outros artistas no cinema e ciente do preconceito que o rodeava, Zezé conduziu um processo que se valeu de nomes supostamente intocáveis da produção artística nacional que referendassem aquela produção. Ao invés de, por exemplo, ir buscar um diretor amigo, lá dos tempos de Goiás, não. Pegou Breno Silveira e a "não-é-pouca-merda-não" Conspiração Filmes. Para fortalecer a corrente, se associaram a Globo Filmes e Columbia Tri-Star. É rapá... Népoucamerdanão...

Breno Silveira já tem no currículo "Carlota Joaquina", "Gêmeas", "Eu tu eles", "Homem do ano", "Bufo Spallanzani", etc... A trilha sonora é conduzida por ele, Zezé, e Caetano Veloso e conta com nomes como Maria Bethânia (que eleva "É o amor" a um nível em que faltam os adjetivos) e Ney Matogrosso. A produção da trilha foi entregue a uma nova geração de músicos também queridos pela opinião pública, inclusive por colunistas desse site. Berna Ceppas e Moreno Veloso estão a frente. Berna, que já tinha composto para dois curtas ("Capital Circulante" e "Um branco súbito"), agora é o produtor principal da trilha.

Ao contrário de muitos artistas que investem no formato, Zezé e Luciano praticamente não aparecem no filme. Para afastar ainda mais os olhos do preconceito, deslocam o foco e usam o pai, Francisco, como fio condutor do roteiro. O filme se chamaria "É o amor", só que mais uma vez, espertos, mudaram para algo que soaria mais artístico aos ouvidos de uma classe-média e de uma classe-de-críticos burros e preconceituosos. "2 filhos de Francisco" dá esse ar mais "cult", mais brasil, mais naturalista, mais próximo da estética forçada que o cinema nacional vive buscando como forma de se legitimar.0 Resumindo. Zezé e Breno souberam que precisavam driblar o preconceito cego e babaca e, malandramente, deram aos preconceituosos aquilo que eles queriam para reconfortar seus egos e se permitir gostar. Afinal, como o próprio Zezé disse no show que aconteceu após o lançamento do filme no Rio, Caetano é o "selo de qualidade". Não sei se tanto para ele, Zezé, mas certamente para uma classe blasé de formadores de opinião, certamente.

O filme em si é um barato. Um "Quase famosos" ao contrário. Ao invés de ser um molequinho com grana acompanhando de dentro do star-system a formação de uma cena do grande rock'nroll setentista nos Estados Unidos, é a busca de dois molequinhos do interior do Goiás atrás do sonho de ser dupla caipira. Para quem curte música e em algum momento da sua vida sonhou em ser um astro, é regozijador. A fotografia de André Horta ("Santo forte" e "O rap do pequeno princípe contra as almas sebosas) e Paulo Souza ("Eu tu eles" e "Estorvo) é um dos pontos altos da coisa. O roteiro romantizado de uma história baseada em fatos ressalta algumas tragédias e a perseverança de um pai que transita entre o sonhador e a loucura. Os personagens transitam entre o maniqueísmo barato da mulher que está sempre ao lado do sonho do marido (Zilu, interpretada por Paloma Duarte) e uma isenção difícil como a do empresário Miranda, que conduzia os irmãos Camargo e Camarguinho no início de suas carreiras, pela estrada do centro-oeste. Miranda é daqueles tipinhos que só quer saber de se dar bem a custa do talento dos meninos, mas que não é de todo mal-caráter. Você fica na dúvida entre condená-lo ou entendê-lo.

O grande erro da direção está nos últimos 5 minutos. A história acaba quando a dupla alcança o primeiro lugar das rádios com "É o amor", mas o filme não. Até ali, a única identificação de tempo que existe é 1962, quando tudo começa. Depois dali, nada mais. A história acaba e o filme faz um corte para 2005, para um show da dupla no Olympia em São Paulo. O corte é extremamente infeliz e bobo. Aquilo poderia ser o bonus do DVD, ou ainda rolar depois dos créditos do filme, mas terminar daquele jeito.... A dupla, que durante todo filme é representadaa pelos atores, aparece em carne e osso, hoje em dia, junto aos familiares, também de carne e osso, na casa em que viviam em Pirinópolis. É piegas, besta, desnecessário e faz derramar boa parte do caldo. Tanto acertos ficam comprometidos por um fim meio bobo. Mas ainda sim, "2 flhos de Francisco" é, provavelmente, o melhor filme sobre a vida de um artista feito no Brasil.

Esqueci de falara da interpretação dos ótimos Angelo Antonio e Dira Paes. Os dois vão muito bem, mais uma vez. A escolha dos dois também parece parte da tal estratégia de escolhas que passassem incólumes pela opinião da crítica. Outra coisa que eu esqueci de falar: a caracterização perfeita dos peresonagens. Márcio Kieling e Paloma Duartes ficam idênticos a Zezé e Zilu. Impressionante. Palmas para a maquiagem de Martín Macías Trujillo e para o figurino assinado por Cláudia Kupke. Parabéns.

Vale a pena ver o filme.

O filme do Breno, a história da família e a música sertaneja dos anos 90

São 3 coisas diferentes.

Como o Jack, vamos por partes.

A seguir, cenas do próximo capítulo

fotos: Bruno Maia



















6.8.05

Morre Ibrahim Ferrer

Pois é.

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2.8.05

O que a água tem?

Contemplar o mar, a lagoa, o lago, a poça, a pia, a banheira, o aquário ou qualquer lugar onde a água predomine é inerente ao ser humano. Acho que deve ter alguma coisa a ver com a evolução das espécies, um gene qualquer que cria um sentimento coletivo e que há milênios acompanha o sujeito homossapiens.

Pensei isso enquanto caminhava ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas. Caminhar e olhar a água são combinações perfeitas para pensar na vida. Ipod no bolso e vamos ao que interessa.

Arctic Monkeys e Ben Kweller foram aprofundados hoje. Arctic Monkeys é dessa nova leva de bandas do genêro "vamos-salvar-o-rock", na qual estão Strokes, Kings of Leon, Bloc Party, Kaiser Chiefs, Franz Ferdinand, Moptop, Bravery, Hard-Fi, Arcade Fire, etc... Tenho tentado me aprofundar nesse tipo de som, queria ser cativado por ele, capturado, mas ainda não fui. Vou tentar mais um pouco. Uma coisa é fato, os ingleses Arctic Monkeys tem um dos melhores singles dessa leva. Na verdade, eu não sei nem se é single deles ou não, mas é potencialmente foda: "I bet you look good on the dancefloor". Muito bom! Essa é cativante.

O norte-americano Ben Kweller lembra muito Weezer. Uma espécie de indie-punk-pop-folk. Calmo, mas nem por isso balada... Por vezes, a voz do garoto (sim, ele tem apenas 22 ou 23 anos) lembra Beck. Há um certo tom mais introspectivo na maioria das músicas, mas sem ser deprê. Pode não fazer muito sentido, mas é introspectivo como o Coldplay (mas sem ser deprê), e alegre como Weezer. O rapaz já tocou em grandes festivais como o Glastonbury e o Reading Festival a frente de sua antiga banda, o Radish. Admito que não conheci o som desse grupo, mas o disco que ouvi ("Sha sha") é bom para se ter no Ipod e ouvir de vez em quando... O disco está comigo há quase 1 ano, emprestado pelo meu grande amigo Thiago, que me disse para escutá-lo porque eu ia gostar muito. Inclusive me aconselhou uma música específica, que tinha "o clipe do morangão" (é, no clipe aparece um morango imenso sendo escalado pelo cantor). Não me lembro qual era o nome da música e nem sei explicar o porquê de o Itunes não ter capturado essa música do CD. Fato é que a tal música não estava no meu Ipod e não a escutei hoje, enquanto, pela primeira vez, me dediquei a ouvir o disco na íntegra. Quer dizer, não foi na íntegra pois essa música não estava. Quando eu recebi o CD e fui ouvir a tal música que eu "ia adorar", achei muito sem gracinha e não ouvi o resto.

Vira e mexe isso acontece. Se você quer apresentar um artista para alguém, não se deve indicar uma música específica. Isso é um perigo. Ou você apresenta o artista, ou apresenta a música. Fazer uma coisa se valendo da outra pode não dar certo.

O tempo passou, o sol saiu, eu fui andar na Lagoa, encontrei uma paisagem cheia de água, estava de bom humor, quis ouvir coisas diferentes, e acabei escutando Ben Kweller. Que bom que algumas vezes, o acaso trabalha a nosso favor.

*********
A pergunta continua: "O que é que a água tem?"


Enfim, a casa própria
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